Newsletter

Sábado, 18 de Novembro de 2017

Documentos-Paróquia


UM OLHAR OUTRO - CXLVI

Será que alguma vez a Igreja deixou de estar no banco dos réus, acusada dos males da sociedade e vista como uma organização simplesmente humana? A verdade é que Jesus, que a fundou e a acompanha, nos avisou de um caminho difícil, minado de incompreensões e de acusações. Trata-se, afinal, de um olhar mundano sobre uma vida que pretende ser mais que humana, sinal da presença divina no mundo. E mesmo o olhar dos mais «convertidos» não deixa de estar marcado por interesses deste mundo, porque, pelo menos, são situados num espaço e num tempo concretos.

Deste modo, não faltam «médicos» para os diagnósticos repetidos de que a Igreja está em crise, em falência mesmo. Muitos fazem-no com muito boa vontade. Outros, nem por isso. Situo-me entre aqueles, os que tentam corrigir defeitos porque se sentem atingidos pela imagem negativa e exposta na praça pública.

Só que... Não nos devemos admirar de que tal aconteça. Hoje como sempre. Até porque Jesus foi o primeiro a apresentar o caminho que propunha como caminho de renúncia, de cruz.

No entanto, reconheçamos a necessidade de uma conversão permanente, a começar por nós cristãos. É o caminho. Não o das discussões acerca do «verniz» para «camuflar» realidades negativas que, afinal sempre existiram na Igreja. Quem a instituiu soube escolher os primeiros: dos apóstolos escolhidos, um traiu-o, outro negou-O, vários queriam os primeiros lugares e quando o viram de cruz às costas fugiram. Eis a «massa» dos primeiros seguidores de Jesus. Foi com esta «massa» que a Igreja começou, se desenvolveu e chegou aos nossos dias.

Mas temos de saber olhar a Igreja de hoje. De rosto belo e verdadeiro? Demos a graças a Deus. De rosto desfigurado e sem capacidade de atração? O rosto da Igreja é o teu rosto.

Mas impõe-se um olhar positivo porque há muitas coisas belas e verdadeiras na Igreja de Jesus, na nossa Igreja. Acreditemos e purifiquemos no compromisso humilde o nosso olhar.

Há dias senti enorme alegria. Já verão porquê.

Aos cerca de 50 crismandos em formação pedi que convidassem os seus padrinhos para a sessão de formação. E, com surpresa, a sala foi pequena para os acolher. Tornou-se ocasião de uma feliz reflexão para mim próprio. Porquê?

Todos sabem como o prior de Barcelos foi julgado e condenado pelas exigências que punha em relação aos baptizados e aos padrinhos de Baptismo. E porque não cedeu, mas se manteve coerente com o que ensinava, alguns bateram com a porta. O que não me demoveu da atitude tomada, já lá vão treze anos. Sabia bem que há sempre um preço a pagar quando se pretende fazer evoluir uma comunidade. É bem mais fácil dizer sim a tudo, mesmo que o povo continue na ignorância e «dependente« do padre, tido como «dono do céu e da terra». Nunca aceitei tal dependência e sempre preferi o ónus de uma decisão livre reconhecida a cada um.

Ora, a minha convicção profunda é de que há um lugar, bom e belo, a propor a todos. E de que as pessoas de hoje são capazes de se deixarem seduzir por Ele. A tal Boa Notícia não deixou de cativar. E, estou convicto, basta isso para que Jesus atraia a coragem e a «arte» de a sabermos propor como ela é. Sem descontos. Sem verniz.

E a surpresa para mim foi - ao referir os tempos de outrora, aqueles tempos bem reconhecidos por aqueles pais e padrinhos, com a mesma ousadia da verdade que eles já conheciam - perceber a aceitação pronta e sem reticências do que eu apresentava como a missão dos pais  e dos padrinhos e do porquê da necessidade do Crisma, completada a iniciação cristã, para se assumir uma missão, um compromisso de acompanhar um processo de educação da fé. Ora, como ninguém dá o que não tem, só aquele que vive da fé pode ser «comissionado» para se envolver no processo de transmissão da fé. Afinal, não se confiam tarefas de adulto às crianças. E os padrinhos não crismados não poderão apadrinhar os crismandos.

Afinal, em breve diálogo, pude aperceber-me que os presentes tinham já «entendido» a lição. Tê-la-ão assumido? Parece-me que sim. Mas que a verdade vai fazendo o seu caminho, disso não tenho dúvidas. Por isso, feliz, dou graças a Deus.

12 de Novembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXLIII

Punha um pouco em questão a ida ao cemitério na solenidade de Todos os Santos. Quando a Igreja convida a contemplar o horizonte de glória que Deus oferece a todos, eis que a sensibilidade social nos atrai para o mundo dos mortos.

Mas não é verdade que a Liturgia se processa em termos de contraste? Como também as propostas de fé vão, tantas vezes, contra-corrente em relação ao mundo que nos rodeia.

Foi esta a minha intuição deste ano: a tendência a olhar a terra (a campa que nos lembra o passado e nos provoca uma certa dor de separação) é compensada pelo convite a olhar o céu, que sentimos e exprimimos como o mundo dos eleitos de Deus, dos santos.

A ida ao cemitério acontece, a meu ver cada vez mais, como um parêntesis na corrida em que todos nos deixamos envolver. Um parêntesis necessário, salutar, equilibrante. Muito oportuno mesmo para aqueles que, estando numa celebração religiosa, não deixam de assumir publicamente o seu indiferentismo ou mesmo pretenso ateísmo. De facto, são tão escassos os momentos de silêncio, seja no ambiente de um lar (há sempre a tentação da TV para nos manter «a par das notícias»), seja na praça ou nos eventos públicos! Sinto ser um dever o apelo constante ao silêncio, à calma, aos «espaços vazios», no meio de um ritmo frenético em que parecemos que andamos a fugir de algo ou de alguém. Corremos tanto «que nem Deus nos apanha».

Interrogava-me também se seria de manter a celebração da Eucaristia no cemitério, tornado espaço de conversa social e de ostentação de riqueza ou estatuto social. Muitas vezes ouvi este reparo diante dos belos arranjos florais em dia de Fiéis Defuntos. Também aqui, repenso a postura para reconhecer que a gratidão ou a saudade precisa de manifestações, correspondentes às necessidades pessoais e colectivas. É que, afinal, a morte toca a todos e arrasta consigo a dimensão do mistério da condição humana. E precisamos de nos questionar sobre o que se passa à volta da morte e da sua expressão colectiva.

Mesmo dizendo-se não crentes, todos têm direito a um funeral digno e serem tratados com humanidade (respeito pelas crenças próprias), e nada se perde quando se unem às celebrações próprias dos crentes. É caso para se duvidar se, diante da morte ou numa celebração religiosa num cemitério, há ainda espaço para a afirmação, tantas vezes pavoneada, de um ateísmo teórico ou prático.

Respondendo à questão sobre a Eucaristia no cemitério, eu que levantei o problema da conveniência ou não, concluí, neste ano, que tal deverá continuar. De facto, há uma assembleia de centenas de pessoas que se aproximam mais do espaço celebrativo, enquanto muitas outras, talvez milhares, continuam junto das campas. Alguma conversa em tom moderado, se não mesmo um silêncio total, dizem-me que aquela hora entre as 15.00 e as 16.00 é mesmo de paragem, de silêncio meditativo, de oração sufragante e de comunhão da terra com o céu. Terão influência os cartazes que apelam a sair da «superfície » para chegar à «profundidade»?

Ali, no cemitério, no espaço e no tempo dá-se a oportunidade de um entendimento mais adequado da diferença entre crer e não crer na vida eterna. Refiro-me ao contraste entre o ser natural e o ser sobrenatural. Naquele, pensamos num movimento em três tempos: nascemos, vivemos e morremos. Neste, os termos invertem-se: nascemos, morremos e vivemos. Sim: nascemos para morrer (lógica natural), como seres biológicos. Mas a liberdade humana, exercida no acto do crer, ou seja na fé num Deus Criador, Salvador e Santificador, desafia-nos a dar um salto (porque criados à semelhança de Deus, logo o humano se aproxima do divino): nascemos para viver na eternidade gloriosa. Deste modo, o viver mortal, que termina o processo biológico, passa a imortal, glorioso, sobrenatural.

Quero crer que as idas ao cemitério já não são apenas um ritual repetido ano a ano «porque tem de ser» e «pareceria mal...». São antes uma necessidade: somos também físicos e os sentimentos e memórias têm necessidade de se «dizerem» socialmente. Com mais razão ainda: religiosamente.

5 de Novembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXLII

Há dias, quando terminava uma vigília de oração por uma pessoa doente, convidei a dar graças a Deus pelo dom da saúde e interroguei-me como seria a atitude dos que não têm fé, ou dizem que são ateus.

De facto, ao contemplar, nos passos de um hospital, tantos dramas e tantas questões sem resposta, diante da pergunta incómoda «porquê a mim?», duas atitudes se alternam: a primeira é a de a afastar, assim ao jeito de «não me diz respeito» ou «ainda não chegou a minha vez»; a outra é a de me recolher e, no silêncio interiorizado, dizer um «obrigado meu Deus pelo dom da saúde».

Como é belo, se não mesmo provocante, a atitude de quem se junta em grupo para rezar por alguém doente. É a confissão humilde de quem nunca desanima diante do «mistério» da dor e bate à porta, a única adequada, de Deus, pedindo. De facto, quem crê, mesmo que todas as portas se fechem, encontra sempre uma janela aberta. Eis a diferença em relação aos que dizem não crer: se não há um «Alguém» superior, não tem sentido bater à porta dele. E que lhe resta então? A humilhação diante de um destino cruel, a revolta diante desta terrível condição humana, marcada pelo sofrimento e pela morte. Que pode terminar no suicídio. Felizes de nós, aqueles que acreditamos que, unidos a Cristo ressuscitado, a vida tem sempre um «para além» da morte. Podemos então dizer que «nascemos para morrer» e «morremos para viver».

Há duas semanas atrás foi recebido pomposamente um autor de bestsellers, que faz fortunas publicando livros, publicitados com uma boa máquina de propaganda. Segue a moda de momento: a intriga, a partir de temas supostamente religiosos, que provocam e até difamam, quase sempre tendo a Igreja católica como alvo.

Chamou-me a atenção o que foi tema da apresentação do livro Origem quando lia: «um dia os deuses desaparecerão substituídos pela ciência». A frase intrigou-me naquele domingo, o da tragédia dos incêndios: que pensarão as pessoas ao lerem isto? E procurei dar uma chave de leitura tranquilizadora, na missa do dia seguinte. Precisamente quando nos fazem crer que Deus é dispensável - e criam-se obras literárias supostamente apoiadas em factos históricos ou em leituras correctas da Bíblia - o coração das pessoas vive uma revolta ao sentirem a angústia de um país a arder e de pessoas - foram 45 - que morrem, do mesmo modo que morrem as florestas e até as casas e as indústrias. No meio da morte, que faz o coração humano? Cruza os braços ou procura sentido? A verdade é que a tentativa de resignação é sempre vencida e cada desgraça arrasta consigo uma esperança renovada.

Poderá a ciência dispensar Deus? Eu digo que nunca. E se me disserem que é a resposta própria da fé, a de quem acredita em Deus, eu pergunto: Porque será menos importante esta resposta de quem acredita diante da resposta do dito não crente, que reduz a vida à ciência, dando a esta um estatuto de infinito e de absoluto? A abertura do crente ao absoluto é, no mínimo, tão legítima como a do não crente. Só com uma diferença: a do não crente esforça-se porque seja a natureza, ou a vida quotidiana, que venha confirmar a sua «crença», enquanto o crente vive já uma resposta que considera suficiente, eficaz e geradora de felicidade. É que Deus é Alguém com Quem se pode partilhar as dúvidas e as incertezas, pois é percebido como Presença próxima e interlocutor verdadeiro e único.

Afinal, nada de novo, dentro da «moda» de atacar os crentes, numa tentativa de abalar a fé dos mais simples. É processo repetido. Que, apesar disso mesmo e por causa disso mesmo, deve «obrigar» os crentes a fundamentar cada vez mais as «razões da sua esperança». Sem medos mas assumindo o risco do confronto. Que nos obriga a pensar, a cultivar o espírito e sobretudo a dar coerência, no agir quotidiano, à fé que professamos.

Dias depois chega-me às mãos uma revista que me revela o ponto de partida para a tal obra literária. Uma seita, sim, uma seita, qual organização sinistra, onde uma doação de milhões tornou possível tanta aberração, que foi o ponto de partida para o romance.

E eis-nos diante de fenómenos muito em voga no nosso tempo, onde abunda a ignorância, sobretudo aquela que se refere ao mistério da vida, com a conivência dos poderes públicos, cuja pretensa «neutralidade» em certos assuntos apenas deixa indefesos aqueles que não sabem como livrar-se das pressões de habilidosos. Na cultura do «tudo é permitido», sem as grandes referências de sentido surgidas ao longo da história, é inevitável ver exigências ao poder político para que «se meta na religião». Precisamente para evitar abusos, roubos e manipulação das consciências.

Repito uma vez mais: a religião ou é libertadora ou simplesmente não deve ter lugar. Não foi (é) Cristo o grande libertador de todas as opressões? É verdade que há muitos comportamentos ditos religiosos, carregados de medo e indignos de seres humanos. Quanto trabalho pela frente para que se torne real que o comportamento religioso autêntico é sempre gerador de liberdade autêntica! Até porque perante Deus só vale o amor. Não o medo.

29 de Outubro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXLI

Na semana da tomada de posse dos órgãos autárquicos, impõe-se agora um olhar mais distante sobre as eleições locais passadas. Com maior razão ainda quando há tempos o Papa Francisco não cuidou das palavras e atirou directo: «é pecado não rezar pelos governantes, pelos políticos», assunto que o nosso Arcebispo retomou também.

Quando ouvi a interpelação, confesso que não a estranhei mas também não a valorizei demasiado. Porque, de facto, ao menos na liturgia, a oração dos fiéis raramente não inclui os «governantes das nações» ou «aqueles que exercem o poder». Deste modo, a missa dominical não é um espaço apenas para os crentes, mas estes sentem-se e são educados para rezar pelos que detêm o poder, para que o exerçam ao serviço do bem comum. Também aqui se exprime uma sadia laicidade, aquela que separa a esfera religiosa ou espiritual da temporal, mas que, na oração dos crentes, acaba por unir os dois «mundos». Sim, a política nunca pode ser alheia à fé, enquanto arte ao serviço do bem comum. E os cristãos sabem-no e são orientados para o respeito mútuo, para a oração pelos que nos governam e para não se aproveitarem do «serviço ao altar» para se promoverem ou adquirir votos.

Este «olhar» tem em conta a situação vivida no nosso país – uma nova tragédia de incêndios que ceifou mais 44 vidas e deixou-nos «impotentes» diante de tal desgraça, que abalou seriamente os fundamentos do governo do país e mesmo as instituições democráticas – bem como a situação que se vive na Catalunha, a pôr em causa o futuro da União Europeia, o que nos traz inseguros e fragilizados. Voltemos às eleições, que geraram novas configurações do poder autárquico.

Se os cristãos rezam pelos seus autarcas é porque acreditam que eles se candidataram para servir. E não servirem-se. E sabemos que tal é verdade. Apesar de sabermos também que há eleitos que se candidataram por interesses próprios. Pediram-nos um voto de confiança. E concedemo-lo. Logo, mantemos o direito de «pedir contas»: que estão a fazer do nosso voto?

Em campanha, muitos prometeram o que sabiam não poder cumprir. Rejeitados, ficaram com as promessas, provavelmente a voltarem dentro de quatro anos. Outros, sabendo das hipóteses de vitória, foram mais cuidadosos nas promessas: será mais fácil cumprir e segurar o mandato. Aqueles que foram «generosos» nas promessas, apesar de saberem não haver meios para as cumprirem, terão agora a humildade de pedirem desculpa e explicarem porque é que elas não são viáveis? Ou cairão na tentação de as iludir ou até de as cumprir custe o que custar quando os custos não as justificam e o bom senso aconselha, ao menos, a suspendê-las? Vencedores e vencidos, ou seja, governo e oposição, têm agora a missão do diálogo possível para a paz social e o desenvolvimento necessário. As medidas a tomar não podem ter como objectivo apenas uma promessa eleitoral. É que quem governa tem de ter a sensatez de confrontar o possível com o ideal, a partir dos meios de que dispõe. E esta tarefa pertence não só aos que governam mas também àqueles que são oposição. Esta dignifica-se quando, opondo-se, justifica porque apresenta melhores e mais eficazes vias de actuação.

É natural, em democracia, que as máquinas partidárias tenham interesses próprios. Mas não devem ter eles prioridade sobre o bem comum. É escandaloso, ofensivo até dos eleitores, os gastos sumptuosos suportados pelo erário público, sobretudo quando se espera e desespera por obras necessárias, várias vezes prometidas. Gerir a causa pública implica um permanente respeito pelo suor dos eleitores que, por impostos, permitem o funcionamento das autarquias.

Quer o que se passa na Catalunha, quer o que se acaba de passar entre nós com a tragédia dos incêndios traz à luz do dia uma outra preocupação bem mais séria: que valores vivem, na vida pessoal e na vida política, aqueles que nos governam? Que respeito têm eles pela história dos povos que governam e para onde os querem conduzir? É que se não faz parte da acção política, das decisões após discussão, a consideração do passado de um povo, com as componentes da sua identidade específica, bem como a prossecução de um horizonte de esperança, que dê alegria de viver e sentido de futuro, então não passarão de fracos gestores do dia a dia, esquecendo que lideram, precisando de ideias novas e de objectivos alargados. Não é dos particulares que se esperam obras de desenvolvimento que envolvem milhões mas que fazem falta para o bem de todos. Porque continuam apenas no campo das promessas tantas obras estruturais anunciadas há décadas? Obras que precisam de gente «rasgada», de equipas que amadureçam, planeiem e executem de imediato e não só para a véspera de novas eleições.

Num tempo em que surgem populismos que estavam adormecidos, precisamos de autarcas de bom senso, que saibam conduzir o povo para valores mais elevados, que dignifiquem o passado e honrem o presente.

22 de Outubro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXL

À hora em que escrevo, acabo de chegar de um serão habitual às quintas-feiras à noite. Numa das salas da Paróquia estava um grupo de 35 jovens e adultos. Apreciavam como se repete hoje o que aconteceu ao longo da história: Deus acompanha o seu povo e revela-Se próximo, destacando-se que é, sobretudo, quando tudo parece caído na desgraça que o povo se dá conta de que Deus nunca desiste de o convocar e lhe dar razões para a esperança. Num outro grupo, mais adulto, estavam 29 pessoas dialogando sobre a verdadeira esperança.

E dei graças a Deus por esta riqueza da nossa Paróquia: semana a semana, cerca de 70 pessoas, por decisão livre, sentem que este momento é libertador e lhes dá alegria de viver, porque descobrem a beleza do CRER. Todos eles têm muito que fazer, as suas vidas estão cheias de compromissos e têm larga variedade de escolhas para as noites de quintas-feiras. Mas escolhem catequese de adultos.

Noutro contexto, discutia-se se não estávamos nós, os padres, a pedir demais aos nossos paroquianos, tantas são as actividades propostas, porque estar em família é fundamental. E se isto me ocupou o pensamento do dia - porque a questão é pertinente, tanto mais que a experiência pastoral me habituou a tal cuidado, o de não sobrecarregar os colaboradores da Paróquia, pois todos têm obrigações familiares e profissionais - à noite surge uma surpresa que, de modo algum, admitia como possível. Nessa tarde pude aperceber-me, por algumas conversas, que a conferência da noite, com a jornalista Aura Miguel a falar de Fátima, ontem e hoje, em Portugal e no mundo, no Auditório Municipal, iria ser muito participada.

Quando, às 21.00, me aproximava e percebi já uma aglomeração de gente à porta, ainda fechada, nem nessa altura tive a percepção de que chegaríamos tão longe. O Auditório encheu-se por completo. Com 50 cadeiras suplementares, teríamos 310 pessoas sentadas. Era já algo de muito bom. Esperámos as 21.30 para dar início. Mas eu, que orientava, tive a tentação de começar uns minutos antes dado que já havia mais de uma centena de pessoas a pé. Temi pelo número exagerado por razões de segurança. E continuaram a chegar. Pude contar mais de quinhentas pessoas.

Claro que os números não são o mais importante. Terá a ver com a conferencista, vaticanista de reconhecida competência e conhecida do público. Terá a ver com o tema da conferência, enquadrada no encerramento do Centenário das Aparições de Fátima. Tudo isto pode explicar a grande afluência. Mas penso que não chega. E prefiro, também aqui, «um olhar outro», que provoque e desinstale.

Dou-me conta de que o povo anda à procura. De quê? Como sempre, de sentido para a vida, de novidade, de «Boa Nova», de algo diferente daquilo a que o habituámos. Sempre é mais fácil, por parte das lideranças, sociais, políticas ou religiosas, dizer que «o povo não quer». Sabemos todos como as sociedades evoluem a partir de lideranças fortes, que sabem ler os anseios mais profundos e criam dinamismos novos para os satisfazerem. E o que se vê na política vê-se também na religião: alimentamos os gostos de um povo, que se habituou a comer sempre do mesmo porque não conhece melhor, ou fazemo-lo descobrir alimento melhor? E não se diz também que muitos preferem manter o povo na ignorância, acomodado porque assim não conspira, isto é não questiona nem reivindica algo de melhor?

A determinada altura cochichei com o senhor arcipreste, primeiro responsável da iniciativa dos padres de Barcelos (as duas conferências, de Outubro e de Novembro, bem como a Semana Bíblica, são organização e encargo do Arciprestado e não da Paróquia de Barcelos): E agora? Como reagiria esta assembleia se desistíssemos destas iniciativas, que os põem a pensar? Demos graças a Deus e felizes encargos que o Arciprestado assume. Nos tempos que correm, ou a nossa acção pastoral «incomoda» ou está condenada ao fracasso. Os cristãos de hoje querem - e a isso têm direito - descobrir a riqueza e beleza de um Deus próximo. E têm direito a esperar da Igreja a ajuda de que precisam, para se sentirem adultos na fé, livres e responsáveis, e não apenas «fazendo o que o senhor prior diz». É esta a verdadeira Igreja de Jesus Cristo, Igreja conciliar situada no tempo, a Igreja de Francisco ou de Bento XVI, capaz de assumir rostos diversos, conforme o tempo ou a «lama« das diversas periferias de todos os tempos.

Disse que foram mais de 500 os presentes. Sim, mas não podemos esquecer a «contabilidade» das redes sociais: os que seguiram a conferência foram cerca de sete mil. Deus seja louvado.

15 de Outubro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXIX

Foi um período agitado, como se esperava. Mas foi também de festa. O período de campanha eleitoral para as eleições autárquicas «perturbou» um pouco a pacatez, se ela existe, da cidade e das aldeias.

Passadas as eleições, que ficou de toda a agitação desse período necessário? Do muito que se disse, urge filtrar uma grande parte para nos cingirmos ao que é verdadeiramente importante. Assim, permito-me destacar:

1. A dedicação e entusiasmo a uma causa, julgada pelos intervenientes como a melhor e até única com capacidade para convencer os eleitores. Há muito trabalho e muitos trabalhadores na «vinha» partidária ou independentista. Oxalá não o façam a pensar nos dividendos, para si ou para os seus, mas apenas no bem comum e determinados a servir o povo, conforme as promessas propaladas.

2. Sei de algumas candidaturas que fizeram o trabalho de casa: reflectiram sobre as necessidades da sua autarquia, criaram estratégias para encontrar solução para as dificuldades e estabeleceram prioridades. Apreciei os folhetos distribuídos: eles, consultados de vez em quando, bem podem servir de chamada de atenção para que se cumpra o prometido de modo a que seja verdade que «não somos todos iguais».

3. Já vai aparecendo quem acredite que a melhor campanha é aquela que é feita pela positiva, falando das necessidades e dos modos como serão colmatadas. Evitam-se assim os excessos de linguagem e o ataque às pessoas, ditas adversárias na altura. Sim, na altura da campanha, porque, passada este e aceites os resultados, fica bem a todos sarar quanto antes algumas feridas, agora julgadas desnecessárias. É bom ver como o povo se defende de populismos e não valoriza as palavras daqueles que tudo prometem, mesmo quando sabem que nada poderão cumprir. São os marginais da democracia que abusam das regras democráticas, quando estas lhes garantem o direito de se apresentarem, mesmo que seja apenas para gerar confusão e porem a nu o coração e a cabeça vazios de valores e de ideias.

4. Contabilizados os resultados, eis a dor até às lágrimas de uns e os sorrisos contidos de outros diante dos vencedores, agora chamados à responsabilidade de governar. Claro que olho para os campos opostos e a ambos saúdo: aos vencedores, os parabéns; aos vencidos, o conforto possível, recordando que as derrotas de hoje podem ser o caminho das vitórias de amanhã. Estamos no tempo da onda rosa pelo país abaixo. Mas não podemos esquecer as lições da vida: os vencedores de hoje tornar-se-ão os vencidos de amanhã. É a vantagem do regime democrático, que procura não só o respeito pelos olhares plurais da sociedade como procura evitar que se eternizem sempre os mesmos nas mesmas cadeiras do poder. Assim se tenta evitar acomodações, habituação ao poder e corrupção no uso do mesmo.

5. Nem sempre as eleições permitem que sejam os mais capazes e honestos a exercer o poder. Não o são de todo. Basta olhar para a taxa de abstenção. E para os jogos de bastidores e os interesses que, entretanto, se vão descobrindo. Porque há muita gente capaz e honesta que se poderia candidatar. E, na óptica da Igreja, se deveria candidatar. Porque, se o serviço ao bem comum deve tocar a todos, muito mais aos que se afirmam seguidores de Jesus. A melhor caridade acontece quando, nos parlamentos e nos governos, se trabalha por maior justiça social de modo que todos tenham o necessário para uma vida digna. Ou não é evidente que a mais grave pobreza surge «decretada» nas leis em que os mais fortes conseguem «esmagar» os mais fracos, sem que venham a ser julgados de tal injustiça?

6. Empossados os autarcas, é hora de trabalhar no cumprimento das promessas feitas. É hora de gerir com justiça para todos. Porque os eleitos deixaram de ter cor partidária ao passarem a governar em função do bem comum. Do bem de todos: dos que votaram neles ou nos adversários, e também daqueles que não foram votar. A dignidade de um autarca está no serviço a todos e se alguma preferência houver será em favor dos mais frágeis. Como está também na capacidade de resistência às pressões de pessoas, os tais amigos que vêm «cobrar», e de grupos que chantageiam os que têm de decidir em favor de todos e não só de alguns. É tempo, agora, não de pagar favores mas de buscar rectidão nas decisões, coragem na acção e humildade para reconhecer valor às propostas adversárias.

7. Ao mesmo tempo, o que se passou na Catalunha é uma nuvem muito negra, de previsíveis consequências catastróficas na construção de uma Europa unida e em paz. E põe o dedo na ferida: qualquer político tem o grave dever de conhecer a história e de acautelar o futuro. A paz é um bem maior a que nenhum nacionalismo se deve sobrepor.

8 de Outubro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXVIII

Na diocese do Porto, no espaço de duas semanas, faleceram dois bispos, um deles ainda muito jovem e de quem a Igreja portuguesa muito esperava ainda. Nós consideramos “perdas” mas, como crentes, aceitamos os desígnios de Deus, que, sejam eles quais forem, nos fazem certamente pensar e tomar consciência da Igreja que somos.

A morte inesperada do senhor D. António Francisco dos Santos, que os cristãos de Braga admiravam desde a sua passagem como bispo auxiliar, encheu as páginas dos jornais durante muitos dias. E fizeram-no, creio eu que muito bem, como acto de justiça, dada a sua reconhecida bondade natural, espírito de serviço e comunhão com Deus, virtudes reconhecidas na acção pastoral desenvolvida, quer em Braga e em Aveiro quer, nos últimos três anos, na vizinha diocese do Porto.

Recebeu-nos em Fevereiro passado, a mim e a uma delegação dos Amigos de D. António Barroso, com simpatia e interesse na Causa que ali nos fizera deslocar. Apreciámos o seu conhecimento profundo do assunto e o seu empenho em conduzir um processo delicado com sabedoria e eficácia. Não nos foi difícil acatar os seus conselhos, comprometendo-nos a não nos adiantarmos ao juízo que a Igreja universal está a cuidar sem pôr em causa a nossa certeza moral quanto às virtudes heróicas de D. António Barroso. O senhor D. António, apesar do curto pontificado na Diocese do Porto ficará para sempre ligado à causa de D. António Barroso. Certamente que estes dois bispos já comungam da Santidade de Deus.

Por sua vez, a morte de D. Manuel Martins, ocorrida aos noventa anos, fez-nos recordar a trajectória da Igreja portuguesa nas últimas décadas, sobretudo quando, no período crítico pós - 25 de Abril se tornou, merecidamente, uma voz escutada, desejada e também temida por alguns, da esquerda à direita, fora e dentro da Igreja. Homem livre, disse, com obras e palavras, que a Igreja não pode meter-se na sacristia mas tem de “sujar as mãos” na vida social onde tantos irmãos nossos são explorados e vivem numa pobreza indigna de uma sociedade civilizada. Como profeta, impôs-se, não se calando perante as injustiças e a ameaças. Felizmente, também foi louvado e reconhecido pela sua ousadia, decorrente do seu múnus episcopal de vigilante (epíscopos) não só da doutrina que a Igreja, em nome de Jesus, propõe mas das condições de vida daqueles a quem, como pastor, conduzia.

Convivi com o mesmo sobretudo durante os cinco anos em que, na Conferência Episcopal, me relacionava com todos os bispos e suas dioceses. E pude apreciar a sua bondade, preocupado com os problemas sociais da sua diocese de Setúbal, de quem foi o primeiro pastor, e a sua coragem em falar quando os outros julgavam ser mais prudente calar-se. Por isso, não agradou a todos. Passados anos, a auréola de profeta corajoso e de amigo dos pobres, ninguém lha tira.

Por esses passos cruzados com ele, se justifica o sim imediato com que respondeu, por duas vezes, ao meu convite a presidir à missa solene em dia das Cruzes. As suas palavras, nas homilias, chegaram aos nossos ouvidos carregadas de sabedoria, de coragem e de solidariedade para com os mais deserdados da sociedade.

Era um amigo de Barcelos. Aonde gostava de vir, de conviver e de cumprimentar amigos, dadas as suas raízes familiares. Quem não conhece e reconhece o orgulho com que o bibliotecário municipal, Dr. Vitor Pinho, falava do seu primo bispo?

Logo que foi conhecida a minha nomeação para Prior de Barcelos, logo me enviou um cartão de saudação amiga, ele que já tinha participado nas minhas bodas de prata sacerdotais. E com o tal à vontade dos tempos em que nos cruzámos na Conferência Episcopal, me desafiava: “vai ser agora que os funerais de Barcelos deixarão de ser a pé para o cemitério?!”. Confesso que, só mais tarde, aquando dos primeiros funerais na cidade, entendi o que propunha. Não tinha sentido para ele, nem era pastoralmente razoável, que, em contexto urbano, os funerais se façam a pé. Por essa razão impus-me em relação aos funerais celebrados na Igreja Matriz: serão feitos em cortejo automóvel até à porta do cemitério, onde se espera por aqueles que possam chegar mais tarde. Assim se fez e em pouco tempo se ultrapassavam as reservas iniciais. E porque não também a partir da Igreja da Misericórdia? Já se fazem quando chove. Mas a falta de estacionamento junto ao cemitério – quando será prioridade para os nossos autarcas? – justifica que tal passo não se tenha ainda dado. Será razoável pedir aos que participam no funeral levantar o carro do Campo da Feira para, chegando ao cemitério, voltarem ao lugar de onde o retiraram? A questão reduz-se então ao bom senso pastoral na esperança de que um dia o cemitério posso ser rodeado de um parque de estacionamento adequado. Passa por aqui também a dignificação da celebração da morte.

D. António e D. Manuel unidos na morte: enquanto os cristãos rezam e choram, as urnas jazem no chão da catedral/mosteiro. Sem pompas nem amontoado de flores. Que sentido terão para nós, diante do evangelho de hoje estas palavras: «só somos verdadeiramente grandes quando deixamos que outros estejam acima de nós»?

1 de Outubro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXVII

Apresento o teor da resposta, enviada a 4 de Setembro, ao Jornal de Barcelos:

Ex.mo Senhor Director do Jornal de Barcelos

Publicou V.ª Ex.ª, na edição de 23 de Agosto, um artigo do vosso colaborador Luís Manuel Cunha (LMC), o qual, repetindo intervenções anteriores, se julga no direito de que se lhe preste contas, como cidadão pagador de impostos. Os termos em que o faz, no seu estilo já conhecido, não me podem deixar ficar indiferente.

A insistência e provocação, consentida por V.ª Ex.ª, permitem-me concluir da relevância social do assunto, o que certamente levará a que os leitores do vosso jornal se julguem também no direito de conhecer a resposta do visado, eu mesmo, em nome da Paróquia de Barcelos.

Neste escrito último, LMC ultrapassou todas as medidas do equilíbrio razoável e «cria» as suas «verdades mirabolantes» a partir de dados duvidosos, num jogo supostamente inteligente para não ser apanhado nas malhas que ele mesmo tece.

Tentarei responder objectivamente de modo a que os leitores, a quem reconheço e respeito a sua capacidade de juízo honesto, possam tirar as suas próprias conclusões, sem se deixarem embarcar nos preconceitos «enlatados» que LMC fornece, convencido de que lhe reconhecem credibilidade para tal.

1. «Este prior não tem emenda… não toma andadura»: não toma nem tomará, embarcando na sua «andadura», ao assumir-se como juiz supremo da vida local, seja nos aspectos sociais ou políticos, seja nos aspectos religiosos. Quem lhe deu tal estatuto? A sua cidadania não é superior à minha ou à de qualquer barcelense.

2. «Que me estou marimbando…». Mentira. As suas provocações repetidas não escondem a atenção que me dedica, não só ao que escrevo mas também à «boataria» de que se faz eco. No mínimo, indigno de um jornalista sério, obrigado a fundamentar as suas afirmações. Estas são cada vez mais repetidas, superficiais e tendenciosas. Quem lhe reconhece hoje isenção quando, por qualquer motivo fútil ou apenas baseado numa apreciação totalmente subjectiva, classifica pessoas honradas e em cargos de serviço público como inúteis, subservientes e indignas do cargo que ocupam? Quem o legitimou para tal? Diz o ditado: «não passe o sapateiro além da chinela».

3. «O homem não paga um único cêntimo de imposto». E porque a firmação é grave, e ele sabe-o bem, faz preceder a frase de um «presumo». As afirmações de LMC revelam, mais que ignorância (culpável, no caso), má fé. Por ambas, apresenta uma série de afirmações, no mínimo desejosas de denegrir a minha pessoa, como o tem feito com outras.

4. Tem LMC obrigação de saber que as instituições religiosas, ao abrigo da Concordata de 2004, seguida da Lei de Liberdade Religiosa, se sujeitam às mesmas obrigações que outras congéneres. E que, desde essa altura, as paróquias se organizam como entidades sujeitas não só à lei canónica como à lei civil.

5. Em concreto, a Paróquia de Santa Maria Maior

a. Tem um ficheiro paroquial que regista a pertença livre das famílias, que livremente se cotizam para garantir serviços religiosos que pedem e manter e desenvolver o património religioso. Sendo este aberto à fruição de todos, crentes e não crentes, é sobre aqueles que recaem os encargos. Será isto justo?

b. É «governada» por um Conselho Económico que, reunindo mensalmente, gere as dádivas livres dos fiéis. Compõem-no nove elementos, com competência técnica reconhecida, que decidem o que à ordem material diz respeito, conscientes de que esta «ordem material» se encontra em função da «ordem espiritual», razão de ser da Paróquia: levar as pessoas ao encontro com a Boa Nova de Jesus e educar para uma adesão libertadora aos valores cristãos. Pelo que, ao Conselho Económico se junta um outro Conselho, dito Pastoral composto por mais de 30 pessoas, que se pronunciam, de tempos a tempos, sobre a vida cristã na cidade.

c. De todas as dádivas feitas à Paróquia, é entregue um recibo oficial que poderá ser apresentado na declaração de impostos. E as dádivas são geridas com rigor, justiça e transparência conforme consta de um relatório oficial enviado a todos os paroquianos.

6. Quanto a impostos, a provocação só pode ter uma resposta: como recebo um salário, do mesmo modo que outros colaboradores com vínculo laboral, a declaração de IRS surge automaticamente. Se algum dos meus paroquianos duvidar, terei muito gosto em lhe mostrar a minha declaração anual de impostos.

7. Quanto a prestar contas dos dinheiros públicos, a sobranceria de LMC também ultrapassou os limites, atitude própria dos fundamentalistas ou ditadores de muito má memória ao longo da história. Não vivemos numa sociedade democrática, que produz modos de actuação comuns, traduzidos em leis discutidas e votadas por maioria? Quem é LMC para pedir que a Câmara se justifique dos subsídios que atribui em face de pedidos fundamentados, discutida a sua relevância social e votada uma decisão maioritária e tantas vezes unânime? Que direito lhe assiste como cidadão e barcelense de se sobrepor aos autarcas eleitos, sufragados pelo voto dos cidadãos e comprometidos pelo bem comum? Que democrata é o senhor LMC que se revolta e discute quando as decisões não vão ao encontro das suas convicções? Há algo que me preocupa e que ouço comentar: porque se calam tantos diante de tais dislates, sobretudo aqueles que têm o dever de tomar posição? De facto, pior que a desfaçatez dos maus é o silêncio dos bons.

8. Sim, eu, pároco de Barcelos, presto contas: ao meu pai, respeitável velhinho cujo conselho carregado de sabedoria não discuto; ao meu bispo, a quem prometi «reverência e obediência»; ao povo da Paróquia que corresponde aos apelos do Conselho Económico a que presido. A estas famílias inscritas chega ano a ano o relatório de contas por escrito, apresentado, discutido e votado.

9. O rol de deturpações de LMC é extenso. Mas não me cansarei de responder, certo que é que a ignorância sempre foi atrevida e quando aliada à má fé torna-se um desastre e um «inferno» que conspurca as relações humanas. Será isso que pretende? Pois bem, quanto aos «dinheiros públicos», que a Câmara gere, colectados a partir dos impostos, a pergunta deve ser dirigida ao Município… que já provou à saciedade que não se incomoda com as perguntas insensatas do Jornal de Barcelos, que a acusa semana a semana: «Câmara Municipal recusa-se a cumprir lei há 384 dias». É caso para perguntar até quando continuará essa denúncia ridícula, que só prova a ambição de se tornar juiz supremo, arrogando-se um poder que não tem e de que sistematicamente abusa.

10. Nunca a Câmara deu subsídio algum para missas e procissões. Quando estas se tornam actos públicos e sociais, enquadrados em actos cívicos, o Município ajuiza a relevância dos pedidos, certamente em igualdade de circunstâncias, e decide com transparência. Certos actos exigem uma logística especial, que onera as instituições religiosas, que não são lucrativas, como é o caso das Missas no mês de Novembro no cemitério municipal, promovidas pela Confraria das Almas: se as pessoas não cabem na pequena capela, há pelo menos uma sonorização necessária e um espaço litúrgico a criar.

11. As semanas bíblicas foram e são actos de cultura, que trazem a Barcelos conceituados investigadores na área. A Bíblia, caro LMC, é dos escritos mais antigos e mais investigados por crentes e não crentes. Se se pede a ajuda do Município é para que as cerca de 300 pessoas que as frequentam, ao longo de três sessões, possam evoluir nos seus conhecimentos sem onerar os seus magros bolsos. É cultura, senhor LMC, da melhor qualidade, talvez sem comparação com tantos outros subsídios atribuídos a eventos também ditos culturais.

12. A residência paroquial foi recuperada por razões de respeito para com a história e aqueles que a edificaram e mantiveram no passado. Se a sua função de habitação do pároco carece de justificação - como acontece com tantas outras no concelho, devido à falta de párocos, reajustando-se-lhe as funções, normalmente transformadas em espaços de formação ou de apoio social - ela tinha necessidade de ser recuperada por ameaçar ruína. E hoje, conservando a sua função de sempre, obrigatória nos regulamentos municipais, ela é espaço de formação permanente para crianças e adultos. Convido-o a comprová-lo: às quintas-feiras à noite verá cerca de 70/80 pessoas em reflexão e discussão cuidando das razões da fé. Como é possível que esteja tão distraído para um olhar tão redutor e parado no tempo dos seus bancos de catequese?! A Igreja não é o que supõe ser correspondendo ao tempo em que, traumatizado e revoltado com os ensinamentos da doutrina, a abandonou, conforme refere tantas vezes. Liberte-se desse passado e avance na novidade que está ao seu alcance. O maior cego é, de facto, aquele que, tendo olhos, não quer ver.

13. Quanto ao cartório, sede dos serviços administrativos da Paróquia, diz ser «transformado em agência de viagens». Que pena, LMC, continuar a bater numa tecla ouvida na boataria citadina, oriunda daqueles que «desdenham mas querem comprar», mas são incapazes de um juízo honesto e justo fundamentado na realidade. Que pena, um jornalista beber em fontes inquinadas. Não entenderá o senhor que o fenómeno religioso cria relações humanas próprias? E que estas se aprofundam nos grupos. Também nos que viajam? Que viajar é fonte de cultura? Porque valoriza mais as vozes dos que falam mas não participam em vez daquelas que, participando, continuam a participar e pedem para não deixar de promover? Peregrinações, claro, se bem que as viagens, permitindo experiências de convívio que humanizam e valorizam as pessoas, são sempre uma óptima fonte de cultura. Já experimentou?

14. Quanto ao estado laico que, por sê-lo, lhe serve de motivo de «escândalo», lembro-lhe que a laicidade – traduzida em tantos países por uma sadia convivência entre o mundo espiritual e mundo material, não de costas um para o outro mas em colaboração mútua porque os crentes também são cidadãos e também pagam impostos – não é a mesma coisa que o laicismo, precisamente a atitude de quem pretende impor códigos ou valores que pensam «neutros» mas que nunca o são. A este propósito, quem não reconhece a dignidade de um Presidente que, afirmando-se sempre católico convicto, nunca põe em causa a participação em actos religiosos? Terá um Presidente de despir a farda de crente para, hipocritamente, vestir a de não crente? Será que a República deixa de ser laica quando o seu presidente vai numa procissão? Os laicismos, vividos nalguns países, estão a «matar» a alma cristã da Europa, cujos valores que a fizeram grande radicam no Evangelho de Jesus. E como todos os ismos (fundamentalismo, progressismo, nazismo, islamismo), também o laicismo põe em causa a harmonia do tecido social nas sociedades modernas. Haja moderação e bom senso.

15. Por último, a confusão de LMC não tem limites. Nem procura fundamentos razoáveis. Fala do que ouve na rua, se é que não o retira da sua imaginação fértil, confundindo realidade com fantasia. Saiba, LMC, que o funeral de uma pessoa é um acto merecedor de todo o cuidado, no respeito para com as pessoas envolvidas. Mas quando alguém me pede um funeral religioso, é meu dever conhecer algo da pessoa sobre a qual me vou pronunciar e comungar dos sentimentos da família. Isto exige contacto humano, ainda que breve. Não se trata de um acto comercial, a gerir por uma empresa funerária. O falecido pode não ser crente ou não perfilhar a fé católica, cujos ritos a família pede. Que «verdade» no acontecimento pode haver quando o falecido é desconhecido, a família não aparece, registos não há? As «contas com a Paróquia» são o menos importante mas traduzem uma pertença livre, fundamento de direitos e de deveres como em qualquer instituição humana. Entendeu mal e deturpou porque a primeira finalidade de tal encontro em tais circunstâncias é partilhar a dor com a família e ajudá-la a entrar no ritual que se vai realizar. Não terei o direito de conhecer algo da pessoa – se se trata de um paroquiano é suposto que há já um mínimo de conhecimento, mesmo que reduzido aos dados do ficheiro - que possibilita que o sacerdote não caia no ridículo de fazer um «discurso» totalmente marginal à realidade? Haja bom senso.

Sabendo que não fui exaustivo e admitindo que LMC ainda não ficará satisfeito com a resposta, objectiva e também subjectiva certamente, lembro que a Constituição Portuguesa proíbe qualquer discriminação em função da crença religiosa. E o direito à indignação é inalienável. Certamente desde que manifestado com civismo e não em linguagem baixa e ofensiva, lesiva do bom nome alheio. Se passou o tempo, felizmente digo eu, dos privilégios, não passou o tempo de tratamento das instituições religiosas, por parte dos poderes públicos, em igualdade de circunstâncias com todas as outras entidades. Nem privilégios, nem subserviências, nem discriminação. Respeito mútuo para bem da cidadania.

P. Abílio Cardoso, Prior de Barcelos, 5 de Setembro de 2017

23 de Setembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXVI

Quiseram vir apresentar-se, como lista candidata à União de Freguesias, para dialogar sobre as necessidades e anseios sentidos. Recebi-os com agrado e o diálogo foi muito útil. Escutei e percebi entusiasmo e mesmo convicção de vitória. O que é normal. Se não há anseio por dias melhores nem empenho por uma causa de serviço público, para que serviriam as eleições? E se os candidatos, à partida, não acreditam no sucesso mas apenas se candidatam por uma qualquer razão de «tem de ser», ao menos para «marcar presença», talvez a campanha eleitoral se tornasse insípida. Haja festa, ao menos. Claro que receberei todas as listas que mo solicitem. Também eu, como pároco e representando a dimensão religiosa dos cidadãos, tenho uma palavra a dizer.

Sobre as boas e muitas intenções, apenas chamei a atenção para o realismo de uma autarquia urbana, em que o Município detém a parte substancial, e para a necessidade de estabelecer prioridades no confronto do ideal com o possível. Na sequência desse encontro, retomei uma antiga ideia de me pronunciar sobre alguns anseios, que gostaria merecessem a atenção dos autarcas, agora que não falta vontade de encontrar ideias novas, por mais arrojadas e até irrealistas que sejam.

1. Gostaria de ver assinaladas no espaço urbano as igrejas que o visitante procura. Com uma sinalética estudada e estrategicamente colocada, aquele que nos visita facilmente ficaria orientado. Simples e barato, não é? Sabemos que a Igreja Matriz, o Templo do Senhor da Cruz e a Igreja do Terço são os locais mais procurados. Não merecerão um maior e melhor cuidado? Até na informação que sempre um turista procura... Porquê deixar tudo nas mãos e a expensas dos cristãos que cuidam do património que é de todos? E já que somos visitados todos os dias, a existência de sanitários públicos, assinalados ainda que mais discretamente, diz bem de uma cidade acolhedora.

2. A legítima autonomia entre a esfera civil e a religiosa não impõe viver «de costas voltadas», como se fosse crime os subsídios e outras formas de apoio a quem cuida do património de todos. Afinal, os cristãos são também cidadãos e a nossa Constituição proíbe qualquer discriminação. Ajudar, no nosso caso, a Paróquia e as confrarias que cuidam do património de todos, é um dever e não uma reivindicação abusiva. Terão os nossos autarcas uma visão sadia da laicidade do Estado e o bom senso de perceberem que as esmolas dos cristãos são cada vez mais insuficientes para manter o património cuidado? Ou serão mais sensíveis às vozes ruidosas de alguns que se julgam senhores únicos do que julgam ser a boa gestão dos dinheiros de todos?

3. Promovem-se inúmeros eventos na nossa cidade. Serão todos necessários e verdadeiramente promotores de cultura e de elevação dos cidadãos? Não é verdade que o barulho em demasia brutaliza e «seca» o interior das pessoas? Àqueles com quem conversei repeti o que já tenho afirmado noutras alturas: os barcelenses não precisam apenas de barriga cheia, de corridas constantes ou de eventos em catadupa de modo a que não haja espaço para pensar e sentir o coração. Não me deixem só no lembrar que «nem só de pão vive o homem» pois que a «Palavra de Deus» não se reduz ao que se proclama nas igrejas. Quem promove hoje o silêncio que cura, tantos são os sinais de uma sociedade enferma, à procura, e mesmo à deriva, de horizontes de sentido? E que farão os nossos autarcas do futuro quanto à persistente e progressiva «invasão» dos espaços de silêncio da nossa cidade, cada vez mais necessários para a sanidade dos cidadãos? Porquê vermos os espaços nobres, circundantes sobretudo da Igreja Matriz e do Senhor da Cruz, os mais apetecidos para actividades ruidosas, que deveriam ser desviadas para outros locais, que os há?

4. Em concreto, permitam-me retomar o assunto de um MUSEU DE ARTE RELIGIOSA na cidade, que seria uma mais valia para o turismo, tão valioso e diversificado é o espólio, que as instituições religiosas têm dificuldade em conservar e dispor para que todos possam fruí-lo. Quando será que se crie na cidade uma sensibilidade própria que seja favorável a investimentos públicos, que significam, afinal, respeito pelos nossos maiores e educação para as novas gerações?

5. Do mesmo modo, vem-se falando da necessidade de recuperação do órgão de Tubos da Igreja Matriz, que não funciona há décadas. Agora que muito se investe na música - o Conservatório de Música de Barcelos é uma honra para a cidade - não seria de dotar a Igreja Matriz com um órgão que não só solenizasse a liturgia mas que fosse também aproveitado para concertos? Basta olhar o que se passa à nossa volta (Braga, Guimarães, Famalicão, Viana...). Posso mesmo dizer que, reunindo alguns pareceres sobre a sua recuperação, apareceu-me há dias uma proposta de recuperação orçamentada em cerca de 300 mil euros. Terá a cidade, os seus autarcas, sensibilidade para um investimento de ordem cultural, a marcar o nosso futuro colectivo? Haverá entre nós técnicos para decidirem a melhor opção e proposta? Haverá entre nós mecenas capazes de garantirem o seu financiamento?

6. A nossa Igreja Matriz, que é património nacional, diante das enormes necessidades de intervenção (nos azulejos, na iluminação, na drenagem de solo e de paredes) precisa de cuidados constantes. Das entidades públicas surgem os entraves e a mesma resposta de sempre: não há dinheiro. Do que precisamos é de boas vontades locais para que, em colaboração franca, se possam fazer pequenas intervenções de conservação, dado que as prometidas e devidas intervenções de fundo acabam por ser preteridas, não sabemos até quando. Mas com autarcas sensíveis muito se pode fazer.

7. O grande acontecimento da cidade, a Festa das Cruzes, centra-se cada vez mais na Procissão da Invenção da Santa Cruz. Ponto de partida, a Igreja Matriz, e ponto de chegada, o Senhor da Cruz, acabam por dizer o roteiro habitual de quem visita Barcelos. Cuidar destes espaços e da sua envolvência, ao longo do ano, será dever exclusivo dos crentes?

8. Por último, uma palavra sobre a morte e os funerais, algo que atinge a todos e momento profundamente significativo para uma leitura da «alma» de um povo: quando dotaremos o cemitério municipal do necessário parque de estacionamento, que evitaria termos de fazer os funerais a pé pela cidade? Quando dotaremos a cidade de um espaço ecuménico acessível à celebração condigna da morte para todos, crentes e não crentes? Porque sacrificamos a verdade da vida de um defunto, dando-lhe na morte o que ele não quis na vida? Quando reservaremos o funeral religioso para os crentes, conforme as suas opções em vida, com missa se ele a estimava? Uma palavra a terminar: sejam quais forem as candidaturas vencedoras, eu, Prior, já venci à partida: a todos respeitarei e com todos colaborarei. Estarei com os derrotados, no desgosto e sofrimento sentido. Estarei com os vencedores para os animar a serem sempre merecedores do voto que o povo lhes deu.

17 de Setembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXV

Em período de pré-campanha eleitoral, quatro palavras me fizeram pensar na possível proximidade entre a religião e a política. Escrevo estas duas palavras propositadamente com minúsculas.

Não, não vou comentar as propaladas ingerências nos campos alheios por parte de clérigos ou de autarcas. Uma democracia madura, como supostamente é a nossa, já ultrapassou tais clichés outrora discutidos, ou seja a preocupação de delimitação dos campos político e religioso. Parece-me claramente assumido, ao menos por parte da Igreja, que a consciência política autonomizada não precisa de «muletas religiosas» e que o povo não precisa de «tutelas religiosas» que lhes digam «esta ou aquela candidatura é a melhor». Será que, por parte dos «políticos », foi já ultrapassada a tentação de procurar, ou até de, veladamente claro, exigir uma «bênção religiosa» que dê força e credibilidade a um candidato em desfavor de outro? A tentação do «aparecer» no palco religioso não desapareceu nem desaparecerá certamente. A vigilância do respeito mútuo impõe-se sempre. A propósito, admiro o à-vontade com que o nosso Presidente da República participa em actos religiosos públicos já que, crente assumido, não precisa de vestir a pele falsa de um «laico» nem aceita interpretações extremistas da laicidade do Estado que, não sendo confessional, está ao serviço de crentes e de não crentes. Vamos então às palavras. São elas: Fé, Paixão, Promessas, ídolos. Palavras que se situam no âmbito da religião mas de que a política se apropria, nem sempre com equilíbrio.

Explico-me: quando um político se bate para que tenham nele e tudo joga para que a sua palavra «infalível» e «verdadeira» não seja posta em causa, ele sente-se merecedor de um «crédito» que pode chegar a um seguidismo cego. Como é possível então que se ponha em causa a atitude de fé de uma pessoa que, junta a outras, se torna comunitária e de relevância social quando ela se liga (religião vem de religare, o humano que se liga ao divino) ao Transcendente, a Deus, aceitando-O como Existente apesar de misterioso? Numa palavra: nega-se Deus e desdenha-se de quem nele acredita. Mas o lugar «vago» de Deus na sociedade da descrença, tantos o ambicionam... Eis o político no lugar de Deus a pedir que nele acreditem.

No mundo religioso, a palavra paixão, nesta nossa sociedade ocidental de matriz cristã, conduz-nos à cruz de Cristo e ao amor absoluto com que O contemplamos.. E vêm à mente tantas e tantas manifestações culturais que se tornaram tradições arreigadas em cada povo. Certamente que não esqueceremos o sentimento de paixão por uma causa a que nos devotamos e tudo fazemos para que nos acreditem, como honestamente apaixonados por uma causa. Paixão como amor desinteressado, sofrido mesmo como a de Jesus? Não estaremos a ir longe demais na idolatria do ego?

As promessas são o «pão nosso de cada dia» nas campanhas eleitorais. Promete-se o possível e até o impossível. Hipoteca-se até o futuro por causa de uma promessa impensada, impossível mesmo porque terrivelmente onerosa na situação temporal. E, sabendo-se que o juízo eleitoral periódico pede contas do prometido e do cumprido ou não cumprido, eis o esgrimir de acusações mútuas, uns a tentarem evitar que se lembre o passado e outros a «revolver» dossiers para fundamentar a propalada promessa não cumprida.

Neste campo, enquanto o padre se esforça por educar a fé do povo, esclarecendo -o para que evite as promessas religiosas e confie em Deus como Pai que, no seu amor, nos quer livres do medo, eis que os políticos «esticam mais e mais» o rol das promessas, de modo a forçarem a adesão que dará votos. Depois das eleições, as promessas, confrontadas com a realidade, foram-se...

Por último, a palavra ídolo, traduzindo o falso deus, que aparece em todas as culturas (não é verdade que o ser humano é naturalmente religioso, mesmo que tal afirmação possa ferir sectores da sociedade empenhados em promover um mundo sem Deus, uma sociedade livre de mitos ou de crenças religiosas?) está presente mais nas atitudes do espectáculo da campanha eleitoral em que actores e seguidores, nos discursos inflamados com ovações garantidas, se aproximam das procissões religiosas à volta da imagem de um santo no seu andor. De facto, nas palavras do líder, tudo é a verdade pura e inquestionável, acolhida e «sufragada » pelos já decididos que o acompanham. Afinal, só posta em causa, destruindo-lhe o seu carácter absoluto, no dia seguinte pelo adversário que a comenta e tenta anular o seu efeito, também ele ovacionado como um deus pelos seus seguidores.

Pois... Afinal não somos capazes de viver sem Deus, o Verdadeiro. Quando O pomos de lado, surgem imensos ídolos a tentarem ocupar o seu lugar. O que será melhor: crer em Deus, o Transcendente, ou crer nos homens que se fazem deuses? Muito «religiosos» os nossos políticos... Com os seus rituais também muito próximos dos religiosos...

Fica, a terminar, uma palavra de Esperança: que, tal como a Igreja fala da «nobre arte da política» e até recomenda aos cristãos que dêem à política o sentido de serviço público, promovendo a cidadania, todos os candidatos cuidem do seu estatuto de servidores do bem comum e façam um campanha limpa com ideias e projectos e não gastem o «tempo de antena» a denegrir os adversários.

10 de Setembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXIV

Perdoem-me mas confesso a minha distracção. Ao longo de todo o trajecto, que separa a Igreja Matriz do Santuário da Franqueira, sem prejuizo das intervenções necessárias e oportunas para dar conteúdo espiritual à caminhada, um pensamento me invadia constantemente: que «alma» está por trás de tantos gestos simples, espontâneos e, à primeira vista, carregados de sentido? Era uma lágrima furtiva e até abundante a correr cara abaixo em tantos rostos que se cruzavam com o andor de Nossa Senhora, tantos olhares fixos na imagem, tantas fotos a registar para o futuro, tantas pétalas lançadas para o andor, a maioria das quais se perdiam entre a mão que as lançava e a imagem de Nossa Senhora a quem se dirigiam. O que leva tanta gente - disse-se que, de ano para ano, a multidão cresce - a sair de casa cedo, a um esforço de sete quilómetros, em dia de calor... num gesto repetido ano a ano em total liberdade mas sentido como «obrigação» que vem «de dentro»? À partida, diria que eu teimava em estabelecer um contraste entre a «alma popular» que vai sem se questionar, mas vai, e aquele gesto mais reflectido e fundamentado que, em atitude evangelizadora, eu procurava incutir: acompanhámos a Mãe de Deus, sentimo-la como nossa Mãe, mas Ela realiza a sua missão de sempre, a de levar-nos ao seu Jesus. Digo contraste porque, reconhecendo a Igreja as virtudes da religiosidade popular, que junta multidões, não pode deixar-se ficar pela simples promoção de tal religiosidade, muitas vezes sem conteúdo e em formas próximas da superstição, que tudo mistura e que não promove as atitudes de fé libertadoras.

Procurei ver «por dentro» e «por fora», para conseguir a síntese equilibrada: olhava para os gestos e procurava ler os rostos, marcados pelo sofrimento ou por uma alegria contida, mas todos «aliviados» e marcados pela esperança. E a questão me invadia: o que faz com que esta gente - muita dela certamente alheada da prática religiosa dominical - não se dispense destes «encontros» com a «Senhora da Franqueira» e se alheie, ao menos por momentos, de todas as críticas e acusações dirigidas à Igreja, aos padres, aos sistemas oficiais religiosos? Será que desejam, lá no fundo, separar o «seu» mundo religioso do mundo religioso «oficial»? Não posso, no entanto, deixar de reconhecer, nos rostos contemplados, a marca da esperança, forte contra todos os profetas da desgraça, e contra todos aqueles que tudo fazem, nas leis e nas ideologias impostas, para dificultar que a «alma religiosa» de um povo se possa manifestar livremente.

Não temos a sorte de ver os nossos comentadores locais a tentarem ir mais fundo, nas suas crónicas, se existem, ou nos seus comentários, de modo a deixarem transparecer, nas leituras possíveis, as suas próprias inquietações. É que, afinal, todos sem excepção têm a possibilidade de um ver «por dentro» (como me sinto eu envolvido nesta imensa massa humana que canta louvores à Senhora) e de um «ver de fora» (o olhar que tentei ter durante e que agora exprimo quando escrevo). Para mim, foi apenas mais uma confirmação da inegável alma religiosa e mariana do povo de Barcelos. E da necessidade de nós, os padres, na condição de pastores chamados a conduzir o povo de Deus que nos foi confiado, nos interrogarmos sobre o modo como evangelizamos e as oportunidades, porventura não aproveitadas, para um trabalho pastoral mais aprofundado, de modo que a religiosidade popular seja o húmus onde deve germinar a «alegria do Evangelho» de Jesus.

Neste meu «olhar» não posso deixar de referir algumas inquietações de ordem pastoral, a obrigarem a uma reflexão profunda em Conselho Arciprestal, dado tratar-se de uma peregrinação que envolve, ou deveria envolver, as 89 paróquias, um trabalho a desenvolver com a Confraria que a promove. O ponto de partida, a Igreja Matriz de Barcelos, deveria concentrar todas as paróquias. Parece-me não ser de bom tom uma «placa» que convida algumas delas a percorrerem uma parte ínfima do trajecto. Como me parece que bastaria um estandarte mariano, um só de cada Paróquia e quanto possível mariano, atrás do qual cada Paróquia se concentraria. Terá sentido a cruz paroquial no meio do povo, como se cada paróquia participasse desenquadrada das demais? Se se trata de uma só peregrinação dita arciprestal, uma só cruz paroquial à frente de todos os peregrinos se impõe. E que intenções de peregrinação se devem apresentar a congregar a todos? Não teremos intenções próprias de Arciprestado? E como fazer passar a mensagem teológica da peregrinação que, começando numa caminhada, se dirige ao encontro do Filho da «Senhora da Franqueira», que se encontra na Palavra e na Eucaristia, o acto central da peregrinação? Serão válidas as razões apontadas, sempre as mesmas repetidas há séculos, de que «o povo não gosta nem aprende»? Alguém me fez notar que era uma multidão enorme a que subiu à montanha, multidão essa que me levou a questionar, durante a Eucaristia: onde está ela? Uns voltaram para casa para irem ainda até à praia, porventura comer o farnel na areia ou à sombra de alguma árvore, enquanto outros se voltavam já para o dito farnel... Pelo que, pouco tempo após a missa, o adro se encontrava já vazio. Quem se atreve a pensar e a ousar inovar?

3 de Setembro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXIII

Quando a li, logo a registei. É uma frase atribuída a Santo Agostinho, mas já assimilada por muitos: “A natureza é um livro aberto. Quem não viaja não passa da 1ª página”. Não foi novidade para mim, porquanto da sua verdade há muito estou convicto. E maravilho-me sempre que me atrevo – porque se trata de um acto de desprendimento, um acto humilde de quem quer aprender – a sair do meio de muitos compromissos para contemplar o tal livro aberto para mim, para que eu o leia, o faça meu, o contemple e o torne meu, no profundo sentido bíblico do “livro que se come” (Ez. 3).

Uma vez mais o experimentei há dias e foram muitas as surpresas, as reflexões, as conclusões, o descalçar de preconceitos, a riqueza de um grupo para quem se fala e com quem se partilha o que se vai sentindo.

Cada país, cada povo, tem a sua história com páginas belas e páginas menos belas. O “padrão” com que aferimos julgamo-lo o mais perfeito. E, assim, catalogamos: gostamos ou não, aprovamos ou não, ridicularizamos ou enaltecemos… pobres de nós que julgamos a partir de um padrão, o nosso, como se fosse o mais perfeito. E, de facto, enganamo-nos. Porque os povos que visitamos têm costumes diferentes dos nossos, mas tão válidos e dignos como os nossos. E quando os julgamos negativamente apenas transferimos para eles os nossos padrões, julgados erradamente os melhores, mas que apenas são diferentes.

Reconhecer esta diferença e valorizá-la é acto inteligente e digno, humilde e capaz de construir pontes em que, no vai e vem, ambos ganhamos. E esta atitude, que o turismo favorece, é profundamente evangélica. Estou convencido, e já o escrevi, que o turismo nos dias de hoje realiza a profecia bíblica de aproximação dos povos para um acto de louvor em uníssono, em sinfonia harmoniosa ao Criador.

Desta vez foi a Roménia que se mostrou ao grupo como povo humilde, com uma história riquíssima, profundamente religioso, em vias de desenvolvimento mas já com uma capacidade notável de acolhimento ao que o visita. Tivemos de nos deixar abalar diante do preconceito que existe no nosso país quanto aos romenos. Não são os delinquentes, organizados em grupos de pedincha e “artistas” na apropriação do alheio. É, antes, um povo digno, trabalhador e acolhedor para quem o visita.

Com toda a naturalidade, ao fim de alguns dias de contacto com a realidade de um povo e com a sua história, as nossas ideias pré-concebidas começam a desfazer-se para darem lugar a outras, novas e mais ajustadas à realidade. É uma atitude interior, profundamente bela, esta de “despir-se” das roupagens ideológicas próprias para se revestir de novidade com a consequente função da verdade, que humaniza e constrói fraternidade. Viajar em grupo, muito mais que sozinho ou com um grupo restrito de amigos, tem também muitas vantagens: dois ou três dias são suficientes para o à-vontade e a camaradagem que se criam no grupo, os quais permitem também revelar a pessoa bela e verdadeira do outro, que é companheiro da aventura. E todos nos enriquecemos com a convivência e com a partilha de pontos de vista.

Como peregrino, em contacto mais religioso, ou apenas como turista na descoberta de um país, em ambos os casos dá-se sempre uma “conversão” a valores mais altos, que a todos enriquece. E é essa a razão autêntica que me leva a não dar ouvidos àqueles que, mais por incapacidade de decisão pessoal que por dificuldades financeiras, desdenham do Prior, “que passeia muito”, ou daqueles que o acompanham, um grupo cada vez mais numeroso e estável que já compreendeu que as propostas da Paróquia ultrapassam de longe um simples passeio turístico ao jeito das agências de viagens porque, reconhecem-no, há sempre uma dimensão cultural e espiritual como ponto de partida em cada proposta.

Não são os endinheirados que se inscrevem, nem é para os ricos que a Paróquia investe energias. É para os pobres, os que têm coração de pobre – desprendidos dos bens mas empenhados em gerir bem o que têm - considerando que é necessário investir na formação própria, em cultivar-se de maneira lúdica e em “entrar no passado” e na experiência dos povos que nos precederam para nos libertarmos das “amarras” do quotidiano que tantas vezes tornam a vida um fardo pesado, em vez de uma oportunidade feliz que Deus a todos oferece, pobres ou ricos. Um dia alguém destacou em público que “o Prior de Barcelos não organiza viagens só para ricos”, porque mesmo os de poucos recursos económicos têm capacidade para participar numa tarde cultural (pagando apenas o custo do autocarro), ou numa peregrinação de 4/5 dias, em que pode descobrir os tesouros que os nossos vizinhos espanhóis nos permitem apreciar (verdadeiramente Santo Agostinho tem razão: quem não viaja – e quem, podendo, não o faz, pelo que dará contas da cegueira espiritual disfarçada em desculpas que a ninguém convencem – vive fechado em si mesmo e torna-se um inferno para si e para os que o rodeiam.

Será ousado afirmar isto? Talvez. Mas trata-se de “um olhar outro”, necessariamente convidativo a alargar horizontes e a desafiar ao pôr-se em causa cada um a si próprio.

20 de Agosto de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXII

Revoltante. O que se passa com os incêndios assumiu proporções alarmantes, capazes de porem à prova a capacidade de tolerância de qualquer pessoa civilizada.

Não resisto a voltar a este tema. E decidi-o quando, no decorrer de uma viagem de estudo, todos os noticiários daquele dia, começavam com a situação dos incêndios. Analisados até à exaustão. E para o ouvinte atento, tornou-se um motivo de revolta. Porque tal realidade, à força de ser repetida, perdeu já a capacidade de impressionar e até de revoltar. Levanto, também eu, aqui, o meu grito de revolta.

E revolta acrescida pela «chicana política» do passa-culpas irresponsável, que atinge todos os governos e deputados nos últimos anos. Pois a «nobre arte da política» perdeu o pingo de vergonha que lhe restaria quando sabemos que, há décadas, se repete o mesmo cenário, as mesmas discussões, as mesmas promessas. Basta! Basta de incompetência política ou de corrupção em negócios que o erário público tem de suportar, isto é todos nós, que pagamos impostos e as despesas públicas: a destruição do nosso país recai sobre cada um de nós.

Há uma coisa que me revolta também: não se publicam os gastos contabilizados com cada incêndio. Sim, um acto tresloucado de alguém, que até tem prazer de ver as chamas a avançar e que uma simples sentença de comportamento inimputável faz recair sobre todos o crime de um só. E não se vêem os nossos políticos empenhados em rever as leis penais, em investir na prevenção à distância, que passa pela educação no respeito pela natureza.

Apesar de tanto se falar da ecologia, do respeito pela natureza - honra seja feita ao papa Francisco com a Laudato Si, uma encíclica com força de desafio a cientistas e políticos para que cuidem da casa comum eis-nos neste ciclo de destruição, ano a ano repetido e quase pré-programado: o que ardeu neste ano só estará pronto para arder daqui a uns tantos anos... sinal claro dos interesses ocultos, que se tornam cada vez mais evidentes, apesar de inimputáveis. Até quando teremos de assistir, impotentes, a tudo isto? Até quando se continuarão a gastar enormes quantias de um país depauperado, para «aturar» esta praga dos incêndios, ficando sempre uma dúvida no ar, quando não uma certeza, de que se trata de mão criminosa, já que a natureza não pode ser sempre o bode expiatório das incúrias humanas? Tanta investigação, tantos processos que chegam até aos juizes e poucos são os responsabilizados por tão grandes tragédias!

Desta vez, a morte de 64 pessoas - é indigna esta discussão entre forças políticas sobre o número de mortos, já que uma só morte seria mais que suficiente para incomodar políticos e políticas sobre os solos - fez tocar os sinos a rebate, levando os políticos a temer o lugar tremido que ocupam com muita incúria irresponsável, enquanto outros tudo fazem para esgrimir o tom das acusações, responsabilizando os governos de hoje e esquecendo as incúrias próprias de ontem.

Pobres bombeiros. Afinal é sobre eles que recai o ónus de todas as incúrias. Eles que, nestas alturas, tudo sacrificam: férias, família, compromissos pessoais. Eles são gente e não merecem apenas a nossa admiração e a simpatia de políticos (i)responsáveis.

Não faltam acusações e «quando se zangam as comadres sabem-se as verdades». Afinal, vai-se dando conta o cidadão comum de que, ao longo dos tempos, muitas decisões acerca do combate aos incêndios têm à mistura compadrios e benesses pessoais ou empresariais. Não será já tempo de contabilizar tais gastos? Enquanto os bombeiros se contabilizam por número de homens e de viaturas no combate, eis que das aeronaves não se sabe quanto custam em cada operação. Porquê?

O «inferno» de Pedrógão permanecerá na memória colectiva como terror e como sinal de incúria pública de décadas. Será que, finalmente, a consciência colectiva vai acordar e exigir dos nossos políticos as decisões de consenso que acautelem eficazmente o futuro da nossa reserva florestal?

É verdade que a floresta se recompõe. Que belo é ver que, às vezes um mês depois, a natureza renasce das cinzas negras e vai fazendo renascer a esperança com o verde que vence o negro. Sim, a natureza é esta força de vida, qual sinal de um Deus Criador a quem repugna a morte. Mas o luto, esse continuará por muito tempo. E oxalá a memória respeitosa e sufragante dos que pereceram não morra cedo em nós, nem mesmo quando para os políticos a tragédia se tornar «assunto encerrado».

6 de Agosto de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXXI

O bom senso, suposto nas pessoas de bem, gerou na sabedoria popular, o ditado «só se atiram pedras às árvores que dão fruto». De facto, a experiência confirma que «quem anda à chuva molha-se» e «só não é criticado quem nada faz» porque fazer é arriscar incompreensões por parte dos «pequenos», dos comodistas e daqueles que se julgam mandatados para pronunciarem a última e absoluta sentença sobre os acontecimentos mais diversificados. Dizemos também que o verdadeiro sábio é aquele que pondera, faz silêncio e pronuncia-se com humildade porque o seu «olhar» é sempre relativo e precário, necessitado de ser ajustado à realidade, que o tempo confirmará ou não, e de ser completado por outros diversificados olhares: «ver perfeito é ver completo».

Abunda a gente pequena. Infelizmente. E gente que se julga grande mas se cala diante dos gritos estridentes dos pequenos injustiçados. Quando têm o dever de ofício de não se calarem, tornam-se também muito pequenos.

Não me considero grande. Também não me considero pequeno. Sujeito-me humildemente aos juízos díspares de grandes e de pequenos. Claro que prefiro o juízo dos grandes: em sabedoria, em humildade, em compromisso com a causa pública. Com o juizo desses também eu avanço e me enriqueço.

A missão que ocupo obriga-me a ser ponderado nos juizos e afirmações que faço. Porque sei que a frontalidade, necessária, não precisa de se misturar com a arrogância ou desprezo vil das pessoas, porventura nossos adversários em pensamento. Até porque sabemos que quem toma posição sujeita-se inevitavelmente aos juizos a favor ou contra.

O sr. Professor Luís Manuel Cunha (LMC) insistiu recentemente em provocação, dizendo querer saber aquilo que há muito sabe. E leva-me a referir-me de novo a um assunto repetido.

Àqueles que me dizem que não devo responder pois «não posso querer obrigar a ver quem prefere viver de olhos fechados», eu respondo que a finalidade do meu «Olhar Outro» neste boletim Construir, dirigido prioritariamente aos crentes católicos de Barcelos, é de contribuir para um olhar crítico e fundamentado sobre a realidade, procurando superar aquilo que se vê à primeira vista. Logo, referir-me a LMC não é, para mim, perder tempo ou dar-lhe a importância que não tem. Curiosamente, desta vez, não houve viv’alma que me comentasse o escrito. Claro que, embora mais tarde do que é habitual, dei-me conta do mesmo. E LMC sabe que o leio. Como eu sei que ele me lê. Imagino mesmo que estará muito atento, semana a semana, ao que eu escrevo.

Pois bem, o meu primeiro comentário é este mesmo: já existo. Já existimos. Nós, os cristãos, ignorados pelo Jornal de Barcelos, nos acontecimentos relevantes em que também somos agentes na vida social e cultural, passamos a ser referidos. Pelo menos eu, que sou o Pároco, já mereço não ser ignorado. Se me reprovam - ninguém estranha que temos olhares diferentes sobre a mesma realidade, mas o pluralismo expresso com respeito é sempre um valor a preservar - é porque existo. E não estou quieto nem calado. Dou graças a Deus. Tem sido referido o silêncio que paira sobre a actividade assistencial da Igreja - já esquecemos os tempos da crise em que não faltaram vozes «civis» a reconhecer que a Igreja teve a resposta mais eficaz no terreno - diante do barulho enorme que se faz à volta das falhas de alguns dos seus membros. E isto acontece na generalidade do mundo ocidental, omitindo o que a história regista de uma presença eclesial no tecido da sociedade, como o maior contributo para a humanização da mesma. Hoje vivemos em tempos difíceis para os cristãos: é moda bater neles como se fossem os culpados dos desaires do nosso tempo. Haja justiça e bom senso. Quem ganha com a desconfiança promovida sobre o que é institucional? Não o povo certamente. Não será caso para se pedirem contas aos promotores e aos que subsidiam uma comunicação social que se afasta cada vez mais da proclamada isenção? Quando se ignoram os acontecimentos fazendo com que não existam ou não contem só pelo facto de serem promovidos pela Igreja, algo de muito grave acontece se tivermos em conta as lições da história sobre fundamentalismos religiosos ou políticos.

Um triste sinal dos nossos tempos é a intolerância dos que se julgam autorizados a vigiar o respeito pela tolerância. E os que mais discursam sobre a necessidade da tolerância são os que menos a vivem. São os novos ditadores disfarçados, aqueles que condenam o excessivo moralismo de outros tempos, atribuindo-o à Igreja, e que diante das consequências do amoralismo reinante ainda são capazes de repetir as mesmas acusações de outrora. Quanta hipocrisia tolerada quando deveria ser denunciada! E quanto excesso de leis inúteis porque esquecem o óbvio: cuidar do coração, ou seja de um agir pessoal, livre e responsável, pedindo contas do que se faz ou não faz, do que se diz ou se cala. A educação cívica reduziu-se a informação, sem capacidade para a gerirmos.

Dito isto, dou conhecimento público (ver no interior) de uma resposta escrita, face à insistência percebida do director do JB, também «desgostado» do meu aparente silêncio, mas nada interessado em dar conhecimento público da minha posição, ele que queria reivindicar um «pretenso direito» de intervir no boletim paroquial.

30 de Julho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXX

Dá pelo nome de Actuall. Basta ir à net e procurar actuall.com. Depois é só inscrever-se na newsletter diária, que chamam el brief e lá teremos acesso a muita e boa informação. Carregando-se em Brief e Conectar: a indicação do email é suficiente para este acesso diário e gratuito a este jornal digital, em língua castelhana, feito por jornalistas credenciados e empenhados na defesa de valores, testados ao longo de séculos pelas sociedades livres, nascidas e desenvolvidas em ambientes de matriz cristã.

Certamente estarão já a entender que é, para mim, de leitura diária. E o que tem este jornal de especial? Seriedade e rigor, coragem profética e fundamento sólido. Como qualquer obra humana, nem sempre se acerta: no pluralismo equilibrado, há também lugar para expor opiniões contrárias quando têm fundamentação suficiente.

Poucos são, nos tempos que correm, aqueles que têm a coragem da denúncia, tais são os riscos. É que «dá muito trabalho ser do contra, mesmo quando nos toca bem por dentro. Somos «medidos» quando olhamos para todos os lados a ver quem nos rodeia para dizermos o que nos apetece dizer. Diríamos: eis ao que chegámos com esta «liberdade sob controle» nas democracias ocidentais, regidas apenas pelo número de votos de uma qualquer maioria. De facto, nos tempos que correm, a liberdade é uma conquista cada vez mais cara. Tudo, desde a publicidade às leis dos parlamentos, parece atender apenas ao «politicamente correcto», ao seguidismo de um padrão de acção forjada, sabe-se lá por quem. E quem ousa optar por caminho diferente, ou está muito bem fundamentado e tem força moral para merecer que, ao menos, gastemos um pouco de tempo a avaliar tal diferença, ou muito rapidamente pode ser ridicularizado publicamente e, como tal, «morto« na opinião pública dominante.

Estamos, de facto, na «era do vazio» e numa desorientação grave quanto aos valores. A net é o «palco» de muitas vaidades. Como também é palco de enormes oportunidades - de si, é, de facto, uma maravilhosa técnica e arte do engenho humano, com as enormes facilidades de acesso e de proximidade aos bens culturais que lembram que «nem só de pão vive o homem» - temos, todos, de pagar o preço de investir no bom uso de meios tão poderosos. E quem investe na educação para o bom uso de tais meios? Saber discernir o que é bom, eficaz e aceitável é tarefa cada vez mais necessária e é trabalho pessoal, de que ninguém se pode dispensar. E quem não precisa de acreditar que o que vê, ouve ou lê, é verdadeiro? Mas quem nos dá garantia de fiabilidade?

Chega de razões para dizer que vale a pena seguir Actuall.com. Ali encontramos muito daquilo que os grandes média omitem. Ali os interesses traduzem-se em serviço à verdade, à pessoa, em fidelidade ao passado, em responsabilidade perante o futuro.

Eis alguns exemplos do que ali pude ler nos últimos dias:

1. Asia Bibi pedirá nova apreciação judicial do seu caso. Trata-se de uma cristã, na cadeia desde 2010, no Paquistão, por beber água de uma fonte durante a faina no campo, algo proibido pela lei islâmica, na crença de que a «impureza» de uma cristã contamina o manancial».

2. Charlie Grad, o bebé que o Tribunal de Londres quis deixar morrer, porque atingido de doença rara, «foi autorizado a viver nos USA. O Congresso concedeu autorização de residência permanente ao bebé de onze meses e a seus pais. É o mesmo bebé a quem o papa ofereceu tratamento na clínica do Vaticano.

3. A lei do aborto do Chile chegará ao tribunal Constitucional. Senadores e deputados da oposição traçaram uma estratégia para provarem a sua inconstitucionalidade.

4. Aumenta a mutilação genital feminina na Alemanha: de ano para ano, aumenta em 13 mil o número de crianças em risco.

5. Assim se aplica a sharia em Berlim: uma “polícia moral” e um “circuito jurídico” independente do Estado são alguns instrumentos que utilizam os islamitas para aplicar la lei muçulmana na capital alemã.

6. Pode ser-se político e católico sem sofrer perseguição? Vários casos mostram que volta a ser muito difícil conjugar política e cristianismo sem sofrer a perseguição mediática ou dos adversários.

7. Carta de uma mãe a sua filha adolescente grávida: «Onde estava eu?». rata-se de uma carta emotiva que circula pela net. Depois de se inteirar de que a sua filha estava grávida, uma mãe escreve-lhe uma carta a pedir perdão e a garantir-lhe todo o apoio.

23 de Julho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXIX

Ocorreu há dias a Festa de S. Bento, celebrada um pouco por todo o mundo cristão, tal foi a influência decisiva deste monge, patriarca dos monges do Ocidente.

A sua vida foi curta, apenas 67 anos, se compararmos com os nossos tempos, mas talvez longa se nos situarmos no seu tempo. Mas a sua obra, essa foi inquestionavelmente grande, mesmo própria de um gigante, no génio que aliava a organização e a oração. Conhecida de todos, a sua Regra traduz-se em duas simples palavras: Reza e Trabalha. Ora et Labora. Por trás dela está um dos seus princípios: «nada, absolutamente nada anteponham a Cristo». Assim, ele conseguiu, no seu tempo, tornar-se um luzeiro único, mestre a seguir, deixando, nos mosteiros que fundou e influenciou com a sua Regra, uma marca muito própria. Lembremo-nos que naquele tempo (ele nasceu em 480 e morreu em 547), como noutros, não faltaram ocasiões de vida fácil, que ele rejeitou, para se dedicar totalmente a uma vida de oração e de comunidade, dando aos monges que o rodeavam, um «estilo» de vida que chegou até nós, aliando trabalho e oração. Não faltam até aspectos lendários e relatos milagrosos a realçar a sua personalidade única. Bem o compreendeu o povo, que a ele se afeiçoou e, até aos dias hoje, o considera um santo de primeira importância. Os muitos mosteiros que fundou e influenciou tornaram-se, ao longo dos tempos, focos de irradiação de cultura e de espiritualidade, bem como centros promotores da actividade económica. Quem não recorda que foi à volta dos mosteiros que se desenvolveram formas de organização social, descobertas novas e melhores maneiras de sacar da terra os frutos necessários à vida? E ainda hoje é nas bibliotecas dos mosteiros que se conservam testemunhos únicos da vida dos séculos passados. Não admira, pois, que em 1964 o Papa Paulo VI, pela Carta Apostólica Pacis nuntius, de 24 de outubro, juntasse ao clássico título de Patriarca dos monges do Ocidente, um outro, o de Padroeiro da Europa. Bem digno seria S. Bento de um olhar retrospectivo por parte dos nossos políticos contemporâneos (eles que discutem no Palácio de seu nome) para fazerem justiça a este título, reconhecendo quanto lhe deve esta Europa que, ainda hoje no concerto das nações, ocupa um lugar único, o de pátria de valores, no seio da qual surgiu o conceito de Direitos Humanos, hoje protegidos pela generalidade dos códigos jurídicos. Quanto não se bateu o saudoso papa São João Paulo II, que morreu desgostoso por não se ter feito valer, no projecto de constituição europeia, as raízes do cristianismo como base da Europa de nações, que somos. Infelizmente ideologias ateias e forças laicistas impediram tal reconhecimento.

Não foi apenas a celebração da festa de S. Bento que me levou a reflectir sobre o que aqui exponho. Em recente passagem pelo sudoeste e sul de Espanha pude apreciar, com um grupo de colegas, a história de algumas cidades, todas elas marcadas pelo cristianismo e, sobretudo, pela acção dos mosteiros que lhes deram uma fisionomia, de que hoje se podem ufanar mas que muitos desprezam, distraídos do eseencial, desvalorizando a história e confiando apenas no presente, que se pretende apenas de barriga cheia. Muitos dos conventos, mosteiros e igrejas, quais focos de irradiação de espiritualidade a encher corações e a dar sentido transcendente à existência, estão hoje vazios, alguns foram destruídos ficando a penas a sua memória registada nos livros, outros estão em ruínas, tornando-se encargo para as presentes gerações, incapazes de conservar o que os antigos foram capazes de construir.

Há uma ameaça cada vez mais clara sobre os cristãos e as suas instituições. A cristianofobia é uma relaidade, por mais que alguns órgãos de comunicação social queiram ocultar. O Papa tem-no denunciado, até porque há muitos cristãos ameaçados de morte por causa da sua fé. E não se vêem os poderes públicos e as forças políticas indignar-se com actos que atentam contra a dignidade humana. Mas eles existem e entram-nos pela casa dentro. E com o reduzir do número dos cristãos, aliado às dificuldades crescentes de aparecerem na praça pública, de pleno direito e em igualdade de circunstâncias, corremos, todos, o risco de vermos o nosso património histórico degradar-se cada vez mais, porque pode haver dinheiro, mas os espaços de culto vazios não geram vida e a memória vai enfraquecendo. Não estaremos longe de, também entre nós, ter de se confiar ao Estado, ou às câmaras municipais, a conservação dos edifícios religiosos. E sabemos por experiência como o Estado cuida ou como se descuida.

Na vizinha Espanha respira-se um extremismo cada vez mais radical em relação à história religiosa e aos valores identitários fundados no cristianismo. Mas facilmente se percebe que a história de Espanha não se compreende sem a acção da Igreja, sempre ao lado do povo e empenhada com o mesmo nos momentos de crise. Claro que a Espanha é mais que a dos últimos cem anos. A acção dos reis católicos está presente em qualquer esquina, eles que deram unidade aos reinos, de modo a conseguirem expulsar os muçulmanos. Mal ou bem? Hoje dizemos que somos todos irmãos e a tolerância é um valor. De onde vem ele? Do Evangelho de Jesus Cristo, não o esqueçamos.

16 de Julho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXVIII

Dentro de dias será conhecido o Movimento Eclesiástico, atitude reservada ao Bispo da Diocese, que distribui os sacerdotes, confiando-lhes as paróquias e realidades ou instituições eclesiais. Felizmente que, no ano presente, a Arquidiocese de Braga é enriquecida com a chegada de seis novos sacerdotes, dois deles do Arciprestado de Barcelos, qual «sangue novo» que vem rejuvenescer o nosso presbitério servido por uma média etária avançada. E serão ordenados ainda quatro novos diáconos em celebrações enquadradas no «ouro» do jubileu sacerdotal do nosso Arcebispo.

O «Movimento» é um acto normal de gestão - a vida é dinâmica também para as instituições - que visa o ajuste à realidade: há sacerdotes que morrem, outros que se ordenam, uns que estão mais cansados e outros que sentem necessidade de parar por um certo tempo (actualização teológica e espiritual) e ainda outros que desejam desafiar-se a novas dimensões dentro do seu próprio ministério, o que é muito salutar, para o próprio e para as comunidades servidas. Vivemos num tempo em que todos os verdadeiros servidores do Povo de Deus são necessários, mais ainda quando se evolui num sentido de «dispensa» de Deus.

Pessoalmente gostaria de ver passos decisivos para um outro modo de ser Igreja conciliar em que o Povo de Deus seja mais responsabilizado na acção pastoral e mesmo nas decisões de ordem pastoral. Claro que é mais fácil dizê-lo do que fazê-lo. Se esbarramos nas dificuldades de gerir pessoas e de as tornar disponíveis para missões delicadas, caso dos sacerdotes, esbarramos também na deficiente consciência de responsabilidade dos nossos cristãos, mais propensos ao consumismo religioso do que a uma atitude de fé permanentemente comprometida. De facto, foi demasiado tempo em que se pensava e agia como se a Igreja se reduzisse à hierarquia («a Igreja são os padres», que decidem e fazem, enquanto os fiéis «obedeciam», passivos e felizes, comandados e descansados ). O que explica, em parte, o clericalismo e anti-clericalismo, que ainda há bem pouco tempo o Papa Francisco denunciou como nódoa negra na Igreja, reveladora não só do desconhecimento da sua verdadeira identidade (comprometidos em missão, que provém do Baptismo) como também causa do desencanto crescente que todos reconhecemos hoje. Essa nódoa coexiste com a «hipocrisia» de tantos que teimam em querer dizer-se membros da Igreja só e quando lhes convém, enquanto na vida se situam de fora, ao sabor das modas, atirando pedras aos de dentro.

A que temos nós assistido desde há décadas? A isto: diversas paróquias e outros serviços são «providos» quase automaticamente. Não temos padres em número suficiente, vaga uma paróquia, por morte do pároco ou por outras razões, e o bispo «entrega-a» ao pároco vizinho, que acaba por aceitá-la mesmo contra vontade e contra o bom senso, quando as suas condições de idade ou de saúde aconselham o contrário. E a verdade é que tal esquema tem funcionado para manter um «status quo»: responder a necessidades religiosas, cada vez mais reduzidas até com a compreensão do povo, mas, de modo algum, inovadoras face aos novos tempos. Assim, os padres fazem-se chegar... «esticam-se» e todas as paróquias têm pároco. E, quando não está presente, nem se discute porquê. «Está na outra paróquia...», mesmo que não esteja em nenhuma, porque a vida do padre não pode dispensar encontros e palestras com os colegas ou formação teológica e espiritual, que exige disponibilidade e até ausências da paróquia.

Os padres são poucos e não chegam, é verdade. Ouso dizer que, para o esquema pastoral tradicional, eles chegam e até sobram. Mas será que o «consumismo religioso» não terá os dias contados? A satisfação de pedidos ou necessidades de ordem religiosa não ocultará o essencial, que é ajudar na descoberta do verdadeiro Deus, fundamento para práticas religiosas libertadoras e comprometidas? Sabemos que tudo isto é muito complexo. Mas sabemos também que o Espírito Santo age na sua Igreja e, no tempo, já lá vão mais de 50 anos, lhe deu um abanão com o Concílio Vaticano II dizendo que «a Igreja é o Povo de Deus, povo de baptizados, que aprendem dia a dia a serem discípulos missionários». Porque necessidades religiosas até os pagãos têm e os agnósticos ou ateus não as dispensam, seja qual for o seu ou os seus deuses. E não estarão longe os tempos de os leigos, no reconhecimento das suas capacidades, assumirem muitos serviços, incluída a gestão de paróquias, outrora apenas na mãos dos padres. Não será para esse futuro que se orientam os diversos esquemas de formação em curso?

De modo algum advogo o «corte» com os costumes e tradições religiosas, que constituem um pouco a «identidade» das nossas paróquias. O que advogo é que não podemos deixar-nos ficar «absorvidos» por isso, esquecendo o compromisso com o futuro. A inteligência da fé, o compromisso eclesial não pode dispensar-nos de uma prioridade: a leitura dos ventos da história para uma nova evangelização, tão repetida que já se tornou velha, ainda que não a tenhamos verdadeiramente experimentado. Não será já tempo de pararmos para pensar?

9 de Julho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXVII

As fronteiras são ténues. A complexidade do ser humano explica que as atitudes religiosas andam por perto das atitudes supersticiosas. E sabemos que foi o cristianismo quem mais e melhor contribuiu para dar a todos um relacionamento com o divino ou transcendente marcado pela libertação do medo e pela valorização da atitude confiante. O Deus dos cristãos é um Deus próximo, Encarnado, que caminha lado a lado connosco e que «veio habitar no meio de nós». Esta proximidade convida à confiança, a ultrapassar medos e a viver «na liberdade dos filhos de Deus».

Os textos bíblicos testemunham como o ser humano carrega em si próprio uma propensão para o mistério, um anseio de transcendência, uma necessidade de Deus, confirmada pela experiência pessoal. Mas testemunha também a dificuldade de chegar ao Deus verdadeiro e libertador e a facilidade com que se deixa enganar pelos ídolos, que, às vezes sem se dar conta, o subjugam. Deus ou é Liberdade e Libertador ou então para que precisamos dele? Não andam alguns ingloriamente a tentar construir um mundo sem Deus, acabando por criar a sua própria religião, hoje chamada ateísmo ou laicismo?

Há uma mistura grande, nos crentes cristãos, de fé com superstição. O acto de Crer precisa de constante purificação. E não falta quem abuse da boa fé e da crendice fácil para fazer fortunas, explorando incautos e humilhando gente pobre e simples. Adivinhos, bruxas, cartomantes, tarólogas... aliados a seitas ou novos movimentos religiosos que pululam na sociedade actual, qual mercado religioso em que milagres e curas estão em saldo, são consequências da desorientação da cultura actual, do desencanto religioso e da pouca formação humana, apesar de tantos títulos universitários. Porque o ser humano é também mistério em confronto com o mistério de Deus, seu Criador. E há certas «dispensas» na cultura contemporânea que empobrecem cada vez mais o ser humano, deixando-o à mercê de abusadores sem escrúpulos. Por isso, eu próprio não me canso de apelar à formação de um espírito crítico e de uma prática religiosa cuidada e libertadora, em que cada um deve investir no conhecimento do seu próprio ser íntimo e do ser de Deus, conforme nos foi e continua a ser revelado na Bíblia e na Vida.

Há um ano atrás participei, com um grupo de sacerdotes, numa visita a Montalegre, guiada pelo P. António Lourenço Fontes, sacerdote bem conhecido e conotado com crendices e bruxarias, ele que foi e é a figura principal do «congresso de medicina popular», que já realizou trinta edições nos princípios de Setembro de cada ano. Já lá vão uns anos em que também lá fui, numa tarde de domingo, «espreitar» o tal Congresso e «cheirar» as ervas que «curam», bem como «penetrar» no mundo de tantos que se dizem «de poderes e de virtude». E fiquei com uma impressão negativa, tendo lamentado que um sacerdote fosse o responsável por tudo aquilo que eu interpretava como promoção da crendice popular.

Esta impressão foi «descalçada» quando tive a oportunidade de conversar, já no ano passado, com o P. Fontes. Afinal, ele não só não acredita nas «mézinhas», como faz tudo para se rir delas e as «descalçar». Só que fá-lo indo às raízes da cultura popular e, com conhecimentos de etnologia, bem como das propriedades de plantas que deram origem aos remédios naturais que os antigos utilizavam. E, neste particular, o P. Fontes é um mestre. Homem simples, mas profundo, inteligente e muito próximo dos sofrimentos alheios, ele humaniza e valoriza o humano situado no conjunto da criação, afinal o habitat natural onde cada um de nós, respeitando a criação, se pode encontrar consigo próprio e, confiado em Deus, fundamentar a esperança, que, na sociedade de consumo dos nossos tempos, se encontra ameaçada. E todos precisamos de esperança, de poder olhar o futuro com alegria e de sentir a paz que a boa harmonia entre vizinhos e irmãos consegue. E porque achei que poderia ser interessante dialogar com este homem, talvez aquele que, nas últimas décadas, mais contribuiu para o conhecimento e desenvolvimento do concelho de Montalegre que, como muitos do interior, se vê a braços com um processo de desertificação grave - que parece escapar apenas aos políticos da capital, conforme sério e bem fundamentado desabafo do presidente da câmara local, que nos recebeu com muita simpatia - é que propus que o passeio dos sacerdotes de Barcelos fosse para Montalegre. E lá fomos visitar toda uma região rica de tradições e de cultura, de que só acompanhados de um bom conhecedor da região, nos poderíamos dar conta.

Numa cavaqueira ao serão, após a célebre «queimada» que «esconjura» maus olhados e medos, apreciámos as palavras deste homem, tantas vezes solicitado para tratar de diabos que povoam as cabeças das pessoas: «como padres, gastai tempo a escutar as pessoas; elas precisam de falar do que lhes vai na alma. E o nosso ministério passa por ajudar as pessoas a confiarem mais em si e em Deus».

2 de Julho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXVI

É já parte integrante de um agir comunitário. Para alguns seria impensável não o realizar, enraizado que está no ser de alguns paroquianos. Para outros, mais críticos e mais responsáveis, mantém-se a questão, sempre a mesma questão: como levar ao coração de todos o «dever» de presença individual e familiar? Sobretudo, como «instalar» na consciência de um leigo responsável na Paróquia este «dever» de presença física, que obriga a estabelecer prioridades?

Refiro-me, certamente, ao Dia da Paróquia que celebrámos, uma vez mais, no passado domingo, 18 de Junho.

Projectado no início do ano pastoral e enquadrado na temática que se vive na Arquidiocese e no país, que celebra o Centenário das Aparições de Fátima, o Dia da Paróquia foi anunciado e dinamizado como «peregrinação» a um Santuário Mariano, escolhendo-se o da Senhora da Peneda, na Gavieira, Arcos de Valdevez, ali junto a Castro Laboreiro. Claro que, à distância, nada se garantia quanto às condições atmosféricas que se fariam sentir e que justificaram a desistência de alguns inscritos, pessoas de idade ou de saúde frágil, que não quiseram arriscar um dia de calor intenso, como estava previsto e como aconteceu. E foi o calor excessivo a causa da dor vivida quando íamos sabendo, pela comunicação social, o aumento do número de mortos na tragédia da noite em Pedrógão Grande. Impõe-se aqui uma palavra de solidariedade na dor com aquelas populações vítimas do incêndio - e da incúria dos homens ao longo dos anos -, de sufrágio por aqueles que faleceram e de gratidão e respeito por tantos e tantos bombeiros e bombeiras, que até arriscaram as suas próprias vidas para serem mais fortes que os incêndios.

É certo que a tragédia em nada afectou o normal desenvolvimento do Dia da Paróquia. Este decorreu conforme o que foi projectado.

Partimos às 8.00 em direcção à Peneda. Pelo caminho, em Valença, tomámos café. E eram tantos os autocarros... que tomei consciência de que em muitos domingos, sobretudo de primavera e verão, as «clareiras» nas igrejas têm alguma justificação. Será que o destino é também um Santuário e que a Missa faz parte do programa? Se assim for, há ainda uma vantagem: não faz mal nenhum, pelo contrário, conhecer como se vive a fé e se celebra o domingo em regiões diferentes.

A Eucaristia foi, de facto, o momento central do dia. Havia muita gente de outras comunidades, espanhóis inclusive, que enchiam o Santuário. A simpatia do seu capelão, P. César, que fez questão de nos vir saudar, foi digna de registo. A animação do canto coral, dos leitores e acólitos, deu o seu tom festivo e digno à celebração.

Não éramos muitos. Talvez umas 130 pessoas, que nos juntámos depois à mesa, preparada por uma excelente equipa de paroquianos que, ano a ano, se esmeram em preparar o apetitoso «arroz à Paróquia», bem regado pelo tinto e pelo branco fresco, nascido e crescido na Casa Clementina Rosa, e trabalhado ao longo do ano a pensar neste dia.

Merece aqui uma palavra de destaque toda a equipa que prepara o almoço. Noto que o fazem com gosto e que a equipa está adequada às necessidades. E que não faltam voluntários para ajudar. Noto também que muitas famílias já assumiram levar algo para partilhar: as sobremesas, frutas e bolos, exigem uma paragem mais longa ao final do dia, qual merenda/jantar abundante que ninguém dispensa. E não havia pressa pois a equipa tudo conjugou para que, mesmo com contratempos e imprevistos, não faltasse uma cadeira, o prato e o copo para todos. E aquelas sombras à beira rio em dia de muito sol... foram bem um dom de Deus muito oportuno.

No regresso, passámos no Barral, em S. João de Vila Chã, Ponte da Barca, onde terá aparecido também Nossa Senhora a um pastorinho de 10 anos, de nome Severino Alves, a 10 e 11 de Maio de 1917, precisamente nas vésperas das de Fátima. Ficámos a conhecer a história, muito bem explicitada por um jovem local, rezámos pela paz e evocámos a memória do Cónego Prof. Avelino de Jesus Costa que, dali natural, se tornou o grande impulsionador do Santuário da Senhora da Paz, precisamente no cinquentenário das aparições, em 1967.

O Dia da Paróquia foi oração, convívio e cultura. Como não pode deixar de ser. Aqueles que o viveram ficaram mais ricos. Oxalá muitos outros despertem para a sua importância e não encontrem argumentos fáceis para se dispensarem deste grande dia de Família Paroquial.

Uma última nota: o pedido de várias pessoas que, não sendo paroquianos, e em grande parte de parcas condições económicas, que se sentem da nossa casa e que, de ano para ano, fazem questão de dizer que esperam por este dia. É também em função deles que a Paróquia há muito decidiu que ofereceria o almoço a toda a gente. E isto já se tornou tradição a manter.

25 de Junho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXV

Não surpreende um certo desânimo nos nossos catequistas. E não só neles, mas em todos aqueles que, voluntários nas nossas paróquias, sentem cada vez mais o «peso da responsabilidade» num trabalho que só é possível quando motivado pelo amor a Jesus Cristo e à sua Igreja. De facto, que seria das nossas paróquias sem a colaboração, silenciosa e permanente, longe dos holofotes mediáticos mas de uma importância inquestionável, de tantos e tantas que, no dia a dia, procuram dar resposta a tantos compromissos e esperanças, vindos também dos não crentes e dos ditos não praticantes? E não uma resposta qualquer mas dada com convicção e com qualidade. Ao menos na intenção mais profunda, como um serviço ao jeito de Jesus.

Hoje quero olhar e ajudar a olhar de modo diferente para os nossos catequistas: foram, desde sempre, os primeiros colaboradores dos párocos, na sua missão de evangelizar. De facto, pode não haver muitos movimentos ou grupos numa Paróquia, mas a catequese da infância - a transmissão de valores e referências aos mais novos - essa nunca faltou e tornou-se «condição» da existência de uma Paróquia. Se esta se reúne à volta da mesa eucarística, não podem faltar as crianças, que são o futuro da comunidade.

Ao longo do ano, procuro estar próximo de todos os catequistas. E até passar pelos diversos grupos. Há sempre uma palavra oportuna e necessária como também sinto dever fazer sentir aos catequistas que não estão sós. É que deles também se exige, às vezes, demais. Procuramos que tenham formação adequada. Mas não ao ponto de se tornarem técnicos credenciados na transmissão da fé. Esta só se transmite adequadamente pelo testemunho de vida. Ninguém dá o que não tem.

Como até nas escolas acontece - o Estado forma e paga aos professores e até pode exigir deles o cumprimento de algumas regras - também na catequese surgem situações delicadas que é preciso resolver no respeito da criança, dos pais e dos colegas de grupo. E existem as crianças mais «difíceis», a exigirem cuidado especial. Como existem pais «exigentes» com muitos «direitos» sobre os catequistas. Apesar de, clara e determinadamente saberem que o Prior não permite qualquer falta de respeito para com os seus colaboradores e que acompanha pessoalmente o processo catequético. Numa Paróquia dinâmica, preocupada em dar respostas adequadas num tempo difícil para os cristãos, que vivem numa sociedade em processo rápido de secularização, é compreensível que alguns desanimem, outros alterem a sua envolvência na comunidade e outros até se afastem, cansados. Este «problema», nunca o esqueçamos, é um problema humano: temos de ser nós a resolvê-lo ou a minorá-lo. Mas não é só humano, porque a Igreja é conduzida pelo Espírito Santo. Claro que a experiência eclesial nos revela constantemente que as estratégias humanas são inúmeras vezes ultrapassadas. É que o «Espírito sopra onde quer». E nós não somos «patrões» na Igreja, antes servidores livres que encontram no serviço voluntário que prestam aos outros o seu «modo de ser» cristão.

Estamos no termo de um ano e outro está em programação. Os pais têm uma palavra a dizer. Sempre. Porque não vale a pena, nem a Igreja quer, fazer catequese em que os pais se põem de fora do processo. Quando isto acontece, todos perdemos. Aliás, podemos dizer que reside na falta de empenho dos pais, que pedem a catequese para os filhos, a grande causa do desânimo dos catequistas.

Preocupados com isto, os bispos portugueses reflectiram sobre o assunto e decidiram enveredar pela catequese familiar, ou seja uma nova (já não é tão novo pois várias experiências estão em curso em diversas paróquias do nosso país) maneira de fazer catequese. Esperamos que no próximo ano todos os que começam o processo catequético já beneficiem desta modalidade: ou seja, a catequese será para as crianças e para os seus pais, ou não dispensará estes de acompanharem os seus filhos no crescimento na fé.

Acrescentamos que tal já não é novidade entre nós. Já o experimentámos durante dois anos e fizemos a necessária avaliação. O reduzido número de crianças, bem como as situações familiares, levaram-nos a suspender o processo para o retomarmos em melhores condições. Parece estar a chegar a altura de o retomarmos. Por outro lado, a catequese de adultos - e é cada vez maior o número de adultos que a procura para fazerem uma descoberta pessoal de Jesus e da sua Igreja - é já uma feliz realidade na nossa paróquia. Quem não reconhece a dificuldade crescente dos pais cristãos, que querem educar os seus filhos na fé, mas sentem enormes dificuldades, não só oriundas das suas condições laborais e familiares mas também das novas solicitações próprias de uma geração com acesso a todos os meios técnicos e a viverem num mundo em que não conhecem obstáculos? Como responder-lhes às questões de sentido ou às perguntas sobre Deus? Se o meio ambiente lhes permite ao menos porem-se tais questões. Quando o «espaço» está totalmente ocupado, que resta para a «inteligência espiritual» e para fortalecer a vontade própria e livre?

18 de Junho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXIV

Passaram-se já três semanas da visita pastoral do senhor Arcebispo D. Jorge Ortiga à paróquia de Santa Maria Maior. Tempo suficiente para que, em grupo, pudéssemos fazer a avaliação da visita e dos vários momentos que a constituíram. Foi tarefa já realizada ao nível do Conselho Económico e do Secretariado Permanente do Conselho Pastoral.

Não se trata de dizer que foi positiva ou negativa. Não é nestas coordenadas que se move a Visita Pastoral a uma Paróquia. Certamente que é sempre positiva a presença do Pastor junto do seu rebanho. A questão de um «outro olhar» é, antes: aproveitou a Paróquia esta ocasião para crescer espiritual e pastoralmente? Claro que a resposta é sim. Embora me pareça que, dadas algumas circunstâncias situadas e dada a exiguidade do tempo disponível, que se poderia ter ido mais longe. Por exemplo, dou-me conta de que alguns sectores da comunidade quase não se aperceberam da hora importante que vivíamos, dado que a Visita Pastoral não é um acto de todos os dias. É sempre um momento único, que acontece mais ou menos de cinco em cinco anos e que pode - e deve - ser aproveitado para que os diversos grupos tomem consciência da pertença a um todo, que é a Paróquia. A verdade é que todos os grupos que se sentem e vivem como Paróquia foram convidados a manifestarem-se. Correu-se um risco e alguns apresentaram-se como da Paróquia, originando interrogações. Preferi tal «excesso» de abertura de portas confiando no Espírito que trabalha o «coração» também das estruturas. Mostrou-se ao Arcebispo uma Paróquia real, com anseios e esperanças, fragilidades e dificuldades.

Além dos actos mais «visíveis», outros houve mais discretos. As instituições civis foram visitadas e todas acolheram bem o senhor Arcebispo, destacando-se a dimensão de «pontífice», que o bispo desempenha na diocese. As «pontes» unem e a Igreja define-se pela construção de pontes, levando às relações humanas e institucionais a força do amor que une, no respeito pelas diferenças. Não faltou o contacto com idosos e doentes (no Hotel-Lar) ou a visita a um casal idoso retido em casa, nem a oração no cemitério junto da campa dos priores de Barcelos, nem o jantar com os sacerdotes que servem na Paróquia. Na visita que fez aos dois grupos de catequese de adultos, ficou claro que a catequese de adultos é uma feliz realidade na nossa paróquia, já lá vão muitos anos: não só o termo se tornou familiar como a formação cristã de adultos se impõe por si, sendo já procurada por vários cristãos de outras paróquias, sobretudo por aqueles que, não tendo ainda completado a iniciação cristã com o Crisma, a seguem semana a semana para um dia serem crismados. Claro que está por trás de tal procura o desejo de um dia poderem assumir o múnus de padrinho/madrinha de Baptismo. Também aqui dou graças a Deus pela caminhada difícil mas eficaz: quando procuram o Pároco para certificar a idoneidade, já é usual reconhecer a falta de Crisma como impedimento, a que se junta de imediato a manifestação da vontade de frequentar a catequese de adultos. Ou seja, já se reconhece que uma «exigência» tem sentido quando há uma resposta oferecida. É que no espaço de 12 anos foram crismados na nossa Paróquia cerca de 900 jovens e adultos. Logo... só não é crismado quem não quer porque a todos se dá oportunidade de formação para tal.

O último trabalho escrito pedido aos que se crismaram foi uma Carta ao Arcebispo. Tivemos ocasião de colocar nas mãos dele um volume encadernado com as cartas dos crismandos, a ele dirigidas.

Faz parte da Visita a «vigilância» sobre os arquivos da Paróquia, que conservam a «Memória». Pôde ele observar os livros de Assentos de Baptismos, Casamentos e Funerais, as Actas do Conselho Económico, do Conselho Pastoral e do Secretariado Permanente, bem como a evolução em números dos participantes na missa dominical, bem como da situação económico-financeira da Paróquia e da sua evolução nos últimos anos. O boletim Paroquial encadernado por anos, bem como os Programas Pastorais publicados ano a ano deram nota de objectividade ao que vai acontecendo em Barcelos.

Confesso que tive a intenção de aproveitar a ocasião para fazer o meu próprio exame de consciência sobre o «estado» da Paróquia. E nos encontros com os colaboradores mais directos referi-o várias vezes, de modo a que fique registado tal «estado» em 2017, como referência a comparar na próxima Visita Pastoral. Dir-me-ão que a Paróquia não é uma empresa e que dispensaria tal rigor. Não concordo. Porque não sendo uma empresa - refiro-o várias vezes - no seu funcionamento e na sua relação com o mundo a quem procura servir, deve fazê-lo com os meios humanos mais adequados. Se a improvisação pode indiciar confiança no Espírito, não deixa de indiciar também desleixo. Ora uma boa organização, livre e libertadora não condicionando a acção do Espírito Santo, também é necessária para a melhor e mais eficaz utilização dos meios de que dispomos para o anúncio feliz e libertador de Jesus, razão de ser da Paróquia.

11 de Junho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXIII

Tinha prometido retomar o assunto. E faço-o depois de encerrarmos o mês de Maria com uma procissão de velas, que nos trouxe à memória o que aconteceu há dois anos quando tivemos em Barcelos a Visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, em preparação do Centenário das Aparições que, agora, estamos a viver. Nessa altura, dei-me conta da «alma crente e mariana» do povo de Barcelos, que despertava de uma letargia fria e incómoda. As cinquenta mil pessoas dessa altura, naquela noite memorável de 12 de Junho, foi um «aviso» para nós, agentes de pastoral, não só para «despertarmos» nós para a tal realidade adormecida, como também para o cuidado a pôr em aproveitar o que existe para fazer avançar a Luz num meio cada vez mais laicista e hostil à vivência da fé. A religiosidade popular deve ser o ponto de partida, mas nunca o ponto de chegada. Este terá de visar sempre o encontro pessoal com Jesus Cristo e a sua mensagem, de modo a que os cristãos se sintam gente livre e feliz consigo próprios e interventivos na sociedade, como fermento na massa. Voltando ao «abanão» que o Papa Francisco nos deu em Fátima, não podemos ignorar o que já tinha acontecido com a primeira vinda do papa João Paulo II quando, em 1982, se referiu à religiosidade do povo português e desafiou os bispos e padres a trabalharem de modo diferente para uma evangelização eficaz. Disse ele: «Quanto mais observo a fé do vosso povo, sobretudo da gente simples, mais a admiro pelas raízes ancestrais que ela lança na alma dessa gente. Pela sua espontaneidade e singeleza, pelos gestos concretos que suscita e pelas atitudes que provoca nas relações com Deus e o seu Filho Jesus, com o sofrimento e com a própria morte, com as outras pessoas e com os acontecimentos, com o mundo presente e com o futuro. Por outro lado, vejo essa fé exposta ao perigo e até, como escreveu Paulo VI na Evangelii Nuntiandi, assediada por muitas forças corrosivas, ameaçada na sua integridade e até na sobrevivência; isso porque, em virtude de circunstâncias históricas, que não podemos analisar aqui, essa fé não é sempre tão sólida quanto espontânea, nem tão profunda quanto sincera. O vosso primeiro compromisso perante esta fé do vosso povo, é o de reconhecê-la e apreciá-la; de respeitar as suas manifestações autênticas; de defendê-la contra os fermentos que a põem em risco; de reforçá-la, libertando-a de eventuais elementos de crendice e superstição e dando-lhe mais conteúdo doutrinal. Numa palavra, é o compromisso de educa-la à luz da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja, de nutri-la com uma verdadeira catequese. Reconhecendo os esforços que tendes feito e estais a incrementar, exorto-vos a prosseguir na caminhada, sobretudo no que se refere a iniciativas relacionadas com a formação cristã dos jovens e dos adultos». E João Paulo II, que se dirigia aos bispos de então, acrescentou: «Com o esforço que tendes feito e continuareis a fazer, como mestres da fé, para torná-la nos vossos fiéis mais consciente e menos condicionada, mais arraigada e menos superficial, mais compromissiva e menos individualista, mais operante e menos intimista, estais a actuar não só em benefício deles, mas também em benefício da sociedade».

Recuámos no tempo, ao ano 1982, reconhecendo que, bem informado pelos relatórios dos bispos, o Papa interpretou com mestria a situação de então e alertou para a única via a seguir: respeito pela religiosidade do povo não é deixá-la «ao deus dará», mas intervir para a fundamentar na palavra de Deus e torná-la eficaz na vida pessoal e social.

Urge que nós, cristãos responsáveis de hoje, nos interroguemos sobre a situação actual dos católicos na sociedade: estaremos melhor ou pior que há 35 anos atrás? Os que dirão sim, que estamos melhores, terão certamente em conta tantas comunidades vivas, paróquias organizadas com a colaboração de muitos leigos. Elas existem, é verdade. Os que dirão que estamos piores, certamente terão em conta a debandada de tanta gente que outrora enchia as igrejas e que hoje se passaram para o mundo das seitas ou cultos esotéricos - que vendem uma felicidade barata e sem compromisso pessoal - ou que procuram encher os vazios da vida com actividades sempre mais barulhentas, tentando não reconhecer o coração vazio.

Que direi eu, perguntar-me-ão? E eu respondo: a Igreja está hoje melhor que ontem. Fez-se muito e bom trabalho para iluminar com a Palavra de Deus a prática religiosa tradicional. Foi o suficiente? Não. Penso que deveríamos ter feito muito mais. E esta deficiência, opino eu, explica porque é que a debandada de tantos, mais acentuada nas dioceses do norte de Portugal do que nas do sul, aumentou mais ainda nas últimas décadas. «Adormecidos» não quisemos ter a ousadia de «ler» os sinais e os acontecimentos passados pela Europa fora, que nos alertavam para o que viria a acontecer em Portugal. E ainda continuamos hoje muito adormecidos, repetindo «receitas» que já nada dizem aos nossos contemporâneos. Quando acordaremos?

4 de Junho de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXII

A propósito do Dia das Comunicações Sociais, que hoje celebramos, lembro a primeira missão que assumi, recém ordenado sacerdote, a de redactor do Diário do Minho, o jornal da nossa Arquidiocese, sempre presente a relatar os acontecimentos, cívicos, eclesiais e desportivos da nossa cidade de Barcelos. Da formação que então recebi, lembro o código deontológico dos jornalistas, que recomendava evitar juízos de valor, separando o acontecimento relatado e deixando aos leitores o juízo sobre os mesmos, reconhecendo-lhes inteligência e sabedoria capaz, respeitando-lhes um estatuto de adulto, sempre conveniente nas democracias ocidentais. Factos são factos, independentemente das «leituras» ou interpretações dos mesmos, sempre plurais.

A mensagem do Papa para este dia convida a destacar as notícias positivas, as notícias belas, sinal claro da atenção do Papa a um mundo mediático que, portentoso como é, corre o risco de nos fazer mergulhar numa crise de esperança, num cemitério de morte e de desgraça, a contradizer com o mundo bom e belo que saiu das mãos de Deus.

Se olharmos à nossa volta, não faltam profetas da desgraça a construir mundos de pântano, de terra queimada, de condenados ao fatalismo de um total sem remédio, de um juízo negativo e demolidor de pessoas e de instituições. Dos males de que padece Barcelos, um deles é a falta de um jornalismo (refiro-me à imprensa escrita) com ética, isento, imparcial, que separe o que é notícia daquilo que é comentário interpretativo. E que deixe ao leitor o «trabalho» de concluir.

Numa altura em que o Papa apela às notícias boas, Júlio Isidro, conhecido comunicador televisivo, convida a acreditar na inteligência do público e o bispo Pio Alves a «vencer a pressão reinante das más notícias», perguntamo-nos a quem aproveita tanto negativismo, reincidente e mal fundamentado?

Nas diversas mensagens papais tem-se apelado à formação do público leitor para saber «digerir» com inteligência aquilo que os media transmitem. Quem não tem experimentado que com meias verdades se fazem grandes mentiras? Não escondo que me refiro, entre outros, a um escrito recente de Paulo Vila em que, fundamentado em notícias publicadas - não têm por que serem ocultadas - deixa concluir, pelo menos ao leitor apressado que se fica pelos títulos, que a Paróquia de Barcelos sobrevive com os subsídios camarários. Ora nada mais falso. Quem passar além do título concluirá que todos os subsídios foram transparentes, fundamentados e votados por unanimidade pelas forças políticas que compõem o Executivo. Bastaria isto para dar razão àqueles que me aconselham a não dar importância ao assunto, até pelo parco impacte que a mesma notícia terá causado, a julgar pela posterior «ajuda» de Luís Manuel Cunha, no mesmo JB. Claro que não é de estranhar as leituras tendenciosas, bem situadas num tempo de um relativismo tal que o «pós-verdade» se impõe acriticamente como a verdade do momento. Há ideologias que, sem respeito pelo passado, querem impor-se como únicas, escondendo a força destruidora que carregam em si. Temos todos de aprender a ler os contrastes do nosso tempo, com inteligência e firmeza, reivindicando o mesmo direito à palavra publicada.

Sendo a Igreja Matriz de Barcelos classificada como Património do Estado, a este pertence cuidar da sua manutenção. Se a Paróquia, usufrutuária do edifício, não estivesse atenta e não a cuidasse, em pouco tempo ruiria. Porque o Estado há muito vai atrasando as intervenções, desde há anos, tem havido o diálogo necessário entre a Paróquia, o Município e a Direcção Regional da Cultura. E, nesta colaboração responsável se tem conseguido, pouco a pouco, fazer face à degradação de um edifício secular, o mais importante da cidade a justificar o turismo, que todos têm interesse em preservar e até desenvolver. E como poderá sobreviver o turismo sem se cuidar do património? A título de exemplo, aquando da última intervenção do Estado na cobertura da Igreja Matriz, aproveitando-se os andaimes montados, a Paróquia assumiu, em partes iguais com o Município, a despesa (60.000 euros) com toda a limpeza das paredes exteriores. Só desta vez foram 30.000 euros das esmolas dos cristãos de Barcelos... a acrescentar a muitas outras, ultrapassando os tais 165.500 de subsídios, que, só por si, a Paróquia assumiu para que a Igreja Matriz se mantenha hoje de pé, com dignidade para acolher a todos, crentes e não crentes.

Vivemos num tempo e num espaço, a nossa Europa, como um barco à deriva, sem saber para onde dirigir-se. O laicismo agressivo de há décadas impõe-se cada vez mais. E nem o fundamentalismo islâmico a faz acordar para os valores que estão nas suas raízes. E é pena. Também entre nós muitos não conseguem situar o fenómeno religioso inserindo-o no fenómeno humano. Julgam-no uma excrescência. Que pena! Afinal os fundamentalismos estão precisamente aí. Uma liberdade autêntica conduz ao diálogo sereno. Nunca à imposição de uma «leitura» por mais fundamentada que aparente ser.

         28 de Maio de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXXI

Todo o acontecimento Fátima, no centenário das aparições, com a presença do Papa e a canonização de Jacinta e Francisco, assumindo, pelos media, uma escala planetária, trouxe alegria e orgulho aos portugueses, desde o mais simples, fiel ou ateu, até à classe política e Governo. Não faltaram emoções nem lágrimas. Também a mim.

Confesso que fiquei muito confortado: pela atitude do papa, humilde e sábio, de pé diante da imagem de Nossa Senhora, Mãe da Humanidade («temos Mãe»), pela clareza das suas mensagens e pelo desafio, terno mas firme, que nos deixou. E destaco estas palavras que, na sua simplicidade, tocam a todos e se tornam um autêntico compêndio de teologia e um programa de acção pastoral: Peregrinos com Maria… Qual Maria? Uma ‘Mestra de vida espiritual’, a primeira que seguiu Cristo pelo caminho ‘estreito’ da cruz dando-nos o exemplo, ou então uma Senhora ‘inatingível’ e, consequentemente, inimitável? A ‘Bendita por ter acreditado’, sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas, ou então uma ‘Santinha’ a quem se recorre para obter favores a baixo preço?

Quando ouvi estas palavras senti uma alegria enorme. Porquê? Porque, dias antes, na bênção de um grupo de peregrinos a pé, exortei a todos dizendo que era mais fácil chegar a Fátima a pé do que trazer Fátima para a vida de todos os dias, a iluminar pelo Evangelho. Se tanta generosidade - ir a Fátima a pé custa mesmo - não transforma a vida por dentro tornando-nos mais santos ou imitadores de Maria na sua firmeza de fé junto à cruz de seu Filho, então que rasto deixa? Só nos pés magoados ou no coração orgulhoso pelas boas condições físicas?

Não é fácil chegar ao coração das pessoas sem as magoar e conseguir despertá-las para atitudes mais dignas como cristãos, discípulos de Jesus e devotos de Maria. Lembro a ousadia, depois de «passos» curtos, em catequese de adultos, para poder dizer: sou devoto de Nossa Senhora, rezo-Lhe todos os dias, até vou a Fátima a pé, mas... CREIO em Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo. E expliquei a regra da fé que me diz que, no crer em Jesus Cristo, está «que nasceu da Virgem Maria». Pois Maria é modelo de fé, não objecto de fé. É humana e não divina, no sentido de que percorreu os caminhos humanos ao encontro de Deus.

Dos vários comentários que, seguramente vão surgir durante muito tempo, um deles, o do bispo de Beja, apreciei: «Hoje a Virgem Maria ou está no trono dourado da Teologia ou no andor da religiosidade natural que dá voltas e mais voltas», alerta D. João Marcos.

E lembrei a vinda do Cardeal Lustiger, arcebispo de Paris, quando, nos anos noventa, presidiu a uma peregrinação em Fátima. Ele rezava a Nossa Senhora nestes termos (fui eu que lhe traduzi a homilia): Maria ensina-nos a viver da fé, ajuda-nos a manter firme o dom da fé neste mundo conturbado. Em conversa com ele, disse-me um dia que, ao contrário dos franceses, em que bispos e padres se insurgiram, na década de quarenta, contra a religiosidade popular para darem à prática religiosa uma dimensão mais reflexiva, o que redundou num cristianismo mais seco e frio, vós portugueses conservais o calor da fé e a vossa prática religiosa ainda vai enchendo as nossas igrejas vazias...

Sabemos como a Igreja sempre optou por respeito total pela religiosidade popular, pedindo que se actue a partir dela para a purificar e dar dimensão evangélica, capaz de se tornar testemunho. Mas, que vemos nós hoje? Tantas atitudes ou práticas indignas de filhos de Deus que apenas revelam que estamos longe do Deus Pai de Misericórdia que Jesus revelou. A tais práticas, apenas repetitivas e ditas tradicionais, falta-lhes conteúdo e compromisso pessoal e comunitário. Como aquelas que reduzem a imagem de Nossa Senhora a um mostruário das vaidades e do volume de carteira de algumas autointituladas comissões de festas que, dizem, são devotas de Nossa Senhora. Há dias, alguém mais atento e chocado com crendices supersticiosas, misturadas com atitudes ditas religiosas, perguntava-me: que fazeis vós, padres, diante de tal ridículo? Claro que lhe falei das dificuldades e tentativas frustradas. E de uma catequese de adultos que, semanalmente, se foi tornando um espaço aberto à reflexão sobre o que é a fé, autêntica e libertadora, como Jesus a proclamou. E pedi-lhe: escreva, denuncie, que isso nos ajuda na purificação de excessos.

De facto, a passagem do Papa Francisco, em tão pouco tempo, foi suficiente para nos deixar profundamente inquietos sobre a acção pastoral que as nossas paróquias desenvolvem. Ficar quieto e calado é pecado que brada aos céus.

Claro que terei de voltar ao assunto.

 21 de Maio de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXX

Três acontecimentos me sugerem o comentário de hoje:

1. As festas das cruzes terminaram e, com elas, foi-se o encontro humano, festivo e belo que elas proporcionaram. Foi-se também o barulho e veio a rotina diária que muitos já desejavam. Parece que vem por aí mais barulho, a pôr à prova a saúde pública e o direito ao descanso.

No coração das festas, esteve a Procissão das Cruzes, comentadas ao perto e ao longe, com destaque para os aspectos positivos, apesar de alguns negativos. Ouvi uns e outros e, como primeiro responsável pela Procissão, apreciada também por muitos outros que, em directo, a «gostaram» pela net. Dos negativos fica o registo para no ano próximo podermos corrigir. Dos positivos, fica-me a alegria de saber que muita gente já começa a ver com «outros olhos» este acto religioso e cívico que, realizado com «verdade», a todos nos honra como barcelenses. De facto, a todos tenho pedido uma apresentação digna a quem vai na procissão e a atitude de respeito a quem aprecia, de modo a que tal acto se revista da verdade que pretende dizer: a cultura de um povo, a sua religiosidade, o respeito pelo seu passado e o compromisso de empenho na harmonia social. Sei que nem todos os «olhares» seguem nesta linha. Numa sociedade plural, não há direito pequeno ou grande: todos devemos respeitar as diferenças e trabalhar pela inovação consensual. Quando as imagens seguiam em directo para todo o mundo, gerando união de todos os que, de algum modo, estão apegados à nossa terra, prestava-se um serviço: a saudade humaniza.

2. Um grupo de peregrinos de Barcelos foi a Fátima a pé. São já conhecidos e repetem-no todos os anos. Uma vez mais pediram a bênção do peregrino. Fizeram-no ao terminar a Missa no Senhor da Cruz. Tem sentido este momento, importante para eles e também para os que ficam. Insisti, desta vez com mais ênfase, na necessidade de pensarem a sua devoção a Nossa Senhora, expressa com um acto tão heróico e admirável. É que é mais fácil ir a Fátima a pé do que «fatimar» a vida, isto é «trazer Fátima» para a vida quotidiana.

3. E Fátima impôs-se ao mundo. E a Igreja, depois de muitas hesitações, acabou por compreender e aceitar que a santidade heróica também pode estar na inocência das crianças. E se isto não merece grande discussão, não se passa o mesmo com o fenómeno «Fátima» em si mesmo. Objecto das maiores discussões e debates, uns pró e outros contra, afinal, em que ficamos? Exactamente como estávamos: discutindo, como acontece há cem anos e continuará a acontecer. E parece mesmo que o povo de Deus se está «marimbando » para tais discussões: continuará com muita «fé» em Nossa Senhora.

Sobre tudo isto, e com clareza, direi que não espero muito das discussões acirradas dos últimos dias em que muitos articulistas quiseram, também eles, pronunciar-se. Certamente com toda a legitimidade. Mas falar com propriedade e sem animosidade do fenómeno religioso nunca foi fácil. Alguns ditos ateus primam pela honestidade, apresentando as suas ideias num respeito total e às vezes até com admiração por aqueles que acreditam. Outros não conseguem situar-se diante do mistério humano que a atitude religiosa revela: só condenam, manifestando uma ignorância confrangedora, apesar de um raciocínio que procura ser incontestável. Sentem-se tão iluminados que se julgam possuir a «última» verdade.

Quanto a mim, prefiro situar-me com espírito aberto mas crente. Sim, o meu crer não pode dispensar a minha razão. Mais ainda, o meu crer é iluminado por uma Palavra que me transcende. E daqui a minha insistência permanente em dotarmos a nossa prática religiosa tradicional de um olhar mais crítico, para evitarmos fundamentalismos que dão uma péssima imagem, nos nossos tempos, deste dom tão excelente que se chama fé. Sem a iluminação da Palavra de Deus facilmente surgem as mais aberrantes confusões entre o que é religioso e o que é supersticioso.

É certo que as «caricaturas» religiosas, que tantos comentaristas gostam de explorar são reais. E aceitar críticas impele a mudanças. E que a nossa prática religiosa precisa de evoluir já o Papa João Paulo II o denunciou na primeira visita, em 1982. Desde então para cá, que evolução houve nos cristãos portugueses? Não será verdade que, apesar de tanta informação e do acesso geral à cultura - também no campo da cultura religiosa - parece haver cada vez mais ignorância religiosa? Cada vez mais práticas supersticiosas? Entre crentes e não crentes?

Há comentários, artigos escritos e debates que temos todos, nós cristãos, de tomar bem a sério. Porque há comportamentos que são indignos de pessoas «atravessadas» pelo Evangelho libertador de Jesus.

 14 de Maio de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXIX

Éramos 53. Um grupo demasiado numeroso. A Rota Mariana, situada nos Pirinéus, lá entre a Espanha e a França, chamava por nós. Desde há anos que, numa atitude inteligente e oportuna, cinco santuários marianos se uniram de modo a propor um itinerário de peregrinação centrado na figura de Maria. Após uma longa viagem de cerca de mil quilómetros, lá chegámos a Torreciudad, um santuário recente e imponente, que vem dos anos setenta do século passado. Construído pelo Opus Dei, ostenta uma marca especial do fundador que, concretizando os seus belos pensamentos exarados no seu livro Caminho, quis construir algo belo e rico porque «Deus merece o melhor».

Admirámos a organização, a beleza e limpeza dos espaços, o ambiente acolhedor do Santuário, o serviço de confissões, o acolhimento aos peregrinos. E rezámos numa capela cujo conforto e carácter intimista aliviou o nosso evidente cansaço físico de uma noite de viagem.

Atravessados os Pirinéus, lá chegámos a França, um pouco sem palavras diante de tamanha beleza - o belo horrível da travessia das montanhas, onde o sol brilhava tornando mais luzidia a brancura da neve - e reconhecida preservação ecológica da natureza. E, assim, chegámos a Lourdes onde a oração se respira e a fraternidade se sente. A Missa Internacional na Basílica de Pio X - que pena me dá quando os organizadores de «excursões a Lourdes» levam os excursionistas a ver grutas e os privam de participar de uma missa de rara beleza, em que gestos, palavras e músicas não deixam ninguém indiferente. Atravessando de novo as montanhas, lá chegámos a Andorra. Também ali a Senhora de Meritxell, padroeira dos andorranos, que nutrem uma devoção filial de séculos à Mãe de Deus, permanecendo como força aglutinadora de todo o povo, como o demonstra a festa de 8 de Setembro, ao congregar todo o país com as suas instituições, nos acolhia para uma visita guiada pelo P. Albano Fraga, bem conhecido das gentes de Barcelos e que agora, nas suas andanças de missionário dos portugueses da diáspora, ali os tenta congregar e lembrar o sólio pátrio como o húmus de um conjunto de valores, que a Igreja local não quer perder.

De seguida, os Virolai e a Santa Cueva, em Monserrate, situada perto de Barcelona, continuava, para nós, o convite a subir: das montanhas que nos desafiam até ao Criador das mesmas, pela sacralidade daquele lugar. Claro que, desta vez, um desvio da Rota levava-nos até Barcelona. A Sagrada Família não nos passaria ao lado: o seu esplendor admirável e a muita luz que do alto atravessa aquela Basílica, idealizada por um génio na arquitectura e na fé, António Gaudi, deixou em todos nós o desejo de voltar quando a mesma estiver terminada, lá para 2016, como se crê, no ano centenário da morte (10 de Junho) de António Gaudi. Subimos ao Tibidabo. O esforço, talvez demasiado para alguns, valeu a pena. A história daquele Santuário, onde o Santíssimo Sacramento está exposto à adoração dos fiéis dia e noite, 365 dias por ano, reporta-se aos anos da revolução industrial e do crescimento da cidade de Barcelona, impondo-se ao ateísmo da altura a força da fé de um santo, S. João Bosco. O seu nome traz-nos à memória a vaidade ilusória do demónio, segundo os relatos evangélicos, que daria a Jesus todos os reinos da terra se Ele se prostrasse de joelhos diante dele. E a verdade é que o Tibidabo sobranceiro a Barcelona se impõe mesmo ainda hoje sobre todas as fanfarronices diabólicas dos nossos tempos quando, naquela capela de adoração, os peregrinos, cansados da subida, «descansam» a alma no «consultório psiquiátrico», como lhe chamou o P. António, que nos acolheu e nos fez «descansar» também na contemplação do mistério eucarístico. Como é possível que, diante de um laicismo cada vez mais aguerrido, que tenta irradiar Deus da vida social, estas «Presenças» de Deus se mantenham com milhares de «vigilantes», os adoradores do verdadeiro Deus no mistério eucarístico, ali em Barcelona como no Sacré Coeur em Paris?

Claro que chegámos ainda a El Pilar em Zaragoza para admirarmos a «pilarica », tão arreigada nos corações dos aragoneses.

No regresso tivemos ainda tempo para apreciar a rica história de Burgos na magnífica Catedral.

Peregrinar também é cultura. E que restará desta se lhe retirarmos o património religioso? Nunca faltaram olhares mesquinhos, incapazes de perceber a história no que ela exibe de mistério do coração humano. Mas, damos graças a Deus por tanta gente heróica que resiste e não deixa cair os braços diante dos censores do nosso tempo, que compreendem a liberdade apenas para si próprios.

7 de Maio de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXVIII

A Visita Pascal, como tradição religiosa de impacto social, tem resistido à propalada crise que envolve as manifestações religiosas. E, onde não existe, não faltam sinais de a recuperar ou de a instituir. De facto, desde que a mesma passou a ser presidida por leigos - dada a impossibilidade dos párocos, pelo menos quando se exige, na maioria dos casos, tempo e forças físicas capazes - a mesma ganhou em sentido, em participação e em envolvência da comunidade. Tratando-se de divulgar uma boa notícia, a de que Cristo venceu a morte, ninguém melhor que crianças e jovens, rapazes e raparigas para o fazerem. Sem que tal ponha em causa a presença do pároco, que mandata a equipa. Afinal, não é o Baptismo que gera para a missão do testemunho cristão? E não foram as mulheres as primeiras a ser convidadas a levar a notícia da ressurreição do Senhor? Felizmente que, na grande maioria das paróquias deste Minho religioso, ninguém já exige que seja o pároco, às vezes já velhinho e doente, a presidir ao Compasso. Com várias equipas organizadas até sob a responsabilidade de leigos, como é o nosso caso, o Compasso sai para a rua durante toda a tarde de domingo: o tom de festa é evidente, quer na apresentação colorida dos que o compõem, quer nos cânticos festivos com que se entra em todas as casas que se lhes abram, quer nos «verdes» e flores com que se assinalam as entradas das casas que desejam a Visita Pascal.

Neste ano não houve excepção. A excepção, a ter existido, foi que tudo correu ainda melhor, com mais entusiasmo e mais participação nas equipas, onde predominava a juventude. E quando assim é, não se pode temer pelo futuro.

Aliás, foi essa a nota destacada, precisamente na visita ao Município. Aquela sala nobre, onde habitualmente se discutem as políticas para o bem de todos, estava cheia de gente. E, nesta, crianças e jovens, com uma maneira de estar muito própria a celebrar um acontecimento único, transmitiram a todos uma nota de alegria e de paz muito sinceras, que não passou despercebida.

Os nossos discursos quanto ao futuro aparecem marcados pelo desânimo e pelo negativo. E não faltam razões objectivas para temermos o futuro. Mas se isto é verdade, não menos verdade é que há sinais de uma nova geração aberta a outros valores, que não apenas o do consumismo materialista, que caracteriza a sociedade contemporânea e lhe «mata a alma». E entre estas duas visões contrastantes, o cristão e a Igreja não podem senão privilegiar o optimismo no olhar o futuro. E porquê? Basta ler a história para se perceber como a força do Ressuscitado se impôs mesmo nas cinzas de tantos momentos cruciais na história da Humanidade. De facto, o Cristo da Cruz gerou o desaire total naqueles que O seguiram e aprenderam d’Ele. Mas o Cristo da Cruz venceu a morte e, a partir d’Ele, não mais as razões da morte se podem tornar definitivas. E a história do Cristianismo está aí para o comprovar. Ora é precisamente essa força de Vida sobre a Morte que o Compasso Pascal anuncia.

Foi gratificante ver como aqueles que compõem as equipas reconhecem que se trata de um esforço gratificante. A ponto de dizerem «para o ano conte comigo». E até de já «meterem uma cunha» para que o amigo, que até pode não estar na catequese, possa ir também no próximo ano. Como também foi bom encontrar jovens um pouco alheados da vida paroquial a perguntarem como é que se pode entrar nas equipas. O que me leva a esperar que, no próximo ano, sejam as equipas ainda mais jovens, mais alegres e mais desejadas nas famílias de Barcelos.

De destacar que começam a surgir, em todas as equipas, elementos capazes de animar com cânticos pascais, entrando em todas as casas a cantar. Que bom! Como também já surgem famílias que recebem o Compasso em festa, até com instrumentos musicais. E onde não falta a Bíblia em lugar de destaque e o «leitor» da casa preparado para ler o texto indicado.

O bom acolhimento das equipas do Compasso foi a nota repetida, no momento de balanço já costumado. Como pároco, a todos, equipas e famílias, eu agradeço.

Por último, diante de um doente internado no nosso hospital, foi bom ouvir, eu e os que me acompanhavam, com destaque para o sr. Presidente do Conselho de Administração, que «este dia de Páscoa foi diferente para mim. E estou a vivê-lo ‘por dentro’. O estar aqui neste dia para mim é um presente de Deus. Como andava ‘afastado’, estes dias têm-me feito pensar. Deus tocou-me...». Diante disto, apenas fiz silêncio e louvei o Ressuscitado.

30 de Abril de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXVII

É sempre belo, profundo e sério o tempo da Quaresma. Mas também muito intenso: porque exige conversão dá trabalho e nem todos o desejam ou aproveitam. Como tempo «diferente», ele serve para «abanar as consciências», despertar os adormecidos na vida, urgindo para o hoje o que «tem sempre tempo...».

Não faltaram eventos sociais de cariz religioso a dar um carácter sacro ao tempo. Nem faltaram as procissões e vias sacras pelas ruas. De facto, a nossa história deixou marcas profundas que, numa sociedade que se ufana de um laicismo tomado como progresso, não desaparecem nem por decreto, nem pela desafeição do religioso que leva muitos a afastarem-se das igrejas.

Não faltaram também eventos religiosos que ultrapassaram de longe a repetição de tradições e costumes. São muitas, graças a Deus, as paróquias que prestam um serviço de qualidade e que congregam muitos jovens e adultos empenhados na vivência de uma fé autêntica. É verdade que não ocupam as primeiras páginas dos jornais, se é que ocupam alguma, mesmo no interior. Mas não deixam de ser reais, mesmo que não despertem o interesse dos media. Devemos evitar as conclusões apressadas quando, não constando em certa comunicação social, pensamos que não existem. Nada de preconceitos: é preciso justificar com um ver mais abrangente, até porque há hoje um acesso às notícias facilitado pela existência de diversos meios ao alcance de todos. A net parece não «filtrar», pelo que é preciso coragem e trabalho para um discernimento sério.

Entre nós, Paróquia de Barcelos, a Quaresma ficou marcada por uma caminhada seguida por 60/70 pessoas que, às quintas-feiras na Igreja Matriz, meditava os textos dominicais, apreendia o seu sentido e saboreava o ideal para onde Jesus continua a atrair.

Era por isso expectável que a Semana Santa tivesse sabor diferente, cheirando a autenticidade. Foi notório que a qualidade celebrativa foi outra e também o número de participantes aumentou, sobretudo no Tríduo Pascal, os dias que qualquer católico considera como únicos e não se pode dispensar de participar.

A coroar o Tríduo Pascal, a Vigília, que durou mais de duas horas, e incluiu o baptizado de duas meninas, gémeas de 10 anos, fez acordar para o verdadeiro sentido da Páscoa que, infelizmente muitos não quiseram ainda entender. Cerimónia única, bela e participada por todos, a Vigília Pascal é ocasião única para se entender o que Deus quer, ainda hoje, para a Humanidade que somos. Os textos litúrgicos ajudam-nos a ver o sentido da História, que se repete mas num crescendo de novidade, de que muitos já se vão apercebendo.

No hoje da vida dos cristãos, a missa dominical nunca poderá ser dispensada. Sim, a verdadeira, que nos permite o encontro alegre e festivo uns com os outros na mesma sintonia de louvor. Dispensam-se, isso sim, aquelas celebrações ditas chatas, não preparadas mas apenas para «cumprir preceito». Mas já repararam que estas, se existem ainda, é porque não as queremos mudar? Todos e não só o padre. Pois se há missas a mais, elas perderão em qualidade pelo desinteresse em dar-lhes qualidade e beleza. Se nestas investirmos, todos, elas deixarão de ser «chatas» para serem desejadas. Quando se entra na igreja já enfadado, que se pode esperar? Quem dera que os cristãos se deixassem despertar para o valor da missa dominical e, empenhando-se, se tornassem comunidades vivas! Até porque os cultos evangélicos da moda privilegiam o espectáculo em vez do silêncio contemplativo. Mas, em si mesma, a missa como ritual de culto católico, com imensas possibilidades de se lhe dar vida, é a cerimónia mais bela que se conhece e com força capaz de criar um sentimento feliz num louvor festivo àquele que deu a vida por nós.

O que se diz da missa dominical diz-se também do Baptismo. Uma grande ignorância «matou» a beleza de uma celebração e pôs em perigo a sua riqueza teológica. Mas quando se pensa bem na transformação que se opera num baptizando, sobretudo quando o próprio entende, como foi o caso, eis que tudo é diferente. Não será já tempo de acabarmos com os baptizados apressados já que, não preparados, se ficam pela dimensão mágica, se não supersticiosa? Qe sentido tem fazer entrar uma criança num corpo sem vida porque quem o pede não vive entusiasmo nem reconhece vida em tal corpo? A criança merece respeito. E pode e deve ser ocasião propícia para que os pais se reencontrem na fé, que querem para o seu filho.

23 de Abril de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXVI

Vem aí a Festa das Cruzes. Ano após ano a cidade veste-se de festa para receber milhares de visitantes. É o espaço privilegiado do encontro entre pessoas e famílias que, de perto e de longe, vêm ao Senhor da Cruz de Barcelos.

Muita gente trabalhou para construir um programa de festas e muita trabalhará para o executar, seja na preparação, no acompanhamento e também no «desfazer» de estruturas provisórias para dar lugar ao comum de cada dia. Seres humanos que somos, não podemos viver sem festa. Ela é a necessária expressão de alegria e de esperança, que se sobrepõem às agruras do quotidiano, e de anseio de «libertação» daquilo que nos oprime. É também tempo de excepção (e até de excesso tolerado), pois sabe bem sair da rotina do quotidiano e «entrar» no misterioso do desconhecido, do inédito, do excesso. Dizem-me que alguns barcelenses aproveitam a ocasião para umas férias, ausentando-se da cidade. Terão certamente as suas razões respeitáveis, como o excesso de ruído, que alguns têm dificuldade em suportar. No entanto, ainda prefiro que permaneçam, pois se há quem nos visite, pertence-nos a nós cuidar de acolher quem vem. Porque a festa deve ser sempre encontro de pessoas e não fuga umas das outras. Sendo assim, bem gostaria de deixar algumas notas sobre o bom acolhimento a quem nos visita. Uma atitude de civismo, de bom tom que a todos enobrece e que, por isso mesmo, não pode ser deixada ao cuidado exclusivo seja das autoridades municipais, das equipas que organizam a festa, das autoridades policiais ou dos responsáveis pelo movimento associativo.

Receber bem diz dignidade no trato, sorriso franco e aberto, sem desconfianças, afabilidade perante os estranhos visitantes, orgulho sincero de pertença a Barcelos e da nossa história de muitos séculos, marcada pela centralidade do templo do Senhor da Cruz, situado na «sala de visitas» da cidade, e da Igreja Matriz, os dois monumentos que mais «chamam» as pessoas a visitar Barcelos. Receber bem é também dignificar os espaços de acolhimento, preservar de ruídos exagerados os espaços de culto visitados, que o deveriam ser durante todo o ano, pois que constituíram durante séculos os lugares privilegiados do encontro com Deus e uns com os outros. De facto, os espaços de culto centenários tornam-se testemunhas credíveis de um tempo efémero para todos: muitos os apreciaram mas já morreram e eles continuam de pé. Merecem, por isso, que todos os cuidemos como património carregado de história a lembrar-nos que os que nos precederam construíram para nós. Num tempo em que se concentram indústrias ruidosas fora dos aglomerados populacionais nada justifica trazer para o centro da cidade actividades ruidosas, a complicar outras actividades, o descanso das pessoas, o turismo e a prática religiosa.

Da minha parte, quando presido a uma Comissão que prepara a Procissão das Cruzes, ou a Missa solene no templo, que memoriza um acontecimento relevante da cidade, em 20 de Dezembro de 1504, a todos peço o cuidado de bem prepararmos os actos religiosos, para que eles sejam «verdadeiros» e não apenas rituais repetitivos feitos «de qualquer maneira» porque «para quem é tudo serve». Não pode ser assim: cada pessoa que nos visita merece atenção e respeito. O que se vê na maneira como programamos e como levamos a efeito o programa. Este «recado» é para todos, a começar por mim. Quando convido a integrar a procissão, a todos peço uma digna apresentação, uma postura discreta (não espampanante ou espalhafatosa) durante a procissão. Como apelo também a quem a aprecia ao lado: que acolham a mensagem dos quadros apresentados, que se deixem «envolver» pelas cruzes representativas das 89 paróquias do arciprestado, que se revejam na «sua», o que implica a pertença e identificação com a comunidade paroquial. Destoa de um acto cívico/religioso como é a procissão das cruzes o atravessá-la sem necessidade urgente e o falar em tom elevado porque a procissão «provoca» o interior enquanto facilita o apreço de uma realidade social que nos pertence. Há dias, visitando duas cidades da Galiza, perguntava eu onde se encontravam os sanitários públicos, para que as pessoas em grupo possam satisfazer as suas necessidades. E fiquei «chocado» com a sua inexistência. «Só nos cafés », diziam-me. Não deixei de retorquir nos serviços de Turismo: «Se querem que os turistas venham... Criem o mínimo de condições». E pedi que o recado chegasse ao Ayuntamiento. Claro que pensei, de imediato na nossa cidade de Barcelos. É que grupos de pessoas, às vezes em dezenas de autocarros como tem acontecido, não podem «entupir» um café, só preparado para uso individual. Às vezes são pequenas coisas, nem sequer muito onerosas, que marcam a diferença. E como estamos em tempos de promoção turística, há aspectos que não nos podem passar ao lado.

16 de Abril de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXV

As nossas ruas e praças tornaram-se palcos da paixão de Cristo. Por entre vilas e aldeias, não faltaram procissões, vias sacras, encenações. A maioria corresponde a tradições cujos primórdios se perdem nos tempos, mas não faltam também criações recentes. Pessoas há que, sabendo de cor as datas dos eventos - sempre na mesma altura do calendário litúrgico - a elas acorrem por devoção ou mesmo por obrigação que se impõem a si próprios. Bem ou mal? Porque haveríamos de perder tempo com tal discussão, quando se trata de decisões livres, profundamente humanas e até manifestadoras da riqueza e diversidade do espírito criativo, mesmo que se desvie, por vezes, da interpretação correcta do relato evangélico?

Quando leio o jornal de todos os dias, abundam tais notícias «religiosas» - não falo dos jornais de Barcelos - no meio de tantas outras de «desgraças» e de «graças», ao exprimirem a vida dos povos, «agitada quanto baste» para dar à luz eventos belos, carregados de força de união e tornando-se marcas de um povo que não desiste, mas continua a acreditar na força da ressurreição.

A julgar pelas multidões concentradas nas procissões de passos seremos tentados a dizer que a religião não está em crise. E eu concordo: não é a religião que está em crise, somos nós, profundamente religiosos, que estamos em crise. Porque nos contentamos com os ritos exteriores e passageiros, que não chegam de verdade ao coração para transformarem as nossas vidas. Sim, o que está em crise, no nosso tempo, é a capacidade de sermos, de facto, gente livre, libertada, que pensa pela própria cabeça e que até discute sobre Deus porque honestamente tenta penetrar no âmago do mistério da condição humana. Porque quando se pretende saber quem é o ser humano, inevitavelmente vamos chegar à questão: quem é Deus se existe?

O ritualismo religioso é comum a todos os povos. Não se pode viver sem ritos. Porque somos envolvidos pelo mistério. Mesmo os que dizem não crer em Deus, - no contexto da dificuldade comum a todos de dizer tanto a sua existência como a sua não existência, - criam os seus rituais, diários ou semanais, sacrificando-se a deuses que se inventaram para substituírem o verdadeiro Deus.

Será que estas manifestações religiosas, em si legítimas e sinceras, serão verdadeiras? Isto é, correspondem significado e significante? Se se trata de rituais cristãos, levam-nos eles ao encontro com a Pessoa de Cristo? Está aqui o sentido do que é «verdadeiro». Jesus é a Verdade. A minha relação com Ele deve ser o arranque da verdade da minha vida. Se assim não for, as manifestações religiosas evoluem no tempo resvalando até para o ridículo, necessitando de um processo de purificação, difícil e moroso porque se trata de «ir ao coração e converter-se». O que nunca foi fácil para ninguém.

Num processo claro e rápido de laicização da sociedade, a origem dos rituais fica mais longínqua do coração das pessoas. Fazemos os rituais sem sabermos porquê e para quê mas fazemo-los. Logo, eles vão perdendo força e significado, tolerados apenas porque se tornaram tradição e cultura e fica-nos bem respeitar o passado. Só que, os nossos antepassados no-los transmitiram carregados de vida. Hoje, porque se abandonou a prática religiosa, o seu berço natural, e nos convenceram que se pode viver sem Deus, julgando-o supérfluo, tais rituais tornam-se mentirosos porque não tocam na vida de cada um. Até quando durarão eles? Talvez enquanto não faltar o dinheiro que eles implicam.

Numa sociedade de consumo, os próprios rituais religiosos têm o seu enquadramento. Não é verdade que, sobretudo no nosso país, se está a acordar para o potencial que constitui o turismo religioso? E que os agentes turísticos o exploram, certamente por razões comerciais, não podemos estranhar, nem lhes pertence a eles intervir para a «verdade» dos rituais. Mas nós, os cristãos, sim: não só conhecer-lhes a origem e o porquê de se manterem e repetirem hoje, mas também e sobretudo para nos comprometermos com o próprio Jesus.

Não deixa de ser interpelador das nossas consciências o que se adivinha para esta Semana dita Maior ou Santa, particularmente no Tríduo Pascal. Se a fé cristã assenta na morte vencida de Alguém, que, ao ressuscitar, nos deixa garantida a nossa própria glorificação final e dado que os rituais pretendem trazer ao hoje o que aconteceu no passado, é de esperar que as igrejas se encham para «sentir» o acontecimento celebrado. E é verdade que hoje temos imensas celebrações cuidadas. Pois bem, apesar de reconhecer que ultimamente tem crescido a consciência da importância do Tríduo Pascal, que se manifesta no número crescente de participantes, é bem provável assistirmos a multidões na rua a ver as procissões da Semana Santa, mas alheios ao que verdadeiramente elas exprimem. Ficam-se na dimensão do espectáculo que, mesmo religioso, não arreda do lúdico porque a vontade não leva do observado com os olhos ao coração do Celebrado, Jesus. E, apesar de tudo, dou graças a Deus ao ver um grupo cada vez mais numeroso a investir na descoberta de Deus, que traz felicidade verdadeira ao coração humano.

9 de Abril de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXIV

Ninguém ficou nem ninguém pôde ficar indiferente. Pelas piores razões, Barcelos foi notícia, que ocupou toda a última semana e que poderá vir a alimentar, por muito tempo ainda, debates e devassas, muito ao gosto de certa comunicação social.

Há um crime, ou vários, e apenas um criminoso. Um só?

Esta interrogação bem pode exprimir muitas outras que surgiram na avaliação dolorosa do acontecimento. Numa abordagem «outra», que procura ver para além das primeiras impressões, é natural chegarmos às «questões de sentido», sempre inevitáveis mas ignoradas pela cultura de morte e do sem sentido que caracteriza os nossos tempos. O porquê destes crimes conduz a uma outra questão, que ouvi a alguns crentes, a tal de sempre que carregamos, numa resposta que tarda e tardará sempre, porque envolve o mistério da própria existência. Esta, com Deus, diz-se assim: «onde estavas Tu naquela hora para permitires tal horror?». Sem Deus, nem se chega a pôr a questão. Ficamos sozinhos com a nossa revolta diante de uma existência sem sentido, caída no absurdo.

1. Bem cedo - contra todos os princípios da presunção de inocência e de cautela antes de um julgamento justo - nos habituamos a tratar como «monstro» o Adelino Briote. Tem nome. Tem dignidade, mesmo que não mereça que lha reconheçamos. O seu crime é hediondo. Não só se julgou «deus», senhor da vida dos outros. Matou quatro/cinco de facto, mas matou muitos milhares que sentiram o crime e o viveram, tentando conter a revolta interior e a tentação de vingança. O que seria dar continuidade da pior maneira à vingança que se diz que Briote exercera. De facto, a vingança gera vingança e a violência gera mais violência, numa espiral incontrolável. Nós, os cristãos, sabemos bem que trairíamos a nossa fé enveredando por tal caminho: só o amor que perdoa é capaz de reabilitar ofensor e ofendidos.

2. Nada pode justificar tal violência assassina, porque as perdas de vidas são irreparáveis. E com as vítimas encontramos muitas outras, familiares e amigos, para quem a dor vai persistir durante muito tempo com marcas profundas que não se apagarão facilmente da memória. Com eles, com a comunidade, paróquia e freguesia, estamos todos envolvidos, chorosos, solidários, talvez já em silêncio porque as palavras já se esgotaram. Oxalá não nos deixemos envolver em instintos primários de vingança; ao contrário, humildemente reconheceremos que todos falhamos quando um membro desta nossa Humanidade é capaz de alimentar um instinto de vingança, que nos leva, a ele e a nós como parte da Humanidade, ao nível da barbárie, do animalesco, da bestialidade. Somos humanos e, pela fé, dizemo-nos divinos. Ou seja, o nosso horizonte é de elevação, não de humilhação. Somos do céu, não da terra.

3. A compreensível revolta pode trair-nos: em vez de olharmos mais para as vítimas, gostaríamos de condenar o agressor. Até dizemos que mereceria a condenação de morrer do mesmo modo como morreram as suas vítimas. Jesus, quando fala do homem caído nas mãos dos salteadores, louva o samaritano que nem considerou o porquê da agressão, nem chamou a polícia para ir em busca dos malvados: apenas se debruçou sobre a vítima enquanto esta precisou do seu auxílio. No caso, as vítimas que morreram precisam apenas que as conservemos vivas nas nossas memórias. As que ficam, os familiares não dispensarão a nossa presença de ajuda e de simpatia (sofrer com eles).

4. Que o agressor mereça castigo, estaremos todos de acordo. Castigo que humilhe ou oprima? Ou castigo que reabilite num processo, certamente longo, de verdade sobre si próprio, capaz de ao menos tentar reparar o que parece irreparável? Será que ele o deseja? Como terá ele chegado ao ponto de gerar dúvidas sobre a sua Humanidade e até de se lhe chamar monstro? Sabemos que a Justiça fará o seu caminho e até nos contentamos que a prisão nos permita ficar descansados. Por quanto tempo? Não terão os próprios agentes da Justiça, ao mais diverso nível, desde os que fazem as leis aos que as aplicam, passando por tantos outros intervenientes «oficiais» com o dever de evitar que estas coisas aconteçam, de meterem as mãos na consciência?

5. Também eu não me posso pôr de fora, mas antes, devo «aproximar-me» do acontecimento e dos envolvidos. E aqui surgem algumas questões pertinentes, que não podemos evitar. O Adelino nasceu bom e belo, como qualquer um de nós. Quem o tornou criminoso? Em que ambiente cresceu? Que oportunidades teve? Que educação teve no berço? Que escola e que catequese teve? Que grupos frequentou? Que «tropa» teve? Que socialização e que ajuste ao meio lhe foi proposto? Que preparação para ser marido e pai teve ele?

Tantas questões que nos tornam inseguros: o Adelino será apenas monstro? Não será também vítima?

2 de Abril de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXIII

Decorreu, como habitualmente na segunda semana da Quaresma a Semana da Caritas, organização sempre na primeira linha da ajuda em nome da Igreja. Os peditórios de rua e os peditórios nas igrejas são a face mais visível de uma acção discreta mas sempre necessária. Diz-se que o bem não faz barulho e o barulho não faz bem. Ao contrário de anos anteriores, neste ano a imagem da Caritas e, com ela, a da Igreja, ficou profundamente abalada e as ofertas recebidas certamente o deixarão bem claro. E porquê? Pelas notícias recentes veiculadas nos media acerca da idoneidade da instituição, pondo em causa a sua credibilidade. Também eu vi o programa e li a reportagem: o tratamento pouco digno num infantário de uma Santa Casa da Misericórdia, bem como uma pretensa herança, volumosa, destinada aos pobres, a ser gerida pela Caritas.

Algumas considerações me ocorrem e partilho-as:

1. É inquestionável que uma denúncia mediática tem um efeito claro, às vezes mesmo demolidor, não só na imagem de uma instituição, como nas motivações profundas de quem nelas trabalha, mesmo que seja em regime de voluntariado. Não estranhemos pois ao vermos que as diversas tomadas de posição procuravam, sem negar os factos, minorar os efeitos da denúncia. Nestas coisas é bom fazer o exercício de nos pormos na pele dos atingidos.

2. Isto não quer dizer que os factos tenham de ser ocultados ou que seja essa a orientação superior. A Igreja já pagou muito caro o seu «silêncio» diante da pedofilia, ao desvalorizar o sofrimento das vítimas. E, certamente, que todos nós, os cristãos, tomámos consciência do erro, mais ainda do crime. E, por isso mesmo, até admiramos a capacidade de pedido de perdão e o rigor na condenação dos culpados. Assim, acordem as instituições da Igreja e aqueles que as servem: toda a transparência na gestão de bens financeiros e patrimoniais se exige hoje em dia. E com mais rigor ainda na Igreja do que na sociedade civil, não só porque a moral evangélica, supostamente incarnada, assim o exige, como também pelo olhar de suspeita que reina na cultura do nosso tempo, «avessa» ao mundo religioso, particularmente ao católico.

3. «Não basta ser. É preciso parecer». Este ditado não pode ser esquecido pois não faltam exemplos de «hipocrisia» social em que tantos acusadores encarniçados esquecem que a sua veemência na acusação dos outros é pensada como tendo algo a esconder: «acusa tu, antes que te acusem a ti». O certo é que, passados anos, se revelam os «telhados de vidro» ocultos. Tenho para mim que a verdade é portadora de uma força que ninguém pode conter e que «a mentira tem perna curta». Mesmo «ferido» quando a Igreja é acusada, sempre prefiro a verdade dos factos às interpretações desculpabilizadoras: uns e outras levarão, acusadores e acusados, a um exame de consciência.

4. Sabemos bem que quem gere bens públicos deve dar contas públicas da gestão dos mesmos. Exagera-se hoje nesta exigência. E quando se trata da Igreja... A verdade é que quem tem direitos também tem deveres - princípio muito esquecido na prática - o que, é bom de ver, retiraria a muitos a sua força argumentativa que tudo exige sempre dos outros. A transparência deve ser norma prioritária, até porque, documentos escritos permanecem e podem ser reanalisados por outros. Basta dificultar o acesso a eles para se gerar desconfiança que, a desenvolver-se, pode chegar longe quer no apuramento da verdade, quer também na promoção de um sentimento contrário à realidade dos factos, pondo em causa tanta generosidade e vontade de servir, alimentada no Evangelho de Jesus.

5. Vivemos numa sociedade de contrastes e os cristãos devem aprender a viver nesta tensão permanente em que o espírito do mundo é tão forte que facilmente abafa as melhores intenções vindas do Espírito de Deus. Nunca se viu tanta corrupção, roubos e injustiças. E, ao mesmo tempo desenvolvesse um tecido de relações humanas tensas, vingativas, acusadoras e hipócritas. Há um politicamente correcto que esmaga e que se oculta para, de seguida, se vir a denunciar e até ampliar o que se ocultou e agora se denuncia. Não, não é, de modo algum, fruto que arranque da visão cristã do mundo e da sociedade. O Evangelho proclama a fraternidade, a relação harmoniosa entre irmãos que toleram os fracassos e pecados uns dos outros.

6. Parece-me que chegamos a um ponto de não retorno: a vigilância adiada compromete quem tem o dever de cuidar da boa ordem, não deixando que os abusos aumentem, antes tentando corrigi-los. O sentimento de «impunidade » está a minar as bases de una sociedade harmoniosa. Até mesmo a própria Igreja. A verdadeira tolerância para com o pecado humano não pode significar «olhar para o lado» ou «empurrar com as barriga» à espera que outros assumam as consequências que são nossas.

26 de Março de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXII

Já por várias vezes referi que a festa é necessária à vida humana ao pôr em evidência o que de melhor existe no coração humano, partilhando-o com outros.  Sem festa, onde está a nossa humanidade? Quando até os animais nos dão belas expressões de contentamento e celebram a vida uns com os outros. Como seres inteligentes que somos, percebemos que a vida é relação: pôr em comum é uma necessidade permanente. Sair de si mesmo para «entrar» no mundo do outro ou deixar-se «invadir» pelo outro é condição de socialização, de humanização. Não chega observar, quando as pessoas se «fecham» demasiado em si mesmas, como começamos a pensar em doença, particularmente em depressão? E como tal nos afecta, sobretudo aos que as rodeamos?

Fazer festa nada tem de contraditório com o tempo quaresmal que estamos a viver. Aliás, a Quaresma é um tempo «oportuno», favorável para a disciplina interior, que nada tem de triste porque exige valentia e tem em vista fortalecer-se interiormente para se ser bem sucedido nas grandes causas da vida, as causas pessoais mais que as colectivas. A verdadeira alegria, que deve caracterizar a vida do crente, só pode crescer no tempo da Quaresma. Mesmo que os sinais exteriores de probidade, de «pobreza» e de contenção possam levar a pensar no contrário. Claro que se torna necessário, por razões de ordem psicológica e sociológica, separar tempos e registos, aliás como acontece com a própria natureza, que se reveste de tons diferentes conforme as épocas do ano. Cada um de nós é um ser situado no tempo e no espaço e precisa de alternâncias para ser capaz de valorizar a diferença e dela tirar o melhor proveito.

Vem isto a propósito das festas que se promovem por todo o lado e em todas as épocas do ano. Felizmente que a vida é festa constante.

Mas porque é festa constante, não menos verdade é o risco que corremos em banalizar a festa, tornando-a repetitiva e monótona, para cumprir tradição sem a necessária ponderação e envolvimento pessoal. Faz-me lembrar os grandes investimentos para uma multidão amorfa, de braços cruzados que apenas aprecia o que os outros fazem mas não participam.

Procurar novas razões para a festa numa sociedade cada vez mais massificante impõe-se. Envolver as comunidades na festa é um dever. E se não podemos dizer que as autoridades não se preocupam em proporcionar festa aos cidadãos, impõe-se repensar sempre o que se faz, o modo como se faz e porque se faz. Sob pena de investirmos sem nada ficar de bom para o futuro. Divertir por divertir é necessário, mas não é tudo. A pessoa humana e a sociedade local precisa de bem mais. A diversão pode tornar-se ocasião de manipulação das consciências, de embotamento do espírito humano, de si tantas vezes preguiçoso para pensar. Juntar o útil ao agradável, promovendo uma sadia convivência humana e a expressão do que de melhor há no íntimo do ser humano é uma arte necessária mas difícil.

Há dias fui convidado a participar numa festa. Gastou-me apenas alguns minutos. Envolveu-me e procurei envolver os participantes. Logo que convidado, dei o meu sim por me parecer uma iniciativa bela, invulgar e capaz de fazer caminho, quando as gerações se «perdem» e o individualismo se impõe. Os nascidos até aos anos sessenta do século passado quiseram reunir-se, ali para os lados do Bonfim, para partilharem memórias de infância e juventude. Claro que «a vida dá muitas voltas» e até nos esquecemos daqueles «bons velhos tempos» em que, «pobretes mas alegretes» nos juntávamos nas praças e nos campos de futebol improvisados a correr atrás de uma bola de trapos, com os dedos dos pés a sangrar quando não acertavam na bola. Ou a jogar à macaca ou à corda, num tempo em que não se conheciam os brinquedos feitos pelos outros ou fruto das técnicas modernas, mas cuja ausência se tornava estímulo a criar-se sempre novas formas de nos divertirmos. Sou desse tempo e orgulho-me disso. E que bom seria que as gerações de antigamente não se envergonhassem de falar desses tempos às jovens gerações, atenuando assim o fosso inter-geracional que caracteriza os nossos tempos. Falar de outros tempos só pode enriquecer as jovens gerações, ajudando-as a serem gratas por tantas oportunidades que hoje têm e que até desprezam. Numa palavra, a geração de outrora, como a dos anos sessenta que, em bom número ali se reuniu no Bomfim, para, depois, à mesa no Prova Oral, continuar a fazer memória, divertiu-se à grande, inventou as suas diversões e ufana-se a falar de tais tempos. Mais pobres que os jovens de hoje? De modo algum: mais ricos porque se inventavam constantemente.

Parabéns aos organizadores de tal festa. E que o seu exemplo seja seguido.

19 de Março de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CXI

Passou-se mais um dia 8 de Março. Foi Dia Internacional da Mulher e, como sempre, objecto de grandes notícias, reivindicações, discussões sobre a condição da mulher, numa sociedade ainda de grandes assimetrias, em que, contrariamente a uma boa interpretação da Boa Nova de Jesus, a mulher precisa ainda de lutar por um estatuto de igualdade com o homem. Esquecemo-nos do que dizia S. Paulo, já no seu tempo, quando fala da sociedade de discípulos de Cristo, na qual não há mais «homem ou mulher, escravo ou livre» porque somos todos um só em Cristo Jesus.

Que pena persistirem desequilíbrios baseados no ser homem/mulher! A igual dignidade de um e de outro, considerada a diferença biológica e psicológica, em ordem ao futuro da Humanidade, é uma riqueza de que não se pode abstrair. Diferentes e complementares, diz a Bíblia. Com uma atracção mútua querida por Deus para a comunhão em Humanidade e em Missão no conjunto da Criação.

Mas, mais importante para mim, a destacar neste dia, é a solenidade de S. João de Deus, o português que, errante desde Montemor-o-Novo, passando pelos trabalhos de campo ao serviço de um proprietário, testemunhando a honestidade e fidelidade de um bom gestor, e conhecendo também os perigos das guerras fratricidas do tempo, certamente procurando supremacias e vitórias sobre outros senhores e outros poderes, o nosso João Cidade vai chegar a Granada, onde, finalmente encontra o seu lugar nos púlpitos, não das igrejas a pregar, mas das ruas onde abundavam pobres, indefesos, doentes e loucos.

Passando, ele também, por louco - tal fora a impressão nele registada pela pregação de um outro «louco», João de Ávila, sacerdote e hoje padroeiro dos sacerdotes como S. João de Ávila, que se lhe impôs para o moderar nas suas penitências e excessos - foi no serviço humanizante aos loucos que ele encontrou a sua vocação. O seu hospital, sempre cheio de doentes e pobres, que a ele acorriam e nele encontravam sempre o lenitivo para os seus males, quer pela cura medicinal quer pela «cura» espiritual que reconheciam na sua presença e acção, foi a primeira obra e obra pioneira no tratamento humanizante dos doentes mentais. Longe estávamos dos conhecimentos da medicina e da psiquiatria que hoje conseguem uma grande qualidade de vida para os próprios e, sobretudo, para os familiares.

Quem não reconhece a enorme evolução no tratamento dos doentes do foro psiquiátrico, outrora levados à força para a «casa amarela» a fim de que os familiares pudessem ter um pouco de alívio, mesmo que sem esperança de cura? E, afinal, enquanto hoje reconhecemos nestes nossos irmãos a sua condição de doentes, igualmente humanos e dignos como nós, regozijamo-nos ao vê-los passar na rua, pacíficos e sorridentes, testemunhando até uma felicidade e paz invejáveis. É caso para dizer que o medicamento certo e na medida certa consegue o equilíbrio possível, trazendo gosto de viver aos doentes e suas famílias.

Esta realidade diariamente constatada leva-me muitas vezes a dizer, sempre que o evangelho fala das curas de «endemoninhados» ou de «espíritos» que perturbam seres humanos, que a medicina científica consegue acabar com certos «demónios» que povoam tantas cabeças! Não será já tempo de evoluirmos um pouco e de nos esforçarmos mais por um entendimento correcto do evangelho de Jesus, que, curando, reabilitava a pessoa doente por dentro, tornando-a capaz de «ir com Ele», de O seguir no caminho?

Um dia surpreendi alguns quando comecei a homilia do dia dizendo: «permitam-me que seja hoje advogado do diabo. O pobre coitado apanha com todas as culpas. Sempre que a vida não corre bem, ou que caímos na tentação e pagámos pelos nossos erros e pecados, lá vamos dizendo que tudo foi fruto da tentação do diabo». Bolas, já é tempo de o deixarmos em paz e de conceder o «espaço» todo a Deus, Esse sim que deve ocupar a nossa vida.

Quanto não devemos nós, sociedade e Igreja, a S. João de Deus e à Ordem Hospitaleira, por ele fundada! Há mais de 500 anos (1495/1550), o João Cidade português lançou as bases de um tratamento humano daqueles que todos rejeitavam. E fê-lo nos últimos 13 anos da sua vida, poucos mas suficientes para merecer o reconhecimento de todos os cidadãos de Granada, onde ele morre com fama de santidade. Não merecerá ele, bem como a Ordem Hospitaleira, público reconhecimento? Nas suas duas casas/hospitais, em Barcelos e Areias de Vilar, vive um espírito de serviço aos doentes mais doentes: pessoal médico, auxiliar e um grupo de voluntários acompanham hoje os poucos irmãos da Ordem. Que possam sentir a gratidão de todos os barcelenses.

12 de Março de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CX

Foi o Carnaval. Uma vez mais. Bom seria que o fosse apenas em três dias. Ou seja, que o «ninguém leva a mal» fosse um interregno no meio de uma vida honesta, regrada e comprometida com a verdade. Para bom entendedor: não viveremos num Carnaval durante todo o ano, em que o legítimo «precisamos de nos divertir» se impõe como única motivação?

É verdade que todos precisamos de diversão. A vida é para ser vivida com alegria. E precisamos uns dos outros para sorrir... E para aliviar a vida «carregada» que se nos impõe. E a diversão não tem de estar ligada ao pecado, ao proibido, ao excessivo.

Mas será de diversão que se precisa no nosso tempo? Parece-me que não. Aliás, é de desconfiar de tanta «generosidade» dos poderes públicos quando promovem, e pagam até fortunas para tal, diversões a torto e a direito. Haverá coragem e capacidade para pensar que «escravo divertido não conspira»?

De facto, apesar de tantos «canudos» universitários - e é sempre um bem o acesso de todos aos níveis superiores de ensino - os défices de leitura são notórios e publicitados, o espírito crítico diante dos acontecimentos e factos sociais é privilégio de alguns corajosos, o comodismo no pensar e no agir impõe-se como regra. Quem tem a coragem de uma palavra diferente, que saia fora do politicamente correcto, dos preconceitos tão facilmente assumidos, das ideologias radicais tão facilmente impostas pelos poderes públicos, incapazes que se julgam de «pensar» em políticas sérias e fundamentadas na história dos povos e abertas a horizontes de promoção da pessoa humana? Não se reconhece que governos e políticos «obedecem» cada vez mais a «ventos e marés» ocasionais, sujeitos que estão ao voto que não dispensam? E que a razão mais forte nas decisões que tomam é a de «agradar ao povo», porque criar pbjectivos ousados e promissores para o futuro é algo que dá muito trabalho e gasta muito tempo, sem aquele efeito imediato traduzível em votos?

Vivemos um pouco «escravos» das conjunturas, cada vez mais à escala mundial. Somos «mandados», ora pelos mercados, ora pelas ideologias, ora pela soberba de se ficar na história, mesmo à custa de aberrações que o futuro se encarregará de confirmar.

Precisamos, todos, de parar. Parar para contemplar. Parar para sentir. Parar para fazer balanço. Parar para saborear. Parar para decidir melhor. Parar para observar os «desvios» dos trilhos de verdade desejados. Haverá coragem para tal?

Eis que os nossos espaços de silêncio, sempre tão escassos, foram invadidos. E sem o silêncio a Palavra torna-se verborreia cansativa. Torna-se cacofonia esterilizante. A cidade está demasiado barulhenta. Não só no Carnaval. Precisamos de «ilhas» de refúgio em que se possa exprimir o melhor do coração humano. Terão os nossos autarcas preocupações de sanidade para todos, não permitindo que as actividades barulhentas ocupem o espaço público, como únicas com direito de cidadania? Se as actividades industriais e mecânicas são desviadas para parques próprios fora dos aglomerados populacionais, para que o simples acto de dormir não seja perturbado, ou se criaram parques desportivos fora das cidades, porquê se cortam ruas e se impedem actividades usuais todos os dias só para que certas modalidades desportivas se imponham sobre todos os cidadãos, insensíveis aos prejuízos desnecessariamente causados? Se não houvesse alternativas... Mas há-as e são muitas.

Todos os povos têm direito a que se respeite a sua história. E esta é fruto da construção de muitos ao longo de muito tempo. Não se compreende que alguns, sem história ou com história de prepotência, se imponham sobre os outros, porventura com menor capacidade reivindicativa, ou menor expressão numérica. Há valores que, respeitados, só dignificam aqueles que têm a missão de governar. Saber dizer não é tão válido e importante como dizer sim. Para tudo há um discernimento que só impostores ou «vendidos» evitam com a hipocrisia dos Pilatos que pululam ao longo da história.

Em tempo de Quaresma, que ninguém deixe de se disciplinar interiormente para discernir sobre passado e presente. Há diante de todos um futuro que se prepara hoje, ou se arrisca hoje, ou se destrói hoje. Perguntar-se sobre que futuro estamos a preparar só nos dignifica. Há demasiadas palavras inúteis e silêncios amordaçados que precisam de «falar». Que ninguém tenha medo de procurar a Verdade que liberta.

5 de Março de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CIX

Foi «jovem» o meu passado fim de semana. Ao serão, perguntei aos crismandos que «imagens» de Igreja se destacavam nos seus ambientes de escola. Negativas, como já esperava. Depois, dialogámos sobre a «verdade» ou «mentira» de tais imagens, isto é, reflectimos sobre o que eles próprios dizem da Igreja. E o meu objectivo era claro desde o início porquanto, tratando-se de gente a entrar no estado adulto da fé, importa que tenham ideias claras do que é ser cristão hoje, num mundo em profunda transformação e em confronto permanente, de ideologias contrastantes a reivindicarem o «espaço» outrora ocupado pelo religioso. Propus-lhes passar das imagens dos outros - tais como as que referiram: uma farsa, marcada por interesses, dinheiro, rituais, valores apenas humanos, dinheiro do Vaticano, celibato e pedofilia nos padres, outros que se aproveitam da Igreja para estatuto pessoal, para se mostrarem... - à realidade que importa que vivam. E convidei-os a olhar para a Igreja a partir de dentro: TU ÉS IGREJA. Quando isto acontece, entra-se na liberdade responsável e comprometemo-nos com o bem e o mal que nos rodeiam para transformarmos o mundo que olhamos como mau.

O diálogo foi interessante, apesar da densidade das questões e do vazio espiritual que os atinge. E os que vêm à Igreja supostamente ainda são aqueles que procuram seriedade e constroem um futuro responsável, a partir dos valores recebidos em família e continuados na Igreja. Logo de seguida, acompanhei um grupo de jovens, que se organizam e querem dar sinais de uma Igreja jovem. No meu íntimo, enquanto lhes dava uma palavra de orientação, pedida como pároco e como adulto, eu agradecia a Deus por os ver ao meu lado, num sábado à noite em que a maioria dos seus colegas de estudo estariam porventura noutros ambientes bem diferentes. Na segunda-feira eis que sou procurado por um jovem de 19 anos. Também ele vinha, justamente, com a cabeça cheia de interrogações e punha os seus porquês, muito próprios mas, ao mesmo tempo, também muito comuns aos da sua idade. E fiquei algo surpreendido perante o quadro negro, bem negro, da sua escola. Lembrei-me dos tempos em que, professor de Educação Moral e Religiosa Católica durante cinco anos, sofri a dor de ter de lutar por uma proposta de valores humanos e cristãos àqueles que, às vezes apáticos e totalmente desinteressados, já manifestavam o ambiente de desagregação familiar. Estávamos na década de oitenta. Muita coisa mudou. Para melhor, certamente em muitas coisas. Mas penso que para bem pior no que ao ambiente escolar diz respeito.

Aquele jovem, a quem foi diagnosticada uma doença de certa gravidade, questiona-se porquê a ele, que vai à missa: «a mim tudo me aparece». E, encontrando-me acolhedor e sem pressa, lá desfiou o rol das suas queixas, bem razoáveis, aliás.

Fez-me ele «acordar» para a realidade da juventude de hoje, dispersa e vazia, sem horizontes e procurando escapes, vale-lhes ao menos o estímulo de um curso universitário pelo qual lutam. Claro que lembro aqui os esforços, tantas vezes julgados erradamente inglórios, de tantos pais e mães que não desistem de uma presença permanente a cuidar do futuro dos filhos, enquanto sentem uma vontade forte de desânimo diante de uma sociedade que não educa para valores, mas que apresenta um mundo demasiado fácil em que os direitos se impõem sobre os deveres e a vida «não custa a ganhar». De facto, são muitas as situações em que os pais se sentem apenas com deveres, obrigações muito duras, que os sujeitam a muitos esforços para conseguirem um mínimo capaz de dar o «máximo» ao seu filho, que se julga no direito de tudo exigir dos pais «como os colegas de pais ricos».

No dia anterior, uma notícia de primeira página do JN (19FEV) alertava para o consumo do «comprimido da inteligência» que duplicava entre os jovens alunos, alguns deles pelos nove anos. Que défice de atenção é esse que alimenta a indústria farmacêutica? Que geração é esta que, tão cedo, se torna dependente de medicamentos, como se fossem já velhos que precisam de compensações para os seus órgãos debilitados por uma vida de canseiras e fadigas? E, não é que este jovem me confirmava o ambiente escolar de indiferença dos adultos, professores até, perante a agressividade crescente entre adultos? E de droga e de outras coisas afins? Num diálogo tão frutuoso, acabei por lhe dizer obrigado pelo que partilhou comigo e felicitá-lo por ter uma mãe que se preocupa e não o «larga».

26 de Fevereiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CVIII

Verticalidade. Fidelidade. Transparência. Honradez. Integridade. Verdade. Estas palavras, traduzidas em atitudes concretas no quotidiano da vida em sociedade, parecem estar em crise ou, até mesmo, correrem o risco passar, no dicionário, à categoria de arcaísmos.

Deixando de ser percebidas na vida de todos os dias, elas deixam de ser referência na educação das futuras gerações, que, deste modo, crescem e se desenvolvem num profundo desequilíbrio, que põe em risco o futuro das sociedades.

Longe vão os tempos em que os nossos antepassados faziam questão de valorizar a «palavra de rei», o respeito pela honestidade comprovada ao longo de gerações que se tornava mais sério ainda do que a assinatura de «pôr o dedo». Valia mais a palavra dada até do que a assinatura por impressão digital.

Entretanto, vivemos hoje o tempo ignóbil do «pós-verdade», expressão que entra cada vez mais no léxico, como que consagrando um reinado de um relativismo extremista, que dificultará cada vez mais a vida em sociedade pautada pela justiça e pelo respeito uns pelos outros.

Surpreende, pois, de algum modo - ou não surpreenderá? - que em tempos «sensíveis» pré-eleitorais abundem os desabafos quanto à palavra desacreditada de políticos e de candidatos - «são todos iguais», ouve-se - transferindo-se e até misturando-se os campos político, cívico, institucional, privado e público. Nem sequer a Igreja, ou as suas instituições e grupos, escapam. Neste ambiente, como é difícil - digo-o por experiência própria - isentar a Igreja e as suas instituições desse juízo negativo. Porque reconheço que os cidadãos, crentes ou não, situando-se a Igreja na praça pública como instituição de valores, têm o direito de esperar dela uma outra isenção, uma outra honradez e verticalidade que ultrapasse os discursos mas se torne vida concreta nas pessoas que até a «representam » institucionalmente. É que o Evangelho de Jesus, nos reconhecidos valores de que quer impregnar a vida pública, ou é vida ou desaparece como inútil ao igualar-se a tantas outras visões da vida quotidiana.

Quer nos escritos ou peças jornalísticas, quer nas conversas particulares, se vai notando, por um lado, um certo saudosismo dos valores acima referidos - sinal de que todos precisamos de homens e mulheres honestos, que queiram servir o bem comum e não servir-se - e, por outro, na constituição de listas eleitorais se tenha o cuidado de evitar possíveis «rabos de palha» no passado dos candidatos, que possam traduzir-se em perda de votos e não em ganho dos mesmos.

Trata-se, de facto, de um contraste evidente: por um lado, batem-se palmas a uma sociedade permissiva, tão tolerante quanto injusta e até apática perante escândalos e injustiças flagrantes, cruzando os braços diante dos «palavrosos» de discurso fácil, sempre com as suas sentenças a impor como as melhores; por outro lado, desejando que a honestidade, honradez e a verdade tenham a primazia. As próprias máquinas partidárias «gastam-se» nos cuidados a «escalpelizar» o passado dos candidatos, com medo de que o povo eleitor, na urna, deixe claro que prefere os mais honestos aos mais palavrosos.

Quem não se lembra de um primeiro-ministro que, nas vésperas de um resgate nacional, num país de «tanga», ainda acenava com debates para a construção megalómana de um aeroporto? Quando olhamos para trás até sentimos vergonha e nos interrogamos como foi possível chegar tão longe na manipulação da opinião pública.

Lendo o Livro dos Provérbios, registo uma «sabedoria» que os séculos por cima deles passados não abalou: «O Senhor abomina o procedimento do ímpio, mas ama o que segue a justiça. Mais vale pouco com temor de Deus do que um grande tesouro com inquietação. Mais vale um prato de legumes com amizade do que um vitelo gordo com ódio. (...). O temor do Senhor é escola de sabedoria, e a humildade precede a glória. Compete ao homem fazer planos no seu íntimo, mas do Senhor é que vem a decisão. O homem pensa que todos os seus caminhos são puros, mas é o Senhor que pesa os corações. (...) O Senhor abomina todo o coração altivo, certamente não o deixará impune» Prov. 15, 9, 16, 33; 16, 1-2, 5. Foi a leitura deste texto que me sugeriu este «Olhar». Ele situa-se «contextualizado» nacional e localmente.

19 de Fevereiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CVII

Foi há dias. Numa iniciativa que já leva anos, os membros do Conselho  Económico foram, em dia de sábado, visitar algumas igrejas na zona do Porto. Apreciar restauros, ver como se cuida da conservação das igrejas, aprender com o que os outros fazem, tirar ideias e, sobretudo para nós, onde buscar a coragem para recuperarmos o que urge recuperar nas condições económicas desfavoráveis. Ao objectivo de «estudo» junta-se também o «convívio» num contexto diferente daquele que nos une a todos quando mensalmente nos reunimos.

E lá fomos apreciando o restauro da Torre dos Clérigos, com destaque para a parte museológica. Dali seguimos para a Igreja de S. Francisco, belíssima e riquíssima em arte. E, após o almoço, ainda visitámos a igreja do Bom Jesus de Matosinhos, a de Leça da Palmeira e, por último, a de Leça do Balio, esta última mais ou menos contemporânea da nossa Igreja Matriz.

De ano para ano, vamos coleccionando ideias, regressamos cheios de vontade para nos metermos em obras... Mas esmorecemos logo de seguida. E porquê?

Porque se nos avivam as necessidades prementes de cuidar do nosso património, tão rico que nem o sabemos apreciar devidamente, que, «escondido » a ninguém aproveita. De facto, a nossa Igreja Matriz é depositária de um espólio artístico muito valioso, que os barcelenses desconhecem. Como torná-lo acessível ao público? Eis a nossa preocupação, que deixa de o ser porque nos resignamos a cruzar os braços, dado não termos os meios necessários. Se, por um lado, é necessário dinheiro, muito dinheiro - e a Paróquia está ainda a pagar a residência paroquial - por outro lado, são necessárias obras da recuperação das sacristias interiores da Igreja Matriz, onde poderemos acondicionar devidamente as alfaias e objectos religiosos que se foram guardando ao longo dos séculos. Falta-nos o dinheiro, sim, mas falta-nos também a coragem de vencer impedimentos de que não somos responsáveis - a Igreja é património do Estado, que «não faz nem deixa fazer» - e os meios humanos e técnicos para passarmos das palavras aos actos. Quem nos quererá ajudar? Falo de «técnicos» na área museológica.

A ideia e a vontade existe: por que não aproveitarmos o Ano Mariano para uma exposição das belas imagens de Nossa Senhora? Estarão os serviços do Município sensíveis?

Mas quando falamos das sacristias interiores, para, depois, falarmos de um possível museu, logo nos surge a questão das prioridades: não falta já - e dou graças a Deus por isso - quem insista que é necessário recuperarmos o órgão de tubos. E eu estou de acordo. Quem ajuda numa comissão «técnica» de estudo do que é possível fazer-se para o recuperarmos? E numa comissão de «angariação de fundos»?

Mas se o órgão de tubos é necessário, também não será mais necessário ainda cuidarmos do piso, tão irregular e perigoso da Igreja Matriz? E do seu des/conforto sobretudo no inverno em que o frio bem justifica a expressão «o santo sacrifício da Missa»? Não teremos de pensar no aquecimento? E se pensarmos no piso e no aquecimento, não teremos de pensar em bancos cómodos? E a substituição de toda a cablagem eléctrica, em claro perigo porque instalação antiga, que tem de ser substituída? É claro que todos nos damos conta de que uma «drenagem interior» para que o piso se torne seco e confortável no inverno implica uma drenagem do exterior, obra a que o Município se dedicará um dia, conforme está nos seus planos. Para quando?

E os altares em talha, a precisarem de urgente intervenção? E a capela do Santíssimo com a sua bela tribuna? E que fazer do Centro Paroquial? Afinal, são tantas as necessidades! Como compreender o «desleixo» dos barcelenses que não cuidam do património que os seus antepassados nos legaram? Eles construíram e cuidaram. Pertence-nos a nós continuar a cuidar para o transmitirmos aos vindouros. Não nos podemos distrair da Matriz, que é a mãe e foi à volta dela que se construiu e desenvolveu o burgo de Barcelos. Pertence a todos os barcelenses cuidar da sua «Matriz»: basta olhar para ela para reconhecer as suas necessidades. Não só nos dias de festa em que o bom tempo e as flores que a ornamentam «disfarçam» as suas necessidades.

12 de Fevereiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CVI

Leio todos os dias Actuall, periódico digital espanhol, atento ao mundo das ideias sobretudo no que às questões ditas fraturantes diz respeito. As decisões dos políticos, forçadas tantas vezes por lobbies económicos com o mundo da alta finança por trás, são passadas a pente fino. Ao mesmo tempo fornece elementos que nos ajudam a pensar no alcance de certas políticas para todo o mundo e a ler a história dos movimentos de ideias que vão fazendo o seu caminho, passando de uma rejeição natural e até abrupta, porque escandalosas e em contradição total com a realidade, até impor-se nas sociedades como algo «normal» e «moderno». Quem quiser seguir este periódico, em espanhol, pode até solicitá-lo gratuitamente (www.actuall.com ou info@actuall.com).

Há tempos quis visitar a sede deste grupo em Madrid. Visitei e conversei sobre o que fazem. E apreciei ver gente nova, entusiasta nas causas, sem medo de denunciar e até de serem caluniados, dando a cara pelos valores que defendem sobretudo levando as pessoas a pensar pela própria cabeça para não votarem «manipulados» pelas maiorias artificiais que são fruto do politicamente correcto. É claro que estas maiorias são as mais fáceis de construir porque dispensam a responsabilidade de pensar e aprofundar as situações, cada vez mais complexas da nossa sociedade. País de «brandos costumes», muitas vezes nos orgulhamos da nossa inércia, do passar ao lado e não cuidarmos responsavelmente no hoje em relação ao futuro. Que pena! Ali em Madrid vi a «balança» que alguns estabelecem ao darem a cara por «valores» que uma «esquerda radical» tenta amordaçar com os partidos tradicionais a «fazerem de conta». Lá como cá. E lembrei-me de que na América, numa manifestação de valores como o da vida, contra o aborto, os bispos são os primeiros a encabeçar uma manifestação pública. Os nossos «brandos costumes» às vezes não passam de covardia.

Em recente artigo (http://www.actuall.com/criterio/familia/pedofilos-drogadictos-locos-y-con-tendencia-al-suicidio-asi-eran-los-ideologos-de-genero/), um jovem jornalista, Javier Torres, faz uma incursão pelas origens da ideologia de género, que cada vez mais se impõe nas nossas sociedades, ávidas de experimentar todos os «progressismos», mesmo que estes ponham em causa o futuro da Humanidade. É um grito de revolta e um «tocar a rebate» diante de tanto obscurantismo imposto e irresponsável, que ameaça o futuro dos nossos filhos, para quem deveríamos preparar um futuro de liberdade responsável e de paz.

O autor analisa, com a brevidade possível, o núcleo de ideias e de comportamentos dos «precursores» da ideologia de género, a começar em Nietzsche, o filósofo de onde partem todos os ideólogos da teoria do género, ele que dizia: «tudo se pode negar porque não há nada fora de nós que seja objectivo». Esta ideia de há mais de cem anos fez o seu caminho e hoje já se fala, após o relativismo ético tantas vezes denunciado pelo papa Bento XVI, no pós-verdade. E acrescenta: «Deus morreu e se Deus morreu também morreu a natureza criada por Ele. Assim, nada define o que sou, só eu posso fazê-lo». Ora sabemos que Nietzsche acabou num manicómio. E os seus seguidores, que extremaram as suas ideias e se tornaram o fundamento da ideologia de género, não tiveram desfecho melhor. E o autor fala de Wilhelm Reich, marxista e grande precursor da revolução sexual, que foi um grande masturbador compulsivo desde os 6/7 anos e praticou a zoofilia, traumatizado com o suicídio da sua mãe,que manteve relações sexuais com um menino de 13 anos, o que o levou a culpar o pai e justificar o seu ódio ao patriarcado. Nas suas terapias abusava sexualmente das mulheres pelo que foi condenado e acabaria por morrer na prisão, diagnosticado com paranoia e esquizofrenia progressiva.

Por seu lado, Michel Foucault, homossexual e militante comunista, francês, iniciado no sadomasoquismo, consumidor de drogas, morreu de sida, depois de tentar várias vezes o suicídio. Um outro, Althusser, filósofo comunista francês, estrangulou a sua esposa e acabou internado num hospital psiquiátrico. E o articulista continua analisando a vida de outros nomes importantes na formulação da ideologia do género no artigo, que vale a pena ler, intitulado: Pedófilos, drogados, loucos e com tendência para o suicídio: assim eram os ideólogos de género.

5 de Fevereiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CV

Pouco falta para completar um século de vida o Escutismo Católico Português, que entrou no nosso país, vindo da Inglaterra, pela Arquidiocese de Braga, acolhido pelo Arcebispo de então, D. Manuel Vieira de Matos (em 27 de Maio de 1923).

Entre nós, em Barcelos, ele chegou há 90 anos, celebrados no ano passado, e de Barcelos – cidade espalhou-se pela generalidade do concelho, havendo hoje 31 agrupamentos que formam o Núcleo de Barcelos.

Como método pedagógico impôs-se e impõe-se hoje ainda resistindo a muitos vendavais ideológicos que se repetem. E porquê? De entre as possíveis respostas, aponto a sua “verdade” e “universalidade”. “Verdade” porque se dirige ao rapaz/rapariga como ele é, situado, concreto, nas suas circunstâncias históricas e sociais, “verdade” porque não se reduz ao que ele é mas desperta-o, anima-o, cuida-o para o que pode e deve ser. “Universalidade” porque considera as diversas dimensões do ser humano, inclusive a religiosa – o escuta orgulhe-se da sua fé e por ela orienta toda a sua vida – e, no acompanhamento que proporciona ao rapaz/rapariga, sabe aproveitar as suas energias no processo evolutivo para formar homens e mulheres disciplinados, generosos e responsáveis.

Claro que tudo isto exige muito dos chefes, que às vezes até desanimam face às dificuldades. Também eles sentem o “peso” de uma missão que a Igreja lhes confia – estamos a falar do Escutismo Católico – dado que trabalham no seio de uma sociedade em que os valores contam pouco e os “princípios” que outrora se bebiam no seio da família, às vezes não existem. É por isso mesmo que apreciei há dias – na ceia de reis, como em tantas outras actividades ao longo do ano – a presença e acompanhamento dos pais que apoiam os chefes. Cada vez mais se torna evidente que o processo educativo só pode resultar quando os vários intervenientes se dão as mãos. Chefes de escuteiros ou catequistas, e mesmo os professores, não podem dispensar a presença dos pais. Como estes não podem dispensar o contributo daqueles.

Ao longo do ano são muitos os momentos e as actividades previstas, que ocupam – lúdica e pedagogicamente – os nossos escuteiros.

É todo um programa elaborado no princípio do ano que exige muito dos chefes. Estes bem merecem o carinho e a gratidão da Paróquia. E também o estimulo e presença permanente dos pais. Como são em número insuficiente, também eles não dispensam o convite constante a outros jovens e até casais que já conhecem o Escutismo a virem ajudá-los.

Janeiro é um mês especial para o Agrupamento 13 Alcaides de Faria. Fazem 92 anos no próximo dia 25, dia da Conversão de São Paulo, patrono dos Caminheiros. Daí que a promessa de novos escuteiros na nossa Paróquia aconteça sempre no último fim de semana de Janeiro.

Acabo de ler uma entrevista do recém-eleito chefe nacional, Ivo Faria, que a todos recomendo (DM 19/1/2017). E fico feliz ao ler o seu programa, que valoriza a dimensão espiritual e se preocupa com o lugar dos jovens na Igreja e a sua missão de evangelização. Felizes os pais que encontram lugar para os filhos no Escutismo.

29 de Janeiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CIV

Instado uma vez mais a pronunciar-me, volto ao assunto das confrarias da Paróquia. Por razão de ofício, a Autoridade da Igreja, leia-se o senhor Arcebispo Primaz, ao nomear os Órgãos Sociais de uma associação de fiéis, inclui, entre eles, um Órgão de Vigilância, normalmente o Pároco. Assim, o Prior é não só o Pároco da Paróquia, nem só o capelão, responsável pelo culto, mas também representa a Autoridade superior para supervisionar o agir dos restantes Órgãos Sociais. O Órgão de Vigilância é o único que não é sujeito a eleições mas vela pelo bom funcionamento dos restantes, que devem, todos eles, agir no respeito das funções que os estatutos lhes atribuem. Logo, diante de uma assembleia de irmãos convocada segundo as regras, a Mesa é chamada a dar contas, tendo elas sido revistas pelo Conselho Fiscal. Todos estes Órgãos têm as suas funções e não podem ser dispensados delas sob pena de a Confraria perder o seu carácter colegial e gerarem mal-estar entre os irmãos e na comunidade. O Prior é Órgão de Vigilância de oito confrarias. Logo, o seu modo de agir tem em conta a particularidade de cada uma dentro de um todo. E todas elas, à excepção da Irmandade do Senhor da Cruz, renovaram os seus Órgãos Sociais na devida altura, no passado Setembro.

Ao voltar ao assunto, não pretendo dizer novidade pois em diversas ocasiões deixei claro como devem ser geridas as associações da Igreja. Nunca à semelhança de associações político/partidárias. A estas apenas peço encarecidamente que respeitem a Igreja, seus grupos e associações, tal como a Igreja respeita as regras do jogo democrático e as actuações partidárias. Aliás o Cânone 318§4 tem aplicação na Igreja universal e visa claramente a não interferência dos partidos nas associações da Igreja. Diz ele: «Nas associações públicas de fiéis directamente orientadas para o exercício do apostolado não sejam moderadores os que desempenham cargos directivos em partidos políticos». Dito isto, independentemente do pronunciamento que chegar da Autoridade superior e apenas com o intuito de criar um entendimento correcto acerca do exercício de cargos nas instituições da Igreja e para que os irmãos de uma confraria saibam agir em consciência e em comunhão com a Igreja, não se deixando levar por pressões ou interesses pessoais e conjunturais - as pessoas passam mas as instituições permanecem - devo acrescentar:

1. O agir das confrarias deve estar em comunhão com outras e com outros grupos que têm a mesma finalidade apostólica na mesma paróquia. O fim é sempre o mesmo: evangelizar para construir o Reino de Deus.

2. Na Igreja o poder é sempre serviço e não fonte de prestígio ou ocasião de promoção pessoal. Sendo o ministro ordenado aquele que preside e detém o «poder» sacerdotal, é ele o primeiro servidor da comunidade. Mas esta, no seu todo, reconhece-lhe a primazia. É ridícula a discussão «quem manda mais». Todos devem esforçar-se por servir mais.

3. Toda a gestão deve ser transparente e conhecida dos irmãos. E isto não pode ser extraordinário. Antes, o agir da Confraria deve ser colegial, respeitoso de todos, dialogante sempre e sem estratégias de coação, que «destroem» o espírito comunitário, razão de ser da mesma.

4. A própria admissão de irmãos nunca pode ter como critério primeiro os amigos de quem gere, ou o partido a que pertencem, ou o clube ou ideologia que professam. Mas antes e sempre: a sua fé centrada na pessoa de Jesus e o seu empenhamento na vida e missão da Igreja. Julgo mesmo ofensivo e lesivo da história, pondo em risco o futuro de uma Irmandade, a admissão de irmãos em grupo, sem discernimento e maturidade mas apenas tendo em vista um voto futuro.

5. Os cargos são sempre provisórios. Cada vez mais as instituições, mesmo cívicas, impõem limites de mandatos. Ninguém é insubstituível e uma Confraria tudo tem a ganhar com novas ideias e modos de agir! Entre o «espírito» e a «letra», no agir cristão aquele deve prevalecer.

6. Quando chega o momento de substituição dos Órgãos Sociais, tudo deve ser feito com transparência, no respeito dos Estatutos, e os irmãos que votam têm apenas de se interrogar: os candidatos são cristãos de vida de fé testemunhada na comunidade? Têm vida digna reconhecida na sociedade? Apresentam-se com um programa claramente ao serviço do fim da Confraria? Reconhece-se neles honestidade intelectual, competência humana, comunhão com os legítimos pastores da Igreja, são humildes no trato, obedientes às decisões superiores e empenhados em levar aos irmãos o interesse pelos fins da Confraria?

7. Permitam-me uma palavra, mais pessoal, a terminar: Nos momentos difíceis da minha vida sacerdotal, confio-me a Deus, rezo e espero a «hora » de Deus, que a tenho como a «última» e a melhor. A vida ensinou-me que a verdade tem o seu caminho, anda mais devagar, mas também é mais eficaz. E dois princípios de vida me impus há muito tempo: no meio das «tempestades», o que pode acontecer de pior? Se te preparaste para o pior, tudo o que vier será vitória; só se atrapalha, só «perde a cabeça» aquele que tem algo a perder. Eu assumo que nada tenho a perder. Há muito prescindi de cuidar da «imagem». Sou profundamente livre: procuro servir como sei e posso, confiado na misericórdia de Deus para as minhas falhas. É tão belo saborear a liberdade de filhos de Deus!

22 de Janeiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CIII

Já se esperava. O país viveu longos dias em suspenso e atento às notícias. Tratava-se de um dos seus heróis, reconhecido como personalidade única na política e na história do nosso país. Mário Soares morreu. E o país celebrou luto nacional. «Canonizado» já na comunicação social e, talvez, na maioria do coração dos portugueses – que belo é reconhecer, na morte, e privilegiar o que de melhor a pessoa construiu, enquanto se torna irrelevante o que poderá ter sido negativo – o tempo se encarregará de trazer à luz do dia o «filtro» de um olhar equilibrado, mais racional e menos emocional.

Ao escrever sobre o momento que o país acaba de viver não pretendo ser mais uma voz. Nem me sinto com o engenho nem com os conhecimentos históricos ou políticos para um olhar justo. Interessa-me tão só situar-me num «olhar outro» porque, como todos os portugueses, também eu vivi o acontecimento.

Reconheço o contributo único e indesmentível de Mário Soares na construção da democracia portuguesa. E que a história avança sempre que há homens que saem do nível do «politicamente correcto», os arranjistas de cada momento, sempre mais interessados em si e no seu grupo do que no bem comum. Cada um de nós apenas pode imaginar o que seria o nosso país hoje se não tivesse acontecido Camarate e continuassem, no mundo dos vivos, pessoas e políticos da têmpera de Sá Carneiro ou Amaro da Costa, o primeiro nosso ilustre conterrâneo. Mas a História não volta atrás e os saudosismos, que têm o seu lugar, não podem impedir de olhar o futuro com esperança.

Destaco a ideia da «diferença» com que Mário Soares lutou pela liberdade e pelos direitos humanos. Nenhum ser humano pode ser «encaixado» nas «redomas» circunstanciais com que tantos se impõem sobre os outros. Porque todos somos diferentes, logo, chamados a, em liberdade, acolhermos as diferenças dos outros. Destaco a luta pela liberdade religiosa pela qual ele, não se dizendo crente, lutou convictamente, no bom senso, aliás, de não repetir os erros da I República.

Discordei e discordo de atitudes e ditos do falecido Presidente. Como ele, não gosto do unanimismo. Acolher as diferenças é crescer juntos. E este é o grande desafio para cada ser humano, ao mesmo tempo que reconheço que é aqui que se encontra a maior beleza de viver em sociedade, uns com os outros e não uns contra os outros. Sempre considerei desnecessária a sua afirmação pública da sua condição de «agnóstico e laico», sobretudo quando permitia interpretar como a melhor maneira de afirmar a sua coerência de princípios, no respeito pelas diferenças. Reconheço, no entanto, que a sua coerência foi elegante ao prescindir dos rituais religiosos no seu funeral. Quem dera que muitos o imitassem para, ao menos na morte, serem coerentes com a vida que levaram.

Apreciei, também eu, a elevação e a dignidade de um funeral de Estado. Que, ainda que ao de leve, não deixou de «tocar» na «questão religiosa». Seria isso possível num Mosteiro dos Jerónimos? Lá estava o refeitório dos frades como lugar da «câmara ardente», lugar em que tantas velas arderam a iluminar a vida dos frades, que contemplavam os belos azulejos com imagens bíblicas. Como se respirava o sentimento de pesar colectivo, que levava tantos a benzer-se diante da urna que passava, enquanto certamente muitos se curvavam respeitosamente com o pensamento de «sicut transit gloria mundi» (tão transitória é a glória do mundo!). O homem grande que permanece nas nossas memórias está ali, num caixão igual a tantos outros. Mas desejamos para ele a eternidade em glória, a glória de Deus, que não é reservada apenas a alguns. Deus lhe dê o eterno descanso.

15 de Janeiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CII

Hoje é dia de aniversário dos Bombeiros Voluntários da nossa cidade de Barcelos. «Carrega» esta instituição uma «pesada» história que, felizmente todos os anos, é revisitada e reapreciada pelas gentes da cidade e do concelho. Tal como outras instituições pluricentenárias, estas eclesiais, como são a Casa do Menino Deus, que ontem celebrou o seu Dia, ou a Santa Casa da Misericórdia ou a Real Irmandade do Senhor da Cruz, sem falar da Paróquia de Santa Maria Maior, bem mais antiga. É em tempo de paz que acontece o aniversário da corporação barcelense, o que permite um olhar calmo e sereno, capaz de a apreciar na sua verdade de séculos. Porque quando mais se fala dos bombeiros é no tempo de verão, marcado pelos «guerreiros incendiários», que alimentam as discussões, põem a nu as políticas de segurança do país ou a in/justiça dos Tribunais a quem as forças policiais confiam os incendiários. E nesta «guerra» sobra sempre para os bombeiros, como se estes deixassem de ser pessoas com direitos mas apenas com obrigações de fazer os impossíveis e até colmatar os buracos de outros intervenientes no processo.

Celebrar 134 anos é celebrar a maturidade de uma instituição, que não se pode dar ao luxo de, no hoje, deixar de pensar o seu passado, a quem deve ser fiel. E de uma fidelidade inovadora porque o ser humano e a sociedade onde vive evolui. Atrevo-me a dizer que, não sendo fácil hoje manter um corpo de voluntários - um certo «profissionalismo» é cada vez mais indispensável - haverá sempre lugar para o voluntariado e que, sem este, muito ficaria afectada a matriz da corporação. Uma matriz que faz parte da «alma» barcelense, que reconhece o «fim da linha», às vezes também o «princípio da linha» quando a desgraça lhe bate à porta.

Também à mesa sei o que custa - e admiro-o - ouvir o toque e, acto imediato, se deixar tudo. Com bombeiros na família, admiro a resposta pronta quando alguém está em perigo. Dizem-se voluntários, e são-no no uso mais nobre da palavra: livres na decisão, assumindo os riscos e sem pensarem em qualquer recompensa. Partem sem saberem o que, de facto, vão encontrar. Arriscam «vida por vida». Sabem quando partem mas não sabem quando e como regressam. E nada disso interfere na sua decisão imediata.

O voluntarismo dos bombeiros é muito antigo, parece não estar em crise como em tantos outros sectores da sociedade, marcada esta por calculismos e interesses pessoais ou corporativos. E sem ele, qualquer corporação amputaria da sua história o «coração» que a fez grande.

Este voluntarismo, seja na sociedade civil seja na própria Igreja, está hoje em risco. O ritmo infernal das nossas vidas sacrifica mais facilmente aquilo que não nos é imposto. Ou seja, se o voluntarismo é uma grande afirmação da liberdade pessoal, esta está hoje mais «cara» do que outrora. A capacidade de se afirmar na sua dignidade pessoal, e de assumir decisões pela sua própria cabeça, em obediência à consciência pessoal, é hoje cada vez mais difícil, tantos são os lobbys e pressões, mais agressivos ainda diante dos imediatismos e relativismos, que tudo reduzem ao sucesso de momento, mesmo que se desrespeite a história ou se esteja cego quanto ao futuro.

O que seria da nossa Igreja, das nossas Paróquias sem o voluntariado de tantos leigos que, em comunhão com os seus pastores, não desistem diante das dificuldades? Entre nós, crentes, dizemos que tudo se deve fazer «com os olhos em Deus», sem a subserviência às recompensas humanas desejadas, sonhadas ou mesmo prometidas. E aí está a verdadeira liberdade. A tal liberdade profunda que se admira na acção dos Bombeiros.

Parabéns aos nossos bombeiros da cidade nestes 134 anos de vida.

8 de Janeiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - CI

Falar da Paz é inevitável. Antes não o fosse. Iniciar o novo ano com um apelo à paz acontece, por parte da Igreja, pelo menos nos últimos 50 anos. De facto, foi em 8 de Dezembro de 1967 que o Papa Paulo VI instituiu o primeiro dia do ano civil como Dia Mundial da Paz, tendo lançado a sua primeira mensagem para o primeiro, celebrado a 1 de Janeiro de 1968, pelo que se completam hoje 50 anos de «abanão» das consciências para tantas guerras inúteis e tantas injustiças que os mais pobres e inocentes, sobretudo eles, pagam com a própria vida.

A urgência da paz é maior ainda nos nossos tempos. É caso para nos perguntarmos: valerá a pena nela insistir diante da ineficácia comprovada pelos constantes novos focos de guerra que surgem?

Claro que teremos de dizer que vale a pena. O cristão não pode calar-se diante das injustiças. Logo, o Papa não poderá nunca calar a sua voz de denúncia e de anúncio, encorajando os povos todos a uma tomada de consciência de que somos todos irmãos e encorajando a tomada de medidas que comprovem que a Humanidade seja cada vez mais tolerante para com os diferentes, em cultura, bens ou tradições religiosas. Mesmo aqueles que não perfilham a nossa fé cristã, ou se digam sem fé, mesmo assim todos, sem excepção, são detentores de iguais direitos, que todos devem respeitar. Até porque são filhos do mesmo pai, na visão cristã.

Quando se diz que a mensagem do Papa abana as consciências, diz-se que nunca está terminada a tarefa de cuidar do interior da pessoa humana, educando-a para a paz, ou para a justiça e respeito entre todos. Educar para a paz até foi título de uma das mensagens papais.

Enquanto isto, urge incentivar a dimensão profética da denúncia, por todas a formas possíveis, dos mecanismos de corrupção existentes e da hipocrisia espalhada um pouco por todo o mundo que, enquanto nos palcos diplomáticos se reconhece a necessidade de restabelecer a paz, continua o comércio ignóbil de armas, fornecidas aos grupos em contendas, mesmo que em contradição com decisões internacionais. Se o lobby das armas é demasiado poderoso para aceitar «imposições, mesmo que internacionais, como poderá acolher o apelo do Papa?

Apreciei que surgisse na nossa Paróquia um grito corajoso a fazer-nos saltar para a rua clamando pela paz, numa altura em que as nossas sociedades já se habituaram a cruzar os braços diante de tantas barbaridades que os media nos fazem entrar pela casa adentro. Pensamos que tudo se passa ao longe e procuramos não nos incomodar. Será possível, como cristãos, ficarmos calados diante de tantas atrocidades? Não nos demos conta ainda de que os cenários de guerra se vêm multiplicando e acontecem cada vez mais perto de nós? Quem pode dizer hoje que vivemos em total segurança? Os fenómenos recentes de terrorismo urbano revelam que ninguém se encontra totalmente seguro.

Vir para a rua gritar pela paz, além de a rezarmos porque se trata de um dom de Deus - mesmo para aqueles que não acreditam e não a consideram assim - terá certamente um efeito evidente em cada um que participar na Marcha pela Paz: o de se pensar comunitariamente e em solidariedade com todos os afectados pela guerra; o do compromisso em estar atento a tantas situações em que se torna agente de violência ou de incompreensão à sua volta; o de se assumir como irmão de todos os outros, não lhe impondo pensamentos ou atitudes que, parecendo boas, «únicas» e até inquestionáveis, nunca tem o direito de forçar a consciência do outro.

Quando um dia, já lá vão 20 anos, participei numa manifestação de repúdio pelo acto de terrorismo que matou vários monges de Tibherine (Argélia), sei o que quis exprimir e o que senti com a minha revolta, publicamente manifestada: para que nunca mais seja necessário vir para a rua para reivindicar aquilo a que todo o ser humano tem direito: a VIDA.

1 de Janeiro de 2017 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - C

«E o Verbo fez-Se carne e veio habitar no meio de nós». Essas palavras, tão repetidas, particularmente na época natalícia, terão ainda sentido? Faço a pergunta motivado pelos tão diversificados discursos sobre o mundo complexo em que vivemos, no qual, desde a política à religião, tudo aparece valorizado e desvalorizado ao mesmo tempo, com ar de novidade e repetido ao mesmo tempo e em que muitos acreditam em tudo enquanto outros não acreditam em nada.

Quando Bento XVI denunciou, em termos muito próprios e realistas, o relativismo ético que caracteriza a sociedade contemporânea, longe estava eu de imaginar que, poucos anos depois, poderíamos ver um relativismo mais radical ainda do que o sentia na altura. Para onde nos dirigimos nós, afinal, neste tempo em que o relativismo evoluiu para um «pós-verdade », que despreza a objectividade dos acontecimentos e da realidade, ou para a ideologia LGBT, em que a realidade biológica e natural é sacrificada pelo desejo, tantas vezes imposto por grupos marginais mas poderosos, mais poderosos até que aquele poder que surge do exercício do voto democrático livremente expresso? Ou até poderemos perguntar se hoje é possível, em determinados contextos, usar da liberdade pessoal que as democracias tanto se ufanam de proclamar. Não duvido de que a liberdade de hoje é uma conquista tanto mais difícil e onerosa quanto a vertiginosa máquina da comunicação evoluiu, sem regras claras quanto ao seu uso, que balizem os abusos de alguns poderosos.

Nos discursos políticos, tudo aparece com uma honradez intocável. Um pouco de atenção, no entanto, basta para se perceber que a realidade é outra por baixo da máscara. Basta parar um pouco diante dos discursos e práticas políticas: o que a oposição condena é o mesmo que ela faz quando passa a governo. Ou seja, esquece-se a coerência, que poderia traduzir-se em honradez ou fidelidade à palavra dada, valores outrora intocáveis mas que hoje se evocam segundo as conveniências e conforme os quadrantes políticos. Diz-se mesmo que quem honra, no campo político, a palavra dada, perde sempre em eleições. E admiramo-nos nós dos populismos e radicalismos emergentes nas sociedades contemporâneas?!

Optimista como sou, espreito os sinais que, nos mais diversos quadrantes das nossas sociedades, vão surgindo a advertir que não se pode continuar sem uma ética de valores que permita de facto a justiça social e fundamente a esperança natural das jovens gerações.

Os casos prementes e chocantes dos atentados terroristas têm merecido páginas e páginas de discussões e análises quanto aos porquês. Quanto a mim, eles revelam os vazios da sociedade, os seus falhanços nas últimas décadas e a sua falta de resposta para as questões de sentido que, mesmo parecendo iludidas, se mantêm vivas no coração das jovens gerações. Pasme-se ao vermos como o laicismo francês, que quis levar até aos limites mais extremos a separação da religião e da política, a ocupar-se agora de controlar e propor uma formação dos líderes muçulmanos segundo a sua «ética republicana». Será o cúmulo da desfaçatez que, mesmo assim, impede de reconhecer que a trajectória imposta sobre os franceses, nas últimas décadas, falhou redondamente. Posto de lado o quadro de valores que deu origem à «igualdade, liberdade e fraternidade», mesmo assim permaneceu a sociedade, que tem alma e tem história, à mercê daqueles que, em nome e seguindo as próprias leis da república, delas abusam para impor outro e diferente quadro de valores totalmente desajustado da realidade histórica de uma nação fundada e desenvolvida nos valores do cristianismo. E, entretanto, volta a ser Natal. Deus fez-Se Palavra para viver no meio de nós. Será que há lugar, nas sociedades modernas, para a doçura de uma criança cuja mensagem se reduz àquilo de que todo o ser humano precisa: vive em paz com aqueles que te rodeiam, que são os teus irmãos.

25 de Dezembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCIX

Fui, há dias, visitar os doentes da Paróquia. Não fiz mais que o meu dever de pároco. Ao menos duas vezes por ano. Há colegas que o fazem todos os meses. E sabemos como os que estão em casa estimam a visita do sacerdote. Ele é aquela visita que marca a diferença.

Seja pela dimensão espiritual, às vezes tão esquecida ao longo da vida, mas que a doença ou idade faz voltar. Seja pela «novidade » que a conversa traz em relação a outras visitas. Seja pela discreção e sigilo, que lhe reconhecem. Seja pela atenção personalizada e desinteressada. Seja pela confidência que experimentam. Seja pela resposta segura e esperançosa que dele esperam. De facto, o padre não é o advogado ou notário, não é o pretenso amigo para influenciar decisões, não é o médico que vai determinar o cálculo do desfecho final ou carregar com mais medicamentos ou chamar a ambulância para levar ao hospital para onde se não quer ir. Não é aquele familiar próximo cujas manhas e segundas intenções se temem. O padre é, normalmente, para um doente ou velhinho que não sai de casa, aquela visita que marca a diferença e que faz a ligação com o tempo passado e com o tempo futuro, aquele que, desligado de qualquer interesse momentâneo ou arquitectado no tempo, simplesmente está ali, ao lado, mais para ouvir do que falar, e tornar presente Aquele que se deseja mais que nunca presente, o Jesus que se ama, ou a lembrar-nos que, mesmo esquecidos por todos e alheio para todos, Deus está presente, «esquecido» do passado, acolhendo sempre e de novo. O Padre, numa palavra, é, ali, a Igreja de que tenho saudades, a comunidade crente cujo calor já não sinto, a minha Paróquia ou a Igreja que vem até mim, quando eu já não posso ir até ela.

Estas foram reflexões desta «volta aos doentes». Com elas pude dar graças a Deus pelas coisas boas que vi e que me levaram, de modo geral, a deixar a todos uma palavra de esperança e de gratidão «pelas maravilhas que Deus operou» na vida de cada um. A aproximação do Natal, este ano no contexto de uma Mãe, a Senhora da alegria que dá à luz e se manifesta grata e contemplativa, levou-me a convidá-los a serem reconhecidos pelo bem que têm, evitando lamentar-se com os bens que não têm. É que vi e apreciei o cuidado dos que os rodeiam, o apoio institucional que recebem - que bom trabalho prestam as equipas de apoio domiciliário - a ligação hoje cada vez mais facilitada ao mundo que nos rodeia através da rádio e televisão - que bom ver que tantos acompanham o terço diário da Rádio Renascença às 18.30 e outros até seguem a Canção Nova, hoje presente em quase todos os pacotes de canais de TV pagos (como seria bom que as famílias dessem essa prenda aos seus acamados!).

Dá gosto ver como aqueles que passaram a vida com hábitos de vida cristã, a missa dominical com a comunhão e a confissão, valorizam a presença sacramental do sacerdote ou a do ministro extraordinário da comunhão. Fiquei feliz ao reconhecer a necessidade que alguns sentiam de me certificarem do bom serviço daqueles que lhes levam a Sagrada Comunhão ao domingo, como também estes se sentem gratificados pelo serviço que prestam ao contemplarem os rostos agradecidos pelo «Senhor» que entra na casa deles.

Também eu aprendi e aprendo muito nestes contactos pastorais. Como acontece quando contemplo a serenidade com que o meu pai passa os seus dias nos 91 anos que conta: o envelhecimento é um processo de corte com o passado, com as coisas, com as pessoas. É sempre difícil e custoso. As «queixinhas» dos idosos revelam a criança a que voltamos e a insatisfação que carregamos. A aceitação da realidade da doença ou da velhice não é fácil para ninguém. Mas é mais fácil para quem acredita: entre o «esperar a morte inevitável» e o «esperar o encontro com Deus», vai uma grande diferença. Que muitos entendem, felizmente.

18 de Dezembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCVIII

Estaremos em mudança de rumo? Apesar de genérica, a questão baila no espírito de muita gente. Que andamos em TGV, ninguém o duvida. Todos o sentimos e, os mais velhos pelo menos, nos perguntamos para onde corremos. E não sabemos. O ritmo alucinante da nossa sociedade de consumo, em que tudo se reduz à obtenção de bens materiais, fáceis, rápidos e baratos, gera muitos excluídos e obriga a sacrificar a contemplação desejada e necessária.

Creio bem que estamos a tomar consciência de que é necessário um outro modo de organização da vida pessoal e social. As chamadas crises são o sinal de alarme de que as coisas não vão bem: somos menos livres, sujeitamo-nos a ritmos que nem todas as personalidades suportam e, se queremos o pão necessário para comer, não podemos deixar de entrar na «engrenagem» que, bem depressa nos leva a sentir autómatos, «máquinas» de produção e números de consumo. A esta economia liberal tem de suceder, e rapidamente, uma outra mais humana, dizemos e desejamos muitos.

Os recentes e oportunos desafios do papa Francisco, algumas vozes concordantes pelo mundo que se ouvem cada vez com mais força, os «abanões» recentes pela nossa Europa fora, governada mais por tecnocratas do que por verdadeiros estadistas conhecedores da alma dos povos (cada povo com especificidades próprias, a serem respeitadas), as politicas falhadas e reveladoras de interesses tantas vezes abjectos que são mais fortes do que o sofrimento injusto imposto a populações numerosas, as guerras fratricidas tantas vezes alimentadas do exterior, tudo isto faz pensar que estamos a bater no fundo e só nos resta a coragem de parar para pensar e contemplar a política de terra queimada, que é preciso substituir.

O apelo repetido do Papa Francisco à contenção nos gastos para que o Natal, livre do egoísmo e da corrupção, volte aos valores que o tornam «sagrado» e único, ou o dos bispos que denunciam as campanhas «mascaradas» de solidariedade, bem poderia marcar a diferença, dando aos dias que nos separam do Natal a necessária calma de modo a podermos saborear a noite de Consoada, em conversa amena uns com os outros, «desligados» dos telemóveis em mensagens de última hora, dando atenção aos de longe e esquecendo os que estão ao lado. É que naqueles que nos rodeiam à mesa é que se encontra o verdadeiro sentido desta noite tão especial: no «outro», pai, mãe, irmãos, avós ou até o que foi encontrado sozinho na rua, está o verdadeiro Messias por quem chamámos no Advento. O Menino Jesus é, tantas vezes, o verdadeiro ausente, quando já há muito que não tem lugar à mesa da família. Não será tempo de parar para pensar: sem Ele, hão-de impor-se os violentos e os herodes, quais sanguessugas daqueles que não têm saúde, dinheiro ou inteligência suficientes para lutarem pela sua própria dignidade. Sem Ele, as sociedades tornam-se cada vez mais frias e injustas, violentas e corruptas. É que Ele, na sua candura de Menino, sem exércitos que o protejam, aparece sempre indefeso a denunciar que a força das armas nunca pode ser superior ao gesto desarmado de quem grita a sua própria liberdade.

As cidades vestem-se de luz por estes dias. E Barcelos não foge à regra. O colorido da cidade iluminada merece ser apreciado. Saberemos nós que tantos milhares de lâmpadas, grandes e pequenas, se tornam, neste mundo escuro e com os horizontes demasiado baixos, um convite a olharmos para a Luz? Sim, a do Menino de Belém, que quer chegar a todos. Mudança de rumo, dizia no início. Creio estar a ler bem os diversos sinais, espalhados um pouco por todo o mundo. Acredito que eles me dizem que é chegada a hora de reconhecer a trajectória de abismo que levamos porque, como Herodes outrora, quisemos matar o Menino de Belém. Mas, entretanto, todos os herodes morreram. E o Menino, continua vivo, sim ou não? Cada um tem a sua resposta.

11 de Dezembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCVII

Nesta por muitos classificada «feira de vaidades», são muitas e diárias as surpresas. Às vezes, tais surpresas são tidas como acidentais, passageiras, não lhes dando relevância no momento. Tempos depois, porém, elas impõem-se-nos como importantes, quase até como imprescindíveis ou únicas.

Quem diria, há uns anos atrás, que certos extremismos, de esquerda e de direita, chegariam ao ponto de se nos imporem, como se não houvesse um passado a determinar uma progressão sensata e metódica, encaixada sem sobressaltos na experiência humana de séculos?

Vejamos como, no espaço de uma década, as questões fraturantes se impuseram à nação portuguesa, e a outras, e se apresentam saudadas como progressismo, modernidade ou ambições de seguir no pelotão da frente da evolução da humanidade. Que pena que seja em tais questões que Portugal, ou Espanha, se queiram posicionar na frente, quando em tantas coisas bem mais essenciais, nos encontramos na cauda.

Vem isto a propósito da anunciada tentativa de impor também a eutanásia, mesmo sem debate público, a um povo pacífico e pouco crítico, ignorando o grito da consciência colectiva, no contexto de valores a respeitar, que foram construindo, ao longo dos séculos, a identidade nacional. Para não falar já da ideologia de género, tão viva noutros países, sobretudo na vizinha Espanha, que pretende revolucionar tudo e todos, ao «impor» uma interpretação de fenómenos colectivos ou tendências extremistas capazes de criar um novo tipo de sociedade, porventura fruto de mentes delirantes e perversas. Com que então não nascemos fisicamente homem e mulher, mas antes podemos definir, segundo critérios ou tendências subjectivas, o sexo de cada um? Porque mais importante que a biologia, ou a natureza, é o gosto ou a interpretação, o desejo sem limites ou a curiosidade de tudo experimentar? A que ponto chegámos ou estamos a chegar, quando se «educa» as jovens gerações de modo a que «escolham» o sexo que querem, em vez de se aceitarem como são ou no respeito da natureza? Parece que o pretenso «desajuste» físico e/ou mental, implica «ajustá-lo» ao capricho pessoal em cada etapa do desenvolvimento humano. Que beleza e que dom de Deus este de gostar de si próprio, desde a mais longínqua consciência de si até ao momento presente!

Como se não bastasse a invasão de leis e costumes concordes com a perversa ideologia de género, eis que surge, agora, um conceito várias vezes repetido nos últimos tempos, sobretudo em ambientes de discussão política. O pós-verdade parece querer impor-se num sentido muito perigoso ao pôr em causa a objectividade dos acontecimentos. Porque estes são o que são, independentemente das interpretações ou dos diversos ângulos a partir dos quais são olhados. Não vão longe os tempos em que, em certas discussões políticas, se sabia de antemão, a postura de adversários diante do mesmo acontecimento. A «cartilha» era antiga e tudo era observado, na realidade evolutiva, pelo que estava determinado na «cartilha» do marxismo-leninismo: mesmo diante de uma derrota evidente, havia sempre quem se considerava vencedor «dando a volta ao resultado». Pobres de nós se a objectividade dos acontecimentos deixar de ser respeitada, ficando à mercê das interpretações subjectivas, sujeitas aos interesses momentâneos de cada um.

«Pós-verdade é a palavra do ano 2016 para o dicionário de Oxford. Para aquele respeitado dicionário, pós-verdade é um termo que define «circunstâncias nas quais os factos objectivos são menos influentes na opinião pública do que os apelos à emoção e às crenças pessoais», leio eu hoje (30/11) no artigo de Carlos Zorrinho. E vamos, depois, queixar-nos dos populismos e outros movimentos de tendência extremista, quando reconhecemos o abandono generalizado do respeito pelos valores e identidades, construídos ao longo de séculos, como se não tivéssemos um passado de memória e de experiência partilhada no respeito de uns pelos outros! Para onde caminhamos nós, afinal? Não quebro a minha esperança e creio num futuro melhor. Mas não me dispenso de um olhar crítico e realista.

4 de Dezembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCVI

A chamada «cultura de morte», como a classificou o saudoso Papa João Paulo II, ao desviar as atenções para uma vida sofregamente vivida, voltada exclusivamente para as satisfações mundanas ou materiais e biológicas, alheada ao transcendente - uma cultura que se impõe afastando Deus do quotidiano pessoal e reduzindo cada vez mais os sinais religiosos na praça pública - retirou do horizonte humano aquela certeza inquestionável de que um dia vamos morrer. Sem fé, o humano fica reduzido ao espaço e tempo, e o sentimento de solidão agrava-se cada vez mais criando terríveis desequilíbrios que confirmam que o homem precisa de se confrontar permanentemente com Alguém, mesmo que seja para O contestar. Claro que, se vamos morrer e não há mais nada para além da morte, então vale tudo e para quê ética e moral, para quê pensar em «dar contas» ou agir com responsabilidade perante si e perante os outros? A morte é para afugentar e, pela dor que supõe, inegável para todos, basta-nos viver o melhor possível estes «dois dias porque o primeiro já passou». Se nos espera o nada...

Nos finais dos anos oitenta, os bispos europeus reunidos em simpósio, chamaram a atenção para as consequências no futuro, da «privatização da morte», tornada solidão, afastando-a do contexto familiar e afugentando-a para uma cama de hospital, tida como mais confortável e rodeada de técnicos capazes de acalmar a dor.

Trazer a morte para a reflexão e, sobretudo, ajudar a conviver com a ideia da morte, diminuindo-lhe o medo que nos causa só em pensar nela, é missão do anúncio libertador que Jesus confiou à sua Igreja. Cuidar do «discurso» sobre a morte, ajudando a considerá-la à luz da fé num Deus misericordioso é tarefa urgente. E é isso mesmo que o Arciprestado de Barcelos tem feito desde há quatro anos, promovendo uma conferência sobre a morte e o além.

Na passada quarta-feira, uma vez mais o Auditório Municipal - cuja cedência agradecemos ao Município - se encheu para o ouvir o P. Doutor Manuel Matos, Vigário Geral da Diocese da Guarda, que veio, pela segunda vez, a Barcelos para expor em linguagem teológica e acessível ao auditório, o fruto das suas reflexões, editadas em livro com o título Ressuscitarão os mortos?

As 270 pessoas presentes apreciaram a clareza da sua exposição e saíram confortadas com o convite a deixarmos ser Deus, Pai de Misericórdia, a revelar-se presente no processo do morrer que acontecerá com todos.

A destacar, avaliando as perguntas que foram feitas no momento do diálogo que se seguiu à exposição, a «qualidade» das perguntas que alguns quiseram fazer. Na minha observação, elas revelaram que estamos no bom caminho dado que foram já mais elaboradas e reveladoras de que um novo «discurso» sobre os «novíssimos» se vai acolhendo, pesem embora as naturais dificuldades de um dizer o mistério - o de Deus e o dos homens, bem como a salvação eterna ou bem-aventurança em Deus - que sempre nos ultrapassa.

Pela primeira vez, entretanto, através do facebook da nossa Paróquia, cinquenta pessoas seguiram em directo a conferência e deram o seu «Gosto», o que nos faz pensar em criar as condições técnicas necessárias para uma emissão de qualidade em futuras actividades.

Que a morte inevitável possa ser «acolhida» e integrada no processo da nossa vida quotidiana, no nosso mundo de relações com os outros e com Deus. Porque o pensar a morte e trazê-la para o nosso mundo só se justifica para dar qualidade à nossa vida e Deus criou-nos para sentirmos a vida como dom, como liberdade e como compromisso de uns com os outros no amor.

27 de Novembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCV

Surpreendendo a todos – talvez só ela pressentisse o que viria a acontecer - a Rita Ricardo partiu ao encontro do Senhor. Foi a sua ressurreição, que a fé, tantas vezes por ela reflectida, nos permite afirmar. Porque ela procurava o sentido do seu viver e encontrava-o na experiência quotidiana da relação rezada e pensada com o “seu” Senhor.

Alguém me dizia que seria o funeral mais participado nos últimos tempos em Barcelinhos. Na minha atenção à assembleia numerosa, pude observar muita gente dos diversos grupos paroquiais de Barcelos em conjunto com os paroquianos de Barcelinhos, a cuja Paróquia pertencia. Sinto-me feliz por poder reconhecer que ali estavam pelas mesmas razões que eu, as do coração mais do que as da obrigação. De facto, eu senti que ali deveria estar comungando, como os outros, familiares e amigos, da mesma dor da perda e fazendo o luto, de que cada coração precisa.

As exéquias celebradas foram belas pela simplicidade e sentidas como convinha a todos os que a viram viver da fé. Convinha que assim fosse, porque a Rita era pessoa simples mas dedicada aos outros, “artista” na conciliação do seu tempo doado à família, ao trabalho e à Igreja. Admirei como ela procurava a inteligência da fé (participava semanalmente na catequese de adultos) e a conciliava com a doação generosa à Igreja, não só em Barcelos, que conhecia, como em Barcelinhos, que desconhecia.

O Pároco de Barcelinhos, que presidiu, foi feliz ao evocar a sua missão de sal da terra e luz do mundo, a missão que Jesus pede a cada um dos seus discípulos. E ela, a Rita, desempenhou-a de uma forma muito especial, bem conhecida e admirada pelos seus familiares mais diretos, mas também reconhecida por muitos outros, confirmando o que o Evangelho diz que a luz não se pode esconder mas que, quando acesa, ilumina tudo à sua volta.

Obrigado, Rita, pela tua fé e pela riqueza do teu testemunho, que não poderemos esquecer.

Partiste. Vives no Senhor. Ressuscitada, venceste a morte. Procuraste o Senhor glorioso. Encontraste-O. Nós continuamos por mais algum tempo, nesta terra que queremos transformar em Reino de Deus.

Em intensa jornada teológica vivida logo a seguir, na Universidade de Comillas, dedicada ao Céu, pude repensar todas as minhas convicções de fé à luz das mais recentes investigações teológicas acerca das experiências relatadas pelos santos e pelos místicos, bem como as representações do céu ao longo da história- e dei graças a Deus pelo dom da fé, que me faz ver mais longe e perceber que a relação com Deus torna o mundo divino, pois é no humano que Deus encarna e que, encarnando, forma neste mundo o Céu, a morada de Deus.

De facto, o Céu é pensado pelo crente como o ponto de chegada da sua caminhada no mundo. Mas, neste entretanto, assim como podemos fazer da nossa terra um inferno, também podemos fazer dela um Céu.

O anseio e a busca da eternidade perseguiram o ser humano desde os primeiros momentos de consciência humana. Na sua convicção de que a morte não é fim, mas transição e abertura definitiva para a vida, a história da humanidade foi representando de muitas e diversificadas maneiras este desejo e esta visão do “mais além”.

A Rita passou do aquém para o além, do real para o mais real, do temporal para o eterno. Porque a fé provoca e não deixa no descanso - pobres dos que pensam que a fé nos descansa em vez de inquietar, pois seria o ópio – somos convidados a CRER no hoje da Rita na glória de Deus e não no ontem, entre nós.

20 de Novembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCIV

São 13.00 de segunda-feira. Amanhã, por esta hora, abrirão as urnas para as eleições americanas. Também eu, como a maior parte dos europeus, falo do que poderá delas resultar a partir das visões que nos dão a televisão e os jornais, bem como as análises e as sondagens. Estas dão a Hillary mais de três pontos de vantagem. Por elas, todos dizemos, nesta véspera eleitoral, que a senhora Hillary Clinton será a nova presidente da América. Será mesmo?

Lembrei-me de pôr por escrito estes pensamentos que me invadem no antes para, depois, os confrontar com os resultados.

1. Temo que estejamos a ser enganados por uma visão «forjada» na Europa em relação à América. Não seria a primeira vez. Desde que, em 2004, comprovei que a comunicação social europeia é bastante tendenciosa em relação à América – talvez um complexo de inferioridade que não se assume face à potência que foi e ainda é a América, essa grande nação sempre presente e eficaz nos grandes conflitos internacionais, cuja intervenção na Europa foi decisiva para o fim da Segunda Guerra Mundial - que mantenho reservas sobre o que nos dizem da América.

2. Em 2004, a pouco mais de um mês das eleições americanas, chegava eu a Barcelos vindo da América. Trazia a visão de que os republicanos (George W. Bush) iriam ganhar as eleições. Duas semanas bastaram para me abalar as convicções que trazia. Sondagens e comentários davam a vitória certa aos democratas. Pois bem, ganharam os republicanos, confirmando a visão que trazia e constituíra no terreno.

3. Agora, face a dois candidatos qual deles o mais irresponsável e imprudente, que muitos preferiam excluí-los a ambos, interrogo-me como é possível que todo o processo eleitoral se tenha continuado pondo em causa, por parte de ambos, a dignidade de um povo e a sua grande história. Claro que a questão tem de ser situada nos dados que a comunicação social me transmite. Que, honestamente e por experiência, tenho de pôr em causa quanto à sua veracidade.

4. Se o candidato republicano é o que dele dizem, como pode ele ainda estar na corrida e, sobretudo, como pode ele ainda aproximar-se da candidata democrata, segundo o que dizem as sondagens? Então os eleitores americanos estarão de olhos tapados para não verem o que os europeus vêem? A verdade é que são os eleitores americanos, e não os europeus, que vão escolher.

5. Há umas semanas atrás, um casal amigo emigrante na América, em breve visita a Portugal, dizia-me que, apesar de tudo, se inclinava a votar em Trump. Para ele, atentos os valores que defende e atenta a hora que o mundo vive – as eleições americanas «mexem» com o mundo todo – Trump era para ele o mal menor.

6. Também eu me inclino para a vitória de Hillary. Mas, de pé atrás, estou preparado para uma surpresa. E fico-me por aqui, na esperança de poder continuar este texto na próxima quarta-feira.

*********************************

Volto, agora (23.00 de quinta-feira) a reler o texto que escrevi, volvidos quase dois dias, numa passagem de tragédia a drama, misturada com comédia, num «palco» que todos pisámos pois vivemos intensamente o momento como se os resultados dependessem de nós.

Segui a noite eleitoral e assisti à mudança de posições dos diversos comentadores, surpresos e até revoltados, obrigados que foram a tragar o que lhes era antes impossível.

Não me detenho a analisar o porquê da «surpresa». Não me sinto à altura nem esta é a minha missão. Apesar de tudo, simples cidadão de olhos abertos para o mundo, permito-me dizer uma palavra de regozijo porque a democracia funcionou e permitiu mudança (que pode legitimamente ser julgada para melhor ou para pior, mas, pela esperança que traz de novidade, a mudança já é boa em si mesma), de tranquilidade, porque as democracias funcionam na interdependência dos poderes (parece-me que melhor na América do que na Europa), de sensatez, porque a experiência nos diz que as promessas eleitorais são sempre repensadas antes de executadas. Se aceitamos que tantos políticos não cumpram as boas promessas, porque não havemos de confiar que, neste caso, as más também se não cumpram ou se transformem em boas? Uma coisa é certa: o mundo precisa e está num processo de mudança. Pertence-nos a todos fazer cada um a sua parte para que a novidade seja boa.

13 de Novembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCIII

A vida pastoral de um pároco tem muitas surpresas. Umas mais positivas que outras. E o «estado de abertura» a tais surpresas - aquelas que o Espírito de Deus faz surgir, ou também aquelas que são fruto dos entraves e das incompreensões humanas - é condição para o equilíbrio pessoal do pároco que, humildemente, vai reconhecendo que não passa de um «servo inútil» nas mãos de Deus, o Único que move os corações humanos.

Falo hoje de uma dessas surpresas que, porque tão inesperada, me fez agradecer a Deus e sorrir para mim mesmo, ao dar-me conta de que a acção de Deus, misteriosa e oculta no coração das pessoas, vai-se fazendo sentir.

Há tempos que vinha pensando chamar os padrinhos daqueles que se preparam para o Crisma. E ousei pedir aos crismandos que os convidassem para uma sessão de preparação. De facto, não esperava que viessem muitos. E até vieram poucos. Neste ponto, nada de surpresas. A surpresa chegou quando, em breve interpelação aos que vieram, lhes perguntei o que pensaram da minha ousadia de os convidar a acompanhar os afilhados, numa altura em que nos faltam ainda alguns meses para a celebração do Crisma.

Responderam que não estranharam o convite, o que me surpreendeu, pois aqueles poucos que vieram fizeram-no com gosto, acharam bem e ficaram honrados com o mesmo. Continuando o diálogo com estes padrinhos, verifiquei com muita alegria que o seu testemunho situava-se na verdade do que se espera de um padrinho/madrinha que, no acto do «fazer-se» um cristão, se compromete para a vida com o seu crescimento espiritual. Para eles, os que lá estavam, era normal acompanhá-los na preparação para o Crisma, porque foram padrinhos presentes no desenvolvimento do processo catequético. Claro que à minha agradável surpresa se juntava um certo ar de orgulho, quer por parte dos padrinhos, quer por parte dos afilhados.

Não gastei muitas palavras de reforço do que é verdadeiramente a missão de um padrinho de Baptismo. Eles testemunhavam que a sua missão estava no acompanhamento presencial e cuidado do crescimento da fé.

De onde vinha a minha agradável surpresa, tanto mais que eles próprios, os tais poucos presentes que aceitaram o convite, não hesitaram em falar do compromisso assumido anos antes?

Confesso que me dei conta de que estava a enveredar por um lugar comum, o do pessimismo que estiola e desencanta, acabando no desânimo e na frase tantas vezes repetida de que «não vale a pena» porque «o povo não quer, não está para isso». Tenho sido, ao longo dos meus 39 anos de sacerdócio, um contestatário da desculpa tantas vezes repetida: «o povo não quer» e «isso aqui não pega porque o povo não muda». Confirmei que vale a pena ousar e provocar a mudança, que exige seja bem explicada. Não é, ainda hoje, o Evangelho de Jesus uma Boa Nova? E se as pessoas não lhe «pegam», não será que nós, primeiros responsáveis da missão do anúncio, a deixámos tornar velha, insípida e incapaz de responder aos anseios de hoje? Não estaremos a «dar respostas» a perguntas que ninguém faz? Partilho com os meus leitores as preocupações de um coração de padre que também desanima e se reanima, que se questiona e reza para manter o entusiasmo que só pode vir de Deus. Mas sinto ser meu dever de justiça, neste acto de partilhar uma alegria bem vivida, reconhecer que a verdade vai fazendo o seu caminho. E que o «fermento» vai levedando a massa. Porque, apesar das incompreensões, vai aparecendo, de vez em quando, gente com uma seriedade no seu agir, desejosa de saber a verdade, que aprecia que se lhes diga que ser cristão implica exigências e até mudanças no seu estilo de vida, caminho necessário para a descoberta do rosto jovem de Jesus e da força e riqueza da sua mensagem, que dois mil anos depois se conserva jovial e capaz de atrair.

6 de Novembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCII

Foi notícia na semana passada.

Em documento oficial, Roma (Congregação da Doutrina da Fé) pronunciou-se sobre a cremação. Vale a pena ler o texto integral http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2016/10/25/0761/01683.html#POR) para ajuizarmos correctamente e não nos ficarmos pelos títulos dos jornais, sensacionalistas e redutores, já conhecidos de todos, destacando as proibições e as resistências aos novos tempos... que nunca passam a velhos.

Terá sido oportuno o assunto? Alguns dizem que seria melhor não falar dele. Por mim, julgo que a oportunidade existe, face à evolução da sociedade, cada vez mais alheia ao anúncio reconfortante da fé cristã, fundamentada na ressurreição de Cristo, o ponto de partida para os rituais da morte e do funeral religioso próprios da tradição cristã. Por outro lado, aproxima-se o dia da saudade, que faz acorrer aos cemitérios as multidões que ali encontram, ainda, o «lugar» da memória e da consolação, bem como um espaço único no fazer o luto. Gostei de ler, entretanto, um comentário assinado por Henrique Raposo (http://rr.sapo.pt/artigo/67151/cochichar_com_os_mortos?utm_medium=email&utm_source=newsletter), que recomendo.

A Instrução da Santa Sé é, para mim, oportuna. Tendo em conta que, desde 1963, que a Igreja permite a cremação, mas não a prefere, atitude que entrou no Código de Direito Canónico (1983) e face ao desenvolvimento cada vez maior da prática da cremação, é de toda a conveniência repensarmos o assunto e formarmos a consciência dos féis sobre os verdadeiros porquês da preferência da sepultura à cremação. Quando a Igreja anuncia, não o faz contra ninguém, nem para proibir, mas antes para ajudar a formação da consciência, apresentando um ideal e as razões para tal. Quem tem medo de uma discussão objectiva e sem pressões, baseada em fundamentos teológicos, psicológicos, culturais e tradicionais?

Claro que, na Instrução referida, não vêm outras respostas a outras questões porventura mais prementes. Ela diz respeito apenas «à conservação das cinzas no caso da cremação», dizendo que a sepultura no cemitério é «a forma mais idónea para exprimir a fé e a esperança na ressurreição corporal», pelo que «não pode permitir comportamentos e ritos que envolvam concepções erróneas sobre a morte: seja o aniquilamento definitivo da pessoa, seja o momento da sua fusão com a mãe natureza ou com o universo, seja como uma etapa no processo de reincarnação, seja ainda como a libertação definitiva da ‘prisão do corpo’».

Provavelmente, a acuidade mediática desta tomada de posição provém do último parágrafo do documento: «No caso do defunto ter claramente manifestado o desejo da cremação e a dispersão das cinzas na natureza por razões contrárias à fé cristã, devem ser negadas as exéquias, segundo o direito».

Talvez que o mais oportuno actualmente seja mesmo reflectir sobre o funeral religioso, o modo como ele se realiza, o seu profundo significado, particularmente no respeito ao corpo e à sua dignidade, e na fé na ressurreição que o justifica. Porque, de facto, há funerais que não deveriam ser realizados com ritos religiosos, pois contradizem a vida e as convicções da pessoa que se vai a sepultar. E há pessoas que, legitimamente, se afirmaram não crentes ou não religiosos e têm «direito» a um funeral segundo as suas convicções. Haja ao menos uma preocupação de verdade no que fazemos. Sobretudo em momento tão marcante para uma família. E para a Igreja/Paróquia, chamada a anunciar a ressurreição de Cristo como justificação para a afirmação de que «a morte foi vencida em Jesus Cristo». O Crer na altura do funeral é apenas a continuidade do Crer ao longo da vida: «tal vida, tal morte», diz o povo.

30 de Outubro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XCI

Passei os últimos dias em retiro. Em Fátima. Como habitualmente.

Para um sacerdote o retiro espiritual é um dever. E deve ser uma necessidade. Alguns poderão estranhar: se o padre celebra a missa e reza todos os dias, ainda precisará de mais? Claro que sim. Também ele precisa de parar para reflectir, de «um olhar outro» sobre a sua própria existência, de fazer balanço sobre a sua vida pessoal e «profissional», mais que qualquer outro, dado que a sua «profissão» não se circunscreve a um conjunto de deveres e de afazeres. A sua vida é missão, fruto de um mandato do próprio Senhor que o envia e ao qual deve dar contas permanentemente. As avaliações mundanas do seu exercício nunca poderão ser prioritárias e conclusivas: «quem me julga é o Senhor», como dizia S. Paulo.

Como a de qualquer fiel baptizado, também a vida do padre deve estar constantemente referenciada a um centro, que se chama Jesus Cristo, para o qual devem tender todas as suas actividades, pensamentos e desejos. A verdade é que a dispersão que afasta do essencial toca a todos. Recentrar-se no essencial não é tarefa fácil. Toca o interior de cada um e a agitação do fazer e de tudo fazer esgota, cansa e dispersa.

O retiro é esse tempo de graça, de procura de calma interior, de tomar consciência da fragilidade, do pecado e da consequente necessidade da graça de Deus. O autodomínio e a boa gestão do tempo não são fáceis para ninguém. Mais ai daqueles, e até daquelas empresas, que não fecham para «balanço». E quanto mais vivemos em função dos outros – e o padre vive uma missão em que o Outro, contemplado nos outros, assume prioridade – mais facilmente nos esqueceremos de nós próprios. E quando dispersos interiormente, sem nos centrarmos no Senhor, menos eficaz mas mais cansativa será a acção pastoral em favor dos outros. Não é por acaso que o retiro espiritual é prática muito antiga na Igreja e sempre recomendada, não só aos padres e religiosos, como, felizmente, também aos leigos.

Gosto de o fazer em Fátima. Com padres das várias dioceses. Desta vez, éramos 24, de norte a sul de Portugal.

Todos sabemos o que Fátima é no nosso país e para a espiritualidade de cada um. O ambiente sacro, nas imediações do Santuário, favorece o recolhimento. Os grupos de peregrinos que louvam Nossa Senhora e rezam na Capelinha dão-nos a dimensão de uma Igreja universal que, nas várias línguas, elevam um clamor em uníssono da terra ao céu. Rezar com eles ajuda-nos a interiorizar que, como eles, precisamos de Deus e do seu perdão para os nossos pecados, precisamos de nos situar diante do apelo à conversão e de renovar o nosso compromisso de que somos padres para o povo de Deus e não para nós próprios.

Claro que tudo seria diferente se não me afastasse geograficamente do território de missão que é o meu habitual. A distância geográfica favorece o «corte» com as preocupações diárias, como favorece também o olhar sobre elas mais objectivo, menos intenso e, logo depois, mais intenso, porque com maior entusiasmo.

Vou-me apercebendo também de que são muitos os grupos que promovem retiros espirituais. Como também de pessoas que procuram mosteiros e conventos para uns dias de reflexão pessoal. E mesmo grupos de jovens já programam os tais dias especiais para oração e experiências de oração em grupo. São os tais momentos que constituirão no seu futuro marcos de referência a dizerem que, ali, valeu a pena ser gente, valeu a pena dizer-se cristão. E num mundo cada vez mais vazio de valores mas carregado de experiências mundanas intensas, um retiro será sempre uma ilha ou oásis de paz, ao qual se voltará muitas vezes em pensamento de memória feliz.

23 de Outubro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XC

Fátima ocupa um lugar único na espiritualidade e na religiosidade de tradição católica. Ninguém o discute. E Portugal, que nos últimos cem anos, mudou muito, não se alheou de Fátima nas suas mudanças culturais, pese embora o intenso e agressivo laicismo que se impõe cada vez mais na sociedade portuguesa. Apesar de tudo, as televisões lá reconhecem que com Fátima os níveis de audiência pesam.

Cem anos depois, terá ainda sentido falar de Fátima e da sua Mensagem? Os entendidos dizem que sim. Os menos entendidos, alheios às discussões, não se dispensam de, actualmente por tudo e por nada - a autoestrada assim o permite - lá passarem para um «olhar filial» atirado para a imagem branca da Senhora, no indiscutível conforto que todos sentimos ao contemplá-la.

Historiadores registam e até insistem na influência da Mensagem de Fátima na queda de ditaduras ferozes, sobretudo do comunismo, contribuindo para uma nova reconfiguração da Europa.

Desde 1917 que a Mensagem de Fátima nos questiona e questiona os pensadores. O tal terceiro segredo de Fátima, finalmente revelado, fez correr rios de tinta. As suas «profecias», algumas delas, se não todas, já cumpridas, inserem-se no teor das grandes mensagens bíblicas, acautelando excessos de apropriação dos bens por alguns, sempre geradores de novas injustiças e guerras e lembrando que «Deus não dorme». O apelo à conversão, ao respeito pela criação e sobretudo ao respeito pelos direitos humanos, sem excepção, ocupam o núcleo da Mensagem de Fátima. Teremos ocasião de reflectir sobre tudo isto na conferência que a Ir. Ângela Coelho, médica de profissão, vai proferir em Barcelos, no Auditório Municipal, às 21.30 de quarta-feira, 26 de Outubro, numa iniciativa do Arciprestado.

E de onde vem a importância de Fátima? Certamente que a primeira resposta é a do desígnio de Deus: a Senhora veio como Mensageira de Deus deixar uma marca única neste seu Portugal, outrora bem conhecido como Terra de Santa Maria. Ela encontrou nas três humildes crianças a disposição interior capaz de uma entrega fiel e total à Mensagem que Ela queria deixar ao mundo. Depois, porque a religiosidade dos portugueses há muito que se desenvolve à volta do culto mariano. E nestes cem anos, como outrora os navegadores, foram os emigrantes que, ao partirem para longe da Pátria, não deixaram de levar com eles a Imagem de Fátima e de, à volta dela, construírem, nos países de acolhimento, a sua maneira de estar e de viver. As procissões de velas, as peregrinações a Santuários e mesmo nas igrejas onde se reúnem como comunidade portuguesa inserida na igreja local, tornaram-se marca identitária do portuguesismo no mundo.

Há ainda uma dimensão a não descurar: as fragilidades da vida, as doenças, os desafios enormes que, quer em tempos difíceis pela falta de pão ou de cultura, quer nos tempos de maior prosperidade económica, ainda que marcados por crises eventuais, levam sempre homens e mulheres a um refúgio no divino ou no transcendente. Mesmo que a religião possa ser considerada por espaço de refúgio ou, pior ainda, de alienação, o certo é que todos os povos precisam de transcendência, de religião, de resposta na sua aventura inata de se atirarem para o futuro. É verdade que a nossa religiosidade precisa de muita iluminação, ou seja de referência permanente à Palavra de Deus, que encontramos na Bíblia, não o escrito morto que alguns consideram, incapazes de saírem do seu gueto religioso ou de evoluírem para o dinamismo de uma Palavra viva e sentida quando a relação com o transcendente penetra no íntimo da alma humana. Essa Palavra acolhida, razoavelmente compreendida, torna-se luz a gerar pessoas livres e libertadas de medos que escravizam.

Os olhares de fé, que as televisões destacam nos peregrinos de Fátima, dizem o indizível da alma humana, com os seus dramas e as suas esperanças. Diríamos que é em Fátima que melhor se exprime a alma portuguesa e que Fátima é justamente olhada como o altar do mundo. Possam as celebrações do Centenário das Aparições contribuir para a redescoberta da Mensagem de Nossa Senhora, permitindo ressurgir a fé tantas vezes adormecida em tantos sectores da sociedade portuguesa.

16 de Outubro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXIX

O «São Miguel» é bem mais que a referência a uma data do calendário litúrgico ou a um anjo de especial importância nas crenças religiosas ou relatos bíblicos. O 29 de Setembro situa-se no início de Outono, ligado às colheitas. E às vindimas.

A Bíblia está cheia de referências à alegria do povo que vê nas colheitas o dom de Deus e, exultante, cria rituais celebrativos para louvar a Deus. E quem não gosta de «entrar» nas vindimas para saborear aromas e frutos de um trabalho de largos meses, desde a poda ao gesto de sulfatar e cuidar da vinha até que os cachos ganhem forma e cor, convidando à colheita?

Bem, duvido que seja assim nos nossos tempos, quando as nossas crianças deixaram de saber o que é lavrar um campo, levar as vacas ao pasto ou à ordenha, semear, sachar, mondar e regar o milho, retirar o estrume para adubar as terras e outras coisas mais que marcaram a infância de muitos e hoje são lembradas com saudade. Aquela simbiose da terra com o sol, do campo com a eira, da chuva e do nabal, tudo num ritual adequado às estações, que termina sempre de igual modo: a colheita dos frutos do trabalho na consciência do louvor ao Criador que, mandando chuva e sol na justa medida, que só Ele sabe, se torna o elemento mais importante para que se possa celebrar a colheita como dom a agradecer sempre.

Quando há dias participei na vindima na Casa Clementina Rosa, a propriedade doada à Paróquia pelo Sr. Manuel Esteves e sua esposa Gracinda, lembrei-me da minha infância sempre ligada à terra e ao trabalho manual. Sempre me orgulhei de ter preenchido com o trabalho agrícola a minha vida até à ordenação sacerdotal. E até depois. E agradeci a Deus ser filho de lavrador e de poder voltar com saudade a esses tempos. Lembrei o equilíbrio pessoal entre o físico e o mental, o cansaço físico que postula um bom descanso nocturno, a contemplação dos ritmos da natureza que nos enche a alma e evita as depressões e a necessidade dos medicamentos para dormir... Nesses tempos nem se conhecia a palavra depressão. O povo das nossas aldeias cantava, juntava-se nas desfolhadas ou na apanha do sargaço e na inter-ajuda nos trabalhos do campo. E cantava-se. Mesmo ao desafio. E as canções religiosas misturavam-se com as profanas... Lembrei tudo isto há dias enquanto dava graças a Deus pela colheita de qualidade superior à quantidade. E pude louvar a Deus pelo esforço, às vezes exagerado e superior às forças físicas, do senhor Manuel Esteves, que podou, sulfatou, cuidou, preparou a vindima, cuidou do vinho. Para que, agora, esperemos alegremente o «São Martinho» para provarmos o bom vinho. Ao senhor Manuel Esteves e a todos aqueles que o ajudaram vai um agradecimento especial, que apresento em nome de todos os paroquianos, que bem se devem sentir agradecidos.

Por trás deste louvor a Deus está a grande verdade que deveríamos dar como indiscutível e que revela a sanidade secular dos povos, que se habituaram a saber esperar de Deus a bênção para o seu trabalho. Traduz-se ela nesta frase bem conhecida de todos: mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga. Na prática de todos os dias, o povo madrugava sempre porque esperava sempre, com total sentido de responsabilidade, sábio ao dizer também: «Fia-te na Virgem e não corras... Que vais ver o que te acontece», acrescento eu.

Tantas vezes olho para as árvores carregadas de fruta, sobretudo para aquelas árvores já velhinhas de décadas, que resistem a muitas intempéries e que se tornaram imunes à bicharada, dispensando químicos, e que continuam, ano a ano sem se cansarem, a dar frutos de qualidade mesmo que pouco agradáveis à vista ou correspondentes aos códigos da ASAE. Eis a natureza oferecida como dom a cada um de nós: árvores carregadas de fruta que, sem grandes gastos ou cuidados, continuam a produzir com abundância, parecendo dizer a cada um de nós: eis-me aqui, tomai-me, comei-me, criei-me para vós. Louvado seja Deus que, na natureza bela e cheia de força e de incansável dinamismo, continua a convidar-me à contemplação do DOM recebido para o tornar concedido.

9 de Outubro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXVIII

Há um bulício permanente na nossa cidade de Barcelos. Projectado e desejado certamente. Com os seus exageros, pensam muitos, eu  incluído. Reconheço que o fenómeno está generalizado e que é uma das facetas pelas quais o poder local mais se faz sentir. No domingo passado, uma vez mais, assisti ao movimento dos desportistas na cidade, aos milhares, que condicionam o trânsito de tal modo que «não há nada para ninguém». E às queixas de muitos, que chegam tarde aos seus compromissos, às voltas para entrar na cidade ou para estacionar, junto as dos cristãos que não chegam à missa ou à catequese a tempo. E as minhas, obrigado a celebrar tolerando os barulhos que envolvem os templos. Apesar dos avisos públicos que a autarquia afixa, o certo é que os hábitos não contam com tais avisos prévios.

Há dias, em cima dos acontecimentos, pude encontrar-me com dois autarcas em duas ocasiões diferentes e partilhei os meus reparos dizendo que a cidade está «invadida» pelo excesso de barulho, de diversão, a perturbar os poucos residentes no centro histórico, e a permitir o abuso de algumas organizações para quem nada mais conta, apenas o seu grupo. Claro que compreendo a dificuldade em gerir tantas pretensões para o mesmo espaço, mas isto de rodear os espaços de culto de barulho toda a manhã não é tolerável pois tais espaços têm o «direito» de séculos, fazem parte da fisionomia da cidade, dão-lhe vida todos os dias do ano e não podem ser simplesmente ignorados. E os que os frequentam também são cidadãos. É que nesses espaços se educa para o respeito de todos e para uma harmonia salutar entre todos, no respeito das diferenças. Não terão os autarcas o direito/dever de promover também a sanidade do povo dando-lhe não só barulho mas também silêncio? Lembro-me de uma frase célebre que registei de um capataz que aconselhava a um outro que cuidasse de divertimentos para os seus escravos: «escravo divertido não conspira», dizia ele.

E não terão o dever, mesmo sem o apelo à sua condição de católicos, se o são e se o fazem, de cuidarem das condições para o equilíbrio espiritual, hoje reconhecido como necessário? Não é verdade que a «ausência de Deus» se tornou a grande doença do nosso tempo, como o tem denunciado várias vezes o Papa Francisco, dizendo afinal o mesmo que Jesus dissera: «nem só de pão vive o homem...»? Ainda há dias ele dizia: «Desolação espiritual? Comprimidos para dormir ou beber para esquecer não são solução». E quem não reconhece as pressões das seitas religiosas ou dos promotores de superstições e da exploração de crendices que envolvem muito dinheiro fraudulento?

Sinto o direito/dever de ajudar as pessoas a fazerem juízos críticos, particularmente hoje em que a sociedade parece evoluir para um paganismo demolidor da história e identidade dos povos. Numa procura sôfrega de diversão, qual ópio que anestesia e não deixa pensar nos problemas, dando-nos a ilusão de liberdade, apenas não passamos de escravos comandados. Onde está o espírito crítico e o pensar pela própria cabeça? Quem o promove? A massificação é um processo que aparece a olhos vistos. Quem o promove? Com que intuito? A quem interessam autómatos? E onde está a dignidade humana individual?

Claro que isto me preocupa diante das pressões e lutas entre tantos intervenientes que querem ter o seu «quinhão» de espaço público, contribuindo para o paganismo crescente na sociedade: pão e jogos, diversão e reivindicações sobre os fundos públicos, canalizados para o gozo imediato em vez de o serem para a acção aturada, persistente e difícil de formar pessoas livres.

Não nos admiremos que, nos debates em curso na opinião pública, quando se dá voz à intervenção de anónimos, seja confrangedora a ignorância da nossa história e da identidade do povo português. De facto há partidos sem história e que, portanto, não se sintam com deveres de respeitar a história do povo que dizem defender. Olham apenas para o presente, o presente que lhe dá votos imediatos. Mas que pode destruir o país. Nunca um povo se tornou grande cortando com a sua própria história.

2 de Outubro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXVII

Cristina é uma jovem como muitas bem inseridas no «nosso» tempo.Em breve conversa, pude apreciar a sua inteligência viva e a sua ânsia de viver. Sem fronteiras de qualquer espécie. E a partir dela pensei em tantos jovens «modernos» sem «tempo» suficiente para «gozar» quanto mais se puder a vida «que passa tão depressa».

Foi nas «alturas» que nos encontramos. «Dependentes» da tecnologia e «confiantes» nos cérebros, certamente bem pagos, pela sua alta qualificação técnica. Como, aliás, a Cristina.

Era dos lados de Guimarães. Mas vive em Lisboa. Ou, pelo menos, ali é a sua morada «oficial». Porque, tal como acontece com muitos jovens da nossa sociedade «evoluída», as distâncias não contam. E as forças jovens, irreverentes e resistentes, permitem os «saltimbancos» de país para país, de congresso para congresso, de reunião em reunião, de aeroporto em aeroporto. Na era virtual, o real e próximo perdeu valor: não há mais «longe» que não se possa «tocar» virtualmente.

Assertivos porque inteligentes, endinheirados quanto baste, nem precisam de luxos para se afirmarem. «Simples» no vestir... até de calças que já se compram rotas... é a moda. Desenvoltos e desenrascados, nada os atemoriza pois sabem línguas... mais que duas ou três para além da materna. E assim, com toda a naturalidade, estabelecem conversa com qualquer «estranho» que, em pouco tempo, se lhe torna familiar. Curiosamente não abundam os sonhos. Será que já os realizaram quanto baste? Os seus horizontes são curtos: têm muita informação mas falta-lhes ginástica no pensamento. Não fazem muitas perguntas: a net e as redes sociais resolvem de imediato. Não conversam muito... sobretudo com os mais velhos, os «cotas». Será que é por não saberem filosofar, colocar boas questões, desenvolver um raciocínio lógico? Claro que os cursos técnicos são os que geram dinheiro imediato. Dar tempo às questões existenciais, as tais que não esgotam os «porquês», não é com eles. Pois claro, «tempo é dinheiro» e o tempo não chega para nada pois «esta vida são dois dias e o primeiro já passou».

E penso - a minha formação ajudou-me a sentir o prazer de pensar por mim próprio e de gerir as questões que surgem no quotidiano - se estamos «atrasados» e se «temos de» repensar os nossos «discursos» de «velhos» para encontrarmos uma «linguagem ajustada» à juventude de hoje. Claro que, «velho» não entendo os jovens. Será que não entendo? Será que eles não gostam que os entenda? Ou que não querem?

A vida tem-me levado a calar e a ousar um discurso «diferente» e «realista». Não virtual. Porque creio bem que eles têm direito à verdade que a experiência fundamenta. E que a nossa geração adulta demitiu-se do ser referência, dialogante mas firme, para que eles possam construir, em bases sólidas, os seus sonhos, sempre mais distantes e concretizáveis, com o esforço próprio e a ajuda de quem os ama.

É que, por vezes, fico perplexo com a superficialidade de uma conversa, a incapacidade de uma expressão inteligível, a dificuldade de manter uma conversa com nível. Superficialidade quanto baste num volume enorme de informação que não se sabe digerir.

Dou graças a Deus por tanta gente jovem que não se encaixa bem no retrato que acabo de tentar pintar. Por aqueles jovens que experimentaram uma alegria diferente e contagiante, num contexto internacional das Jornadas Mundiais da Juventude ou num ACAREG ou ACANAC, ou ACAGRUP, que movem todos os anos milhares e milhares de escuteiros. Ou em acampamentos e iniciativas de voluntariado missionário. Ou nos Caminhos de Santiago, maravilhosa experiência em grupo, que testa os limites e nos aproxima das fragilidades uns dos outros. Ou de tantos e tantos grupos que «rejuvenescem» as nossas paróquias envelhecidas. Sim, trata-se de uma juventude «outra», que estimam a graça de pais que cuidam e procuram o melhor para eles. Que desenvolvem o real próximo em vez do virtual longínquo...

Ah! Devo acabar a história da Cristina: conheci-a num avião a caminho de Lisboa, vindos do Oriente. Uma «generosidade repentina» deu-me o prazer desta história: o meu assento era ao lado de uma jovem esposa que lamentava estar «separada» do marido. Simpática e compreensiva, ainda reconheceu a minha «perda»: a troca de lugar de fácil acesso ao corredor por um lugar no meio da fila... Afinal, ganhámos os dois: ela, ao lado do marido e eu ao lado da Cristina.

Não escondi o que sou e bem cedo o tema foi para as questões religiosas: afinal a India, de onde vinha, seduz pela diferença. E, desinibia, lá despejou o costumado rol dos preconceitos anti-religiosos: «não acredito nessas coisas, pois, afinal as religiões são a fonte das guerras». Delicadamente lá contestei, com um sorriso doce, a pensar na incultura e desprezo de um olhar sereno e equilibrado da história e dos acontecimentos que hoje nos preocupam. Claro que percebi que a Cristina se tinha «doutorado» em questões religiosas aos nove anos e que não conhece outro vestido religioso senão o da Primeira Comunhão. Pobres Cristinas...

25 de Setembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXVI

Aconteceu há dias. No mesmo dia. Com pouco intervalo. Dois barcelenses me interrogaram sobre o mesmo assunto. Concluí, espero que acertadamente, que se tratava de conversa antecedente entre ambos, dado que as questões eram semelhantes. Da procura de um deles sei o porquê: eu mesmo, dias antes, em simples conversa ao cruzar-me na rua, lhe dei a coragem de aparecer e «desabafar»: assim entendi como necessidade o breve encontro antes de entrar na igreja.

O assunto foi acerca das confrarias. Actual, certamente, pois as confrarias da cidade, terminado o mandato dos órgãos sociais, procedem a novas eleições, de acordo com os estatutos.

Percebi que além do desconhecimento das regras, traziam uma certa inquietação diante do que, segundo eles, parece inadmissível quando se trata da Igreja. Nisso reconheço-lhes razão e até direito à indignação: as instituições da Igreja devem proceder de modo diferente das instituições cívicas ou partidárias. Surpreendeu-me o modo como a questão me foi feita. Não a questão em si. Ei-la, directa e sem rodeios: «senhor Prior, quem manda nas confrarias?». Parecia querer uma resposta directa, do tipo sim ou não, até pelo escasso tempo de que dispunha.

E eu expliquei, para o tranquilizar, enquanto na conversa com o outro interlocutor percebi que se tratava de matéria que mereceria este «Olhar Outro». No fim de contas, repetindo o que já por várias vezes tenho dito e escrito.

1. Devemos dar graças a Deus pelas instituições canónicas, ou associações de fiéis que, ao longo dos séculos, se tornaram a expressão mais rica do voluntariado cristão e deram à sociedade a matriz cristã que se lhe reconhece ainda hoje, ao menos pelas pessoas e entidades sensatas e honestas, respeitadoras da verdadeira história das nossas freguesias e paróquias. O que muito distingue e marca a identidade de um povo está profundamente ligado à Igreja - sempre ela viveu do voluntariado e sempre ela foi o «palco» do associativismo - e às suas instituições.

2. A gestão dos entes canónicos, tais como as confrarias e irmandades, tem regras próprias aprovadas pela Autoridade da Igreja, que as torna conformes ao Evangelho e ao Magistério da Igreja. A lei universal da Igreja é o ponto de partida para todo o corpo jurídico de cada instituição. Ou seja, as legislações diocesanas, paroquiais ou das confrarias supõem sempre o acordo com o Código de Direito Canónico. Quando este afirma no Cân. 317 que «nas associações públicas de fiéis directamente orientadas para o exercício do apostolado não sejam moderadores os que desempenham cargos directivos em partidos políticos», logo se entende que os estatutos de uma associação devem dar como suposta esta orientação geral. Foi esta a minha resposta a uma das interpelações directas. Ou seja, é princípio geral da Igreja a separação entre o que é da esfera religiosa e o que é da esfera civil. Assim, não deve haver intromissões abusivas dos partidos políticos nas instituições da Igreja.

3. Claro que entendi o alcance das perguntas directas dos meus interlocutores. E completei a resposta, mais ou menos assim:

a) As confrarias e irmandades são constituídas por irmãos, com direitos e deveres que devem conhecer quando são admitidos.

b) Constam dos Estatutos as regras de admissão, bem como as normas quanto à eleição dos corpos gerentes; sendo a base a mesma, os estatutos das sete confrarias de que o Prior é o Órgão Vigilante, mantêm, regra geral, o mesmo articulado.

d) São Órgãos Sociais a Assembleia Geral de irmãos, a Mesa Administrativa e o Conselho Fiscal, todos eles por eleição. E ainda um Órgão de Vigilância nomeado, que representa a Autoridade da Igreja e que «vigia» pelo cumprimento dos estatutos, podendo sempre intervir na defesa dos superiores interesses da instituição.

e) Há prazos para a convocatória para as eleições (quinze dias) e para o aparecimento de listas de candidatos aos Órgãos, que têm de ser previamente sujeitas à aprovação do Órgão de Vigilância, que as exporá ao conhecimento dos Irmãos. O que supõe a existência de uma lista, actualizada e acessível, de irmãos que têm direito/dever de elegerem e de serem propostos;

f) O não cumprimento das regras, sobretudo se põem em causa a transparência e «atropelam» direitos e deveres dos irmãos, pode anular o acto.

g) A Autoridade superior, que o Órgão de Vigilância representa, pode sempre, a pedido deste, nomear uma Comissão Administrativa para gerir a instituição durante um prazo necessário. Ou seja, nunca uma confraria fica sem um órgão a geri-la porque não pode haver - na legislação eclesiástica como na civil - um período de vazio em que ninguém assume responsabilidades.

h) Na nossa Paróquia os juízes ou provedores integram o Conselho Pastoral.

Achei importante recordar algumas das orientações da Igreja de modo a que não passe na opinião pública barcelense a ideia de que nas instituições da Igreja «mandam» grupos de pressão ou são «agarradas» por coutadas de amigos. Não. A Igreja é o Povo de Deus que, apesar das falhas porque constituída por seres humanos, frágeis e pecadores, procura sempre o bem comum na harmonia e na paz, nunca descurando a justiça. E o mais importante é o ponto de partida: na Igreja o poder é serviço.

18 de Setembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXV

Desta vez foi para a Índia. Alguém me entusiasmou. E valeu a pena. Já lá vão alguns anos que me deixei provocar por uma cultura muito diferente da nossa, por uma pobreza extrema, tanto mais extrema quanto a extrema riqueza no mesmo país. Ficou-me, como marca primeira, o sorriso franco e aberto de tanta gente pobre mas cativante. Na «outra» Índia, mais ao centro do grande país asiático, confirmei que há várias índias, com especificidades próprias e sempre numa variedade de culturas. Foi a Índia religiosa do Hinduísmo, completada com o Sri Lanka do Budismo, o antigo Ceilão, por onde andaram os portugueses e de cujos sinais de presença facilmente nos demos conta. Foi a índia Cristã, por onde andaram S. Tomé, cujo túmulo visitámos, ou o nosso português S. João de Brito, bem como outros célebres missionários jesuítas idos da Europa. Na velha Goa já tinha visitado o túmulo do grande apóstolo das Índias, S. Francisco Xavier, venerado por todos, cristãos, hinduístas, muçulmanos ou animistas. De facto, as grandes marcas resistem ao pó da história, mesmo que a acção recordada se tenha descontinuado. E as marcas portuguesas lá se conservam bem vivas, motivo de orgulho para nós que as fomos reconhecer. O grande Vasco da Gama, ao levar com ele um quadro de Nossa Senhora, deu origem a uma devoção num Santuário - Vallapardam - que junta milhares de pessoas, ali nos arredores de Cochim. Como nos sentimos em casa quando ali celebrámos a Eucaristia, identificados com aquele povo que, aculturado à sua história e geografia, se descalça para entrar no templo hindú, como no templo cristão. E, com o povo, os seus servidores... E lá celebrei missa, descalço, pela primeira vez em 39 anos de padre!

Como foi retemperador contemplar nichos nas ruas ou nomes cristãos, que nos faziam sentir em casa quando, repetidamente, podíamos concluir acerca das maiores devoções daquele povo cristão: ao nosso português Santo António (uma estátua gigante, na rua, fora benzida por João Paulo II), à Senhora de Fátima, de Lourdes ou do Coração de Maria, ou a S. Sebastião, entre outras. Confesso a minha dificuldade em penetrar na cultura ou religião hindú, budista, bramanista, jainista, numa palavra nas chamadas religiões orientais, onde abundam deuses criados pelo imaginário humano, representados por figuras humanas e animais. Desta vez, pelos muitos templos hindús e budistas visitados, consegui «entender» e confirmar algumas intuições:

1. De facto, o ser humano precisa de Deus. Os deuses são fruto das criações humanas. Não podemos viver sem o Transcendente. Precisamos dele, de nos transcender para viver. Vem daí o conceito de mistério, comum a todas as religiões. Que caminho belo e moroso aconteceu ao longo da história, até que, no judaísmo, se chega ao conhecimento de um só Deus, com os atributos de deuses das civilizações antigas, de que a própria Bíblia se faz eco: criador, transformador, em luta com os demónios!

2. De facto, todas as religiões exprimem as suas crenças através de rituais, de festas, de memória de acontecimentos passados, dando sentido identitário a um povo. Que mal fazem à cultura ocidental os ideólogos ateus ao «despirem» de ritos a alma dos povos, só porque não se coadunam com a deusa Razão que, ao impor-se como única, inevitavelmente ocupa o lugar da religião, mas que se torna autoritária, insensível e prepotente.

3. Vi como aquele povo reza, como se concentra na oração, mesmo em grupo. O olhar para o alto, de mãos postas como nós, não iludia ninguém: os sofrimentos e dramas humanos geram atitudes de súplica confiante em Buda (estátua) ou nas figuras humano/animais do Hinduísmo.

4. Não se conhecem fronteiras entre religião e vida. Aquilo em que se acredita tem expressão legítima e incontestável na vida pública. Quando acordaremos nós, no Ocidente, para aquela coerência de vida que Jesus ensinou, bem compatível com o princípio do «dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus»? Pobres de nós que nos justificamos facilmente para vestir sempre o «fato laico» como sinal de emancipação e modernismo, indo buscar apenas para algumas ocasiões (baptizados, casamentos e funerais) o «fato religioso»!

5. Hoje é bem visível a atenção do Ocidente às práticas e «filosofias» de vida orientais. Que pena fazê-lo sem conhecermos o que é próprio da nossa cultura de matriz cristã, onde se gerou a Declaração Universal dos Direitos Humanos! Não será tempo de investirmos nas nossas próprias raízes culturais para que o encontro de culturas não gere subserviências?!

11 de Setembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXIV

Também nos habituamos às desgraças... alheias. Perdemos a sensibilidade quando as desgraças não nos atingem directamente. Somos um pouco ao estilo do que os estrategas de mudanças radicais bem sabem: o povo primeiro estranha e depois entranha. O espectáculo infame dos incêndios, repetido ano após ano ou de uns tantos em tantos anos - é preciso que a mata se renove para voltar a ser pasto das chamas - deixou de «incomodar» a consciência colectiva. Os próprios políticos já se dão ao luxo de tirar dividendos partidários das «incompetências» repetidas porque, diz-se sempre, «há falta de coragem» para tomar as medidas adequadas. Por vezes surgem «mea culpa » tardias.

Este ano, só porque foram ultrapassadas todas as medidas e a comunicação social descansou de incomodar os políticos em férias, o espectáculo repetido chocou mais, até pelas mortes surgidas, as casas queimadas e pelos hectares ardidos.

A primeira palavra que se impõe dizer é de respeito e de gratidão por todos os bombeiros, quais heróis não reconhecidos que, apesar de tantas vezes exaustos e impotentes, lá conseguiram acabar por ser mais fortes na luta contra o fogo. Contra o fogo? Bem, contra os incendiários, melhor dito. Nem era suposto ser diferente, porquanto no meio das cinzas nem os incendiários conseguem esconder-se. Como se sentirão estes homens e mulheres, tantos deles voluntários, a quem se exigiu esquecer família e descanso, férias em família ou compromissos que tiveram de ser adiados? Além de exaustos e de satisfação do dever cumprido, certamente que lhes custa calar o grito de revolta quando sentem que o reacendimento só poderia ter mão criminosa. Depois, quando é que se terá a coragem de denunciar o sistema permissivo que permite tantas mãos criminosas agirem sabendo que dificilmente terão de pagar pelos seus actos cobardes? Não sentirão revolta homens e mulheres dedicados à investigação criminal quando levam ao juiz alguém que têm como certo ser o autor do crime e, pouco depois, o vêem solto com ligeira pena ou até pena nenhuma?!

Certamente que a «situação» há-de provocar, espera-se ao menos, sérias e aprofundadas reflexões sobre os verdadeiros porquês de mentes incendiárias, que acabam por «gozar» com o espectáculo das chamas, tudo se justificando com as suas deficiências mentais ou frustrações de ocasião ou mesmo permanentes. Estará Portugal assim tão doente? Com tantos «descompensados» ou mentes desequilibradas? E porque chegamos a este ponto? Será que tudo se pode explicar por deficiências psíquicas hereditárias? Não estaremos a pagar duramente o abandono da ética, da moral cristã de que nem se ouve falar, substituída por uns resquícios de «ética republicana»? Porque se tem medo de falar dos «negócios chorudos» ligados aos incendiários? Porquê o «medo» de falar dos «interesses» e dos lucros de empresas, a custo de um erário público já tão depauperado mas que, obrigatoriamente, tem de corresponder aos gastos exorbitantes não orçamentados (num país em crise parece que o descalabro até já prevê orçamentos para tais mordomias...)?

A este propósito tive ocasião de referir, diante da assembleia reunida em louvor a Nossa Senhora, a gravidade do crime de fogo posto, outrora classificado como pecado «reservado» que exigia intervenção especial para ser perdoado. Eram os tempos em que o povo aprendera, e assumira, que todos um dia vamos dar contas a Deus e que o que dos homens se pode esconder não se esconde nunca de Deus.

O Papa Francisco convidou o mundo inteiro a olhar com olhos novos a criação de Deus, na magnífica encíclica Laudato Si, sobre a ecologia ou o cuidado da casa comum, o cosmos onde habitamos, essa obra criada por Deus para usufruto da Humanidade. Sendo dom, é-o para todos: ninguém tem o direito de a estragar ou destruir.

Regressados os bombeiros aos quartéis, se a chuva entretanto aparecer - o que retira a «justificação e a oportunidade para os incendiários - ficam agora os juízes e tribunais, porventura as cadeias, com processos para vários anos, a onerar ainda mais o erário público. Será que continuaremos «condenados» a este triste espectáculo no próximo ano e depois... e depois? Que triste sinal de um mundo que, desprezado Deus, não encontra mais motivos fortes para viver em paz e no respeito pela natureza!

Uma última palavra a terminar, para louvar tantos gestos de solidariedade na desgraça, com as vizinhanças de mãos dadas a enfrentar um inimigo comum.

4 de Setembro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXIII

Fátima foi e é o altar do mundo. Impôs-se por si mesmo, ou foi o povo, na sua intuição religiosa - o ser humano, por mais que o neguem, está naturalmente aberto ao transcendente - que o impôs. Porque dele precisa. Desta vez, o presidente da celebração do 13 de Agosto (D. Vicenzo, bispo secretário da Congregação da Educação católica) lembrou a actualidade da Senhora da Mensagem, ao olhar o nosso mundo e o classificar em guerra em pedaços (a terceira guerra mundial), dizendo que só é possível mudar o mundo a partir de dentro, com a força do Alto. Fátima impôs-se como Mensagem de paz e quanto mais esta é ameaçada mais o povo se volta para Fátima. Também entre nós Maria ocupa um lugar muito especial, que resiste a tantas e tantas outras «imposições», que querem disputar o tempo e o espaço de uma sociedade crente, mas em processo de descrença imposto. As procissões e/ou peregrinações resistem e, às vezes, até dão sinais de novo vigor. É habitual, no fim de uma peregrinação, fazerem-se comparações: este ano esteve ainda mais gente! Compreendamos o exagero.

As duas maiores peregrinações marianas do Arciprestado acabam de acontecer. Participei apenas na da Franqueira, dada a sua quase coincidência, mantida certamente em razão da distância geográfica. Pude apreciar o carinho com que os barcelenses acolheram o andor com a imagem de Nossa Senhora e a acompanharam até à Igreja Matriz. Pude apreciar a devoção, também na participação nos actos religiosos ao longo da semana. Pude apreciar o esforço sereno e feliz com que os milhares de devotos subiram à Franqueira e ali participaram no acto mais importante de todos: a Eucaristia, que foi presidida pelo senhor bispo auxiliar, o barcelense D. Francisco Senra.

Em jeito de parêntesis, deixem-me exprimir a minha mágoa quando vejo nos nossos jornais falar da «santa» ou «santinha», referindo-se a Nossa Senhora e pondo-A ao mesmo nível que outra imagem de qualquer santo. Como precisamos de uma catequese reflectida para sabermos distinguir o culto aos santos do culto a Nossa Senhora, a única que, sendo Mãe de Deus e venerada por todos como Nossa Mãe, nos aparece em várias imagens e outras tantas invocações ou «geografias» como que unindo todos os povos nas suas necessidades! Ou seja, os vários «vestidos» de Nossa Senhora não a multiplicam: é sempre a mesma Mãe de todos.

Como também me preocupa, diante da sábia e prudente atitude da Igreja, que valoriza a religiosidade popular, a insuficiente formação da fé, que leva tantos irmãos nossos, até dos mais devotos a Nossa Senhora, a não distinguir o culto a Deus do culto aos santos, situando correctamente o lugar de Maria na história da salvação, como medianeira e missionária do «fazei o que Jesus disser»: devoção a Maria que não leve ao encontro com Jesus é pobre, muito pobre e desfocada. Esta missão de educação da fé do povo nunca a devemos descurar.

O sentido gregário de vizinhança é, felizmente, ainda muito forte nas nossas aldeias. Juntam-se e interajudam-se para acções comuns e têm brio no que é da sua terra. Menos visível no contexto urbano, nem por isso ele está ausente. Louvo, por isso, o exemplo dos moradores das ruas por onde, há dias, passou a procissão/peregrinação à Franqueira. Habitualmente os moradores do Bonfim ou Rua da Madalena, fiéis à tradição, não «permitem» que a procissão não passe por lá. Temo-lo respeitado e assim será enquanto outros não reivindicarem o mesmo. É o que acontece também em Barcelinhos, aproveitando o momento único para um «olhar do coração» para a imagem da Senhora da Franqueira. Surgem também os moradores da Rua Irmã São Romão e adjacentes, que nos presentearam com um lindo tapete na passagem do andor.

Fiquei feliz quando as responsáveis me vieram dar contas do que aconteceu: felizes pela boa colaboração, até entregaram as «sobras» do seu peditório especial. Mas gostei de saber a envolvência que a passagem do andor pelas suas ruas implicou de união entre vizinhos, de sadia convivência e de gosto em trabalhar juntos «para Nossa Senhora». Vai uma merecida palavra de louvor para todos quantos se envolveram em receber bem Nossa Senhora da Franqueira: tapetes e luzes, flores e ovações, tudo contribui para dizer o coração afecto à Mãe de Deus.

20 de Agosto de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXII

Num mundo de contrastes como aquele em que vivemos, quero hoje destacar a onda festivaleira, que faz correr muitos jovens e até adultos, em busca de momentos intensos capazes de quebrarem a monotonia da vida ritmada por compromissos «inadiáveis» ao longo de todo o ano. Sem nos darmos conta, afinal, estamos a encher de tal modo o tempo de férias que ele deixa de ser de lazer, de ócio, de contemplação calma da beleza que nos rodeia. Corremos durante todo o ano, fiéis a compromissos laborais. E, chegado o tempo de férias… lá estamos nós a dar sequência à corrida. Desaprendemos de viver fruindo ou contemplando, tornámo-nos máquinas e, mesmo em férias, continuamos «mandados». Claro que chegamos ao fim das férias mais cansados ainda. Até as nossas crianças já as habituámos ao ritmo infernal dos adultos.

O mais importante, quero destacá-lo hoje, é que há muitos outros «festivaleiros» bem ocupados no tempo de férias. Refiro-me a uma riqueza enorme de voluntariado ao serviço de nobres causas. E, neste campo, urge reconhecer que é sobretudo no seio da Igreja que mais se destaca este «doar-se de coração», sem interesses económicos ou sócio-políticos.

Quem não reconhece o alcance e a marca que deixa no coração das centenas de milhar de jovens, oriundos de todas as partes do mundo, que se concentram ao lado do Papa nas Jornadas Mundiais da Juventude? E o que isso implica de organização e de voluntariado? Lembro-me de se falar, nos anos noventa, aquando das Jornadas em Paris, da «excepção» que um milhão de jovens constituiu para a polícia que, em termos de segurança, saíam furados os cálculos habituais das concentrações de jovens em festivais. Uma jornada de fé com milhares de jovens idos de todo o mundo não preocupava a polícia. Porque eram cristãos e iam para celebrar a fé, fazer fraternidade acontecer. Tratava-se de festa, de uma alegria outra, aquela que não gera violência. E toda a organização acontece a partir de um voluntariado de milhares de pessoas.

Quem não reconhece a capacidade de mobilização dos escuteiros que, em acampamento regional, consegue reunir milhares de jovens, sempre ocupados em actividades lúdicas e educativas, que acabam por marcar para sempre a vida de tantos jovens? A tal boa organização, não só do acampamento, como também de toda a actividade desenvolvida durante o ano, só pode acontecer a partir de um corpo de voluntários, em que a sua capacidade de doação, de entrega aos outros, acontece precisamente porque parte da fé em Jesus Cristo, vivida em Igreja. É o que acontece também entre nós: se temos grupo de escuteiros é porque há um grupo de chefes que se doam aos mais novos, acreditando que estão a contribuir para a formação equilibrada com a natureza e com os seres humanos dos homens e das mulheres de amanhã. Porque, de facto, o Escutismo tem dado provas mais que suficientes da excelência do método educativo: um investimento mínimo em meios materiais com um investimento máximo em doação humana permite a maravilha que é vermos grupos de escuteiros em constante actividade, formando líderes e fortalecendo vontades.

Um grupo de adolescentes da nossa catequese paroquial fez há dias os Caminhos de Santiago. Tal foi possível porque os pais puderam confiar na presença dos adultos que os acompanharam que, além do seu próprio esforço físico, se mantinham lado a lado, em total doação, organizando e realizando, ao serviço dos mais novos. As emoções fortes que, nestas circunstâncias, se vivem constituem sempre marcas fortes nos jovens de amanhã, que regressando ao baú das suas memórias, identificarão sempre estas experiências como contributos importantes, senão mesmo únicos, no desenvolvimento da sua personalidade. E quando perguntamos aos líderes que os acompanham, reconhecem que, na doação aos outros, receberam ainda mais do que deram. Claro, estamos no contexto da fé testemunhada, que reconhece o agir misterioso de Deus no coração de cada um.

Ao contemplar estas realidades tão «nossas» (tivemos participantes na JMJ, no ACAREG, nos Caminhos de Santiago), bem como a experiência maravilhosa dos encontros de Taizé, dou graças a Deus por esta juventude «outra», festivaleira também, que se preocupa em «boas» férias, aquelas que os desenvolvem por «dentro». Dou graças a Deus por tantos animadores adultos que a eles se dedicam. E faço um apelo a todos: interroguem-se sobre qual o vosso lugar na comunidade, na Paróquia. É que precisamos de líderes dos mais novos, precisamos de novos chefes para os escuteiros, precisamos de novos líderes de jovens e de catequistas. «Que posso eu dar de mim aos outros?». Esta deve ser a questão de cada crente. A Paróquia é o espaço para a resposta. Há lugar para todos. E precisamos muito de gente com coração grande.

7 de Agosto de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXXI

A ignorância religiosa é o campo fértil para o sucesso das auto-proclamadas mulheres de virtude, que de virtude nada têm, a não ser a desfaçatez de abusarem dos incautos, os tais que, crendeiros em tudo, nunca têm tempo ou «cabeça» para treinarem uma postura de autonomia - pensar pela própria cabeça - e de responsabilidade. Porque estou convencido de que, na cultura actual «libertária» e democrática, desprovida de grandes referenciais e enferma de relativismo, em que as autoridades só intervêm se forem obrigadas e diante de factos evidentes ou de fácil comprovação, a única maneira eficaz de lutar contra aqueles que, abusando do nome de Deus e da religião, se apresentam com «poderes» e ganham a vida enganando os outros, é motivar as pessoas para a sua formação pessoal, vou repetindo e convidando a gastar tempo na sua própria formação.

Por outro lado, o mundo religioso é de uma complexidade enorme e dele não é fácil falar com propriedade. E a superstição sempre andou de perto dos caminhos por onde os seres humanos procuram o verdadeiro Deus. A Bíblia dá-nos muitos exemplos disso mesmo e não deixa de destacar o difícil combate das superstições, ou seja práticas ditas religiosas que, em vez de nos aproximarem de Deus, se interpõem não nos permitindo ver senão máscaras. que impedem o acesso a Deus.

Já o Livro do Deuteronómio (18,10-12) condenava práticas de bruxaria, superstição, adivinhação e outras: «Não permitam que se pratique adivinhação, ou se dedique à magia, ou faça presságios, ou pratique feitiçaria ou faça encantamentos; que seja médium, consulte os espíritos ou consulte os mortos...). E considerava que tais práticas eram «concorrentes» do culto ao verdadeiro Deus.

Ora é isso mesmo que se passa nos nossos tempos com bruxas e adivinhos, médiuns, «professores» ou «pessoas de virtude». Aparecem com cara e atitudes religiosas, rodeados de «santinhos» e de «orações», e até de água benta, se a conseguem (alguns revoltam-se contra os padres «modernos» por não terem água benta acessível para as suas práticas). E até mandam rezar e ir ouvir missas para curar males. E não é que até gente dita com canudos universitários acredita?! Pois.... Um curso universitário dá uma certa competência reconhecida mas não dá equilíbrio mental, boa relação com a profundidade de si mesmo ou boa gestão do mundo religioso. Este exige «prática», conhecimento e fé. E, como tal, é dinâmico, aprofunda-se e acompanha o processo da existência.

Que fazer, então - perguntam-me e com razão - diante das donas dores, marias, bruxos... Que, com ou sem anúncios nos jornais apresentando os seus pretensos «poderes», atraem táxis para as suas portas ou «consultórios» improvisados? Diz-se que taxistas são bons propagandistas do mundo esotérico porque sempre aparecem muitos «à procura de poderes», logo bons e repetidos clientes.

É claro que não vamos para as suas portas «abrir os olhos» aos «coitadinhos » que, por livre vontade ali se deslocam em vez de irem ao médico ou pedirem um conselho a quem se reconhece competência para tal. Até porque «a gente só dá o que quer», como nas seitas em que o «dízimo» é imposição bíblica, não do pastor que «em nome de Deus» diz que a graça corresponde à oferta para Deus.

Há dias, alguém me contava que já há «videntes» nalgumas aldeias que rodeiam a cidade, que «fazem milagres» e até «já podem benzer água que distribuem aos garrafões», muito devotas de São Miguel e possuidoras dos poderes do Arcanjo. Que também elas precisam de ajuda... Mas que os padres não falam destas coisas... dos espíritos e dos demónios que atormentam. E que no meio dos transes até desmaiam tal a força dos espíritos de que se dizem médiuns... Mas nunca se aleijam...

É verdade que se trata de um mundo e de uma fenomenologia que merece atenção e não é qualquer pessoa que sobre ele se possa debruçar. Exige muito estudo, sensatez e sabedoria diante da complexidade do ser humano, que precisa de muita delicadeza para não se tornar abusivo da fragilidade. Mas, por favor, deixem-se esclarecer - e tantas vezes nas homilias diárias procuro dar respostas concretas - e reservem o acto de CRER para Deus. Ele, sim, tem poder. De todos os outros «poderes» desconfiem.

31 de Julho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXX

A julgar pelas informações divulgadas, especialmente através dos boletins paroquiais, o Dia da Paróquia torna-se cada vez mais uma realidade. Ou seja, as comunidades paroquiais sentem necessidade de um dia diferente em que se possa tornar mais evidente a relação do altar da Eucaristia semanal com os laços afectivos entre os que «comem do mesmo Pão». De facto, como os primeiros cristãos, também nós «não podemos viver sem o domingo». E desta prática semanal, a ritmar a vida do crente, sai a força do testemunho, concretizado nas relações humanas novas e diferentes porque partem do culto para a cultura, da igreja/templo para a Igreja/comunidade.

Felizmente que as comunidades paroquiais se dão conta de que é necessário fortalecer os laços da comunhão também fora do templo e em contexto de lazer. As modalidades são diversas e exprimem  os ritmos de cada uma. A nossa Paróquia de Santa Maria Maior começou a fazê-lo há uns bons anos atrás. Desde 2005 que se experimentaram já várias modalidades, conforme as possibilidades humanas e financeiras. Em todas elas, porém, uma constante se manteve: a Paróquia ofereceu sempre o almoço deste dia único e festivo. E, perante sugestões de que as pessoas deveriam todas partilhar do que trouxessem de casa, sempre acabámos por considerar melhor manter este gesto de oferta, que é completado pela partilha que também se propõe. No passado dia 3 de Julho assim aconteceu com algumas particularidades:

1. Fizemos peregrinação jubilar à igreja de Vieira do Minho, sede do Arciprestado e local de peregrinação no Ano Santo. Foi para mim ocasião de voltar ao baú das minhas memórias para lembrar emoções, encantos e desencantos, numa luta permanente para não desanimar diante de uma tarefa enorme, a de construir a nova igreja para a nova paróquia de Vieira do Minho. Recordei e partilhei. Com o gosto pessoal de recordar a década de 1981/1991 e de apresentar a obra a que outros agora dão continuidade. Fizemos a entrada na porta santa, celebrámos a Mesa da Palavra e da Eucaristia e partimos, de seguida, para a Mesa do Pão partilhado (algumas de pedra e outras de madeira que a equipa lá instalou).

2. Na refeição servida, todos comeram e ficaram saciados. Não houve «os doze cestos de sobras», como na multiplicação dos pães, o que se compreende pois o menu foi preparado com gosto e com gosto comido, acompanhado com o bom vinho da Casa Clementina Rosa (aquele vinho que o senhor Manuel Esteves cuida com esmero a pensar neste dia) e a boa pinga «amarela» preparada a partir da fresquíssima água que cai da montanha da Senhora da Fé.

3. Houve também, de facto, partilha: não só entre a equipa de trabalho - servindo com gosto a todos sem excepção - mas também nas sobremesas - frutas e bolos abundantes. Tínhamos apelado a que os participantes assumissem o encargo com a deslocação. E assim os dois autocarros e os carros particulares, num total de 170 pessoas, não constituíram encargo para a Paróquia, dada a situação actual de endividamento com as obras na residência paroquial. As pessoas compreenderam e até as ofertas no Ofertório da Missa deram para cobrir as despesas feitas, sem onerar as finanças da Paróquia. Bem hajam todos.

4. Quanto aos participantes, de destacar que a Casa do Menino Deus ali esteve com algumas meninas que frequentam a Paróquia e ali representavam a instituição, algo que bem gostaríamos de ver imitado por outras instituições e grupos. De destacar também o interesse com que alguns pedem para participar, não sendo da Paróquia. De entre eles, permitam-me destacar um número razoável de pessoas carenciadas, que a Equipa Sócio-caritativa cuida durante o ano. E outros, de muletas e com dificuldade de deslocação - o que, à partida, poderia desaconselhar a sua ida - ali estavam felizes pois também são gente. E que alegria eu senti ao contemplar a sua coragem e o gosto de ali estarem, no Dia da Paróquia, no dia que também é deles... De direito próprio à mesa da Paróquia, onde se sentem bem e a quem se reconhece o direito de ali estarem, de mãos vazias mas de coração cheio.

24 de Julho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXIX

Portugal tem vivido autênticos momentos de glória, sobretudo no que ao futebol diz respeito. E bem precisamos de levantar o ânimo e de ter quem nos faça acreditar de que somos um povo com grande história, a justificar que acreditemos que todas as crises serão vencidas. Não fazendo parte daqueles apaixonados pelo futebol – ninguém se admirará do que afirmo – tenho de reconhecer que apreciei o espectáculo e vibrei com as emoções contagiantes, que a televisão a todos permitia. Também eu me deixei ir na onda do entusiasmo, mesmo que não tenha perdido de vista um sentimento de prudência que me levava a considerar que, durante um mês, o país «esqueceu» o drama real da situação económica, mesmo com a espada das sanções europeias suspensa até altura conveniente. O que veio a acontecer. Como, infeliz e terrivelmente, também aconteceu sobre a França com o horror de um novo atentado, desta em vez em Nice.

Eis-nos de volta à triste realidade do dia a dia. Mas é legítimo evocar os momentos de glória que temos vivido como povo de campeões. Do muito que se escreveu ou disse sobre o povo que somos e sobre o futebol não posso deixar de destacar duas figuras principais que marcaram pela diferença. Dois grandes, rodeados por muitos pequenos que se julgam grandes e aparecem sempre onde as câmaras televisivas lhes permitem mostrar o seu pretenso valor, esquecidos que as câmaras só mostram o que se é, grandeza ou pequenez.

O que mais une dois homens, Fernando Santos e Marcelo Rebelo de Sousa, tão diferentes entre si mas tão verdadeiros um e outro? Marcaram a diferença precisamente pela fé assumida em público.

Sempre preferi e louvei a atitude daqueles que, sabendo-se o que são e os valores que perfilham, não precisam de se esconder numa imagem «construída» mediaticamente para parecerem o que não são. Sempre achei pequenos aqueles políticos que mudam constantemente de casaca ou aqueles que se mantêm sempre no meio da ponte para darem o passo e se decidirem no último momento para que lado se inclinam. Os «jogadores» da opinião pública… detesto-os. Foi belo, foi maravilhoso ver o silêncio do batalhão de jornalistas, de armas apontadas a Fernando Santos, quando este se antecipa para ler a sua carta em que se «expôs» como homem de fé: palavras poucas, profundas e suficientes. Silêncios ou pausas que falam por si. Descrição e humildade para agradecer e reconhecer a fonte da sabedoria que é Deus. Não estava ali com «traje religioso» mas com aquela serenidade de coração própria de quem sente, e se delicia compensado, que, uma vez mais, valeu a pena pôr a sua confiança em Deus. Nunca precisou de rótulos religiosos nem de declarar à comunicação social a sua fé profunda, o seu gosto da oração, a sua devoção a Nossa Senhora e a sua necessidade da missa e do sacrário. A sua atitude serena e nada orgulhosa constituiu o maior sermão e a mensagem mais convincente. Era a sua única resposta à pergunta previsível: como explica esta vitória? Que diferença com aqueles que se julgam grandes só porque ocupam um lugar numa Junta ou num Município, que o povo lhe atribuiu para servir e que, em nome duma neutralidade saloia, já deixam de mostrar a sua crença religiosa. Que pequenos estes que se julgam tão grandes!

Também não é novidade a fé do nosso Presidente da República que, quer na candidatura, quer no exercício do cargo, não precisou de pôr de lado a sua fé cristã e católica. Porque era cristão ou católico praticante antes – e lembro aqui aquela altura em que, em Paris, após a Missa na comunidade portuguesa a que presidi, me ter afirmado a sua mágoa ao sentir um apoio medíocre da parte dos bispos portugueses quando se bateu pelo primeiro referendo ao aborto - é-o também agora. Se antes ia à missa ao domingo, continua agora a fazê-lo com a mesma razão de sempre: porque acredita, testemunhar. De facto, estes homens marcaram a diferença. E como Portugal precisa de exemplos destes! De homens que se agigantam na vulgaridade de uma cultura massificante e sem horizontes de transcendência. Que pretende fazer de um povo, grande na sua história, um povo pequeno. Subserviente e de cócoras perante os grandes que tudo pretendem controlar, reduzindo ao que é material… A fé levanta-nos da terra e leva-nos a olhar para outros horizontes… aqueles que fizeram de nós um grande povo.

17 de Julho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXVIII

Há anos que me habituei a trabalhar com um programa de acção, reflectido e ajustado à realidade. Já não sei viver sem ele. Confesso mesmo que, se ele não existisse, me daria ao «descanso», «enredado» nas desculpas habituais diante das tentações de última hora: há sempre razão mais que justificada e convincente (pensamos nós) para não aparecer a esta ou aquela acção previamente concertada, ou para aquela reunião entre colegas, ou aquela sugestão que os leigos nos fazem, e bem, no uso da sua condição baptismal que os tornam partícipes, de direito próprio, da missão da Igreja. Sinto-me feliz ao ver que, na Igreja, e mesmo nas nossas paróquias, sacerdotes e leigos vão programando a vida pastoral. Qual a paróquia em que ao menos o grupo de catequistas não elabora o seu programa para todo o ano?

O terminar de um ano pastoral - os meses de Julho e Agosto, de merecido descanso fazem diminuir as actividades pastorais, e ainda bem - leva a fazer um exame de consciência de cada grupo empenhado: o que correu bem mas é possível melhorar, o que não correu bem e é preciso «consertar» ou excluir, o que correu «assim assim», mas deixou de ter força de testemunho ou já não corresponde às energias pastorais dispensadas.

No recomeço do ano pastoral, em Setembro, quem lidera deve apresentar um plano de acção, realista sim mas ousado, já que, na acção pastoral, nunca podemos dispensar-nos de dar espaço para a surpresa do Espírito Santo. E tal plano tem de ser amadurecido nos meses de Julho e de Agosto.

Sinto-me nessa fase, recolhendo o «exame de consciência» dos grupos, os planos da Arquidiocese e do Arciprestado, prioritários ao da Paróquia, e deixando-me «provocar» pelas «leituras» diversas da realidade pastoral, de modo a «ousar» no próximo ano.

Certamente que devo ter em conta os «avisos» de tantos colaboradores que me lembram que já não tenho os 51 anos que tinha quando cheguei a Barcelos, ou a saúde de que preciso cuidar.

O próximo ano será marcado pelo Centenário das Aparições de Fátima e o nosso Arcebispo já nos convidou a olhar para Maria como a Mulher da contemplação. Nunca é demais penetrar no mistério da Mãe de Deus para nela encontrarmos a força e a coragem para ousar dizer a Palavra salvadora do Evangelho a um mundo que se vai desabituando aceleradamente das referências religiosas, reduzindo a sua experiência humana ao consumismo de bens e de diversões. Porque, de facto, há, diante dos cristãos e da Igreja, um mundo a evangelizar que, quanto mais vazio de transcendência, mais deficiente de sentido se torna e, por isso mesmo, mais necessitado dos valores do Evangelho de Jesus.

Neste «Olhar Outro» quero ainda destacar e convidar a um olhar bem positivo o mundo e a Igreja a que pertencemos. Há uma evolução enorme na sociedade, que nem sempre se pauta pelos valores cristãos, mas que consegue hoje estar mais atenta às diversas carências sociais e se preocupa com os níveis mínimos da dignidade humana. Sejamos justos: um sexagenário como eu tem de reconhecer a mesa farta da maioria, às vezes em demasiado diante doutras mesas vazias, e a preocupação para que ninguém passe fome. Ou o acesso à cultura e à saúde que se pretende chegue a todos: oxalá estes «bens» sejam apreciados e aproveitados responsavelmente. Quanto à Igreja, lembremos a situação presente de uma passagem notória entre um regime de cristandade, que ainda vigora em muitas regiões, e um outro em que os cristãos se afirmam não pela sua pertença sociológica, mas pela sua adesão livre e cuidada à fé cristã. E, reconheçamo-lo por justiça, o investimento permanente que a Igreja e os seus agentes pastorais fazem para dar formação a todos, de modo que a prática religiosa seja cada vez mais consciente e libertadora. Já não é, felizmente, a conveniência social ou a força da tradição, que têm a prioridade e quando se pedem ou celebram os sacramentos. Quem não se dá conta de que a qualidade da vida cristã vem aumentando, talvez em medida igual à descida do número de praticantes? Demos graças a Deus.

10 de Julho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXVII

Tem sido intensa. Diz-se actividade cultural. Multifacetada e abrangente, reconheçamo-lo. Será verdadeira cultura? A pergunta é legítima e a resposta possível não pode entrar em radicalismos. Cultiva-se o povo ou diverte-se o povo? Dá-se-lhe o que o promove, o que o faz pensar na vida e ajustar-se livremente à realidade ou dá-se-lhe aquilo de que ele gosta porque o contrário o responsabiliza?

A sensibilidade hodierna, reconheçamo-lo, é avessa a pensar pela cabeça própria e muito dada a manipulações. Pensar pela própria cabeça dá trabalho, assumir posições corajosas incorre em risco... E parece-me bem que a liberdade é hoje uma conquista cada vez mais difícil e uma condição de dignidade de que muitos abdicam.

Há dias dei comigo a pensar numa «sentença» de um capataz, proprietário de escravos - era numa obra de ficção, reportada ao tempo da escravatura - que aconselhava um colega a pagar as diversões para os escravos. Não mais esqueci a frase, que me parece ajustada aos nossos tempos: «escravo divertido não conspira».

O que hoje se oferece ao povo, o que hoje se promove com uma intensidade esmagadora junto das nossas crianças, por mais «situado» no contexto cultural, em que os tempos de todos estão intensamente cheios, não deixa espaço para a liberdade autêntica, nem conduz as nossas crianças a preparem um futuro responsável, com as ferramentas capazes de agirem no mundo dos adultos. Não se reconhece a eterna adolescência, prolongada até aos trinta e mais com o refrão repetido de que «não estou preparado»... para casar ou para assumir compromissos?!

Pensava eu em tudo isto naqueles dias em que muitos grupos de crianças, à tardinha e à noite, subiam ao palco com a avidez clara de um vedetismo precoce. Cruzei a determinada altura com alguém que, responsável na Comissão de Pais de uma escola, se queixava amargamente do desinteresse e da falta de responsabilidade dos pais, incapazes de se comprometerem e de interagirem com a mesma Comissão. Ouvi-o com gosto e compreensão. E contrapus a mesma mágoa em relação aos pais das crianças da catequese, muito alheios ao processo da formação cristã dos filhos e pouco colaborantes com os catequistas.

E o meu pensamento continuou: como dar às nossas crianças, às poucas que ainda vêm à catequese, o sentido da transcendência, capaz de um pensar a vida com equilíbrio, com sentido de futuro e como origem da força necessária diante dos revezes da vida?

Numa sociedade plural, temos de saber viver com a diversidade de opções e agir com a devida tolerância. Mas não é disto que se trata. Do que se trata é que, tendo nós todos a matriz cristã que forjou a alma barcelense ao longo dos séculos, a invasão do laicismo - a nova religião sem Deus que alguns tentam impor aos outros, sem qualquer tolerância para com os que pensam diferente ou foram educados a pautar a vida por valores comprovadamente sociais e geradores de harmonia e paz no tecido social - parece pretender arrumar numa qualquer prateleira da sacristia todos aqueles a quem se exige que tenham as portas abertas das igrejas para as suas conveniências sociais ou que, de graça e a seco, trabalhem para dignificar e manter de pé aquilo que os nossos maiores nos legaram e que se tornou património de todos.

De facto, temo pelo futuro das nossas crianças a quem se lhes apresenta um mundo sem dificuldades, em que os pais tudo fazem para que não «comam o pão que o diabo amassou, como nós», carregando-as com os seus próprios sonhos e utopias falidos. Apetece dizer: deixem as crianças ser crianças! Dêem-lhes a oportunidade de conhecer Jesus e de construírem livremente a sua própria vida aberta ao mistério de Deus. Se o não fizerem, elas serão pasto fácil para a invasão das seitas fundamentalistas e dos esoterismos cada vez mais procurados e escravizantes.

3 de Julho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXVI

Era previsível e há anos vinha sendo adiada. Uma simples intervenção cirúrgica havia de, um dia, se impor ao meu ritmo acelerado de trabalho pastoral. E tornou-se uma ocasião favorável para contemplar outras facetas da vida humana, às vezes tão alheias das nossas atitudes mais profundas.

O sofrimento, como realidade misteriosa e provocante, rodeia-nos por todos os lados. A alguns, infelizmente, permeia-lhes a vida de tal maneira que lhes parece que não estão a viver mas a serem consumidos ou simplesmente a adiarem a morte.

Reconheço que Deus me tem dado boa saúde. E sou-Lhe grato. Mas, de facto, também eu sou mais fácil a discursar sobre o sofrimento dos outros, olhando-o como algo estranho a mim e objectivo nos que me rodeiam. Mas sempre que o sofrimento se aproxima de mim ou dos que me são mais chegados, eis que a minha postura habitual se altera. E uma ligeira dor sem causa aparente ou cuja causa tarda em ser conhecida, é suficiente para abalar todas as nossas seguranças. E dou-me conta de que ainda estou a falar do sofrimento… dos outros… ou a discursar sobre o sofrimento «objectivo» nos outros.

A «imposição» de um descanso, necessário para boa recuperação, permitiu-me a calma necessária para reflectir e «sentir» a vida de outro modo. Pelo menos, fazer um acto de aceitação da fragilidade humana, que a todos atinge, tarde ou cedo. Saber que está, de algum modo, nas nossas mãos o bom êxito de uma recuperação obriga a decisões e cuidados pessoais, a que não estávamos facilmente habituados. Certamente não faltará quem hesite na minha capacidade de parar, ou de reduzir o ritmo de trabalho, já que a trama da minha vida está cheia de «prioridades» e de «inadiáveis». Impus-me, desde o início, as duas semanas sem conduzir o automóvel e o descanso de que o corpo precisa. Certamente que o período de repouso não foi ocupado apenas para dormir… o livro a ler há muito adiado teve a sua oportunidade, o pensar a vida e a programação da vida paroquial teve lugar, bem como o estar em família, sem a pressa de uma reunião, teve o seu próprio lugar. E até a televisão durante um jogo de futebol, coisa que há muito não acontecia.

Não posso deixar de referir, e com apreço, o mundo da saúde e daqueles que me trataram, para um acto de profundo louvor a Deus e aos homens/mulheres que me olharam na minha fragilidade como um ser humano com direito ao melhor tratamento possível. Fiquei contente, e exprimi-o, quando me foi dito que o faziam com todos os doentes. De facto, tenho de louvar a eficiência, o brio profissional, as informações e comportamentos devidos para que tudo tivesse êxito, bem como a desdramatização da intervenção, suposto que cada doente, eu pelo menos, temos tendência a exagerar a situação, por mais banal em termos médicos que ela seja. Apreciei o acompanhamento personalizado, a naturalidade com que o pessoal agia – um dos médicos mostrava no telemóvel com orgulho a foto de um neto recém-nascido – bem como as informações dadas sobre a situação. Pude dar graças a Deus pelo Serviço Nacional de Saúde que temos e pelos investimentos públicos no campo da saúde para todos os cidadãos. Apesar de também conhecer tantas lamúrias e queixas amargas de tratamentos sanitários que deixam a desejar e de conhecer que a opinião pública é marcada por «casos» que deixam uma terrível marca negativa e até receios fortes, que levam a desconfianças, o certo é que eu só posso dizer bem do Serviço Nacional de Saúde e do nosso Hospital de Santa Maria Maior. Possivelmente em contraste com a nossa cultura do «bota abaixo», eu tenho de reconhecer que fui bem tratado e me sinto grato aos médicos e enfermeiros, bem como a todo o pessoal interveniente, do Hospital de Santa Maria Maior.

26 de Junho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXV

Vão longe os tempos em que se repetia que «um bom livro é um bom amigo» e em que se valorizava a leitura de bons livros. Havia mesmo campanhas de «boa imprensa» para a formação de jovens. E não falta ainda quem, com certo saudosismo, recorde as boas impressões, gravadas para sempre, dos bons livros lidos, sobretudo na fase da adolescência e da juventude. É verdade que há ainda muitos jovens que prezam hábitos e tempos de leitura. Penso, porém, que o digital, a net ocupa cada vez mais o espaço que poderia e deveria ser de leitura. As próprias férias, como espaço de lazer, estão hoje de tal modo «invadidas» que o livro fica de lado, e a rapidez com que as escassas quatro semanas passam deixam-nos uma sensação de frustração, ao darmo-nos conta que até fazia mesmo falta ler aquele livro que há muito espera por nós.

O meu tempo de «descanso» imposto, em recuperação de fácil intervenção cirúrgica, permitiu-me a leitura de um livro dos dois que pensava poder ler. Nada mau.

Nos últimos anos, Thomas Halik, teólogo e filósofo, psicoterapeuta e conferencista, sacerdote checo ordenado na clandestinidade, sob o regime comunista ateu que vigorou na Ex-Checoslováquia, impôs-se-me como autor preferido e desde há quatro anos que leio os seus livros, aparecidos em tradução portuguesa ao ritmo de um por ano.

Não se trata de um romancista, ou de criações literárias com enredos mais ou menos transmissores do que é moda nesta nossa cultura do supérfluo, sem grandes horizontes. Gosto dos seus livros pelo conteúdo: densos de cultura, profundos nas análises sociológicas e culturais, transversal nas diversas áreas do saber, conhecedor profundo da diversidade cultural que atravessa os últimos séculos, e sempre dando preferência a um olhar de esperança sobre o futuro. Realista, sim, mas convidativo a um olhar responsável e construtor do futuro. Confesso que ele me faz recordar muitos dos princípios e métodos em que se alicerça a cultura ocidental, particularmente no que respeita à teologia e à filosofia, as bases culturais do meu agir quotidiano.

No seu último livro Quero que tu sejas, Thomas Halik penetra com as suas reflexões profundas no sentido do verdadeiro amor - tema que ele confessa difícil de abordar - um tema inevitável depois de falar da fé e da esperança.

Aprecio o autor - apesar de frustradamente (era o seu dia de folga, a segunda-feira) ter procurado encontrá-lo em Praga, na Igreja onde celebra e atende de confissão, uma Igreja ligada à Pastoral Universitária e ponto de encontro inevitável para a multidão de turistas que atravessa a famosa Ponte Carlos - pelo seu pensamento fundamentado, que me situa naquilo que a filosofia e a teologia me concedeu, mas que, partindo daí, me permite novos questionamentos e novas intuições muito mais capazes de me ajudarem no pensar a vida, para mim e para os outros. Revejo-me particularmente nele nas suas análises da contemporaneidade e no espírito crítico com que olha para a acção da Igreja: amando-a, critica-a porque a quer ajudar numa fidelidade maior ao Espírito Santo. Há cerca de dois meses Halik esteve em Braga numa conferência  que, ansiada por mim, acabou por me desiludir. Não que o seu pensamento deixasse de ser profundo ou não se situasse à altura do que escreve, mas porque a exposição, demasiado breve para quem tinha expectativas elevadas, não «agarrou» o público nem ele se encontrava nas melhores condições nem no melhor tempo para mostrar a riqueza do seu saber.

Claro que quer Quero que tu sejas (que nos dá logo a intuição de que o amor é verdadeiro quando «liberta» e permite o ser do outro), quer os livros anteriores são muito recomendáveis a quem, dispondo de pouco tempo para a leitura, tem de cuidar as suas escolhas para não se perder no banal ou efémero.. Com os livros de Thomas Halik aprende-se e evolui-se.

19 de Junho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXIV

Aconteceu uma vez mais a Feira Medieval em Barcelos. Pelo número de visitantes de que me apercebi terá sido bem sucedida. Embora não tivesse ocasião para mergulhar dentro dela e até de conversar sobre ela, sentindo-a por dentro, a verdade é que tive de a atravessar várias vezes pois a situação da Igreja Matriz obriga a todos a darem-se conta de um edifício, esse sim verdadeiramente medieval, inconfundível e «provocante», ao lembrar a memória dos tempos e a convidar a sair do barulho para o silêncio.

Parece estarem de moda estas novas modalidades de diversão, numa incursão pela História. Trazer para o presente usos e costumes de outrora pode ser muito positivo para as jovens gerações, imersas numa cultura que olha com uma certa desconfiança para o passado e, em concreto, para a Idade Média como era de obscurantismo. Faz-nos bem revisitar a história, desde que se tenha o cuidado de não a julgar a partir dos critérios da nossa dita pós-modernidade.

À semelhança do que acontece com Braga Romana e outras manifestações idênticas por esse mundo fora, a Feira Medieval de Barcelos parece ter conquistado o seu lugar nos eventos promovidos sobretudo no centro histórico. Nunca será demais recomendar a consulta de historiadores para darem rigor às manifestações promovidas.

A começar, devo dizer uma palavra de louvor à equipa que organiza. Só com muita dedicação e muita presença, sem horas contadas, um evento desta natureza pode ser bem sucedido. E o melhor sinal será sempre o número de grupos, associações ou lojistas intervenientes, bem como o número de visitantes.

Claro que, ao escrever sobre este acontecimento, não devo pôr de lado o título e a intenção de Um olhar outro. Pois bem, o que provocou em mim o que vi?

1. A multidão barulhenta, como seria de esperar. São assim as feiras. Mas se o barulho pode incomodar, ele também gera a necessidade do silêncio. E até vi alguns dos feirantes, cansados, gozando momentos de paz, de silêncio, nos bancos da Matriz, pouco iluminada mas sempre de portas abertas. Necessidade do silêncio? Concerteza.

2. A circulação das pessoas por entre as diversas «tendas» deixa adivinhar que se tratava de famílias ou de grupos de amigos. Como faz falta hoje o sabor do encontro numa sociedade tão agitada e num ritmo infernal de trabalho de sol a sol, «obrigados» a horários, imposições e impostos a pagar! E como começa a reconhecer-se as consequências da abolição do «dia santo», o domingo que tradicionalmente era o dia de todos pararmos os trabalhos simplesmente para estarmos uns com os outros. Há, infelizmente, famílias que passam semanas sem conseguirem reunir todas os membros à mesma mesa e à mesma hora.

3. A proliferação de lojas de videntes, tarólogos e afins provoca-me sempre o  pensamento: como é possível que, mais de 500 anos após a Idade Média, as convicções populares tenham evoluído tão pouco, a ponto de continuarem as mesmas crendices afirmadas e promovidas?

De facto, o nosso tempo é de profundos contrastes. Cresceu a informação e até a escolaridade chega hoje ao nível universitário para a maioria dos nossos jovens. Mas será que cresceu a cultura, no sentido de promoção do ser humano? Será que, com tanta informação e escolaridade, a reacção aos revezes da vida evoluiu? Aflige-me sim saber que até gente com canudos universitários frequenta bruxas e adivinhos e vão esperar da leitura das cartas a tranquilidade desejada. Ficam sempre reminiscências de costumes passados tidos como obscurantistas. São marcas que até podem ser consideradas positivas porque cada geração é sempre fruto de outras que as precederam e não devemos rejeitar o passado tal como aconteceu. Trazer à luz do dia costumes do passado até pode ser bom para um maior respeito pela história, que tanta falta faz. Mas podemos fazê-lo como atitude lúdica, porque sabemos contrapor com um pensar actualizado mais rigoroso e fundamentado.

Não aceitamos nós que a medicina convencional, que tanto evoluiu nos últimos tempos, se esquece às vezes da medicina tradicional, mais à base de ervas e vegetais ou seja, em termos de hoje, mais «amiga do ambiente» e sem a carga química hoje em voga?

4. Por último, olho com preocupação o processo de substituição em curso, capaz de «obscurantizar» o presente, suposto que este, pela evolução própria das sociedades, está mais crítico, mais liberto e mais responsável. Refiro-me a tantas crendices de que se faz propaganda, substitutas de uma postura religiosa libertadora, porque fruto de uma relação pessoal de cada ser humano com o Deus Pai, revelado por Jesus Cristo. Numa palavra, Deus fica substituído pelos deuses. E com estes deixamos de ser livres para sermos escravos dominados pelo medo.

12 de Junho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXIII

Dois momentos «marianos», a terminar o mês de Maio, trouxeram-nos à memória o acontecimento da visita da Imagem Peregrina, em 12 de Junho de 2015. De facto, uma multidão de mais de três centenas de pessoas, oriundas de várias zonas da Zona Pastoral Centro, congregaram-se em caminhada para Gilmonde, honrando Maria, nos diversos títulos por que é invocada entre nós. Da Matriz partiu a Paróquia de Santa Maria Maior para a Senhora da Ajuda, a anfitriã. Os caminheiros foram acompanhados pelos seus párocos, que informaram e mobilizaram para esta Caminhada Mariana, que se vem repetindo desde que, há anos, se iniciou na Paróquia de Santa Maria Maior.

No dia seguinte, nova multidão se juntou em procissão de velas, desta vez na cidade, a partir da Quinta do Aparício em direcção à Matriz.

Os dois acontecimentos trouxeram à minha memória a multidão calculada em 50 mil pessoas, que acolheram a visita da Imagem Peregrina de Fátima.

Que pensar de tais «sinais», agora que se aproxima a grande celebração do centenário das aparições de Fátima?

1. Que a iniciativa dos bispos portugueses de fazer anteceder o Centenário das Aparições com a Visita da Imagem Peregrina pelas dioceses de Portugal foi bem decidida e constituiu, ao menos para nós aqui em Barcelos, uma ocasião de despertar um fervor religioso que há muito não se via. Parece-nos que o acontecimento despertou a alma mariana do povo português, um pouco adormecida tal é a invasão forçada do laicismo que nos quer impor uma vida colectiva sem referências religiosas.

2. Que um tal despertar não pode ser ignorado, mas antes continuado, dado reconhecer-se que ainda é Maria que atrai as multidões de filhos, tantas vezes desorientados, ao encontro de Jesus e de uma nova e recuperada relação com a Igreja/Mãe. Sabemos já que o senhor Arcebispo vai propor a Senhora da Alegria como tema para a acção pastoral no próximo ano. Certamente que os programas pastorais das paróquias e dos arciprestados vão valorizar o Centenário das Aparições e as catequeses sobre o lugar de Maria na história da salvação, bem como a sua presença materna na acção pastoral da Igreja, ao longo de 2000 anos.

3. Que nos pertence a nós, padres e agentes de pastoral - os leigos empenhados - a inteligência de sabermos aproveitar a ocasião para, no destaque da figura de Maria, procedermos a uma verdadeira catequese sobre a religiosidade popular e a sua purificação de elementos reconhecidamente não permeados pelo evangelho de Jesus. De facto, Maria não salva pois, criatura que é, participa, de um modo único, da glória de Deus e continua - afirma a Igreja - a sua missão de orientar para Jesus, o Salvador.

Na procissão de velas, referi com gratidão o empenho crescente de grupos que se organizaram para assinalar a passagem do andor de Nossa Senhora, num acolhimento belo, que deixou corações confortados pelo que fizeram. De facto, estas «coisas» só são boas e belas quando acontecem com esforços conjugados, que partem de uma única origem: a vontade de fazer algo «com os olhos em Deus», sem recompensa, mas apenas pelo gosto de fazer algo «por e para Nossa Senhora».

Bom seria que, à semelhança dos moradores da Quinta do Aparício, da Rua Irmã São Romão ou do Largo do Bonfim e ruas adjacentes, que sempre se esmeram para receberem bem a Imagem de Nossa Senhora da Franqueira, outros moradores se agrupassem noutras zonas da cidade para reforçarem os laços de sadia convivência entre vizinhos. Quando o Secretariado Permanente, que se reúne todos os meses para analisar e decidir sobre a vida da Paróquia, determina por onde vai passar uma procissão, procura diversificar para que as diversas zonas da cidade sejam contempladas, tendo em conta o desejo dos moradores. Diante de uma Igreja Matriz cheia de barcelenses, entendi ser a ocasião de repetir o apelo: respeitai a vossa história grande, que encheu a Matriz ao longos dos séculos. A Igreja Matriz é a Mãe que gera para a fé, educa a fé e acompanha a vida de fé de Barcelos. Ela deve voltar a encher-se com o empenho e a vida de fé de todas as gentes de Barcelos. A sua dimensão diz bem o povo que fomos na altura da sua construção já lá vão mais de 600 anos. À assembleia reunida deixei uma interpelação: se aqui estais todos foi porque alguém semeou em vós uma afeição especial pela Mãe de Deus. Estareis vós a transmiti-la aos vossos filhos e netos?

5 de Junho de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXII

O falecimento da Celestina Magalhães, após alguns meses de tratamento hospitalar, bem como o seu funeral no dia em que os seus «meninos da catequese» celebravam a Festa da Fé, permite-me partilhar este «Olhar outro» sobre a nossa catequese paroquial.

Tradicionalmente, há um serviço que nunca pode faltar numa Paróquia: a catequese da infância e adolescência. É verdade que já se vai concretizando catequese para todos, como processo de educação da fé permanente, acompanhando todas as fases etárias. Já lá vai o tempo, felizmente, em que havia muita gente que estranhava os termos de «catequese para os jovens e adultos». Hoje é impensável falar-se de catequese reservada às crianças e adolescentes. É certo que há ainda resistências e bem gostaríamos que, ao lado, e até concomitantemente, das crianças tivéssemos catequese com os pais. Lá chegaremos.

Era tratada, carinhosamente, por «Tia Tina». Facilmente me habituei a tal tratamento, que ela permitia e até apreciava, após a estranheza inicial quando a conheci. Desde então, já lá vão quase doze anos, sempre a vi como uma catequista empenhada na missão e dedicada aos «seus meninos». Acontece que há uns meses atrás teve de ser hospitalizada, pensando-se que voltaria para o grupo, entretanto sob a animação da Coordenadora, Susana Pedras. Ainda houve pais relutantes, preferindo adiar a Festa da Fé, na esperança de que a Tia Tina reassumisse o grupo. Percebeu-se que tal desejo não seria concretizável.

Inesperadamente, a pior notícia chegou na sexta-feira à noite, 20 de Maio. E o funeral aconteceria no domingo. Na Igreja Matriz, a partir da tarde de sábado, a Tia Tina «aguardava» a festa dos «seus meninos», já no seu leito de morte. Junto deste, rezaram, entregaram uma flor e receberam uma última lição de catequese, a da esperança cristã, e a confirmação da Páscoa da Tia Tina, passagem deste mundo para a casa do Pai, para onde sempre aponta o dedo responsável de um catequista. Sim, porque a missão e o testemunho de um seguidor é levar outros a «gostar» do Caminho, da Verdade e da Vida, que Jesus é. Porque o «gosto » de Jesus só é verdadeiro quando se transmite. E a vida da Tia Tina define-se por esta transmissão, em testemunho (no fazer), e na Palavra (no dizer), marcando gerações.

O seu «até à Páscoa» revela a sua convicção profunda, assumindo o ensinamento da Igreja, de que todo o seguimento de Jesus implica centrar-se na sua Páscoa. A morte e ressurreição de Jesus constituem o centro à volta do qual gravita toda a existência cristã. Fosse qual fosse a altura do ano, a sua despedida com um sorriso «até à Pascoa», passou a ser um refrão, a que os colegas catequistas, sorrindo também, respondiam com a mesma convicção da fé. «Até à Páscoa» ou «até ao Natal » como, com graça se lhes respondia também, dizem o horizonte da fé cristã, chamada sempre a avançar na esperança de um mundo novo, os «novos céus e a nova terra», que o Espírito Santo faz acontecer.

Na mesma manhã juntou-se à celebração da Vida em Cristo pelo Baptismo de duas gémeas, a Festa da Fé de um grupo de crianças preparadas por uma catequista que, ali ao lado, na capela do Santíssimo, aguardava a hora do seu funeral. Professada a fé, um momento especial à volta do caixão quis dizer - a estas crianças que, de lágrimas nos olhos, sentiam uma perda - que a Tia Tina vive para sempre na morada de Deus e lá espera por nós. Não se pode fugir da morte mas devemos conservar na nossa memória o bem que recebemos dos que partiram. A gratidão e a esperança deverão ser as virtudes a cultivar, dando continuidade ao ensino que receberam.

«Quem virá ocupar o lugar da Tia Tina?». O repto foi lançado. E bem gostaria que surgissem várias respostas. Há generosidade suficiente adormecida no coração de muitos. E a Paróquia muito precisa de a despertar. Sabendo, no entanto, que um catequista não se improvisa pois deve preparar-se convenientemente para assumir uma missão tão especial. Apesar de serem poucas as crianças, preocupa-me também o número de catequistas, como também a falta de tantos outros servidores a integrarem os diversos grupos da Paróquia. Nesta, somos poucos e precisamos de muitos outros pois «onde todos ajudam nada custa». Apesar de pobres em meios humanos, louvamos o Senhor pelo bom número e qualidade de tantos paroquianos envolvidos na acção pastoral da Paróquia que, como a Tia Tina, a sentem como a sua «casa».

29 de Maio de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXXI

A semana que findou foi particularmente fértil em tensões e apreensões. O que leva sempre a várias interrogações postas, das mais diversas formas, pelo cidadão comum.

Também eu me questiono no dia a dia sobre o que vou vendo e «lendo» na escola da vida. Partilhar o que penso ou me preocupa ocupa este espaço de «Um olhar outro».

Olhando ao longe, quem não se preocupa com as situações explosivas no Brasil ou na Venezuela, em que os políticos não se entendem e o povo é quem paga a factura? Para já não falar no terrorismo, particularmente aquele que chama mais a atenção mediática, o que deriva do fundamentalismo islâmico? Sob a propalada democracia e do respeito pelos direitos humanos, acobertam-se inúmeros ditadores, cegos e ambiciosos, incapazes de reconhecerem que mentem ao povo quando dizem que estão a servir o povo. A História regista que muitos ditadores chegaram ao poder por métodos democráticos.

Olhando à nossa volta, a cidade tem sido fértil, nos últimos tempos, em diferendos institucionais, que fazem correr muita tinta a encher jornais, ocultando, ao mesmo tempo, as consequências terríveis ao afectarem, durante muito tempo, as relações humanas, que até se poderiam classificar de fraternas. Sim, quantos amigos cortaram relações, quantos ideais ficaram para trás e quantas promessas foram esquecidas... Apenas pela ambição desmedida de alguns, sedentos de poder. Basta referir o que recentemente se passou na mudança de órgãos sociais, seja na Santa Casa da Misericórdia, seja na Cooperativa Agrícola, ou o que se está a passar no nosso Município, a gerar incertezas e preocupações quanto ao nosso futuro colectivo.

E dentro da nossa casa? Das nossas casas? Da Igreja mesmo? Sabemos como os laços são cada vez mais frágeis. As relações entre pais e filhos e entre marido e esposa são cada vez mais ténues, ameaçando roturas. (Um parêntesis se justifica para saudar todos aqueles casais que celebram 25, 50 ou 60 anos de casamento). Felizmente que tem crescido a sensibilidade para se valorizarem, na família e até na Paróquia, tais datas jubilares, como também a necessidade reconhecida de preparação cuidada para o Matrimónio, exigência hoje já não contestada, apesar das dificuldades crescentes de um mundo laboral às vezes desumano e insensível.

Olho para tudo isto e pergunto-me: como se chegou a este estado de relações tão fugazes, de posições tão extremadas e de teimosias mortíferas? Em resposta não pensada inicialmente disse a alguém: «não há casamento que resista sem espiritualidade, ou seja vida de oração em que se reconhece a Presença misteriosa de Alguém na nossa vida a segredar-me ao ouvido: o outro é teu irmão, porventura mais frágil e menos dotado. Mas é sempre Irmão, filho do mesmo Pai». Reflectida de seguida, vim a confirmá-lo. E a experiência diz-nos quanto aquela resposta tem de verdade.

Os sociólogos analisam e exprimem surpresas quando se fala do futuro, porquanto não se concretizaram as previsões de outrora, tantos os imponderáveis não tidos em conta. Que será do nosso mundo nos tempos próximos?

Abandonado Deus, parece ter aumentado o espaço para o Homem. Pura ilusão. Nunca como hoje as manifestações do egoísmo humano, os sofrimentos da solidão humana ou o desnorte ideológico com o consequente vazio na alma humana foram tão evidentes. E até reconhecemos que nem uma economia forte pode alterar os níveis de felicidade. O futuro está carregado de muitas interrogações: a verdade é que não nos habituamos a viver sem Deus, ainda que às vezes O consideremos apenas uma muleta necessária em certos momentos.

Poderá haver futuro risonho para o ser humano? Optimista, creio bem que sim. Como creio que o ateísmo prático dará lugar a uma prática religiosa, que se deseja bem mais acima das superstições cada vez mais em voga nos costumes e nos media, ávidos de lucros para quem a verdade não conta, mas apenas o que dá espectáculo.

Precisamos, todos, de redescobrir Deus na nossa vida e na nossa sociedade. Se não O deixamos entrar nas nossas vidas, outros deuses nos ocuparão e farão de nós escravos... quando Deus nos criou para a liberdade no Dom.

22 de Maio de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXX

Palavras do Prior na cerimónia de bênção

e inauguração da residência paroquial de Barcelos restaurada

Senhoras e senhores

1. Introdução. Quis o Conselho Económico da Paróquia de Santa Maria Maior de Barcelos escolher esta data, 3 de Maio, para apresentar ao público a residência paroquial dos Priores de Barcelos, após as obras efetuadas. O dia tem o seu conteúdo próprio no coração dos barcelenses, assim como esta casa ocupa um lugar especial na vida dos barcelenses. Pareceu-nos, por isso, esta a melhor data e a melhor ocasião para benzermos este edifício, situado em continuidade com a missão que tem desempenhado desde há muitos anos: residência do Prior e espaço para actividades de ordem pastoral. De facto, ao longo de muitos anos foi aqui que os párocos de Barcelos se reuniam na sua palestra mensal.

2. Justificação da obra.

a) Vem do século XVIII a primeira edificação neste local. Com sucessivas intervenções, dentro da traça original, o edifício da residência do Prior foi perdendo solidez e capacidade para novas exigências. Foi particularmente desde que houve necessidade de distribuir pelas dependências da casa vários grupos de catequese que íamos sentindo que o edifício não estava preparado para tal. Um estudo cuidado feito ao edifício, como elemento de tese de mestrado, mostrou as suas debilidades e o seu autor, Arquitecto Sérgio Costa, fez-me sentir que seria obra de intervenção urgente. Para ele a nossa gratidão, nesta hora em que podemos certificar a justeza do juízo então feito: segundo ele, o edifício tinha partes em verdadeiro risco de ruína.

b) Não era a melhor altura para nos lançarmos à obra. Tivemos necessidade de esperar porque outras prioridades estavam em curso. Terminadas estas - refiro-me ao Cartório Paroquial em edifício adquirido e recuperado, inaugurado em Setembro de 2011 – tudo justificava uma paragem no esforço financeiro pedido à Comunidade em tempos de crise social e económica. Mas face à urgência da obra, tivemos de ousar confiar uma vez mais em Deus e na generosidade dos paroquianos e benfeitores.

c) Confiámos o projecto ao senhor Arquitecto Abílio Meira. Apreciado e corrigido, aprovado superiormente, duas exigências balizaram o andamento da obra: a manutenção do seu carácter de residência e de actividades pastorais. Quanto ao edifício em si, decidiu-se manter as paredes exteriores e construir novos pilares para suportarem todo o peso da construção. Um elevador como novo elemento perfeitamente justificado pelas novas exigências – os hipotéticos residentes na casa não estão imunes ao peso da idade – bem como uma cozinha equipada e uma grande sala, sem divisões, para as diversas actividades impunham-se por si em função das actuais e previsíveis necessidades da Paróquia.

d) O ano de 2012 foi um ano de estudo do projecto, de aprovação e de orçamentação da primeira fase. Em Novembro de 2013 decidimos entregar a obra à firma M. V. Santos, que a iniciou em Março de 2014. Já no decorrer da obra, confirmaram-se os piores receios: de facto, a segurança do edifício não existia e poderia mesmo ruir.

3. Execução da Obra

a) O Conselho Económico decidiu pôr a concurso a primeira fase da obra, relativa à segurança do edifício, isto é sem os acabamentos interiores, e contratou-a pela proposta mais baixa, a qual, depois de acréscimos inevitáveis, se deu por terminada há um ano atrás, totalizando os encargos em 130.000 euros.

b) Inicialmente ponderámos suspender os trabalhos no fim da primeira fase considerando a capacidade de financiamento da comunidade. A conveniência de prosseguir as obras foi decidida por duas razões: uma de ordem pastoral, dado que as obras afectavam o normal desenvolvimento da acção pastoral e a comunidade sentia ansiedade em terminá-las; a outra, de ordem económico-financeira, afigurava-se que retomar os trabalhos mais tarde acarretaria acréscimo de despesa. Preferimos não interromper e continuar a confiar na generosidade dos paroquianos. Apesar de estarmos em dívida, consideramos hoje que foi a decisão acertada. Dois anos depois de iniciadas as obras, estas estão concluídas: cuidou-se da segurança do edifício e dotámo-lo de maior funcionalidade para os fins para que foi projectado.

4. Contas da Obra

a) Certamente que me pedem contas. E dou-as com a mesma transparência com que as dou semana a semana no boletim paroquial, quanto aos donativos chegados, e em carta aos paroquianos ou no relatório de contas enviado anualmente.

b) A primeira fase da obra foi calculada em metade da previsão inicial de 250.000 euros. Atingiu 130.000 euros. Prosseguindo as obras até final, contabilizamos agora, no final da obra uma despesa de cerca de 270.500 euros. Este é o custo real da obra.

c) Para a pagar, desde há quatro anos que vimos apelando aos paroquianos e benfeitores, que contribuíram com cerca de 106.000 euros (registo do boletim, mais campanha de Natal). A Câmara Municipal deu um contributo substancial, que muito agradecemos, considerando também o estímulo que ele constituiu para a Paróquia para se lançar à recuperação do seu património situado no centro histórico. De igual modo a União de Freguesias e as diversas confrarias da cidade, juntamente com a Comissão de Passos. Tudo isto somado, temos uma entrada de 66.250 euros. Pelo que há um saldo negativo de cerca de 98.000 euros, parte dele já coberto com as economias anuais da gestão ordinária da Paróquia. Não nos surpreende este débito, que corresponde à avaliação das capacidades financeiras da Paróquia, que continuará, deste modo, a apelar à generosidade dos paroquianos durante algum tempo mais. Esse mesmo apelo se dirige a todos os presentes.

d) Benzido que está o edifício pelo senhor Arcebispo e dita esta palavra de apresentação, resta-me apenas dizer um obrigado sincero a quantos colaboraram para que este momento se tornasse possível. Particularizando-a, dirijo-a pessoalmente a todos os membros do Conselho Económico, a todos os paroquianos, de modo especial a tantos que foram dando «migalhas» repetidas carregadas de amor à sua Paróquia, a todos vós aqui presentes, ilustres autoridades e convidados. No senhor Presidente da Câmara, a quem darei a palavra de imediato, eu olho para o carinho de toda a vereação, que partilhou das nossas preocupações e reconheceu nesta obra também a função social que ela desempenha em tantos momentos da vida da nossa cidade.

e) Após a palavra de encerramento, que agradeço ao senhor Arcebispo, convido todos os presentes a subirem ao andar de cima, o piso destinado a habitação. Não encontrarão luxos nem móveis, mas apenas o espaço preparado para um dia, quando fizerem falta, os receber. Por enquanto, vamo-nos contentando com a recuperação de alguns da velha casa. Na altura em que ela passar a ser habitada, acreditamos que a situação financeira esteja já capaz de adquirir o que for necessário. Muito obrigado a todos.

Barcelos, 3 de Maio de 2016

P. Abílio Fernando Alves Cardoso

15 de Maio de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXIX

Foi a Festa das Cruzes. Passou já o «parêntesis» anual em que, durante vários dias, alteramos os nossos ritmos pessoais e colectivos. A cidade veste-se de gala para receber visitantes. Gastos de rios de dinheiro são considerados investimento necessário com contra-partidas calculadas. Apesar de alguns barcelenses preferirem sair para outras paragens, aproveitando o feriado municipal, a verdade é que não se contesta a festa. E porquê? Porque todos precisamos de festa, apesar de discutirmos os «números» ou actividades que compõem o programa das festas. Pudera! O ser humano precisa da festa como do pão para a boca. As suas rotinas precisam de ser interrompidas e são-no como «alívio» de carga. De facto, a vida não pode ser um jugo de obrigações a que compromissos, apesar de livremente assumidos, nos sujeitam. Precisamos de ganhar o pão com o suor do nosso rosto - é obrigação, mas que temos, todos, de transformar em libertação ao fazê-lo com gosto - mas o pão não é o fim mas o meio. Há muitas imposições legais que, em vez de nos fazerem sentir livres, nos tornam escravos. A festa aparece como necessidade e desafio à liberdade. Até no relato da criação original se destaca que, depois do acto criador, Deus descansou, fruindo a beleza da obra criada. Na massificação em curso na sociedade actual sente-se mais ainda esta necessidade de festa, este «alívio» do peso, este espaço de «nada» que permite contemplar o «feito» e renovar-se diante do sonho.

Nunca como hoje se promoveu tanto a festa. Certamente por necessidade, o que nos leva a pensar que não somos tão livres como às vezes afirmamos. Ou então, que a quantidade impede a qualidade. Será que as nossas festas têm qualidade de modo a tornarem a nossa vida mais humana, mais livre e mais fraterna? Tantos e tantos promotores de festas, por tudo e por nada, que objectivos têm em vista? Com tanta concorrência não será tempo de se cuidar mais na qualidade daquilo que se promove? Até porque os investimentos na promoção do «produto» são cada vez maiores, às vezes maiores até do que o próprio produto...

Depois, não será necessário pensar que o essencial da festa é o encontro de pessoas? Estar, permanecer e contemplar para dar azo à partilha de riquezas pessoais e nos apercebermos da beleza do mundo e das pessoas a quem nos abrimos e que se abrem para nós.

A Festa das Cruzes aconteceu. Fiquei particularmente feliz com aqueles momentos de grande significado reconhecido, quais traves-mestras de todo o programa: o templo do Senhor da Cruz excepcionalmente belo e acolhedor, com os tapetes maravilhosos - parabéns a todos aqueles que trabalharam nos tapetes e na ornamentação, bem como nos andores - as celebrações e a Procissão. Alguém ontem mesmo me sugeriu cuidar de um aspecto menos bom: a posição de uma mesa com objectos a adquirir, situada em destaque no templo do Senhor da Cruz. Não me tinha dado conta e, como sabemos que também é importante promover, lá me deixaram a sugestão: não poderia situar-se a mesa ao fundo do templo, logo à entrada? Registei e partilho o registo pois é a partir dos reparos de outros que podemos repensar para melhorar.

A Procissão é o verdadeiro cartaz do Programa. Parece que, nesse aspecto, «não há volta a dar». Situada pelas 17.00, altura em que se espera que o desejado calor não «aperte», é notória a «paciência feliz» com que os milhares de pessoas aguardam que ela passe. E passada esta, «a festa acabou», ouvimos até. Presto o meu louvor ao meu antecessor, Mons. Ferreira de Araújo, que teve a ideia de dar à Festa das Cruzes, um conteúdo lógico, fácil de concretizar e único: as cruzes paroquiais das 89 paróquias que compõem o arciprestado em desfile na cidade. Todos esperam por este «espaço» no conjunto de outros «espaços» da Procissão. E se ufanam ao verem a cruz da sua Paróquia, transportada por gente da terra.

No ano presente, por ser novidade para a maioria, a BÍBLIA DE BARCELOS ocupou um lugar de destaque. Surgem-me ecos de que se tornou a novidade da Procissão (os media parece não terem visto mais) e que o público apreciou. Neste «olhar outro» quero destacar que o mais importante foi o trabalho de anos em que cada um dos «escritores» sentiram o «passar» da Palavra de Deus pela sua mão. Mas tenho de reconhecer que o apreço agora sentido me tornou feliz. Oxalá que este «orgulho» de um povo pelo que fez, mostrou e foi apreciado, não esconda o que é o mais importante: apreciar a Palavra de Deus.

8 de Maio de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXVIII

Recordei o episódio há dias e repeti o que dizia publicamente à comunidade portuguesa emigrada, que servi em Paris: «não tenho a ousadia de querer ensinar-vos a ganhar dinheiro. Sabei-lo melhor do que eu. A minha missão é ajudar-vos a usá-lo bem». Dizia isto a propósito das propostas de peregrinação que lhes fazia. Era fruto da experiência: uma delas, logo das primeiras, foi levar os portugueses à Rue du Bac, ao santuário das aparições de Nossa Senhora a Santa Catarina Labouré, em pleno coração de Paris. Pensava que seriam, numa perspectiva optimista, umas 50/70 pessoas. Fiquei surpreendido por se aproximar das 200. E registei um dos comentários nas minhas costas: «tantas vezes passei nesta rua para o trabalho e nunca me dei conta de algo tão bonito». Sim, de facto, todos, ou quase todos, cometemos o erro de não apreciar o que temos próximo, ocupados que estamos a desejar o que não está, de imediato, ao nosso alcance.

Este sair de si, do seu grupo ou comunidade, traduz uma atitude salutar, bem necessária numa sociedade apressada: o apreço da beleza da criação de Deus gera equilíbrios pessoais e harmonia entre gerações.

Quando, mais tarde, chegaram reparos dizendo o que por cá também se diz, que o padre sai muito ou passeia muito, dei-me conta de onde eles vinham: de pessoas que nunca ou raramente saíram do seu «casulo» mas que invejavam aquelas que o faziam. De facto, diz o povo que «quem desdenha quer comprar». E ainda «a inveja faz falar». Ainda hoje, olhando para trás, só me arrependo de não ter proposto ainda mais. De facto, no coração da Europa, onde as comunicações são fáceis e os portugueses se espalham por várias capitais, propor o encontro entre comunidades diversas, sentia-o como missão, alargando os horizontes «pequenos» de quem se dedicava apenas ao trabalho duro no quotidiano. E foi assim que conhecemos um pouco o modo como viviam os portugueses em Luxemburgo, Lyon, Amsterdam, Bruxelas...

Recordei tudo isto há dias quando peregrinámos a Guadalupe e, pelo caminho, visitámos a ponte romana de Alcântara, as cidades de Cáceres, Trujillo, Mérida e Sevilha. Éramos um grupo de 54, completo com bastante antecedência, tendo ficado alguns em lista de espera. Muitos como grupo mas nada que complique a logística: com boa vontade e compreensão mútua - a final, o evangelho em acção - todos pudemos viver quatro dias intensos, em harmonia e interesse comum em aprender, em valorizar-se culturalmente, além da dimensão espiritual que a peregrinação implica. Com graça e asorrir, lá ia recomendando a atenção ao que os guias diziam da história e da arte que contemplávamos: «escutem para nos enriquecermos e não voltarmos como viemos».

Só quem não experimenta é que poderá «diminuir» a «ousadia» de alguns que são capazes de decisão e de risco: sair do seu casulo, sonhar alto, gerir bem as economias para enriquecimento cultural, espiritual e na relação mais aprofundada com alguns, abrindo-se àqueles com quem não é hábito cruzar-se.

De facto, viajar é abrir-se à novidade, deixar-se invadir pela riqueza e beleza do que é diferente e avançar na «leitura» do livro aberto que é a natureza, a cultura e a história.

No meio do cansaço, surge a tentação do desânimo: quem é o turista e/ou peregrino que consegue sê-lo sem se cansar? Mas o desejo de mais impõe-se e a beleza de um dia alimenta o desejo da beleza do dia seguinte. E, dia a dia, a fugacidade do tempo faz-se sentir mais ainda, porquanto se dá conta de tanta coisa que «fica para a próxima» e faz dizer: «ainda cá hei-de voltar».

A experiência comprova-o uma e outra vez: tão perto de nós - mesmo sejam centenas ou milhares os quilómetros a percorrer - e tanta beleza que não conhecia! Sim, dois mil anos de história convidam-nos voltar ao passado e perceber como ele está no presente e o «formatou»: somos todos filhos do nosso passado. Ali estava a ponte romana de Alcântara e a capital a Lusitânia, Mérida com o culto a Santa Eulália, mártir do século IV, Cáceres e Trujillo, esta ligada aos descobrimentos na América dos séculos XV e XVI. E ainda a monumental Sevilha, desde a visigótica à muçulmana e cristã, com as diversas fases da sua história retratada nos muitos monumentos que nos convidam a apreciar.

Felizes e contentes. Cansados, é certo. E a pedir: «senhor Prior, quando e para onde é a próxima?»

Porque peregrinação e cultura também são missão pastoral.

1 de Maio de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXVII

Envolvido no assunto, disse que a ele voltaria: como pároco, que «posição» sobre os recentes acontecimentos na Santa Casa? Como cidadão, também eu ouvi muitos comentários. Agora que «a poeira assentou», pelo menos assim parece - não sei por quanto tempo, pois que a experiência diz-nos que as questões mal resolvidas acabam por voltar sempre - sintetizo em duas ideias principais as «condenações» que ouvi:

1. Qual o lugar da Igreja e dos cristãos na Santa Casa?

2. Que razão tem a política para se intrometer?

Como se sabe, não foi pacífica a transição de órgãos sociais. No espaço entre a eleição e a tomada de posse dos novos órgãos, houve admissão de novos irmãos, em grupo, o que não era habitual. Rejeitada a admissão, discutiu-se a legalidade do processo. E decidiu-se que deveriam ser admitidos todos. A contra-gosto a nova Mesa acedeu. Terá sido bom para o futuro da Santa Casa? Opino que não. E felicito aqueles que, sensata e inteligentemente, desistiram da sua admissão. Eu faria o mesmo.

Sabemos que vem de há vários anos a discussão sobre a natureza eclesial das Misericórdias. Pelo Código de Direito Canónico, revisto em 1983, as associações de fiéis são de natureza pública ou privada. E os bispos consideraram que as Misericórdias são de natureza pública, até pela sua história e pelo seu lugar no culto da Igreja Católica. Como públicas estão sob a alçada do bispo, que lhes dá personalidade jurídica, ou seja, as institui, aprova o Compromisso, confirma os órgãos sociais e aprova as contas, reservando-se o direito de intervir para salvaguardar os valores e princípios do Evangelho e a doutrina em que se fundamenta a sua acção. Algo vem sendo contestado, o que tem trazido bastantes dissabores aos bispos portugueses, «vencidos» mas nunca «convencidos».

A Igreja reconhece a todos os seus fiéis o direito de se associarem. E as Misericórdias são uma associação de fiéis com longa e bela história. Mas os irmãos que as constituem só podem ser tais, a partir da sua «porta de entrada» na Igreja, que é o baptismo. Ou seja, antes da pertença a uma associação de fiéis, há outras pertenças prévias: à Igreja universal, para onde se entra pelo Baptismo na Paróquia. A associação dos fiéis, isto é dos que fazem parte do Povo de Deus pelo Baptismo, é livre, mas sempre inserida na Comunhão da Igreja e comprometida com a mesma missão da Igreja. Aliás, nas Normas Gerais por que se regem todas as Associações, diz-se com clareza: «Não pode ser recebido em associações de fiéis: a) Quem publicamente tiver rejeitado a fé católica; b) Quem tiver abandonado a comunhão eclesiástica; c) Quem tiver incorrido em excomunhão aplicada ou declarada; d) Quem estiver inscrito em associações que conspiram contra a Igreja; e) Quem não gozar de boa reputação moral e social; f) Quem não estiver disposto a aceitar os princípios cristãos e as normas que regem as associações de fiéis (Art. 9º- 4º).

Só por aqui se vê a necessidade de um discernimento prévio sobre um pedido de admissão numa Confraria ou Irmandade. E nos comentários que ouvi, legitimamente muitos se perguntam se os párocos não têm uma palavra a dizer sobre o assunto. Das Mesas, a quem compete tomar a decisão sobre a admissão de um candidato, se espera uma atenção cuidada a este assunto. E qualquer pessoa de bom senso, que seja honesta, nunca integrará uma associação religiosa se as convicções, de que se ufana na vida pública, não coincidem com os valores de uma associação eclesial. Mais ainda, ao requererem integrar uma associação religiosa, de imediato se expõem publicamente e não faltarão reparos na opinião pública a porem em causa a sua honradez e a sua honestidade. Como tem acontecido.

Mas qual o interesse em entrar para esta ou aquela instituição religiosa? Para Servir? Duvida-se. Para se servir, ou ganhar notoriedade? Talvez. Mas é exactamente aqui que as instituições da Igreja devem marcar a diferença das instituições civis e/ou políticas.

Aliás, o Compromisso actualmente em vigor na Santa Casa, exige que os irmãos a admitir «gozem de boa reputação moral e social», «aceitem os princípios da doutrina e da moral cristãs e revelem, pela sua conduta social ou pela sua actividade pública, respeito pela fé católica e seus fundamentos». E acrescenta: «a admissão dos Irmãos é feita mediante proposta assinada por dois Irmãos e pelo próprio candidato (...) e será submetida à apreciação e deliberação da Mesa Administrativa, por escrutínio secreto... (art. 6º).

Para garantir a compreensiva separação entre o âmbito político e o religioso, as Normas Gerais concretizam deste modo o que o Código (317, 4º) de termina: «Nas associações públicas de fiéis, directamente orientadas para o exercício do apostolado, não pertençam à direcção ou mesa administrativa os que desempenham cargos directivos nos partidos políticos (art. 22, 3º).

Sabemos como a nobre arte da política tem sido invadida, ao longo dos tempos, por interesses obscuros que em nada a dignificam, pondo até em causa a superioridade, desejada e reconhecida, dos regimes democráticos sobre os ditatoriais. Se pode ser saudável uma disputa eleitoral numa associação de fiéis, ela deve, no entanto, deixar claro que entre os cristãos, os procedimentos são diferentes. Gostaria que não durassem muito as «feridas» criadas entre amigos de longa data, por ocasião das eleições, feridas que são inegáveis, mas se impusesse um caminho de reconciliação. A história da Santa Casa a isso obriga. De facto, temo que elas durem e que o ambiente vivido nesta instituição tão importante de Barcelos se mantenha sombrio ou tenso. A contrastar com o estatuto de «irmão». Órgãos sociais, que governam por um período de tempo, servindo uma Causa e uma Santa Casa, ou simplesmente «Irmãos», todos deverão agir para o bom nome da Santa Casa. Espera-se e deseja-se que o futuro próximo não seja marcado por um divisionismo entre o «grupo dos 54» e «os outros».

Temo que o que se passou recentemente possa afectar o normal funcionamento da Santa Casa, dado o precedente verificado (o modo como se deu entrada de irmãos). Que tal (i)legitimidade não volte a repetir-se. Até porque, sabemo-lo bem, nem tudo o que é legal é moral. Temos até assistido a contestação de resultados eleitorais noutras associações cívicas, o que pode pôr em causa a paz social e acaba por exigir, por parte daqueles que servem a associação, um cuidado extremo no cumprimento dos estatutos.

Impõe-se então um apelo: que as máquinas partidárias deixem a Santa Casa fiel à sua Causa. Até porque o bem público exige dos membros dos partidos políticos muita dedicação, equilibrada com a vida profissional e familiar. Chega-lhes bem!

E que nenhum dos Irmãos se esqueça de que pertencer à Igreja, numa Paróquia concreta, é sempre o passo prévio antes de pertencer a qualquer associação de fiéis.

Primeiro é-se fiel da Igreja; depois, é-se algo mais na Igreja.

24 de Abril de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXVI

Pessoa amiga instou comigo para me pronunciar sobre recentes acontecimentos da Santa Casa da Misericórdia relativos à admissão de irmãos e a uma decisão judicial sobre a mesma. Evitei fazê-lo, dado o momento delicado que se vivia na altura. E prometi fazê-lo mais tarde. Dei-lhe, entretanto, a resposta na madrugada de 18 de Março, dia de Assembleia Geral. Dou-a agora a conhecer, prometendo voltar ao assunto:

1. A grande razão de retardar a resposta é a dificuldade em conciliar tantos e tantos compromissos (...). No meio de tantas prioridades e de assuntos em «lista de espera», confesso que o assunto da Misericórdia não é prioritário para mim;

2. Pensava eu dar-lhe resposta mais tarde. E torná-la pública no boletim paroquial. Penso que estará de acordo que se trata de assunto a que não se responde numa simples mensagem de algumas linhas, dizendo apenas se concordo ou não. Se assim fosse, de imediato lhe devolveria a resposta à questão. Porque a questão é séria demais, exige sensatez e maturidade;

3. Não é assunto cómodo para mim. E penso que para ninguém. Não queria pronunciar-me sobre ele porque julgo que o meu pronunciamento não é necessário nem útil. E correndo o risco de interpretações contraditórias, acabaria por apenas deitar lenha para a fogueira;

4. Entretanto só hoje, ao ler o artigo de opinião do actual provedor, fiquei a conhecer alguns pormenores. E acerca do seu nome, só o suspeitei quando se referiu ao assunto publicamente. Da tal lista de mais de 50 irmãos, identificarei uma meia dúzia. Com clareza, afirmo que sabia do desgosto de um, porque teve ele ocasião de me exprimir a sua mágoa;

5. Há uma questão que vem de longe – o assunto nada pacífico da natureza eclesial das Misericórdias – e há questões mais pontuais dos últimos tempos que, para mim, não passam das manifestações, as primeiras de muitas outras que adivinho irão surgir, das consequências de decisões mal tomadas e precipitadas que apenas conseguem «mascarar» por algum tempo a questão de fundo, que suscita tantas resistências e se tornam ao menos suspeitas de jogos de interesse nada «eclesiais». E conhecem-se alguns dos interessados em manter a CAUSA em equívocos, nada abonatórios nem para a Igreja, nem para as Santas Casas;

6. Pediu-me a minha tomada de posição sobre o assunto. E pediu-ma como Pároco de Barcelos. Sobre isto, respondo:

a. Não sou irmão da Santa Casa. Nunca formulei o pedido. E nunca ninguém me propôs. Logo, não tenho o direito a pronunciar-me sobre questões internas;

b. Como Pároco de Barcelos, reconheço que os cidadãos tenham algum «direito» no pronunciamento do Pároco. Evito fazê-lo:

i. Porque penso não contribuir em nada para a boa resolução da causa. Pelo contrário, posso agravá-la;

ii. Nunca o meu bispo me pediu para me envolver. Bem ou mal tem sido ele que, sei-o bem, com muita dor, o tem tentado resolver. E também sei que sempre encontrou as maiores resistências, apesar da reconhecida capacidade de diálogo que ele tem;

c. Como Pároco, tenho de lamentar que o processo eleitoral recente deixou marcas em muitas pessoas, feridas profundamente, que gostaria não ver nunca repetidas no futuro, nem na Santa Casa nem noutras instituições. Que todos os intervenientes metam a mão na consciência e se interroguem humildemente se não poderiam conduzir-se de outra maneira;

d. Como também me interrogo sobre as razões de tanto interesse em se ser Irmão de uma instituição religiosa, por parte de alguns supostos fiéis da Igreja (é-se fiel pelo Baptismo, porta de entrada na Paróquia e Igreja, onde se supõe viver como discípulo de Jesus) quando não se lhes reconhece prática religiosa ou mesmo se até se duvida se acreditam em Deus. Mais ainda, quando se adivinham ou suspeitam interesses de máquinas partidárias (já a isto me referi publicamente) em «dominar» a Santa Casa;

e. Como ainda me interrogo sobre a idoneidade de irmãos propostos e uma Mesa que não tem em conta o parecer dos párocos, aqueles a quem compete reconhecer idoneidade religiosa;

f. Aliás é conhecida uma certa «frieza» da parte do clero de Barcelos quanto à Santa Casa. Identifico uma das causas porque a ela assisti: quando o ex-provedor se referiu ao nosso Arcebispo em termos nada adequados no jornal da Arquidiocese, o DM, e os padres de Barcelos quiseram tomar posição pública de repúdio. Se tal não foi para a frente foi devido à oposição manifesta do nosso Arcebispo, temendo agravar a conflitualidade; posso acrescentar ainda que muito clero do nosso país preferiria que as Santas Casas deixassem de ser eclesiais para passarem para a alçada apenas do Estado. E porquê? Claro, pelo enorme dispêndio de energias a que obrigam a Igreja sem qualquer contrapartida; pelo contrário, usam e abusam do «chapéu da Igreja» para fins que nem sempre a Igreja pode aprovar. Mas como fazê-lo se elas, pela história e pelos Compromissos, geram edifícios com culto público? Portanto, sempre dependente do bispo diocesano? A quem têm de se sujeitar mas cuja autoridade apenas toleram?!

g. Desde há onze anos, ao ser enviado para Barcelos, conheço o ideal, que o Senhor Arcebispo ainda hoje mantém, de dar unidade à acção pastoral na cidade de Barcelos. Esse ideal assumi-o por inteiro e, com algum sofrimento, mantenho-o vivo. Lamento dizer que há, na cidade de Barcelos, demasiados «umbigos», querendo cada um impor-se sobre os outros. Isto explica, penso eu, porque se ouve tantos a dizer que Barcelos não evolui, não anda para a frente, porque não se dá as mãos.

h. Por último, confesso que me custa observar que, no caso concreto (o da admissão de irmãos julgada por uns normal e por outros abusiva) se passa de uma questão de facto e de forma (o processo de admissão contestado) para uma questão de juízo moral sobre as pessoas que fazem parte da lista. Não lhe parece abusivo?

Fico-me por aqui pois a hora já vai adiantada. Quem sabe se não voltarei ao assunto.

Um abraço amigo do

P. Abílio Cardoso (que respondeu sem querer, mas que não tem medo da verdade)

17 de Abril de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXV

Ocorreu a 12 de Março passado a última celebração do Crisma na nossa Paróquia (foto ao lado). Foram 36 jovens e adultos que se crismaram: 9 do grupo de adultos, 11 do Centro de Catequese da Matriz e 16 do Centro de Catequese de Santo António, ambos os grupos de adolescentes que tinham terminado o processo catequético em Junho de 2015. Ou seja, depois de terem terminado o percurso oficial de 10 anos, entraram num processo mais intenso de preparação, já sem os catequistas, numa caminhada orientada pelo Prior, de modo a integrarem-se como adultos na vida da comunidade cristã.

Em todo o processo foi vincada a necessidade de tomarem decisões livres que comprometem, primeiramente com o Senhor Ressuscitado, depois com a Igreja, testemunhando-O numa comunidade concreta. Fiquei contente com a caminhada que acompanhei. Vi que valeu a pena e apreciei a evolução para o estado adulto. Cerca de uma dúzia desistiu do processo, o que interpreto que valeu a pena insistir na decisão pessoal e livre de se comprometerem ou não no testemunho cristão. Revelou-se acertada a decisão de não celebrar o Crisma logo de imediato ao terminar o processo dos 10 anos de catequese.

A culminar, a celebração foi calma, sentida e digna. Estávamos todos felizes. Os catequistas trabalharam estes jovens e entregaram-nos ao Pároco, que, por sua vez, os trabalhou no sentido do compromisso adulto... com o Senhor Ressuscitado.

Ao longo do processo demo-nos conta, e tentamos corrigir, de vários equívocos na formação cristã, quanto à importância do Baptismo e do seu desenvolvimento na vida do crente, do ser Igreja como discípulo de Jesus Cristo e do pouco valor dado à iniciação cristã, que hoje a Igreja recomenda de modo especial. Na ambição legítima do ser padrinho/madrinha, corrigiu-se a relevância exagerada da função social, sem a legítima correspondência à missão de acompanhamento que o padrinho/madrinha assumem para o crescimento da fé do afilhado. E deu-se relevância à missão de fazer crescer a fé e os comportamentos adequados à vida de fé que o crismado assume. Ou seja, mais que o ser apresentado pelos pais da criança, valorizou-se a missão que a Igreja confia ao padrinho/madrinha: acompanhar, em nome da Igreja que gera para a fé e ao lado dos pais, a criança baptizada de modo a torná-la adulta na fé.

Muito em concreto, todos puseram a questão: quem deverá ser o padrinho de crisma? E a resposta lógica: o teu padrinho ou madrinha do Baptismo. Escolhe aquele que mais te ajudou a crescer na fé. Sê tu o juiz, dando sinal de que entendeste bem o que é ser adulto na fé: se nem um nem outro te ajudou a crescer na fé, se foi «ausente» do processo, tem a coragem de identificar a pessoa que mais te ajudou na caminhada da fé. Escolhe esse ou essa.

Deram-se conta alguns de que o seu padrinho/madrinha não eram crismados: nem pensar escolhê-los agora, mesmo que tal atitude denuncie a falta de senso quando os pais escolheram os padrinhos. E , neste caso, porque não seres tu, agora crismado, o «padrinho» dos teus padrinhos não crismados, levando-os a prepararem-se para completarem a iniciação cristã? Tratou-se de um processo de formação exigente e trabalhoso, é certo, mas que se fez com toda a seriedade.

Em relação ao futuro, uma vez que temos tido celebração do Crisma todos os anos na nossa paróquia(excepto no ano passado) e em 2017 teremos visita pastoral do senhor Arcebispo, não sabendo ainda a data, é provável que a próxima celebração aconteça ou na Visita Pastoral ou (o mais provável) no final do ano catequético, em Junho/Julho, integrado na Zona Pastoral.

Seja como for, o mais importante é cuidar da formação. Os que se encontram agora a frequentar o 10º ano já começaram encontros de formação com o Prior. E assim continuarão, com mais intensidade no próximo ano. Há também lugar para os adultos, com formação específica às quintas-feiras às 21.00 nas salas de catequese. Lanço assim um convite a todos os adultos não crismados: inscrevam-se já no processo de preparação de modo a que em 2017 possam, se o desejarem e se se sentirem preparados, participar na celebração que lhes completa a iniciação cristã. É mais uma oportunidade que têm diante de si. Não a percam. Se é verdade que Deus chama a todos em qualquer hora, também é verdade que nem sempre as Paróquias têm capacidade de resposta para a necessária e cuidada preparação.

10 de Abril de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXIV

Alguém me abordou, terminada a Vigília Pascal, dizendo-me: «O senhor Prior é um homem feliz. Vê-se no seu rosto». Apenas confirmei o óbvio, em resposta. De facto, depois de uma celebração que ultrapassou não mais de dez minutos as duas horas previstas, em que tudo decorreu com calma e ordem e em que o Presidente fez apenas o que lhe competia e os outros ministérios foram desempenhados com a mesma calma e empenho interior, alheio a formalismos, eu só podia estar feliz e dar graças a Deus. Duas razões contribuíram para tal «sucesso»: o empenho de muitos intervenientes, que ensaiaram durante a tarde e a «sequência » das celebrações do Tríduo Pascal, destinadas a ser interiorizadas, vividas por dentro. De facto, vale a pena insistir que, tratando-se de celebrações únicas no ano litúrgico, todos os cristãos, que valorizam a missa ao domingo e centram nela a sua prática de fé, devem considerar indispensável a participação no Tríduo Pascal, desde a Missa da Ceia do Senhor na quinta-feira, passando pela adoração da cruz na sexta, para sentir a «passagem» da morte para a vida, das trevas para a luz, na Vigília Pascal. Por isso, pedi aos que participaram nas missas de domingo que, na próxima Páscoa, não se dispensem das celebrações do Tríduo Pascal como as mais importantes do ano.

Acrescentarei ainda uma outra razão, em jeito de gratidão: um grupo de famílias da Família Espiritana, desde há anos que vem celebrando na Paróquia o seu retiro espiritual, dando o seu inestimável contributo para a beleza das celebrações, reconhecido por todos os grupos da Paróquia.

A sequência de todas as celebrações na Semana Santa começa com a Bênção e a Procissão dos Ramos que, desde há anos, felizmente, envolve a Comunidade de Santo António e os participantes na Missa da Misericórdia. A procissão dos ramos, única na cidade, deveria levar a uma única celebração nessa manhã de domingo. É um anseio de muitos, a merecer uma evolução favorável. Há ainda muito caminho a fazer na evolução das mentalidades para uma bela e abrangente, calma e digna, procissão na cidade, nessa manhã de domingo. Os passos já dados, refletidos e ampliados, tornam tal anseio possível desde que haja boa vontade.

O Lava-Pés, na celebração da Missa da Ceia do Senhor, é um ritual sempre muito expressivo do que deve ser a Igreja, como comunidade que vive o Mandamento do amor e se encontra ao serviço de todos. Repensado com a «abertura» que o Papa Francisco lhe deu, fica campo aberto para uma maior interpelação aos presentes: as novas determinações dizem que «os pastores poderão escolher um pequeno grupo de fiéis que sejam representantes da variedade e da unidade de cada porção do povo de Deus. Tal grupo poderá ser constituído por homens e mulheres e, segundo for conveniente, por jovens e idosos, pessoas sãs ou doentes, clero, consagrados ou leigos».

Maravilhoso, sem dúvida, o cortejo da Ressurreição pela Rua Direita acima, desde a Matriz ao Senhor da Cruz, no termo da Vigília Pascal. Os participantes são cada vez em maior número. As sete cruzes da Visita Pascal são apresentadas em triunfo, ao som de cânticos, que saem do coração daqueles que participaram na celebração e que, horas depois, estarão, de casa em casa, a levar o anúncio de que «a morte não tem a última palavra. Ela foi vencida por Cristo». Os sete compassos que percorrem a cidade entram em todas as casas que a eles se abrem. Denotando o processo de «laicização» forçada em curso, há famílias que preferem ignorar e «não abrir a porta à cruz». Elas contrastam com a muita alegria sentida por aquelas que a recebem e sobretudo pelos que compõem os compassos, gente cada vez em maior número, mais jovem e mais animada com os cânticos festivos com que entram nas casas. É sempre gratificante ouvir, no final, os testemunhos unânimes: as famílias recebem muito bem o Compasso, em quase todas as casas se lê o texto evangélico previsto e, apesar do cansaço, todos dizem que valeu a pena e que foi uma experiência única (os que vão pela primeira vez), a repetir.

3 de Abril de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXIII

É na Semana Santa que se questiona mais a fé cristã. É um tempo denso, numa dita «Semana Maior», aliando natureza e cultura - o anseio de vida pujante é inquestionável - a que nem os auto-proclamados agnósticos ou ateus ficam indiferentes.

Pudera! Afinal, no Homem/Deus, Jesus Cristo, torna-se, queiramo-lo ou não, expressão do que de mais misterioso, incompreensível e belo há no coração humano. Não nos admiremos, portanto, que é por esta altura que as forças mais hostis ao cristianismo se mostrem acirradas, procurando a ocasião oportuna para ridicularizar e envenenar a vida colectiva quando esta é, inegavelmente, marcada pelos valores cristãos tornados cultura e identitários de um povo.

Ao olhar o que acabo de escrever, eu próprio hesito se o que escrevi não seria melhor enquadrado num passado recente: a comunicação social encarrega-se de «explorar» fenómenos «menores» das vida dos cristãos, tornando-os «maiores» num objectivo claro de convencer de que não há mais lugar para os cristãos na praça pública e de que podemos viver «agnosticamente», pelo que erradicar referências ao cristianismo se torna sinal de «libertação».

E porquê a minha hesitação? Porque até ao momento, o que me «provoca», na leitura dos sinais, é o espaço crescente que se dá à re-valorização da Paixão de Jesus, em muitas e muitas encenações, fazendo antever que não só o Inocente condenado não passou de moda e foi «chão que deu uvas», mas que Ele é ainda o centro das atenções, o alvo dos olhares suplicantes e Aquele de Quem ainda há algo a esperar, num tempo que deitou por terra as grandes referências da caminhada histórica da Humanidade em 2000 anos. Ouso adiantar que a secura espiritual reconhecida particularmente nesta nossa Europa, abanada pela desumanidade do terrorismo, a destacar que o Homem sem Deus cai na barbárie e arrisca o seu próprio futuro, está a criar o «regresso do religioso», antevisto por grandes pensadores do século passado. O porquê do que acabo de escrever tem uma origem: assisti à bela encenação da paixão de Cristo na Frente Ribeirinha, no sábado de Ramos, patrocinada pela Câmara Municipal. Momento muito belo, a exigir repetição, tendo em conta a distração de tantos para quem grandes eventos passam ao lado. Até não ficaria mal, num programa da Festa das Cruzes, pela sua qualidade e pela oportunidade de facilitar a expressão de sentimentos nobres ao pôr as pessoas a pensar no essencial. A Festa também é isto: se não o fosse, seria promoção da alienação. Mais: é admirável o esforço de tanta gente jovem que sacrifica muitas horas no meio da sua vida intensa e agitada, acrescentando-se ainda a «unidade» de vários grupos diferentes que prescindem do seu «umbigo» para se enriquecerem com as especificidades de uns e de outros. Num tempo de dispersão e de individualismos, fica bem ao Município patrocinar acções verdadeiramente culturais que exigem comunicação, partilha e elevação de objectivos.

Acrescento que me chamou a atenção o que os jornais destacaram por estes dias: o «fenómeno» da representação da paixão ao vivo percorre este nosso Minho, húmus de grandes tradições populares ligadas à paixão de Jesus. Não são apenas as procissões de passos, cada vez mais envolventes e «realistas», ou as tradicionais vias-sacras. Só à nossa volta podemos identificar vários grupos que começam a criar tradição, de ano para ano, com as vias sacras ao vivo. São também os concertos de música sacra, revisitando os clássicos, dizendo aos contemporâneos que a arte dos séculos passados se centrou na figura de Jesus. Tornam-se então momentos de profunda evangelização. Só na cidade de Barcelos, pudemos ver o concerto na Igreja do Terço no domingo passado e o Gólgota, uma via sacra musical criada por Adriano Macedo, apresentada na Igreja Matriz na terça e repetida em Areias de Vilar na quarta.

É caso para dizer: Não é Cristo que passa de moda. Passam muito rapidamente de moda aqueles que O ignoram.

27 de Março de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXII

Foi um pouco de olhares cruzados a semana que findou. Contemplei a realidade em duas vertentes opostas, a dos doentes ou quase sós nas suas casas - uns com acompanhamento familiar e outros nem por isso - e a dos que vivem em lares de terceira idade. E contemplei o meu pai, que há dias completou 91 anos. Que pensar de toda esta realidade? Atrevo-me a um «olhar outro».

As situações são muito diversas e exigem sensatez e prudência quando sobre elas nos pronunciamos. Há idosos e doentes em casa muito felizes na companhia de filhos e netos para quem a visita de um sacerdote traz muita alegria e a quem vêem como o elo de ligação a todo o mundo de relações outrora férteis e agora diminuídas. Há outros ainda marcados pela ideia de que a presença do sacerdote é sinal de proximidade da morte: não só não é bem-vindo, sobretudo para familiares (que, às vezes se justificam dizendo que «ele(a) não quer»..., como a sua presença lembra o mistério da vida/morte que se rejeita. De uma situação de ignorância de que o sacerdote tem como missão visitar os que estão por casa e que, por razões de saúde ou de idade, raramente saem à rua, estamos a passar - reconheço-o - para uma outra em que, embora timidamente, as mentalidades se vão abrindo à visita do sacerdote, já habitual para muitos.

Devemos reconhecer que lares e centros de dia ocupam hoje um espaço único na dignificação da vida do idoso ou doente. Haja justiça para reconhecer que a sociedade, investindo milhões, em cuidados de saúde e em assistência social, elevou o nível da dignidade com que se vive uma velhice. Apesar de alguns casos de excepção - próprios da condição humana e agravados numa sociedade materialista, cada vez mais alheia ao fenómeno religioso, o ambiente em que viveu a maioria dos nossos idosos - a norma é a de que os nossos idosos são bem tratados nos lares e centros de dia. É verdade que somos crianças duas vezes e na segunda vez voltam um pouco os caprichos da primeira infância. Queremos sempre tudo do bom e do melhor e já esquecemos quantas lutas e trabalhos passámos. Sentem-se no direito, e bem, de serem bem tratados. E há os velhinhos simpáticos para quem tudo está bem e se sentem obrigados, por tudo e por nada a um obrigado sincero por todos os mimos que recebem dos cuidadores, como há outros permanentemente queixosos e exigentes. Como acontece também na juventude ou na vida adulta. Aprecio ver os nossos velhinhos felizes, com animação e interagindo. E quando celebro para eles, não deixo de os elevar, fazendo-os sentir «grandes» porque Deus «gosta muito deles» e exortando-os a viverem com muita paz e harmonia entre todos. Há dias visitei a Cornélia Pereira, acamada em casa na Rua Barjona de Freitas. São quase cem anos (já a 6 de Junho próximo) e com vontade de viver. Como outros, às vezes só reage de imediato quando lhe mostro o Jesus-Eucaristia que lhes levo. E como me faz bem presenciar como a fé de uma vida está ali bem patente na doçura de um olhar contemplativo para o Jesus que os vai visitar! Felizmente temos já na nossa Paróquia um bom número de Ministros E. da Comunhão, já organizados para passarem por algumas casas ao domingo. E no Hotel-Lar Condes de Barcelos um bom grupo está junto em «celebração» diante do televisor quando ali chega alguém levando a Comunhão.

É para estes nossos irmãos que vamos organizar o Jubileu de idosos e doentes em 10 de Abril próximo. Em celebração às 15.00 na igreja jubilar do Senhor da Cruz, vamos ver e alegrar-nos com a presença de tantos que vivem no «seu mundo», na sua casa e que acabamos por esquecê-los. Com o apoio das famílias e de instituições como a Cruz Vermelha e os Bombeiros Voluntários, vamos fazer deste encontro com a celebração da Eucaristia e da Santa Unção, um momento particularmente significativo para eles. E para nós também porque precisamos de estar lado a lado com a velhice e a doença... Que esperam por nós.

20 de Março de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LXI

Aconteceu uma vez mais a Semana Bíblica na cidade. Pela sétima vez. Com apreço generalizado por parte dos participantes. Alguns deles já bem habituados, que a esperam de um ano para o outro. Este meu «olhar», após o acontecimento, cruza-se com o «outro» olhar, o de quem esteve sempre presente na elaboração do programa, na publicitação do mesmo e nos contactos com os diversos intervenientes. Sim, estou na posição privilegiada para ver «por dentro» no antes, no durante e no depois. Numa posição única de confrontar os «ideais» com os «reais». Porque a ousadia dos objectivos implica a humildade do reconhecimento: sonha-se para o melhor possível e reconhece-se a distância entre o sonhado e o realizado.

Era suposto, e assim aconteceu, que ao tema único se juntasse a perspectiva de cada um dos conferencistas que, a julgar pelos números em crescendo nas três (220 na segunda, 256 na quarta e 320 na quinta), se revelou ajustado e situado no contexto: Misericórdia e missão.

Do público presente - nota-se bem que se está a criar um bom grupo de cristãos que já não se dispensam de pensar a sua fé e dar sentido à sua prática religiosa - salienta-se a sua heterogeneidade, diversidade cultural e apetência em descobrir nos textos antigos a sua actualidade reconhecida. Salienta-se a sua pontualidade, certamente acautelando um lugar sentado diante da ideia de que a sala se enche antes do tempo.

O pedido do Papa Francisco para manter as igrejas abertas nas 24 horas para o Senhor levou a ajustes no programa, nomeadamente obrigando a situar duas conferências em dias seguidos. Pelo que se sentiu, em nada afectou o desenvolvimento da Semana, pois na quinta-feira atingiu o número recorde de participantes. O programa incluiu outras iniciativas menos «densas», que acusaram cansaço, em nada se estranhando. Naturalmente que, mesmo não desejando perder nada do programa, muitos tiveram de fazer opções, deixando o menos importante. A dedicação da ECA, mobilizando os adolescentes para os ateliers no domingo, merecia melhor acolhimento: todos, catequistas e pais, se devem interrogar. De igual modo as «Frentes de Missão» se revelaram de grande riqueza, que não foi correspondida. E a tertúlia à volta de um bom filme foi um primeiro passo numa área a que a pastoral da Igreja começa a dar atenção especial. Trata-se de «arte» com uma linguagem própria, que pode ajudar em muito a linguagem do Crer.

Uma outra nota a destacar: o alheamento da comunicação social local, que infelizmente já não se estranha, também não incomoda ninguém: salvo raras excepções, a informação que motiva as pessoas passa nos circuitos «presenciais», ou seja nas comunidades celebrativas pelo dinamismo dos grupos paroquiais. Basta haver párocos que informem, exortem e apareçam.

A apresentação da Bíblia de Barcelos, momento único e elevado, como tantos o classificaram, foi testemunho de uma alegria sentida, sobretudo por parte dos intervenientes, conscientes de que se fez história em Barcelos. O JN e o Porto Canal foram «acordados» para algo único que não poderiam deixar de noticiar. E criaram impacto na opinião pública. Favorável, concerteza, e, como tal, merecedores de apreço e gratidão. Em sentido oposto surge também gente «pequena», incapaz de entender que assuntos elevados não se ajustam a escribas menores, quais pretensos charlies, radicais e fundamentalistas que, ao quererem ridicularizar, se tornam, eles próprios, ridículos.

Beneficiámos todos das excelentes condições do Auditório Municipal, que muito agradecemos. Assumido que está, por parte do Executivo Municipal, que se trata de um acto eminentemente cultural - que o é de verdade - aberto a todos os públicos sem excepção, os participantes já não estranham - até o desejam - a presença de algum membro do Executivo, a reforçar que nos podemos sentir em casa.

13 de Março de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LX

Qualquer instituição, organização religiosa ou associação, a quem, em regra, são pedidos estatutos para que se lhes reconheça uma identidade, procura dotar-se de objectivos - associam-se para quê? - e de meios para os atingirem. Os Estatutos aparecem hoje mais vincados que nunca nas sociedades modernas. E não há grupo algum que não se atreva a fazer tudo para ser reconhecido e até subsidiado. Em termos de organização, as instituições da Igreja, tais como paróquias e confrarias, fazem como as civis. Para o seu funcionamento contam com um mínimo indispensável de dinheiro, mesmo que seja só para papel e correio, hoje reduzido devido ao digital. Mas também este precisa de dinheiro.

É sabido que as nossas paróquias têm uma organização mínima, desde há séculos e se adaptam hoje às novas exigências da sociedade, seguindo as normas da Concordata entre a Santa Sé e o Estado Português, revista em 2004. A maior parte dos crentes compreende que a estrutura institucional exige dádivas, quotizações periódicas e até «estipêndios» para alguns serviços. Outros, nem por isso. E não faltam aqueles que, nada doando à Igreja, dela esperam como «direito» benesses e serviços que os outros tornam possíveis com as suas dádivas. Há dias, o sacristão falava-me da falta de azeite para a lâmpada do Santíssimo, acesa de dia e de noite. Que deve ser do bom. Foi assim que eu próprio tomei consciência de que há, ou havia, uma família que sempre teve como ponto de honra pagar o azeite da lâmpada do Santíssimo. A propósito, alguém quererá continuar tal «gosto»?

O assunto foi suficiente para me despertar para uma realidade nobre, antiga e hoje dificultada, a do voluntariado. E pergunto-me: o que seria das nossas paróquias sem tanto voluntariado ao longo dos séculos, ligado à identidade de cada uma, traduzido às vezes em bairrismo, que permite manter conservado o património, que é da Igreja para ser de todos? Por ser da Igreja (dos cristãos que a constroem no dia a dia) e não de todos, o património religioso de ma Paróquia torna -se alvo da apetência de grupos ou até de autoridades que julgam que ao que é da Igreja se pode deitar mão «porque é do povo». De facto, a história comprova que a Igreja sempre cuidou bem do património religioso e o soube cuidar pondo--o ao serviço de todos.

Neste voluntariado, ponho em destaque os gestos de tanta gente anónima que, discretamente - não saiba a mão esquerda o que faz a direita - cuidam e zelam, tantas vezes a expensas próprias, daquilo que é da Igreja. A questão trouxe outras «revelações»: há altares nas igrejas zelados por gente da mesma família, ao longo de gerações: limpam, ornamentam e ainda pagam as flores, ou assumem a despesa. E não querem que se saiba quem são ou quanto gastam. Mesmo por ocasião da quinta-feira santa, em que as igrejas de Barcelos e mostraram excepcionalmente bem ornamentadas.

Todas as quartas-feiras à tarde, a Igreja Matriz é varrida do que todos sujámos. Por quem? Por um grupo de voluntários, que precisa urgentemente de novos elementos.

Há despesas anuais que certas pessoas têm o gosto de fazer para a sua igreja. E nem querem que o Prior o saiba.

Tanto ao falar neste voluntariado, que paga o que todos deveriam pagar, como ao falar na imensa generosidade de gente que dá o melhor de si nas igrejas e paróquias, a minha intenção é apenas uma: criar em todos o sentido de partilha responsável pois o cristão deve primar nas suas atitudes pela justiça - na altura de pagar as despesas só uns aparecem, mas para colher todos se sentem com direitos - e não deixar os encargos só para os outros. Aliás, a Paróquia de Santa Maria Maior precisa de todos os barcelenses, para olharem para a Igreja Matriz e nela contemplarem as suas raízes.

6 de Março de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LIX

Sabemos todos como um funeral religioso é o momento indispensável para atenuar a dor de quem fica e para fazer memória de quem parte. Apesar da sociedade crescentemente pagã, alheia a compromissos de ordem religiosa, a verdade é que, chegada a hora, quase ninguém se atreve a celebrar a morte sem rituais religiosos. Compreende-se que assim seja, pois é diante da morte que o «mistério humano» mais se adensa: quem dispensa rituais religiosos substitui-os por outros... que acabam por ser elevados a nível igualmente «transcendente». Nesse processo de «paganização» podem surgir situações de confronto: se os sinais «cívicos » - estandartes ou símbolos de pertenças, elogios fúnebres ou músicas do gosto do falecido - ficarão bem num funeral religioso, especialmente se celebrado com missa de corpo presente. A Igreja, na sua sabedoria milenar, desaconselha-os, pois que o funeral religioso celebra uma vida de relações - um passado de que se faz memória - que se continuam em Deus: não entram textos que não sejam da Bíblia e os cânticos exprimem a esperança cristã, alimentada pela certeza da fé no Ressuscitado.

Vem isto a propósito do falecimento do Eng. Delfim Dias. Evoco aqui a sua memória não para lhe fazer elogio - quem sou eu para julgar, quando sei que feriria a sua humildade diante do mistério de Deus? - mas para destacar certas atitudes, que bem nos podem ajudar a cuidar da nossa vida de fé. Estive, e com gosto, no seu funeral, celebrado com muita dignidade, sentindo ser meu dever representar a Paróquia que ele amava.

No passado dia 18, estive no Lar onde ele passou os últimos meses da vida terrena, após alguns anos recolhido na sua própria casa. Nesta, domingo a domingo, a Conceição, ministra extraordinária da Comunhão, lhe levava a Eucaristia, que devotamente recebia quando, diante da TV, fazia comunhão com a Paróquia e as assembleias dominicais por todo o mundo. E de lá vinha sempre um cumprimento dirigido «ao senhor Prior». Quando passou a residir no Lar surgiu um «problema»: ele não dispensava a Comunhão... E os outros que o viam comungar? E lá se começou a levar a Comunhão para uma boa parte dos que lá residem. E lá fomos preparar a Comunhão Pascal, ocasião para evocamos a sua memória.

Vem a propósito lembrar o homem de fé profunda que foi Delfim Dias. No seu «feitio» - todos o temos e nem sempre o exprimimos da melhor maneira - ele vivia uma certa mágoa ao dar-se conta do afastamento da Igreja por parte da juventude de hoje. Várias vezes insistiu comigo sobre possíveis iniciativas para a cativar. O Escutismo era uma das suas paixões e era membro da Fraternidade Nuno Álvares. Bem representada aliás no seu funeral, que ocorreu em S. Tiago da Carreira, Famalicão.

Orgulhava-se da sua formação católica, dos livros que o forjaram como homem de fé, do grande bispo escritor de Nova York, Fulton Sheen, dos métodos da Acção Católica, e da sua grande referência, Santa Teresinha do Menino Jesus.

Era poeta e na sua poesia deixou escrita a delicadeza da sua alma crente: «quereria ser um bom admirador dos poetas portugueses e um modesto aprendiz de toda a beleza estética da sua poesia, mas não sou licenciado em Literatura nem em Letras. Couberam-me em destino as Técnicas e as Tecnologias, apesar de, em criança, tanto sonhar com a Universidade de Coimbra». Foi um homem que cresceu na «escola da vida», mas que chegou a leccionar na Universidade, de que falava habitualmente com gosto, sobretudo dos seus alunos, da boa relação que mantinha com eles e dos «colóquios humanizantes», em que participava, com destaque para as iniciativas pastorais da capelania, sobretudo a Comunhão Pascal.

Era um admirador sincero da missão do sacerdote. Mostrou-me inclusive algumas poesias que dedicou aos meus antecessores e um dia escreveu--me: «peço que compreenda as minhas dedicatórias ao sacerdócio (...), porque transbordam da minha fé e do gosto da poesia».

«Um caminho de vidas cruzadas» é o título do livro que recolhe as suas poesias, publicado em 2001. Elas revelam a beleza e a riqueza da sua alma crente. Confiou-me um dia uma centena de exemplares com a nota: «faça deles o que quiser, desde que posam ajudar alguém, sobretudo a juventude; se quiser cobrar algo para a Paróquia pode fazê-lo». Distribuí alguns. Os que ainda conservo serão entregues, consultada a família, a quem quiser deliciar-se com a sua poesia, evocando a sua memória e rezando pelo seu eterno descanso. Possa ele agora gozar do Mistério do amor de Deus, do qual em poesia tanto se aproximou.

28 de Fevereiro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LVIII

Duas fortes motivações, penso eu, estão na origem de um esforço notório e persistente para a valorização das confrarias como entes canónicos, que registam hoje uma bela folha de serviços prestados no seio das comunidades cristãs, ao longo dos séculos: a primeira está, como é óbvio, na actualização permanente às mudanças sociológicas e às mudanças no seio da Igreja, especialmente a partir do Concílio Vaticano II; a segunda vem de uma exigência exterior à Igreja: as sociedades democráticas e os Estados ou Governos que as regem estão cada vez mais fortemente organizados e pressionam as entidades eclesiásticas a fazerem o mesmo. Daí que o Senhor Arcebispo tem procedido à extinção de algumas, que já não têm actividade, e exigido a actualização de estatutos e a provisão de corpos gerentes segundo a legislação actualizada decorrente da nova Concordata de 2004. Hoje a Igreja situa-se na sociedade, como outros grupos em igualdade de circunstâncias, às vezes sem qualquer respeito pela sua especificidade e pela longa história de serviço ao povo português.

A Igreja reconhece, muito mais cedo que o Estado, o direito de associação livre dos seus fiéis, reportando-se esta palavra aos baptizados, que vivem e professam a sua fé católica, e que, quando associados, obedecem aos cânones e aos estatutos. Logo, só se pode tornar irmão de uma confraria quem é católico praticante e se propõe, livremente, trabalhar desinteressadamente pelos fins da confraria. É destes irmãos, ou confrades, que se escolhem alguns para gerirem a confraria, que só o poderão fazer depois da aprovação da Autoridade Eclesiástica.

Duas razões me levam a falar neste assunto. A primeira, porque em breve vou reunir as Mesas das confrarias, na minha qualidade de Órgão Vigilante, ou seja, representante da Autoridade Eclesiástica, que aprova estatutos e aprova os corpos gerentes. Promover o diálogo entre todas - porque, além da sua autonomia administrativa, a acção pastoral não pode, nos tempos actuais, ser desenvolvida senão em conjunto umas com as outras, situadas na mesma Paróquia - é de urgência inquestionável; a segunda reporta-se a uma situação que me surpreendeu pela positiva.

Andava eu a inquietar-me porque a Comissão Administrativa da Confraria da Franqueira - uma Comissão Administrativa é, normalmente nomeada pelo senhor Arcebispo para um período curto em que, por alguma razão especial, houve necessidade de a dotar de uma gestão extraordinária - já tardava em dotar-se de corpos gerentes segundo os estautos. A surpresa chegou entretanto: uma nova Mesa se propõe, dentro de dias, à Assembleia de irmãos. A Comissão Administrativa deu, assim, sinal de ter cumprido a missão que lhe fora cometida e apresentava ao Órgão de Vigilância uma lista de novos corpos gerentes para aprovação prévia, antes de a apresentarem à Assembleia Geral de irmãos. Surpreendeu-me a maneira como o fizeram: depois de pensarem nas pessoas capazes de gerir bem, garantindo assim o futuro da instituição - que não pode entregar-se a qualquer pessoa, mas àquelas que lhes pareçam idóneas: pessoas de fé e prática religiosa e, além disso, dotadas de bom nome na sociedade, conhecidas pela sua honradez reconhecida e pela sua capacidade de gerir bem o que lhes não pertence - contactaram os párocos das mesmas para que se pronunciassem sobre a sua idoneidade. E apresentaram-me por escrito os pareceres dos colegas párocos. Confesso que tal me encheu a alma. Não só aprovei a lista como fiz questão de o fazer por escrito depois de os conhecer pessoalmente.

É obrigação de todos os irmãos cuidarem da confraria a que pertencem. As Mesas, que as gerem, devem esforçar-se por dignificar a acção da sua confraria, fazendo-o em comunhão e diálogo permanente com aquele que é o primeiro responsável da condução da acção pastoral, o pároco e o capelão ou/e Órgão Vigilante. Quando chegam ao termo do mandato para que foram eleitos devem ter o cuidado de promoverem eleições nos prazos estatutários e, não se agarrando ao lugar, criando sentido de missão nos confrades para ocuparem os cargos de gestão. As boas práticas aconselham a que não se «eternizem» nos lugares, pois que até os estutos já o proibem. Quando aslistas não surgem, alguma razão haverá, o que deve ser analisado por todos, ficando sempre como solução de recurso a Comissão Administrativa nomeada por um tempo pela Autoridade Eclesiástica.

Saibamos honrar o passado glorioso de tantas confrarias que nos legaram valioso património. E cuidemos de não nos ficarmos «prisioneiros» do cuidado pelo património pois os seus fins alagam-se ao culto e à acção evangelizadora.

21 de Fevereiro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LVII

Habitualmente não acrescento subtítulo a este «olhar outro». Desta vez, fui tentado a fazê-lo. E surgiu-me este: «Linguagem esotérica, a do Papa ou a do Professor Luís Cunha?». Para entenderem, estou a referir-me ao escrito do Jornal de Barcelos de 27 de Janeiro, p. p., na rubrica Sobe & Desce, desta vez dirigido à Real Irmandade do Senhor da Cruz. A descer, claro.

Depois de o ler, surgiu, logo à cabeça, a dúvida: o texto é dirigido à Irmandade ou ao Prior? Assumo-o como dirigido a mim, pois que o conteúdo certamente se refere ao autor da mensagem transmitida. Logo em seguida, veio a decisão: face a tanta desfaçatez e leituras propositadamente enganosas, terei de esclarecer e repor a verdade. Quanto às opiniões, cada um manifesta as que entende. Sejam elas bem fundamentadas... Mas concordar e discordar não se podem dispensar de rigor, de respeito e de tolerância. São condição de cidadania autêntica.

De facto, confirma-se que cada um vê a realidade com os olhos que tem. Enquanto a realidade é o que é, o olhar sobre ela manifesta o coração daquele que sobre ela olha. Daí que os olhares sejam legitimamente diversos a exigirem pluralidade no respeito mútuo.

O que mais me «tocou» na leitura foi a citação que faz o senhor Professor. Fez-me verificar os textos que enviei para o publicitário. Que, afinal, nada deturpou do que lhe enviei. Reparem os leitores na foto ao lado e tenham até o cuidado de lerem as diversas mensagens expostas. É evidente a deturpação: «E cito (diz o Professor): «A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade dada por nós. Ele sente-se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer-nos, cheios de alegria e serenos». O acrescentar «dada» e a omissão do «ver-nos» em vez de «quer ver-nos», torna, isso sim, a frase de linguagem esotérica. Precisava o senhor Professor de deturpar para poder acusar os textos ali afixados de linguagem esotérica?

Pois bem, os textos que ali se encontram são do Papa Francisco, destinados a todo o mundo, para serem lidos por cultos e menos cultos. Se é verdade que a linguagem da fé tem especificidades, a Igreja sempre faz o esforço de a traduzir para que todos a entendem. Só a entende quem quer entender... Fico pensando sobre o «toque» que o fez reagir, pois já tardava: foram as inscrições que estão ali para durar durante todo o ano jubilar, ou seja até 20-11-2016 (e não 20-12-2016; desta vez, viu demais, um mês à frente!)? Foi o grande cartaz, nas traseiras do templo, com a imagem da Virgem Peregrina, durante meses, logo substituído por outro alusivo ao ano jubilar (este viu-o e, embora escreva «se bem que tudo isto não me diga, pessoalmente, absolutamente, nada...», a verdade é que não só lhe diz, como até o faz escrever)? São as manifestações públicas da religiosidade popular, que traduzem história, cultura, modos de ser e de estar com especificidades próprias dos barcelenses... ou é o próprio templo ou as igrejas que sobressaem nas nossas cidades e aldeias, a porem entraves à nova religião que se quer impor na sociedade abusivamente e contra as liberdades individuais e colectivas? Cada vez mais se reconhece que a negação da esfera religiosa pretende apenas instituir uma nova religião, com várias denominações, tais como o indiferentismo religioso, o agnosticismo, o ateísmo, com os seus rituais próprios cultuando deuses ao gosto do consumidor em vez de cultuarem o Deus transcendente, que Jesus convidou a descobrir como Pai. Por último, estranho a sua preocupação pelo edifício do Senhor da Cruz. Há mais de 500 anos que uma edificação ali existe. E que uma associação de fiéis, chamada Real Irmandade do Senhor da Cruz, dela cuida com esmero. Que ainda há bem pouco tempo investiu as suas economias em grandes obras de restauro. Que sempre espera os contributos livres dos cristãos devotos. Que ao longo de séculos sempre garantiram a manutenção do templo e da devoção. Precisamente aqueles que entram no templo, depois de o admirarem por fora, e deixam ali as suas esmolas. Não os que de fora o apreciam e dão os seus palpites sobre o que se deve fazer... com o dinheiro dos outros. Haja bom senso e não se meta a foice em seara alheia.

14 de Fevereiro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LVI

Rápida e directa, assim correu a notícia, no domingo à tarde: «morreu o senhor padre de Carapeços». O P. Alcino da Cunha Pereira faleceu aos 88 anos de idade, tendo passado a maior parte do seu ministério sacerdotal em Carapeços e Santa Leocádia de Tamel. Porque baptizou, casou, sepultou, educou, corrigiu como um pai, amou como uma mãe, ao longo de décadas, ocupava um lugar único no coração das pessoas. Porque «único» é um sacerdote numa Paróquia que «cura» gerações seguidas. Quando jubila (a reforma, legítima para todos os que trabalham, não «atinge» o sacerdote, «formatado» que foi para um serviço dedicado, desinteressado e intemporal), ele apenas «aligeira» o peso do compromisso pastoral, já que este, uma vez iniciado, cava a profundidade do ser, de modo que o padre trabalha até à morte.

Compreende-se, então, o lugar único que um sacerdote ocupa no coração dos paroquianos. Um lugar que, até na maledicência injusta e acusadora, se lhe reconhece.

O P. Alcino era uma referência. Os seus 45 anos como pároco marcaram gerações que, passada a missão a outro, o continuaram a ver sorridente e contemplativo, serviçal e tranquilizador. A morte encontrou-o no seu posto. E a trabalhar ele morreu. Sem as responsabilidades de pároco, o P. Alcino tinha gosto em dizer sim ao convite dos colegas. E foi num domingo cheio, ao final de mais um serviço de funeral presidido a convite de um colega, que, de regresso a casa, estaciona para tomar um café. Ao que consta, atitude habitual e apreciada. Estacionado o carro, sai e cai por terra: foi o seu último encontro que, do toque do chão frio, o catapulta para os braços amorosos de Deus Pai. Sim, o tempo dos homens registará a vida do P. Alcino como fim no dia último do mês de Janeiro. Na fé que ele viveu e pela qual deu a vida, 31 de Janeiro torna-se a data para a memória dos homens, que continua na geografia e no tempo que sabemos contabilizar. Na Eternidade de Deus, o P. Alcino já não é o «avozinho», o «velhinho», mas o servo fiel que o Senhor convidou para a sua mesa.

Dou graças a Deus pelo que recebi do berço: um velhinho que passa, uma pessoa doente ou fragilizada tem um direito único a ser respeitado, que a sabedoria adquirida pela experiência de anos lhe justifica o estatuto, o referencial de que as gerações mais novas sempre precisam.

Ao P. Alcino só conheci há pouco mais de uma década. Ouvi boas referências dele. E a presença de tantos sacerdotes no seu funeral é apenas um sinal do que ele era e do que dele se dizia e diz: homem sábio, inteligente e culto, que nos deixou vários escritos fruto da sua dedicação ao estudo, interessado sempre em saber, sempre cultor de um espírito crítico, bem humorado, amigo sincero, serviçal para com os colegas. Foi de um homem bom e justo que tantos e tantas se quiseram despedir, continuando agora nas memórias humanas de todos aqueles que fazem constante memorial de Jesus morto e ressuscitado.

O P. José Novais, seu condiscípulo e colega de todas as horas, tinha-me sugerido que o seu aniversário (88 anos) celebrado na sexta, 22 de Janeiro, mereceria que lhe fizéssemos uma surpresa. E foi à mesa que lhe pudemos cantar os parabéns, depois da contemplação da natureza em terras limianas.

Várias vezes o P. Alcino celebrou missa nas várias igrejas da cidade. Sempre estava disponível e até respondia com o gosto de um servir totalmente desinteressado.

As gentes de Barcelos, gratas a quem as serviu, louvam o Senhor da Vida pelo dom sacerdotal que o P. Alcino acolheu, reza por ele e com ele na comunhão de santos, que a morte fortalece, e une-se comungando da dor da família que sente a sua partida.

  7 de Fevereiro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LV

A vida é um grande dom de Deus. A saborear com gosto, com alegria, porque, se vem de Deus, tem de ser coisa boa. Percebê-la como oportunidade única para a desenvolvermos em nosso favor e em favor dos outros, em vez de a percebermos como vale de lágrimas que não param de correr, é também dom de Deus, sendo responsabilidade de cada um.

Dei comigo há dias a pensar, num olhar retrospectivo, para tantos e tantos momentos belos que tecem a minha existência de sexagenário. E reconheço: que graça esta de poder concluir que, na diversidade enorme de experiências, umas mais belas que outras, a verdade é que a vida tem sempre novidade! E que gosto me dá poder dizer que a vida é mais bela aos sessenta do que aos cinquenta. E olhar para o meu pai aos 90 e dizer: que bonito poder sentir o apreço que ele tem de viver e participar em tudo como se toda a sua vida fosse uma festa permanente! E quando esta constatação se mistura, como tantas vezes me acontece, com a escuta dos dramas de tantas vidas que se cruzam com a minha, mais vontade tenho de dar graças a Deus. É tempo daquela sabedoria que só a idade constrói.

Quando, em recente visita a uma cidade europeia, uma guia me dizia que o ateísmo imposto durante 40 anos a um país não estancou a sede espiritual do povo. Uma vez sacudido o jugo comunista, deixou de ser oficialmente ateu (ou seja mudou de religião) e passou a ser livre. Ao passarmos junto de uma igreja, ela a quem eu me apresentei como padre, sentiu necessidade de me dizer: «esta é a igreja onde me casei e baptizei os meus dois meninos». Confidenciou-me então: «a minha mãe teve de pagar um preço por me baptizar: perdeu o emprego no dia a seguir a me baptizar e nunca lhe disseram porquê». E actualmente?, perguntei eu. E ela acrescentou: «cresce a prática religiosa e as igrejas voltam, pouco a pouco, a ganhar vida...». Estou a falar de Praga, na República Checa.

Voltando a memórias, Madrid ocupa um lugar especial por ter sido palco de dois anos intensos de estudo da teologia, enquanto continuava pároco em Vieira do Minho. Ali fiz a licenciatura em teologia pastoral. Voltar ali, uma vez por ano, ao mesmo local, retempera a alma. Mais de um quarto de século depois percebi a mudança: outrora, toda a gente lia livros, revistas... enquanto se atravessava a cidade de metropolitano. Hoje, não se vêem livros, antes os ipads, telemóveis... E eu pensava: o livro traz cultura, reflexão, profundidade... Que trará para o futuro a dependência digital de hoje? Que relação favorece? Mais individualismo? Fico-me pelas perguntas... Por falar de livros, e ainda no campo das memórias, recordei os «bons velhos tempos» de parar nas livrarias para apreciar o movimento editorial, só por si um bom indicador dos movimentos culturais do nosso tempo. Não vou com o intuito de comprar livros - são muitos os que me esperam na estante - mas para folhear alguns. E foi o que fiz há dias, em Madrid, recordando também o hábito dos anos noventa em Paris.

A primeira surpresa: alguns títulos que me chamaram a atenção continuam oportunos e até me levaram a pegar neles para folhear e me despertaram: ah, eu já comprei este livro em tempos...; a segunda, é que as grandes inquietações da humanidade não passam e há cada vez mais autores «cruzados» a debruçarem-se sobre elas, ou seja, gente que, com vasta cultura em áreas diversas, nos dá uma visão interdisciplinar e aprofundada das inquietações humanas que a cultura do descartável do nosso tempo procura iludir; a terceira aí está: a evolução notória no que diz respeito aos temas clássicos. Refiro-me sobretudo aos estudos bíblicos e das culturas clássicas. Quanto a temas e títulos, registei alguns: «Deus abraçado a este mundo», família, divórcio, perdão, terapias, morte, conversão, enigmas, Deus da alegria, diários de convertidos, «O Deus dos ateus não é o mesmo de quem falam os cristãos», biografias, «Creio na vida eterna», «Biografia do silêncio», e tantos outros que gostaria de um dia poder ler. Consegui resistir à tentação de comprar, garantido que tenho que o meu tempo não chega para tudo e é um desafio permanente para mim encontrar espaços para uma leitura calma. De que tenho imensa necessidade.

31 de Janeiro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LIV

O artigo estava em cima da mesa há uns tempos. Era altura de o ler e «mastigar». Fala dos casamentos, mais concretamente dos cânticos na celebração dos casamentos. Foi-me cedido por colega entendido na matéria, ele que o apresentou em conferência pública. Para além de fundamentar afirmações e objectivos, o articulista convida a desenvolver o sentido estético de modo a não darmos valor ao que não presta e passarmos indiferentes ao que tem mesmo valor.

Numa altura em que são já trinta os pares de noivos que se inscreveram para casar na Paróquia e nas vésperas de os juntarmos todos para os ajudarmos na organização do processo e da cerimónia, este artigo veio na hora certa.

Se, por um lado, é compreensível que os noivos queiram preparar tudo ao pormenor - e não me furto a ajudá-los - por outro, encontramos teimosia de quem se julga saber tudo e até querer mandar no padre, no sacristão e não só porque «a festa é minha». Dá gosto encontrar noivos que aceitam «retoques» no que pensavam estar bem elaborado, quando se lhes explica o que pode acontecer seguindo por certas vias. Um dos elementos importantes nos casamentos é a música. É que não faltam grupos a oferecer-se aos noivos para animarem, que até cantam na igreja mas que, infelizmente nada conhecem da Liturgia e do que é adequado ou não numa celebração de casamento. É verdade que, segundo as normas, nenhum grupo pode apresentar-se para animar uma celebração de casamento sem estar devidamente autorizado, ao menos pelo próprio pároco. Há já muitos noivos, felizmente, que, antes de contratar algum grupo perguntam se o podem fazer. Não temos infelizmente uma listagem, ao menos genérica, em que possamos ser úteis aos noivos dizendo quais os recomendáveis, aqueles que não destoam do carácter sagrado do momento e aqueles que deveriam ser proibidos. A necessidade é generalizada nas nossas paróquias.

Um dia senti-me tão mal num casamento, «obrigado» a digerir toda aquela música sem qualquer qualidade e totalmente desfasada que me decidi a chamar a atenção no final. O grupo facilitou-me o acto de coragem quando me perguntaram: «Então, senhor padre, gostou?». A resposta foi imediata: Não e tentei explicar porquê... Terão ao menos percebido que não deverão voltar à Matriz de Barcelos? Até o Salmo Responsorial foi «ocupado» por um «bossa nova».

Não faltam hoje grupos, que até precisam de uns trocos. Até podem saber música. Mas não chega. Quando não percebem que se trata de uma celebração da fé do povo de Deus... E que bem poderiam fazer boa figura animando a boda para as várias horas à mesa não se tornarem enfadonhas?! A verdade é que os noivos pagam para lhes estragar a cerimónia que queriam bela. Não será já tempo de se repensar todo aquele dia de festa único, em que a celebração religiosa mereça o lugar central - cuidada com a ajuda do sacerdote que a presidirá, com leitores treinados e mesmo acautelados certos comportamentos destoantes e que podem estragar toda a cerimónia - pois, afinal, quem é honrado por um convite não pode comportar-se de modo a pôr em causa a beleza de um todo preparado por quem convida. E há certas atitudes em casamentos que são, no mínimo, vergonhosas e expressão de grosseria que destoa totalmente do momento.

A Igreja não é o lugar adequado para vedetismos de ópera ou solos cuja letra não se entende e cujo modo de cantar desvia e distrai os noivos e a assembleia daquilo que se passa no altar. Enquanto o padre, que preside, procura criar um ambiente de serenidade e dar beleza à celebração, ao lado tem aqueles que, pagos para fazerem bom serviço, dispersam e complicam e até registam o «produto» assim complicado. Valha-nos Deus. Diz o articulista: «o mais preocupante é ter-se criado a ideia de que, no casamento mandam os noivos, que se dão ao luxo de escolher o que querem que se cante, a seu gosto pessoal, independentemente do enquadramento ou sentido litúrgico do repertório escolhido». «Quando começarão a prevenir os noivos de que a celebração é mais importante que a boda, a música litúrgica é mais importante que o baile, os intervenientes na celebração são mais importantes que os seus convidados e a participação sacramental é mais importante que a ementa do restaurante?».

24 de Janeiro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LIII

Na igreja jubilar do Senhor da Cruz permanece um grande recipiente de água benta com a inscrição Reconhece, a tua dignidade: és Filho de Deus.

Desde a abertura da Porta Santa que ele ali está bem visível. Chamando a atenção, percebe-se que as pessoas que ali vão não lhe são indiferentes. E ainda bem. É que o início do ano jubilar foi marcado pela Memória do Baptismo, ritual que pretende destacar que toda a vida cristã nasce no Baptismo e nele se alimenta. Até o testemunho do laicado ou o apostolado laical dele provêm como de direito próprio e não como concessão ou favor concedido pelos ministros ordenados. De facto, independentemente das missões que cada um possa desempenhar na Igreja, padres e leigos somos todos fiéis da Igreja. A missão desta é missão para todos. E a santidade como tarefa a construir pertence, de igual modo, a todos, sacerdotes e leigos.

A frase pertence ao Papa S. Leão Magno (século V), doutor da Igreja, e diz-nos que o estatuto do baptizado é elevadíssimo: torna-se filho de Deus e pertence ao Corpo de Cristo. Numa palavra, o Baptismo dá-nos o mesmo estatuto de Cristo e o direito de cidadania na Igreja. Por isso, ele acontece normalmente numa Igreja Paroquial, onde existe fonte baptismal e livro de registos.

E um dos elementos do ritual das exéquias é, precisamente, a aspersão com a água benta, a recordar, no fim da existência terrena, o Baptismo, começo da vida cristã. Os dois polos - Baptismo e Funeral - demarcam a existência cristã na ordem terrena: um aponta para o outro, situando-se entre os dois o desenvolvimento da missão do Baptismo. Assim, a Igreja e a Paróquia que geram para a fé corresponsabilizam-se na educação da fé até que ela adquira a plenitude quando, no processo da morte, Deus acolhe a pessoa na visão beatífica. Numa palavra, entre o nascer e o morrer, situa-se o «miolo» da existência cristã. É caso para nos perguntarmos: que «miolo» há em certos baptizados quando entram na Igreja levados pelos pais e dela se afastam de imediato para voltarem de novo trazidos pelos outros para que a Igreja derrame a água benta sobre o caixão? Quando isto acontece não só a Igreja/Paróquia falhou na sua missão de desenvolver o processo iniciado no Baptismo, como também a mesma Igreja corre o risco de ter de fechar as portas pois ninguém sobrevive só com o entrar e o sair. É preciso estar, permanecer, desenvolver o grão semeado para que produza fruto.

É verdade que a Igreja viveu demasiado tempo em regime de cristandade: contava o número, as estatísticas de baptizados e casamentos e descurava-se o compromisso pessoal e comunitário. E o que hoje vivemos - lamentando-nos de as igrejas se esvaziarem um pouco por todo o lado, neste mundo ocidental - é fruto dessa preferência pela «massa» em vez de cuidarmos da qualidade, ou seja da formação da consciência eclesial. Quando hoje se ouvem tantos juízos condenatórios sobre a Igreja percebemos que ela não é olhada como a Mãe que gerou para a fé. Se o fosse, cuidaríamos do modo como dela falamos porque a sentiríamos como propriedade pessoal: a Igreja é a minha mãe e não permitirei que a «sujem» com olhares maliciosos. Certamente que ela carrega em si as manchas da sua caminhada ao longo da história. Constituída por homens e mulheres pecadores, mas em busca da santidade de Deus, ela será sempre pecadora e reformanda. Mas sendo divina - seja na sua cabeça, Cristo, seja na Presença que a habita - ama-la-íamos e cuidaríamos dela. Eu sou Igreja. Tu és Igreja. Em mim e em ti habita Deus. Esta é a nossa dignidade: somos filhos de Deus. Não desçamos deste patamar. E nele apreciemos a beleza que nos foi dada no Baptismo e não tenhamos vergonha, antes pelo contrário, de nos dizermos cristãos e membros da Igreja católica.

17 de Janeiro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LII

Ano a ano, à volta do segundo domingo de Janeiro, as sirenes e as fardas dão colorido único à cidade. É o aniversário dos Bombeiros Voluntários, gente querida e respeitada, instituição venerada pelos bons, constantes e necessários serviços, de que ninguém pode prescindir.

E a veneração por estes homens e mulheres de fardas percorre todas as franjas etárias, a começar pelas nossas crianças, que não dispensam a passeata nas viaturas vermelhas, cujo fascínio é evidente. Talvez o melhor investimento da Corporação para que nunca lhe faltem voluntários. Olho com imenso respeito para esta e muitas outras instituições da cidade que vão construindo história a partir da generosidade de horas gastas, apenas «gratificadas» com o gosto do dever cumprido, um dever que cada um se impõe a si próprio e exprime a verdadeira liberdade do ser humano: porque quero, sirvo e nada espero em troca.

Sabemos todos como o serviço abnegado nem sempre é compreendido e até surge condenado na praça pública. Por quem? Precisamente por aqueles que não abdicam da sua má-língua manifestando-se incapazes de servir sem recompensa. E o mais belo de tudo isto? É que tal voluntariado resiste às críticas. E até se impõe porque há sempre um bom senso da parte da generalidade do povo servido que, quando chamado a pronunciar-se, não deixa de bater palmas a tal serviço em prol do bem comum. Ou então, o silêncio do povo fala mais alto do que aqueles que só falam mas nada fazem.

A sociedade de consumo impõe-se cada vez mais manietando sonhos e tentando subjugar a liberdade individual. Mas não conseguiu nunca matar a necessidade humana inata de servir, de se sentir útil sem nada esperar em troca. As regras e exigências sobre o serviço voluntário são cada vez mais apertadas e os desabafos repetem-se: «quase temos de pagar para trabalhar», ou «exigem-nos cada vez mais mas não nos dão meios». Admiro estes homens e mulheres, jovens na sua maioria, capazes de acorrer prontamente a um sinistro ou um incêndio ou qualquer situação em que a vida corre perigo. Nessa altura tudo o que é compromisso pessoal ou familiar, por mais prioritário que seja, passa a secundário. E, deste modo, fazem jus ao lema Vida Por Vida.

Admiro estes homens e mulheres que, nos corpos sociais das instituições, gastam horas e horas para estudar os assuntos, tomar decisões e honrar compromissos. Merecem o carinho e apoio das autarquias, sempre presentes mesmo quando os governos se demitem dos seus deveres. Contam sempre, e bem, com a alma do povo que servem. O triste espectáculo repetido sempre que a temperatura sobe mais um pouco revela a falta de ética na vida pública, as políticas desresponsabilizantes e o desinvestimento na cidadania. E quem está lá, no meio dos fogos criminosos a arriscar a vida? Precisamente os bombeiros.

Outrora o fogo posto era considerado pecado especialmente grave. A religião influenciava comportamentos de respeito uns pelos outros e condenava os abusos. Sem Deus, a praça pública foi usurpada por criminosos. A que ponto chegamos!

10 de Janeiro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - LI

Na hora em que escrevo sei que estão milhares de jovens em oração no encontro de final de ano, promovido pela Comunidade de Taizé, este ano em Valência. Precisamente por aqueles lados de Espanha onde não têm faltado sinais claros de uma agressividade laica aos valores e sinais católicos, saídos de uma esquerda política radical, não habituada a conviver com a diferença.

Dizem as notícias que, no encontro iniciado na segunda-feira e terminado na noite de fim de ano, o Prior de Taizé apresentou cinco propostas aos jovens para «despertar» em cada um a «coragem da misericórdia». Uma delas é a de «perdoar sempre de novo».

Perguntar-me-ão: será mesmo verdade isto de milhares de jovens reunidos em noite de fim de ano em oração e numa festa diferente, com muitos cânticos festivos e também champanhe?

Sim. É verdade. Porque eu já vi tal em Paris.

Ousar dizer o diferente e criar modos diferentes de viver e de celebrar impõe-se cada vez mais até como atitude de liberdade e de criatividade. De facto, a sociedade de consumo massifica e reduz o espaço da criatividade pessoal. A sociedade de consumo cansa e torna-nos vítimas de nós mesmos. Sentimos dificuldade em gerir tempo e espaço, criando os espaços da nossa própria liberdade. Nem nos facilita um pensar diferente - remar contra o politicamente correcto sempre constituiu risco - e, muito menos, um agir diferente. Vejam como no mundo da política o espaço da liberdade individual se reduz e se votam mesmo aberrações e leis contra a própria consciência. Como sabemos, as nossas crianças estão cada vez mais intoxicadas de «produtos enlatados», importados de outros contextos culturais. O pai natal não deixa ver o Menino Jesus e as bruxinhas e abóboras celtas não deixam pensar na santidade como ideal de perfeição que Deus oferece a todos. O processo de paganização já não se disfarça mas impõe-se abruptamente sem respeito por tradições e valores, que construíram a alma nacional.

Dá dor ver como os nossos jardins de infância e creches alinham todos nos mesmos enlatados. Que poderemos esperar destas crianças no futuro? Desde bem cedo lhes criaram padrões fáceis de consumismo, que muito dificilmente poderão suportar quando adultos.

Mas voltemos ao que é positivo, que há dias me contaram, por ser diferente: na Casa do Menino Deus fez-se uma festa de natal para as crianças, que não teve pai natal. Nem precisaram dele para se divertirem. Parabéns aos organizadores.

Há anos, a sorrir, respondi a um convite para a inauguração da «Aldeia do pai natal», promovida por uma instituição religiosa, dizendo que seria a última vez que aceitaria o convite. O recado, entendido, fez com que no ano seguinte pudesse ir à inauguração da «Aldeia do Natal».

Com gestos firmes e estudados, haverá alguém que dê largas à criatividade e «destrone» o Pai Natal para repor o Menino Jesus? Quanto não ganhariam as nossas crianças! Porque o pai natal não existe e elas sabem-no bem. Mas o Menino Jesus existe. E precisamos dele.

3 de Janeiro de 2016 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - L

Há encontros que, pela sua brevidade e simplicidade, nos deixam um sabor doce, que se prolonga, como que a contradizer a fugacidade de um momento apenas.

Há dias, fui interpelado na rua: «Então, senhor Prior, o senhor fez-me uma desfeita tamanha!...». «Que foi, senhor Pantanas?».- «Isso não se fazia... então tiraram-me Nossa Senhora do Senhor da Cruz?! E eu que que sempre lá passava A sentia como companhia e Lhe rezava...».

Passei a entender. Aquele homem, simples, mas sempre de sorriso aberto, agarrado à «vassoura», que as máquinas vieram substituir em parte - ele que se cruzava na rua e a quem eu saudava e encontrava sempre um sorriso franco e aberto - tinha sido mudado de área de serviço. Agora vejo-o muito menos. Ali pela Avenida da Liberdade, ele podia contemplar como companhia agradável durante a noite a Imagem de Nossa Senhora, lá colocada por ocasião da visita da Imagem Peregrina em 12/13 de Junho passado. Ela era a sua companhia e a Ela ele rezava.

Pois bem, a tela foi mudada para ser substituída por outra, agora com a figura do Papa a anunciar o ano jubilar da Misericórdia.

E foi neste interregno que o senhor Pantanas me fez sentir a minha «desfeita».

Disse-lhe que iria continuar a ser «acompanhado » pois quem ama a Deus nunca se encontra só. Este encontro fez-me lembrar um outro, que não acontecia e se resumia a um simples bom-dia. Até que, há dias, o encontro com o senhor Pantanas me fez aproximar da Madalena, outra senhora que cruza as nossas ruas a pô-las dignas para todos nós passarmos. É que a Madalena é uma daquelas pessoas que «não consegue» responder a um simples bom dia sem um sorriso.

Como são belos estes encontros que contrastam com aqueles bons dias que dou e que não obtêm resposta, tais as pressas no nosso quotidiano ou então fruto de um individualismo notório que até a cortesia de um simples bom dia deixou de ser usual. Um dia interroguei-me porque seria que tantas pessoas com quem me cruzo e para quem olho para saudar, nem sequer me olham. Interrogação que se continua...

Hoje quero prestar homenagem a todas essas pessoas que, sem nos darmos conta, tornam a nossa cidade bela e acolhedora. São muitos os pantanas e as madalenas que, certamente sentindo que o seu trabalho é tão digno como qualquer outro, nos evitam o incómodo de ter de apreciar locais imundos, fruto de excessos de noitadas, em que alguns se julgam no direito de conspurcar «porque outros hão-de limpar». E se todos tivéssemos a cortesia de olhar com gratidão quem nos limpa as ruas?! E a consciência do dever de educar para que ninguém se julgue no direito de sujar porque outros são pagos para limpar?! E de respeitar o mobiliário urbano cuja manutenção o Município cuida, mas que todos pagámos?! Para quando a educação cívica de onerar quem estraga ou, de propósito e até por acinte e sem necessidade, suja ou estraga o que é de todos?

27 de Dezembro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XLIX

A cidade está bonita. Com muita luz. E, ao que dizem, com menor investimento municipal. Não faltam laços, sinos e estrelas... E as ruas «vestiram-se» de passadeiras vermelhas. Vai passar alguém importante...

Fui daqueles que me dei conta da profusão de luz. E confesso que para mim chega: o Festejado nas festas natalícias disse-Se Luz para o mundo.

Mas... há sempre um mas daqueles que vêem mais ou vêem menos. Pararam-me na rua para lamentar: falta o Menino Jesus, falta o presépio, que fica tão bem nas iluminações! Verifiquei, então, que tal é verdade. Respondi que não deveria ser difícil colmatar tal «falta» no futuro: afinal «desenhar» o Menino e a figura dos pais à volta nem será difícil. Mas quererá dizer algo mais tal falta? A pergunta tem a sua legitimidade se considerarmos os meandros políticos e a carga ideológica do laicismo que varre a sociedade europeia, qual religião fundamentalista a querer pedir meças ao fundamentalismo islâmico. Pobre Europa: sem Deus, criou um vazio que não sabe como encher, perdendo-se em ídolos laicos com que tenta iludir os corações e as mentes. Que futuro nos espera? Ao aproximar-se o Natal só poderemos dizer que nos espera um futuro de paz, por agora apenas e sempre desejada, num mundo que é de Deus, mesmo que Este seja rejeitado como outrora o Menino de Belém.

Logo de seguida, lia num jornal regional, após fazer uma incursão por algumas situações caricatas que, pela Europa fora, vão renegando as suas raízes cristãs e retiram, agora, todos os símbolos cristãos da praça pública: «Os ataques terroristas são, acima de tudo, um atentado ao nosso modo de vida ocidental, raízes e símbolos cristãos». E acrescentava: «Nós por cá - que somos europeus modernos - temos decorações públicas de Natal já esterilizadas de religião onde dificilmente se vislumbram os personagens do presépio». A junção de ateus totalitários incomodados com símbolos religiosos na praça pública aos fundamentalistas islâmicos confirmam que os extremismos se tocam, pondo em risco o futuro da própria humanidade. O verdadeiro Deus - que os homens de boa vontade, a quem o anjo levou o anúncio do nascimento do Menino, são chamados a descobrir no mistério - foi sempre, na história das civilizações, um garante da paz social e da convivência harmoniosa. E Jesus veio convidar à descoberta desse Deus que é Pai de todos e não só de alguns. O cristianismo, ou seja a religião que decorre da vida e mensagem de Cristo, construiu em dois mil anos uma rede ímpar de relações harmoniosas entre os povos. Quem não o reconhece? E se reconhecemos guerras estúpidas de religião, que também as houve, tal aconteceu quando a barbárie humana - que também existe - ou os interesses comerciais e políticos se sobrepuseram às exigências éticas decorrentes da Boa Nova de Jesus.

Celebramos o Natal. Com Menino Jesus ou sem Menino? A cidade está preparada para receber o Menino ou o Pai Natal?

Que as luzes da cidade mostrem a LUZ que é Jesus. E, no futuro, não faltem ao menos os três «figurantes » principais da festa.

20 de Dezembro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XLVIII

A celebração do ano jubilar, há dias começada com a abertura da Porta Santa, em Roma, e que acontece hoje mesmo nas catedrais espalhadas pelo mundo fora e também entre nós, na igreja do Senhor da Cruz de Barcelos, traz para todos um desafio a deixarmos de lado as caricaturas de Deus, que O transformam em ídolo, e a nos questionarmos sobre o verdadeiro rosto de Deus. Sim, o verdadeiro rosto de Deus assume várias fisionomias desde que revestidas de Verdade num processo que aproxima o humano do divino. Sabemos que, de facto, é sempre Deus que toma a iniciativa de Se aproximar de nós. Na sua misericórdia, Ele convida-nos a sermos misericordiosos com os outros, aproximando-nos e «carregando- -os», nas suas fragilidades. O lema do ano jubilar não deixa margem para dúvidas: se Deus é Misericordioso, só és autêntico crente quando te tornas misericordioso no ser e no agir.

Será que nos empenhamos, ao menos neste ano, a investir na descoberta de quem é Deus? E ao transpormos para Ele os nossos sentimentos, às vezes vingativos e ciumentos, marcados pelo egoísmo e pelo orgulho, temos consciência das nossas limitações? Urge fazer a descoberta do verdadeiro sentido do Jubileu e das suas implicações na vida pessoal e colectiva. Ir à Bíblia e ir à História impõe-se-nos como faróis para não nos perdermos nas muitas concretizações históricas desviantes. Nestas, sentimos o incómodo de falar das «indulgências» e do comércio à sua volta, misturando a «gratuidade» tão própria de Deus com os interesses muito humanos e circunstanciais, de que nos envergonhamos hoje quando falamos de «negócio» das indulgências, abusando da graça de Deus e reduzindo a liberdade humana a muito pouco.

Nenhum cristão se pode justificar de não ler a Bula do Papa que institui o Ano Santo. Ela merece ser «mastigada» por todos, tal o seu conteúdo denso, programático e insistente no sentido de levar todos a deixar que Deus lhes toque o coração para a mudança, capaz de dar novo sabor à vida individual e colectiva.

Passar a Porta Santa para «ganhar a indulgência» tem sabor a comércio com Deus. À confiança própria de quem crê e, porque crê, se atira para os braços de Deus repugna fazer isto ou aquilo para «ganhar» os favores de Deus. O «desapego» ao pecado, repete-o a Igreja, é a condição fundamental para sermos agraciados com o perdão de Deus. E este perdão não tem medida. É excessivo, porque Deus ama com a radicalidade do seu amor absoluto.

Preferimos, nas nossas práticas religiosas, a «contabilidade», que nos permite apresentar facturas a Deus, em vez de nos dispormos à acção da Sua graça. E é mais fácil a casuística tipo sim e não de actos concretos do que deixar-se envolver do amor de Deus. Pobres de nós, sempre a medir o que fazemos por ou para Deus. Oxalá o Ano Jubilar contribua para inquietar consciências e nos tornar mais felizes porque descobrimos quem Verdadeiramente Deus é ou quem verdadeiramente Ele não é.

13 de Dezembro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XLVII

Admiramos todos, e bem, o Papa Francisco. Pela simplicidade e manifesto desinteresse pessoal, «despido» das suas próprias seguranças para confiar plenamente em Deus, o Papa cativa à direita e à esquerda. E a admiração por ele passou a fazer parte do olhar «politicamente correcto». E sentimos o conforto de ver um Papa que prestigia a Igreja. Ei-lo há dias, desafiando os seguranças, indo para o meio dos muçulmanos gritar pela paz. Sem medo, o Papa provoca. Ninguém pode ficar indiferente

Nem sempre, porém, o Papa foi feliz na maneira como se exprimiu. Mas, mesmo aí, revelou-se longe de formalismos e afirmou-se na sua personalidade de homem livre, aceitando os riscos da liberdade. Só falta uma coisa: que quem o admira passe das palavras aos actos e faça o que ele diz: procurem Deus na verdade e simplicidade do coração.

Aproximamo-nos do Natal. A cidade está cheia de luz. É belo. Todos precisamos de luz e de festa. Não faltam diversões, ofertas, prendas, jantares. E por onde andará o Menino festejado? Uma vez mais Francisco pôs o dedo na ferida: «Jesus chora hoje porque nós preferimos o caminho da guerra, do ódio, da inimizade. Estamos perto do Natal: haverá luzes, festas, árvores iluminadas, presépios, mas é tudo falso: o mundo continua em guerra, a fazer guerras, não compreendeu o caminho da paz».

É tudo falso, diz o Papa com todo o à vontade.

Se o «recado» do Papa não é para nós, para cada um de nós, então para quem será? Para ninguém, claro. Aí estamos nós a ficar pela admiração sem avançarmos para o seguimento, que transforma a vida e a sociedade e faz o mundo melhor.

É precisamente no Natal, como por ocasião da morte de um ente querido, que se testam as relações humanas e sociais. Quando vemos gente angustiada ao aproximar-se o Natal, preferindo que esta data - de tantas e tão belas recordações, que se avivam nesta quadra - não exista porque, «uma vez mais vou passar só» ou «que pena os restaurantes não estarem abertos»... podemos dizer que o Natal «está frio». E quem pode aquecer ou recuperar relações humanas esfriadas? Precisamente o Menino, que os cristãos identificam como o Verbo Encarnado, que veio morar no meio dos homens, enquanto outros vivem de saudades do «Menino» da sua infância, que, entretanto, perderam.

Não nos admiremos de ver tanta violência, terrorismo, sofrimento injusto e inútil. «Ideais» alimentados no ódio que terminam na explosão de um cinto armadilhado. Só que... eles são homens e mulheres, e até crianças, com direito a sonhar. Quem lhes incutiu os ideais do ódio? Que infância tiveram? Que caminhos os fizeram chegar ao crime? Que «deus» lhes pregaram? Desde quando se alimentam tantos «caldos» prontos a explodir?

Sem Deus na sociedade, perde-se a dimensão do Pai. Ficamos todos iguais. E sonhamos com a diferença: inventamos deuses e surge o terror generalizado. A angústia instala-se. A esperança desaparece. Passamos a tolerarmo-nos em vez de nos amarmos. E em pouco tempo vai-se a tolerância e fica apenas o desejo de destruir o outro, que se torna inimigo.

Vem Senhor Jesus. Volta a nascer nesta sociedade fria e seca. Ela precisa de Ti.

6 de Dezembro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO - XLVI

Éramos 26 apenas. Ao longo de uma semana, recuando no tempo, fomos às fontes da fé cristã. Uma vez mais para mim foi uma experiencia enriquecedora, cultural e espiritualmente. Para os que me acompanharam, a confirmação para os três que repetiam e a surpresa/novidade que ultrapassava todas as expectativas, para a maior parte.

Peregrinar na Terra Santa em grupo não é para mim, nunca o foi, fazer turismo. De facto, à Terra Santa - como a Fátima, Lourdes, Roma ou Santiago - não se fazem excursões mas peregrina-se. Para mim é uma missão. E por causa dela, convido, insisto, exorto a que todos a façam ao menos uma vez na vida.

"Obedeço" às constantes exortações da Igreja para que, como cristãos, saibamos olhar para as dificuldades por que passam os irmãos na fé que, naquelas terras, dão testemunho heroico da fé em condições políticas cada vez mais adversas, resistindo à tentação de emigrar, para não deixarem a outros a missão de cuidar dos lugares santos do cristianismo. Lembremos que, ano a ano, várias delegações de bispos do mundo inteiro recomendam aos cristãos que peregrinam a Jerusalém, não obstante as notícias, exageradas quanto às condições de segurança.

Sobre estas, uma vez mais, alguns actos violentos noticiados até à exaustão – e às vezes não passam de acções marginais repetidas em qualquer capital europeia – criaram hesitação e medo, antes da partida. Mas, uma vez lá, todos apreciaram as condições de segurança e a tranquilidade com que se caminhava nas ruas e se seguia o programa. A segurança nos aeroportos ou os postos de controlo na cidade de Jerusalém, em vez de assustarem, tranquilizam. É o que se experimenta uma vez lá chegados: não se pensa em terrorismo ou atentados mas aprecia-se a tranquilidade com que todo o povo circula nas ruas. E conclui-se: Israel é, afinal, o país com o melhor sistema de segurança, cujo povo se habituou a viver com as ameaças permanentes de vizinhos hostis, que até circulam lado a lado na mesma Cidade Santa.

Surpreendem-me sempre os testemunhos dos que me acompanham – não deveria ser assim pois foram já várias as vezes que tal aconteceu - ao valorizarem, em encontros de balanço ao fim de cada dia, celebrações cheias de simplicidade e iguais a tantas outras. Porquê? O que mudou? Apenas o lugar e o espírito do peregrino que os vive. Porque, dizem, é diferente ouvir o evangelho ali onde tudo aconteceu. E, de facto, assim acontece: depois de se ir à Terra Santa, os textos bíblicos têm outro sabor, ao transportar-nos para um lugar e um tempo concretos que passam a fazer parte da nossa identidade cristã, do nosso edifício cultural e do ser religioso que cada um é.

Para tal muito contribuíram os três colegas padres, mais jovens, que faziam parte do grupo. Eles muito enriqueceram as celebrações e muito contribuíram para a coesão e espírito de peregrino alegre vividos no grupo. Estou-lhes muito grato. Foram eles: o P. António Simões Laranjeira, pároco de Macieira, Gueral e Courel; o Padre Paulo Emanuel Dias, arcipreste de Caminha; e o jovem padre, ordenado apenas há quatro meses, P. Carlos Alberto Martins, pároco no arciprestado de Ponte de Lima.

O meu grande desejo era ver um dia a maioria dos meus paroquianos experimentar a peregrinação à Terra Santa. Contento-me em semear o desejo e insistir na superação das barreiras que impedem até o sonho. Ouso dizer que nem é a questão financeira o principal obstáculo, porque sabemos que ele não existe para muitos, que até gastam bem mais em viagens similares ou férias. Tenho pena que não despertem para esta realidade. Até porque – comprovam-no e testemunham-no os que me têm acompanhado – se trata da melhor relação qualidade/preço. Pela cadeia de pessoas ou empresas envolvidas, pela riqueza de sentimentos e emoções vividas, mesmo aqueles que tiveram de fazer um grande esforço para dispor de 1.450,00 euros reconhecem que foi o melhor investimento da vida.

De facto, trata-se de um investimento em si próprio. Não em coisas que, de tão efémeras, cedo se tornam desnecessárias ou inúteis. Mas no desenvolvimento pessoal em cultura, em espiritualidade, em relação humana, em abertura ao mistério do divino no humano. Não será já tempo de cuidarmos bem onde gastamos o fruto do nosso trabalho e as nossas poupanças? E não deveria constituir para o todo o cristão, um belo objectivo na vida "sentir" Jerusalém para onde os profetas apontavam quando diziam que ali, um dia, todos os humanos adorariam o mesmo Deus?

29 de Novembro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #45

Os actos terroristas há dias verificados em Paris, ocupam os noticiários até à exaustão, quase como que a dizer uma ferida profunda no coração da humanidade, desafiada agora a «levantar-se das cinzas», consciente, a pouco e pouco, de que não pode ceder ao terror. Terei eu algo a dizer de especial, que acrescente e se possa situar num «olhar outro»? Tentarei fazê-lo. Aquando do atentado ao Charlie Hebdo, escrevi que também eu era Charlie: repudio veementemente os processos violentos de transformação da sociedade. Mas deixei a mim mesmo uma questão em suspenso: que «peso» têm as vidas humanas e a paz social quando um caricaturista ridiculariza sentimentos ou crenças? A questão evoluiu já para: liberdade de alguns ou segurança de todos? Que limites para a liberdade pessoal?

A partir da minha experiência de sete anos de vida em Paris e de três na América, inserido na vida das comunidades portuguesas ali imigradas, olho os acontecimentos actuais e, revoltado, rendo-me à lógica que os vinha preparando. Não os justificando, «compreendo-os». Não faltam comentadores a dizerem que eles eram previsíveis e até ousam dizer que eles anunciam novos e, porventura, mais sangrentos, num espaço sem fronteiras onde ninguém se encontra a salvo.

Aventam-se muitas hipóteses explicativas. Tento «outra», que me ocupa há muito: a desertificação espiritual da Europa, que vem arrastando a própria América, que dá sinais de querer abandonar o seu In God we trust (Em Deus confiamos), inscrito nas notas de dólar.

Desde a Revolução Francesa que a França, com a sua bela trilogia Liberdade, Igualdade, Fraternidade, de raiz evangélica, se tem vindo a pôr de joelhos diante da deusa Razão, qual ídolo que tudo e todos subjuga. E paulatinamente foi criando um modo de ser e de viver em sociedade, caracterizado pela ausência de Deus, rejeição do mundo religioso como um apêndice perigoso, e incomodando-se com os sinais religiosos que tecem a geografia e ocupam maioritariamente a sua própria história. Um modo de ser que exporta, ufanando-se de, deste modo, condicionar a própria história e o pensamento de outros povos. A França convive mal com a religiosidade dos povos, componente imprescindível para a paz social e equilíbrio pessoal. A sua laicidade transforma-se cada vez mais num laicismo imposto e agressivo, aproximando-se dos fundamentalismos que condena. O laicismo é, não tenhamos dúvida, um fundamentalismo. A laicidade sadia, quando não se promove, cedo resvala para a imposição ideológica do tal mundo sem Deus, que se revela cada vez mais fonte de agressividade entre pessoas e grupos. Por mais que se fale de tolerância e de respeito pela dignidade humana... na verdade o que vemos é a justificação de prepotências dos mais fortes sobre os mais fracos.

Lembro-me de ouvir a um presidente de câmara, dirigindo-se aos padres, eu incluído: vocês peçam subsídios; há verbas que se não forem aplicadas nas vossas comunidades, vão todas para os muçulmanos. O mesmo se lamentava, em ocasião diferente e perante responsáveis da comunidade portuguesa de Paris: «que podemos esperar de gente que cresce sem nunca ver o pai levantar-se cedo para ir trabalhar?». Referia-se ele aos magrebinos e outros imigrantes muçulmanos que se estabeleciam em França e se ufanavam de não precisar de trabalhar devido aos elevados apoios sociais: a famílias com oito ou dez filhos bastavam os abonos para viverem bem e até enviarem verbas para o país de origem.

Hoje vemos a nossa querida Europa sem valores, sem ideais, renegando os valores originais nascidos no Cristianismo, desprovida de meios e de força anímica para resistir aos invasores da sua identidade histórica. Porque ela os abandonou. Sem políticos à altura dos fundadores que a sonharam como comunidade de nações. Que de bom e de eficaz poderemos esperar da Europa no futuro sem uma reconciliação com o seu passado?

22 de Novembro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #44

Termina hoje a Semana dos Seminários. Padres e seminaristas mostraram-se em Barcelos. Saíram de Braga e vieram até nós. Entraram nas nossas «casas», isto é nas nossas paróquias e disseram ao que vinham: dizer em palavras e gestos que «tornar-se padre» é uma vocação «ajustada» à felicidade sonhada pelos jovens de hoje.

A experiência, repetida todos os anos passando de arciprestado em arciprestado, visa certamente o despertar dos jovens para um serviço tão específico na sociedade como necessário na Igreja. Naquela, o sacerdócio é «estranho», não aliciante nem elegível, pese embora vivermos num regime aberto e supostamente sem tabus. Nesta, o ser padre toca a sobrevivência da mesma, porquanto os cristãos se habituaram, mal é certo, a depender totalmente da acção e presença do sacerdote. Sem este, parece que o «edifício» eclesial se desmorona. Estamos longe do frescor de tantas comunidades por esse mundo fora onde o sacerdote ocupa o seu lugar, específico e único, no conjunto de um laicado adulto e consciente da sua ministerialidade, que provém do Baptismo. Quem não recorda o que aconteceu, nos anos pós-descolonização portuguesa em África, em que os missionários foram forçados a abandonar certas zonas e, anos depois, se encontrou uma Igreja florescente a partir da acção dos catequistas da missão?

De facto, há uma notória falta de padres. Porquê e para quê? Para se manterem certos serviços, certas estruturas dependentes de um serviço de dedicação total, sem horários ou encargos. Será bom? Creio que não. Poder-se-á continuar assim, em que o padre faz-tudo marca a identidade de um povo, que alimenta mas não compromete? Creio que não é o melhor para a maturidade espiritual de quem crê. Porque a fé autêntica é libertadora e comprometedora. Se não, deixa de ser autêntica. Ora a fé é uma atitude totalmente humana, livre, portanto, mas centrada na pessoa de Jesus e não na do sacerdote. Com este ou sem este, o crente deve continuar centrado no Mestre.

Precisamos de muitos padres para as estruturas criadas. E não os há. Paróquias que nunca deram vocações sacerdotais devem interrogar-se sobre o seu pretenso «direito» de um qualquer «nosso padre». E não os tendo para o que era habitual, estarão os nossos cristãos das paróquias preparados para a redução de serviços e da presença de um padre? Diante da realidade - a escassez de clero - não será de gastarmos as energias a «forçar» um estatuto de «adultos» na fé, cristãos responsáveis, compreensivos para com as «faltas» de padres e dos padres, mas, por isso mesmo, mais empenhados em que nunca falte o possível Pão da Palavra e da Eucaristia, aceitando deslocar-se a centros de vizinhança ou mesmo longínquos? Quando é que se passa do esperar tudo do padre - a correr de paróquia em paróquia - para tudo esperar da comunidade? Não será mais justo e humano pedir a esta que se desloque e faça comunhão com a vizinha? Não é hoje uma realidade que a grande maioria das pessoas todos os dias faz a sua vida de carro para o trabalho, às vezes bem mais longe do que a igreja onde há a Eucaristia? Não estará o Espírito Santo a dizer-nos que é preciso mais capacidade para ir ao encontro dos vizinhos para, com eles, celebrarmos a mesma fé no Senhor Ressuscitado?

Gostei de ver os seminaristas e os padres do Seminário com entusiasmo. Com pena, no entanto, de não atingirem sequer metade das paróquias do Arciprestado. E tinham equipas preparadas para todas. E a sua presença foi bem apreciada.

Abri-lhes as portas de par em par. Valeu a pena. O desafio ficou: a paróquia de Barcelos conheceu apenas um sacerdote saído das suas fronteiras - o P. Aviz de Brito falecido em 19 de Outubro de 2011. Esperamos do Senhor a graça de novos seminaristas e novos padres saídos desta cidade.

15 de Novembro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #43

Foi uma interpelação directa. Os acenos de cabeça foram inequívocos. Algum de vós, os da minha idade ou mais velhos, alguma vez ouviu falar do pai natal na sua infância? E algum de vós, dos 30/40 anos ouviu falar do Halloween na escola primária?

Precisamente no «dia das bruxas» e no dia de Todos os Santos, depois de ver desfiles de tipo carnavalesco de crianças e jovens, achei oportuno levar os cristãos reunidos a darem-se conta das mudanças sociais em curso, afectando, de modo rápido e destrutivo, o tecido social moldado por rituais e crenças cristãs.

É preciso abrir os olhos à realidade e, com sentido crítico, perceber como estamos a ser invadidos por um laicismo agressivo dos valores do cristianismo. Acontece o contrário do início da era cristã. A Boa Nova de Jesus foi de tal modo novidade e resposta melhor que todas as que os povos tinham que se criaram rituais substitutivos do paganismo. O deus sol foi substituído pelo dies natalis do verdadeiro Sol, Jesus Cristo. E começou a celebrar-se o Natal de Jesus. O dia das bruxas, oriundo dos celtas, passou a ser a Festa de Todos os Santos. São apenas dois exemplos de como o cristianismo lidou com os rituais pagãos: substituiu-os porque os povos aceitaram as respostas do cristianismo sobre o sentido da vida e os questionamentos de sempre e consideraram-nos melhores. É verdade que sempre ficaram resquícios do paganismo, sobreviventes como sinais e objectos de estudo do que foram os nossos antepassados. Revisitar a história não faz mal nenhum, mas trazer para o hoje os rituais do passado, sobretudo da era pré-cristã, é sinal claro de um retrocesso civilizacional, que empobrece e contradiz o sentido da evolução dos povos.

Tenho pena de ver tanta gente, entre grupos cristãos e até escolas de inspiração cristã, a enveredar por tal caminho. Dirão que é apenas uma brincadeira. Não o é, sejamos sérios, pois quando cada um recorda a sua história de vida reconhece como as primeiras impressões são as que marcam mais o futuro de uma pessoa. Se as nossas crianças são educadas e se divertem com ritos pagãos, que vamos esperar no futuro?

Assisti a uma primeira reacção por parte de grupos católicos na cidade de Paris, nos finais dos anos 90 a esta invasão de «celtas»: na «cidade das luzes» os cristãos empenharam-se na «invasão» contrária. E falaram e publicitaram festas de Holly wins (A santidade vence). E a «noite das bruxas» transformou-se em «noite de santos» porque «a santidade vence». Aquela atitude teve, depois, desenvolvimentos, ainda pouco conhecidos, um pouco por todo o mundo. Sinal claro, também nisto, de que bruxas e superstições vendem bem e a santidade vende mal... a não ser que lhe encontrem algum lado mais sórdido ou escandaloso...

Era minha intenção dedicar, neste mês de Novembro, quatro sessões para uma incursão pelo mundo das superstições e bruxarias, com o objectivo de ajudar ao espírito crítico, cada vez mais necessário numa sociedade cheia de «canudos» universitários mas em que as pessoas se encontram cada vez mais vazias de ideais fortes e de referenciais seguros. Não o fiz porque o tempo é escasso e senti que, para um trabalho sério, necessito de me documentar e preparar melhor. A seu tempo será feito.

«Despachado» Deus da vida das pessoas, abre-se um campo para onde entram os deuses. E estes apenas manipulam, exploram e oprimem. O vazio de Deus gera as ditaduras e alimenta os fundamentalismos. Só Deus é verdadeiro Libertador.

8 de Novembro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #42

Foi já há duas semanas. Vi parte da reportagem televisiva (https://www.youtube.com/watch?v=GQSHq1JF2Lk). No dia seguinte logo alguém me falou da mesma. Bem documentada, a reportagem trazia para debate público os métodos de proselitismo escravizante das Testemunhas de Jeová, uma organização religiosa não reconhecida como igreja enquadrável no protestantismo ou seus diversos ramos surgidos ao longo dos séculos. Numa palavra, os «jeovás» não são cristãos, pois não aceitam o Credo doutrinal fixado nos primeiros séculos, que reconhece a divindade de Jesus Cristo.

Olhei com apreço a reportagem e valorizei o trabalho jornalístico, certamente não fácil para quem ousa penetrar nos meandros de uma seita, que se foi implantando pelo mundo à custa de muito dinheiro, do medo de Deus incutido com ameaças do fim do mundo e dos castigos de Deus (Jeová) a quem não aceitar integrar aquela organização, e de uma interpretação fundamentalista da Bíblia, surgida em 1872 e incompreensível nos nossos tempos.

Olhei para trás e pude recordar os meus tempos de estudante teólogo: investiguei a sua história e os seus modos de proceder e de interpretar a Bíblia, participei «infiltrado» em duas das suas reuniões, discuti horas a fio (uma noite inteira) com alguns dos seus fanáticos seguidores e, com isso, pude fazer recuperar a paz social, ameaçada, na altura, num dos lugares da minha freguesia pelos recém convertidos emigrados na Bélgica. Porque foi público e notório, um dia fui abordado expressamente pelo chefe (superintendente ou ancião) que se deslocou do Porto. Acolhi-o e logo o «empurrei» para a mesa de um café para falarmos ou discutirmos em lugar público. Pouco tempo depois deu-lhe a pressa de partir para nunca mais voltar.

Posso confirmar que a reportagem é fidedigna e permitiu actualizar-me no assunto: trata-se de uma verdadeira escravização, por muitos e há muito tempo denunciada.

Sempre fiquei sensibilizado, e até revoltado, com as seitas que se impõem pelo medo e pelo abuso da Bíblia. Daí a constante repetição: a religião ou é libertadora (que leva o humano a realizar-se feliz inserido no divino) ou não é religião. Porque se liga a Deus, eu não posso conceber um Deus sádico, que se compraz no seguidismo acrítico dos enlatados preparados por alguns. O amor de Deus é sempre libertador e respeitador da liberdade de cada um.

Vivemos numa sociedade livre em que todos se podem expressar livremente. Esta liberdade, porém, não justifica tudo. Por isso me esforço, no âmbito da missão que me foi confiada e que é reconhecida socialmente, de acautelar contra estes mecanismos de escravização, tão fáceis nas sociedades democráticas, em que a verdade objectiva se valoriza pouco ou mesmo nada. Cada um pensa o que quiser, certo, mesmo que exprima o ridículo do que pensa e os erros que o iludem como se fossem verdade. A Palavra de Deus, rectamente entendida - um esforço permanente se exige para tal - enche e realiza o crente, que vive permanentemente em procura da Verdade que é Deus.

Nunca como nos tempos actuais se valorizou tanto o conhecimento aprofundado dos textos bíblicos para que, entendidos, possam tornar-se fonte de cultura, expressão do humano ricamente misterioso e gerador de equilíbrios que nos permitem saborear a vida como dom de Deus.

Que pena ver tanta gente que se julga «iluminada» a «vender» a Palavra de Deus nos «púlpitos» improvisados no Porta Nova. Deus me ajude a ter compaixão de quem, porventura sem se ter dado conta ou então sem coragem para se libertar da seita, se gasta tanto para aumentar os seguidores escravos ou os lucros da organização.

1 de Novembro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #41

Vivemos a semana que passou «suspensos» de jogos políticos, à esquerda e à direita, reivindicando, uns e outros, o direito de governar. E os cristãos rezaram para que imperasse o bom senso, traduzido na prioridade do bem comum sobre o bem partidário. Em retiro, em Fátima, interpelava-me a mim mesmo, ou melhor, o Senhor me interpelava, sobre o exercício do meu ministério sacerdotal: poder ou serviço? No domingo passado, o evangelho dizia-nos que os discípulos de Jesus também se invejaram entre si quando Tiago e João pediam a Jesus os primeiros lugares. E, comentava eu, tais apetências existem também no âmbito eclesial. Hoje ainda. Não aprendemos o ensinamento de Jesus: «Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser o primeiro há-de tornar-se servo de todos». Poder é serviço, é servir e não servir-se.

Dias antes, convidei as Mesas das confrarias da Paróquia a sentarmo-nos à mesa para ouvirmos esta Palavra do Mestre. Faço-o habitualmente duas vezes por ano. Nem todos vêm. Vêm quase sempre os mesmos e faltam quase sempre os mesmos. As ausências, justificadas algumas, as dos que habitualmente vêm; outras, ignoradas pelos próprios como se não tivessem obrigações do cargo que ocupam livremente ou que desejaram; outras ainda, com desculpas «esfarrapadas» que todos conhecemos e que só dizem algo que não ignoramos: «não estamos para isso, há muito mais que fazer». Honra para aqueles que vêm e reconhecem interesse em encontrar-nos todos, irmanados numa causa de serviço à Igreja, expressão do amor eclesial que existe, e que queremos conhecer mais para amar mais.

Estou convencido de que se vive uma apatia generalizada no que se refere a compromissos de uma vida de autenticidade. Esquecemos que crer compromete. E há gente que entra nas instituições da Igreja, que as quer gerir como couto pessoal, ao jeito das instituições civis. Não deveriam ter tal ousadia, pois em vez de servirem estão a servir-se. Deveriam, antes, ter a coragem de, ao terminarem o mandato que lhes foi cometido, se afastarem e, se a consciência recta lho permitir, dizer «missão cumprida». Na minha condição de Órgão Vigilante, promovo tais encontros para ajudar os que ocupam tais cargos, a tomarem consciência de que o seu cargo é um serviço à Igreja. Que tem de ser desempenhado de acordo com normas conhecidas e dando testemunho da fé. Os que ocupam tais cargos devem ser exemplos de vida cristã na comunidade, reconhecidos como tal, alimentando-se da Palavra de Deus aos domingos, confessando-se e comungando. A Igreja proíbe mesmo que tais cargos sejam ocupados simultaneamente por responsáveis partidários: não se misturem as coisas.

Estando nós a entrar no Ano da Misericórdia, espera-se dos Mesários atitudes novas de «misericórdia», de maior cuidado nas suas actividades e de atitudes concretas jubilares. Como poderemos aceitar a atitude daqueles que se recusam a fazer comunhão eclesial, a entrar nos dinamismos pastorais da Igreja, que nunca têm tempo para o que é de ordem espiritual, mas se limitam a gerir a ordem material?

Confesso que gostei do empenho dos presentes e das ideias que fizeram surgir diante do que foi dialogado. A todos pedi rigor na gestão dos bens, prioridade ao testemunho cristão e dignificação da Confraria que administram: que novos Irmãos sejam acolhidos segundo as normas e que, na altura de eleições, se cumpram os estatutos, sabendo que as normas civis e eclesiásticas exigem hoje mais trabalho e dedicação, porque todos são ou serão chamados a dar contas.

 25 de Outubro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #40

A realidade impõe-se-nos para além dos nossos desejos, explicações ou discussões. Ela é, simplesmente. E só se constrói a partir do real, do concreto.

Todos o sabemos: o modo de evangelizar de outrora não serve para agora. Mas não estaremos a teimar responder hoje a perguntas que já ninguém põe? Esquecemo-nos que o povo de Deus a evangelizar vive na era do digital, passou já e ultrapassou a era Gutemberg. Toda a gente sabe ler e escrever. E as jovens gerações atingem ao menos o nível médio e, cada vez mais, um curso de nível superior. A informação abunda e até se torna massificante. Todos pensam pela própria cabeça... se lho permitirem... A Igreja não é o único palco onde se «representa»... Terá de ser, isso sim, o «palco» onde se procura verdade, beleza e bondade.

Sempre me preocupei, na missão de servir, com a cultura, como espaço a promover para a liberdade humana. Sendo esta dom de Deus, a Boa Nova do evangelho passa por ajudar as pessoas a, livremente, a receberem como dom do amor de Deus. Não nos podemos contentar com as respostas massificadoras. Numa palavra, o anúncio do evangelho é feito a pessoas livres, que pensam e não aceitam tudo só «porque o senhor abade o disse».

Por isso, vejo com alegria a correspondência do «nosso» Povo de Deus de Barcelos aos convites para esclarecimento e reflexão sobre temáticas a que não estavam muito habituados. Dei-me por feliz ao ver o Auditório Municipal a abarrotar - eram mais de 300 pessoas - como o reconheceu o Dr. Alexandre Maciel, orgulhoso, em nome do Município que representava, ao ver como «o Povo de Deus de Barcelos» enchia aquela casa. O que raramente acontece, muito menos para actividades de carácter cultural.

Desta vez foi sobre a ecologia ou o cuidado da casa comum, que é o cosmos onde todos habitamos, e que temos de cuidar, para que passe de uma casa comum a um lar comum. O desafio, em várias vertentes, veio-nos da conferencista Isabel Varanda, que nos ajudou a ler o belo texto da Encíclica do Papa Francisco Laudato Si.

Pouco a pouco, felizmente vai ganhando corpo entre os cristãos de Barcelos, a necessidade de espaços de diálogo e de cultura humanista ou religiosa.

O Arciprestado, por sua vez, tem vindo a assumir esta necessidade procurando dar respostas. E assim se vai fazendo tradição de dois momentos importantes, em Outubro e Novembro, neste sobre o sentido da vida e o que nos espera após a morte. A Semana Bíblica, em Fevereiro/Março de cada ano, vai trazendo a Barcelos pessoas de renome, especialistas na cultura bíblica. E assim, o meio barcelense se vai apercebendo de que a Igreja não estagnou, como às vezes injustamente a acusam, mas sabe estar no mundo partilhando «as angústias e as esperanças» de todos, dialogando com todas as visões diferentes na observação do que compõe o tecido humano e social. Oxalá este diálogo pretendido encontre eco e retorno pois, não o encontrando, não passa de um monólogo ou de uma tentativa de imposição sobre um «corpo morto», que não quer ser incomodado.

Com humildade, mas também com firmeza, valorizemos, nós os cristãos ditos praticantes, a formação cada vez mais necessária para um testemunho da fé que desperte os adormecidos há mais ou menos anos, no comodismo de «chutar para canto» as grandes questões que sempre «perturbaram» o ser humano.

P. S. - Voltaremos ao Auditório Municipal a 4 de Novembro para uma conferência pelo Dr. Jorge Barbosa «do terror da morte... à esperança na ressurreição».

 18 de Outubro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #39

Na vida de um padre há muitas surpresas. Umas bem agradáveis, outras nem por isso. É a vida, diremos todos.

Certamente que todos gostam de surpresas agradáveis. Eu também. Porém...Não me sinto muito à vontade diante delas. São momentos que emocionam e tenho as minhas dificuldades em conciliar a sabedoria do coração, tentado a envaidecer-se, com a autenticidade que tento dar a todos os momentos da vida. Por isso, sempre procuro «desviar-me» de tais momentos em que sou alvo de atenções.

Era domingo, 27 de Setembro. Na véspera completara onze anos de missão em Barcelos. E costumo assinalar esta data, bem como a da minha ordenação sacerdotal, não por vaidade mas por razões pedagógicas, a chamar a atenção para o dom de Deus em mim e a missão que me foi confiada. Assinalá-las publicamente compromete-me: como vivo eu o meu sacerdócio e como cumpro os meus deveres de pároco?

O secretário da Paróquia tinha-me pedido para dizer umas palavras no final da Missa. Pessoa de confiança, não hesitei em dizer que sim, mesmo sem perguntar a propósito de quê. Felizmente que comungamos todos, um grupo cada vez mais numeroso, da responsabilidade da missão. Orgulho-me, isso sim, de um bom grupo de leigos que vive a sua fé, empenhando-se na missão da Paróquia, sentida como derivação do próprio Baptismo. Ser Igreja, digo-o tantas vezes, é isto mesmo: ser responsável pelo dom recebido e partilhá-lo com todos os que nos rodeiam.

E que disse ele? Falou do início do ano pastoral e de um livro que «um grupo» fez editar com textos que eu escrevera.

Longe de mim imaginar o que, no segredo, estariam a fazer. Bem olhava no projector, em imagem invertida, o título e interrogava-me sobre a célebre vírgula, que tem todo o sentido, mas que, vista em retroprojecção, me fez «distrair» das palavras que explicavam a surpresa.

O pequeno livro, de boa apresentação, recolhe os textos que fui escrevendo no Construir ao longo dos últimos dois anos, nesta mesma coluna. A princípio intitulei-a A propósito de.... Passou depois para Impressões do Quotidiano e agora Um olhar outro. Em todos eles, quis, e quero, abordar de modo simples e, ao mesmo tempo, mais profundo, o quotidiano da minha vida de Pároco, ora olhando a realidade da Paróquia e dos paroquianos, ora olhando para o mundo e a Igreja do tempo em que vivemos. São, portanto, textos circunstanciais e muito «temporais», assim penso. No entanto, outros pensaram que eles se revestem de algum interesse para além do tempo passageiro em que são escritos e publicados. Cada um dar-lhes-á o valor que entender. Pela minha parte, eles significam a imposição que me faço a mim próprio de dizer o que vou sentindo da vida, num abrir de alma aos que tiverem a paciência de me ler.

Passado o efeito da surpresa, só à noite pude pegar no livro para o apreciar melhor. Reconheci e agradeço os belos textos do Prefácio e de Introdução, escritos pelo Abílio Rocha e Gina Rafael. Apreciei as ilustrações da Maria das Dores Quinta e Costa e do José Nogueira. Todos eles valorizaram a publicação, que teve a mão do Manuel Rodrigues na compilação dos textos e ainda outras mãos e mentes que «cuidaram» do segredo para não porem em causa a surpresa.

O meu obrigado sincero a todos.

Não deixo de dizer o que senti, à noite, quando folheei o livro e li alguns textos: apreciei-os já com um pouco de distância no tempo e dei graças a Deus. Porque já estavam esquecidos concluí que o seu valor e actualidade se mantêm. E desejei que eles possam aproveitar a quem os lê. Afinal, um texto publicado passa a não ser propriedade privada: oxalá sirvam de proveito a quem os lê.

O título, entretanto, julguei-o comprido mas feliz: Minha é a MISSÃO de apascentar, não o rebanho. Como tantos que «inventei» quando era Redactor do Jornal Diário do Minho, também este provoca à reflexão: que significa este título?

Precisamente o que ele diz: que o rebanho que apascento não me pertence. Sou cuidador e não dono.

11 de Outubro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #38

Deus fez tudo bem feito, repete a Bíblia. E a experiência humana o confirma. O mesmo Deus deu-nos a missão de melhorar a obra criada e não a de a estragar. E convidou-nos a contemplar a beleza e bondade da sua criação.

A celebração do jubileu sacerdotal de três colegas párocos de Barcelos levou-me a esta reflexão, qual olhar «outro», que pretende ver mais longe.

Procuro traduzir na minha vida e acção aquilo que, um dia, ouvi a um sociólogo: «ver perfeito é ver completo». A realidade é, de facto, plural e apresenta muitas facetas. Quantas vezes assisto a discussões inúteis em que os confrontantes têm ambos razão... só que olham a realidade a partir de pontos de vista diferentes.

Assumi, há muito tempo atrás, a opção de que a missão sacerdotal implica disponibilidade total para a mudança. Não estar sempre no mesmo cargo renova e desperta capacidades ocultas no próprio, que não se cansa nem cansa os outros. Uma simples mudança alivia um e outros. Claro que há riscos e há renúncias. Que custam, antes de mais ao próprio.

Hoje situo-me diante daqueles que passam 20, 30, 50 ou mais anos no mesmo cargo, ou até a vida toda. E olho para eles com todo o respeito. Dão-nos a nota da estabilidade e da persistência. Que também fazem falta à Igreja. E contemplo nessa longevidade de um pároco as marcas de uma identidade que se vai forjando e marcando um povo. Que o sabe reconhecer, aliás. Não é verdade que, por essas aldeias fora, o pároco é a pessoa que mais se destaca como aquele que está e permanece acessível ao seu povo, que a ele recorrer como a pessoa do gratuito, a pessoa do diferente de todas pois está ali não como um igual mas o único, que tem uma palavra diferente porque baseada na de Deus? E o povo respeita-o e, de vez em quando, até o retira da rotina para o destacar, seja num busto, no nome de uma rua ou numa homenagem. E isto acontece ainda hoje em tempos de desafeição religiosa. Para o povo a longevidade de um sacerdote na sua paróquia é vista até com orgulho e sinal de que «o nosso padre», expressão tão carinhosa e carregada de sentido, «se sente bem entre nós».

Quando os padres se encontram e partilham as dificuldades comuns, relevam um «deixa correr» próprio de quem confia e está consciente de que o rebanho é de Deus e a Ele pertence a última palavra. Releva-se o «somos servos inúteis», apesar do sentido de responsabilidade que leva sempre a não estagnar mas a avançar em «novidades» que possam exprimir a acção do Espírito Santo, que renova todas as coisas. De facto, o crer, num padre pároco- é destes que eu falo - tem consequências que explicam porque é que, tantas vezes, as situações complicadas que tecem a sua vida não fazem desanimar ou desesperar, mas antes reforçam a sua confiança em Deus, ponto de partida para toda a acção.

Um outro aspecto a relevar: foi à volta do Arcebispo, centro de comunhão na Igreja diocesana, que o jubileu dos três colegas foi celebrado. Nós, os padres, também comungamos das «angústias e esperanças» comuns a todos os seres humanos. Também nos descuidamos e até dizemos mal uns dos outros e até do bispo, como autoridade, a quem devemos e prometemos obediência. No entanto, longe de nós alguma falta de respeito que ponha em causa a unidade afectiva e efectiva ao nosso bispo. Ele é o pai e, como tal, até o desejamos melhor, cada um segundo os seus critérios, mas, como acontece com todos os filhos, sentimo-nos «feridos» quando alguém diz mal do nosso pai. Porque sabemos - será fruto do carácter indelével da ordenação? - que desobedecer e não construir em comunhão com ele, desenvolvemos o espírito de seita, que tanto mal faz não só à Igreja como ao próprio.

Celebrar jubileu sacerdotal é a ocasião de olhar para trás e de reconhecer a acção de Deus na fragilidade do humano. Os parabéns são devidos ao jubilado e ao povo que o acolhe.

4 de Outubro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #37

Qualquer peregrinação é sempre uma aventura. E até um risco. Assumo-o como normal: quem se mete ao caminho, ou o faz com confiança em Deus, mais forte que as hesitações, ou decide não ir e até recua quando já decidiu ir.

Sinto-me bem na aventura. E sou o fruto das aventuras ao longo da minha vida. A confiança em Deus sempre me leva a avançar e não a recuar. Claro que a prudência aconselha a agir com sensatez e a preparar-se para as eventualidades.

Quando o Arciprestado de Barcelos pôs a hipótese de uma peregrinação jubilar a S. Bento, nos quatrocentos anos da sua história, logo admiti ir a pé. Nunca sozinho, em experiência individual ou de pequeno grupo. Sabendo que são muitos os caminheiros que de Barcelos partem para S. Bento, logo me decidi interiormente a arriscar ajudá-los a passar de uma caminhada «gloriosa» para uma peregrinação, que os levasse de Barcelos até ao «coração» para onde aponta a vida e a Regra de S. Bento. Depois desta experiência, que considero insuficiente mas positiva, apraz-me refletir alto sobre a mesma.

A dureza era previsível. Mas revelou-se bem mais do que previsto. Pensávamos 54 Km, segundo o Google, mas o Runkeeper deu os 60 Km. Demasiado para uma só etapa.

Certamente como muitos companheiros de jornada, também eu hesitava e desconfiava das minhas próprias forças. Afinal já lá vão os 62 e por mais jovem que me diga de espírito, o certo é que os músculos já se ressentem quando forçados. Mas lá cheguei ao fim, certamente motivado pela ideia de que, se desistisse, muitos outros desistiriam atrás de mim.

Não aconteceu aquilo que eu tinha previsto. Com alguma experiência dos Caminhos de Santiago, esperava dar um contributo a todos para passarem do «turista» ao «peregrino». Enganei-me com o grupo que me acompanhou.

Não excluo ninguém à partida nem ponho condições para a inscrição. Reconheço que não o devo fazer de futuro. Por mais que tentasse encontrar momentos adequados para falar do que é uma peregrinação ou de quem é S. Bento, para levar as pessoas da dispersão à concentração, não o consegui. Disse, na partida, que não se tratava de uma caminhada mas de uma peregrinação. A mensagem não passou. Porque eram 104 os inscritos - mesmo que se digam não crentes, desde que entrem com boas intenções não os excluo - não houve a oportunidade de uma concentração adequada.

Alguns, pelo caminho, deixaram o grupo: foram 16 e ainda bem que o fizeram, pois o que desejavam era caminhar para chegar depressa. Os «heróis», ufanos do seu próprio individualismo... O estar em grupo e viver com não é tarefa fácil. Parece que alguns não o querem aprender nunca.

Reflecti e concluí que a força do hábito dificulta ou impede de se chegar ao mais nobre e belo de uma caminhada que pode e deve transformar-se em peregrinação. Os «costumeiros» de S. Bento não sabem outra coisa que caminhar para chegar depressa. Aonde? A S. Bento? Não. Ao fim dos 60 Km para poder dizer: estou em boa forma! Pobres coitados... tanto esforço para tão pouco!

E o S. Bento? Se chegam ao Santuário ficam satisfeitos ao dizer «cumpri a promessa»! Que pobreza, meu Deus! Tanto esforço inglório, que não toca a vida, muito menos o coração. Que não transforma nada! Porque apenas tocou os músculos que, bem cedo - habituados já nem as bolhas lhes tocam - se recompõem.

Fica-me a lição: o «nunca mais» do final transformou-se, logo no dia a seguir, no desejo de voltar àqueles 3 Km, a partir da Abadia, que aliaram a beleza ao esforço. O «belo horrível» merece ser revisitado. Lá voltarei com um grupo escolhido para louvar a natureza que Deus criou.

27 de Setembro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #36

A pergunta é pertinente: que fizeste nas tuas férias? Descansaste? Como? «Matando» o tempo ou fazendo render o tempo?

Ao fazer-me a mim próprio esta pergunta, dou-me conta que tive alguns dias, ditos de férias, bem cheios. O mais que consegui foram períodos de 2/3 dias, acompanhando a vida da Paróquia, que tem culto ininterrompido em várias igrejas. Não me afastei para longe nesses 2/3 dias. No entanto, uma semana passei-a eu, rodeado de gente amiga, a maior parte já habituada a gastar uma semana para valorização pessoal em passeio que projecto para eles. Foram dias de grande intensidade, vividos em cansaço físico num roteiro pela Croácia, Eslovénia e Montenegro. Maravilhoso pelas paisagens, maravilhoso pela riqueza cultural que encerra, maravilhoso pela relação humana que se estabelece no grupo ou pelos contactos humanos havidos com algumas pessoas, que nos prestam serviços, ou ocasionais, no meio das multidões em zonas turísticas há muito frequentadas.

Não se poderão dizer verdadeiramente férias para quem vai com a responsabilidade de velar pela harmonia e segurança de um grupo de 32 pessoas. Há sempre um «olho atento» a todas as pessoas que compõem o grupo, para que nada lhes falte e o cumprimento do contrato permita avançar com confiança em terra estranha. No entanto, adultos e habituados, quase todos, a viajar por itinerários que se percorrem pela primeira vez, sempre permitem relativo descanso. A ponto de encontrar espaços para uma leitura agradável, leve e ao mesmo tempo culturalmente rica.

Indo directamente ao assunto: deixei-me acompanhar por Etty Hillesum. Quem é esta senhora? Uma jovem senhora judia que, pelos 27 anos apenas (Amesterdão 1941 - Auschwitz 1943), foi atirando para o papel o que, mais tarde, viria a ser chamado Um Itinerário Espiritual.

Paul Lebeau, um jesuíta que entrava no Noviciado na época dos escritos, apenas uns dez anos mais novo do que ela, e que viveu as incertezas e as angústias dos horrores nazis, mais tarde teólogo e escritor que veio a falecer em 2012, deu-se ao cuidado de estudar os manuscritos, entretanto publicados com comentários que deram mais de 800 páginas, e tornar acessível a experiência humana desta jovem, ao longo de 2 anos, que terminaram nas masmorras de Auschwitz.

Quando a 5 de Junho de 1943, Etty é deportada para o campo de concentração, teve o cuidado de entregar os onze cadernos manuscritos desde 8 de Março de 1941 a uma amiga holandesa, que os fez chegar, terminada a guerra, a um editor. Só nos finais de 1979 é que alguém se interessou pelos escritos e lhes deu ordem e forma de leitura, sendo publicados os excertos mais importantes em 1981. A partir dali surgiram comentários e estudos que revelaram a personalidade daquela jovem judia, profundamente inquieta pela verdade e que pondo a nu a sua alma nesta espécie de Diário de dois anos da sua vida, nos deixa maravilhados diante de um itinerário de alma humana fascinante, até nas suas paixões amorosas, que não a satisfazem. «A descoberta da presença de Deus no mais íntimo da sua interioridade pessoal, numa altura em que ela sabia que estava destinada a partilhar a sorte das vítimas do que ela própria designa como uma perseguição sem precedentes, feita de forma totalitária, organizada numa escala de massas e englobando toda a Europa».

O autor apresenta o Diário de Etty como de «uma actualidade de natureza diferente» do de Anne Frank, esta também judia de Amesterdão. E destaca nos escritos de Etty «o itinerário de uma mulher livre: livre de todos os preconceitos hereditários, doutrinários ou ideológicos. Se (...) ela assume - heroicamente - a sua condição judaica, fá-lo livremente e sem sentir a menor reticência em relação ao universo espiritual cristão que, ao mesmo tempo ela estava em vias de descobrir e reconhecer como o lugar da sua inteira realização pessoal».

Não será tempo de criar nas jovens gerações o cuidado de gastarem bem o tempo em leituras que enriquecem e preparam para o futuro?

20 de Setembro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #35

Acontece todos os anos pelo mês de Setembro. Sem o pensar de antemão, dou comigo a questionar a assembleia litúrgica: qual o teu lugar na Paróquia? E tal não precisa de explicações. É que o tempo de Verão, reduzidas as actividades pastorais em Julho e Agosto, o meu coração de pastor «ocupa-se», como algo de natural e lógico, a pensar em novas propostas para apresentar à Paróquia no programa para todo o ano. E o «sentir o pulso» da comunidade leva-me a renovar sonhos, a criar propostas, a acreditar que os colaboradores vêm, descansados, com desejos de trabalhar na «vinha do Senhor». Sinto ser meu dever distribuir por eles o «campo da missão».

Do constatar o risco de pedir demais sempre aos mesmos surge a questão que, repetidamente, exponho domingo a domingo: qual o teu lugar na Paróquia? Sim, porque sei - é o ensino da Igreja corroborado pela experiência - que o compromisso em algum grupo ou actividade é o melhor meio de desenvolver uma relação que, passando pela partilha com outros, facilita e aprofunda a adesão a Jesus Cristo.

Numa palavra: comprometer-se na Paróquia faz desenvolver a personalidade cristã de cada um, aprofundando o conhecimento de si próprio, das suas limitações e dos seus talentos e também dos demais, companheiros de jornada na descoberta da riqueza que a fé traz à vida quotidiana.

Sei que corremos o risco de nos iludirmos ao reduzirmos a Igreja somente àquele pequeno grupo que, numa comunidade, está mais visível. Sabendo que só Deus faz bem as contas e que a Igreja tem muitas dimensões e «presenças» e que há muitos que se empenham no silêncio e na oração ou nos trabalhos mais discretos, mas não menos importantes. Ser Igreja é ser baptizado e viver uma relação com Jesus Cristo, mesmo que esta seja pouco ou nada visível no seio da comunidade concreta. Corremos também o risco de esquecer o ensinamento conciliar que nos lembra que o lugar do leigo, onde é chamado a dar testemunho da sua fé no Senhor, é nas realidades temporais: no seu trabalho, na diversão, nos mundos da política, da cultura, da ciência... Na presença dos baptizados, agindo em nome de Jesus, mesmo sem o exteriorizarem, está presente a Igreja.

Voltando à questão concreta posta às gentes de Barcelos: qual o teu lugar na tua Paróquia? Que ofereces de ti próprio para além da tua «presença» no contributo financeiro ou na missa dominical? Das tuas energias, dos teus talentos, das tuas qualidades - tuas ou de Quem as concedeu? - que dás tu à tua Paróquia?

E não resisto a concretizar:

Precisa a Paróquia de Santa Maria Maior de novos Ministros Extraordinários da Comunhão, de novos e mais numerosos Leitores, de quem integre os grupos corais e queira animar a Liturgia (organistas, directores de coro... vai começar formação na Didalvi), de um bom grupo de Acólitos, jovens e adultos; de mais membros para a Equipa de Pastoral Familiar, sobretudo casais jovens e para a Equipa Sócio-Caritativa; precisamos de novos catequistas para entrarem em formação. Precisamos de cristãos que, tornando-se Irmãos, dêem sangue novo às nossas confrarias e sirvam, em espírito de serviço e não de vaidade pessoal, estas instituições.

A Paróquia precisa de desenvolver novas acções que dêem resposta a novos problemas numa sociedade em constante transformação. As novas tecnologias são um desafio: quem pode e quer cuidar a «imagem» da Paróquia, a sua comunicação e mesmo as celebrações? Quem quer preparar-se para animar celebrações na ausência do padre? E a lista poderia desenvolver-se. Uma coisa é certa: há sempre lugar para cada um. Se não existe um «capote» à nossa medida vamos criar um novo. Porque é certo que os dons de Deus recebidos destinam-se a ser oferecidos. 

13 de Setembro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #34

Éramos cerca de 300, vindos de todo o país. De Barcelos estávamos 8 párocos. Acontece de três em três anos o Simpósio do clero de Portugal. Maravilhosa oportunidade de encontrarmos colegas dos mais diversos recantos do país, a maioria deles desconhecidos uns dos outros, mas alguns, poucos, que fazem parte das nossas memórias.

Reflectimos - era um simpósio - e rezámos. Como fazem os padres quando se encontram. Celebrámos a Eucaristia juntos, como momento central do dia e de todos os dias. Ouvimos conferencistas, alguns deles padres como nós. E ouvimos alguns leigos que, frente a nós, nos olhavam com carinho.

Registei as intervenções felizes do primeiro painel, moderado por Fátima Campos Ferreira. Sim, a da televisão, figura já «repetida» em encontros de padres. Pedro Mexia, Henrique Leitão e Lídia Jorge deram-nos «olhares» específicos do mundo da cultura, da ciência e da arte/literatura no tema Desafios à vida dos padres.

Gostei de verificar o carinho e compreensão pelas dificuldades dos padres hoje no cumprimento de uma missão muito difícil, mas também muito necessária, a de dar esperança a um mundo caído que, apesar de tudo, continua a esperar quase o impossível dos padres, como referenciais cada vez mais necessários. Isto sem deixar de lado, pelo contrário, a firmeza das convicções próprias e exigências para com o «Padre, Irmão e Pastor».

Destaco sobretudo a intervenção de Lídia Jorge, sublinhando o conforto que sente quando acompanha a sua mãe velhinha à missa e a objectividade com que Henrique Leitão olha para a história e reconhece o inegável contributo dos homens da Igreja no desenvolvimento da ciência e da cultura.

Claro que não posso omitir a intervenção de Adriano Moreira. Autêntico professor, amadurecido pela vida, deixou-nos uma amostragem das contradições da sociedade liberal em que vivemos e das injustiças que provoca, qual campo sempre mais vasto a desafiar as mãos dos «trabalhadores da vinha de Deus».

Poderia referir outras intervenções, as dos colegas padres, profundas e desafiadoras também. Ou a do monge da Comunidade de Bose, Luciano Manicardi, apelando a uma espiritualidade profunda e a uma acção pastoral amadurecida.

Que ninguém pense que tais encontros se destinam a passar tempo ou se tornam ocasião para nos ausentarmos das paróquias, deixando de alimentar as necessidades religiosas dos fiéis. Não. Eles são necessários, cansam-nos e desafiam-nos. Mas ai daqueles que não os consideram... a sua vida cedo estiola, perde sabor e torna-se repetitiva. A acção pastoral dos padres e dos agentes pastorais vive no constante confronto com um mundo em constante mutação. Temos de estudar, de parar para reflectir e descobrir sempre novos caminhos de fidelidade a Deus e à Igreja. Numa palavra: servir com qualidade também passa por estes encontros sacerdotais.

9 de Setembro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #33

Duas situações. Vividas na mesma tarde de uma sexta-feira atípica. Com duas horas de intervalo. Registá-las e pronunciar-me sobre elas é um acto de partilha da vida de um padre.

1. Aproximava-me do Cartório quando toca o telemóvel. Alguém queria muito falar comigo e afastava-se do Cartório desiludido. Tinha vindo de longe. Expressamente. E não seria para muito tempo. Disse-lhe para aguardar que o atenderia de imediato. Voltou atrás e, um minuto depois, frente a frente, sentados: ele falava e eu escutava.

Era um caso, no entender dele, «complicado», que queria resolver de imediato. Decidido e apressado, tentava descarregar sobre mim o ónus de uma atitude impensada, grave segundo ele, que até lhe fazia «a vida andar para trás»:

Há tempos passara em Barcelos, caminheiro, com outros, nos Caminhos de Santiago. De bicicleta. Queria carimbar as credenciais do Caminho. E apreciavam o carimbo. Só que... este não estava disponível naquela hora. E a tentação venceu-os: «arrombaram» o cadeado, carimbaram e foram-se embora. Ao que parece, a atitude de «desenrascanço» e o «prejuízo» do cadeado tornaram-se um «peso» que lhe fazia «andar a vida para trás».

Percebi a urgência e fui directo ao assunto:

«Duas consequências ou atitudes para vencer tal «peso» e dois convites: O cadeado que me queria entregar deveria ser entregue à entidade prejudicada (terá sido no Museu Arqueológico). Percebendo o incómodo de «se declarar réu», aceitei ficar eu com o cadeado para o entregar a quem de direito. A «voz da consciência» que o «empurra» para resolver a situação e «descarregar» o peso é sinal de alerta. Porque não interpretá-lo como vindo de Deus ou de Santiago?

Convidei-o a descobrir o verdadeiro rosto de Deus, como Pai de misericórdia que, mesmo ofendido nunca deixa de acolher quem a Ele recorre. E convidei-o ainda ao verdadeiro espírito de peregrino de Santiago, que se mete pelo Caminho em atitude de fé.

2. Logo depois, preparo o processo de um casamento. Um dos noivos sempre quis casar pela Igreja e soube esperar dez anos. O outro membro foi sempre adiando. Perguntei porquê. E disse-me: as minhas dúvidas de fé, agravadas por doenças graves na família, criaram em mim desencanto e não quis casar na Igreja apenas para fazer um jeito. E dizia: «Hoje sinto que é a hora. Já não me sinto bem junta». Indaguei: o que te fez dar a volta? E a resposta: a minha mãe sempre me foi lembrando. E quando comecei a frequentar a catequese de adultos, todas as quintas-feiras, começou a fazer-se luz em mim. E vou continuar sempre na catequese».

Nesse momento, louvei a atitude de verdade que me era dado conhecer. E louvei a Deus por ver, uma vez mais, como a Palavra de Deus tem força de renovação e de libertação das pessoas. E concluí: não será já tempo de deixarmos atitudes de «folclore religioso» e nos gastarmos com aqueles que querem ser sérios na sua vida, despertando-os para a beleza de uma fé vivida que nos leva ao «sabor» da verdade que é Deus?

30 de Agosto de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #32

No domingo passado, logo após o termo da peregrinação à Franqueira, duas famílias se reuniram em homenagem ao senhor P. José Novais, que completava 86 anos de idade: a família de sangue (irmãos e sobrinhos) e a família paroquial (da Igreja Matriz), representada pelo Conselho Económico.

Discreto e avesso a homenagens, o P. Zé Novais lá aceitou o que, em segredo, foi preparado para ele. A família de sangue compreendeu as razões da família paroquial e aceitou partilhar este momento de festa, à partida reservado para a intimidade do lar. Merecem uma palavra de gratidão.

Era um dever para nós, Paróquia de Santa Maria Maior. De facto, o P. José Novais, humilde colaborador como se afirma, traz à acção pastoral da Paróquia uma nota de bom humor, de alegria e de graça, que muito apreciamos.

Ao falar dele neste Olhar Outro, pretendo apenas despertar os cristãos de Barcelos para a figura de um padre que, como qualquer outro cidadão, se poderia remeter a uma vida descomprometida, disfrutando da sua merecida reforma. No entanto, ele faz questão de viver o seu sacerdócio por inteiro, porquanto todos os dias se encontra disponível e permite que lhe sejam agendados serviços, a título totalmente gracioso. Ele está ao serviço da Paróquia e dos paroquianos todos os dias. E fá-lo por gosto, sempre de bom humor, mesmo quando o Prior o sobrecarrega. Disso tenho consciência, mas encontro nele sempre um coração aberto para servir o Reino de Deus. Homem leal, colaborador franco e amigo fiel, o P. Zé é, de facto, o primeiro benfeitor da Paróquia. Sem a sua colaboração diária, muitos serviços teriam de ser suprimidos.

Ao falar assim, espero que os cristãos barcelenses reconheçam, estimem e apreciem o seu modo de ser padre. É isso mesmo que eu próprio admiro: quem me dera chegar à sua idade com o mesmo espírito de serviço e vivência sacerdotal. Esta ocasião permite-me falar da situação actual que vive a Igreja e das situações reais por que passam muitos sacerdotes, de quem tudo se exige, sem, tantas vezes, sequer se considerar as condições de saúde e de idade. Tantos que tudo exigem sem nada darem. Como se o padre fosse escravo de todos e não servidor responsável como pastor para orientar e indicar caminhos de salvação. Que, para bem servir, exige respeito pela sua própria saúde, que tem de cuidar.

Encontra-se a Igreja hoje numa situação muito delicada pela falta de sacerdotes. Todos o sabemos mas nem por isso vemos aquele civismo na vida dos cristãos que compreende limitações e se dá as mãos para assumir tarefas que não são específicas do Padre. Ao dizer isto, terei de acrescentar, em abono da verdade, que há um grupo cada vez maior de leigos que não só estão conscientes destas dificuldades como também se dispõem cada vez mais a ajudar nas tarefas pastorais. Sinto-me grato para com eles. Espera-se deles também, no testemunho de vida, que façam os outros compreender as situações «desumanas» que criam na vida dos sacerdotes. Refiro-me àqueles que ainda não descobriram - ou até se recusam a assumir - que a fé se vive em comunidade e que, nesta, todos somos responsáveis. E que teimam em olhar para a Igreja como agência de serviços a quem recorrer quando precisam, sobretudo em ocasiões de baptizados, casamentos, funerais ou «papéis».

Numa sociedade onde, nas últimas décadas, muito cresceu a consciência de direitos e de deveres, e que reivindica aqueles a torto e a direito, esquece-se que o Padre é também humano e não pode viver apenas dos «ocasionais». Se está numa Paróquia para servir é porque um punhado de paroquianos se organiza e cotiza para que ele lá esteja. Para serviço de todos. Com a penúria de sacerdotes, que servem às vezes quatro, cinco e mais paróquias, tem de se entender que não há lugar para certos «luxos» outrora possíveis.

16 de Agosto de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #31

Duas situações muito concretas me fizeram escrever este «Olhar outro». Une-as o tema da superstição que, confesso, me é particularmente caro. Porquê? Porque o Deus Pai em Quem acredito fica ofuscado na sua beleza como origem da caminhada humana, dificultada esta pelas tendências desviantes da Verdade, que compõem a história da Humanidade. Assumo que me custa calar - mais, não devo calar - as diversas crendices que não deixam perceber a bondade de Deus. Contra elas luto e lutarei. Não o fizeram todos os profetas, na luta diária contra os ídolos, às vezes impostos pelos chefes do povo? Não é a Bíblia uma constante denúncia dos cultos idolátricos, que desviam as pessoas da sua procura do verdadeiro rosto de Deus? Pois bem, o fenómeno não tem nada de novo. De novidade tem apenas a intensidade com que ele se desenvolve e afirma, algo tanto mais chocante quanto atinge as diversas classes sociais numa altura em que os índices de escolaridade deveriam fazer esperar que o fenómeno diminuísse. Não é por acaso, de todo. Pelo contrário. Aumentou e tende a aumentar. E porquê?

Porque ao descer a prática religiosa, vivendo-se uma era de «desencanto religioso» e impondo-se uma organização social que julga que «Deus é supérfluo», abre-se a entrada a todas as superstições, crendices e rituais esotéricos. De facto, os cursos universitários, tão sectoriais, apenas preparam em certas e especificadas áreas do saber. Mas quem se ocupa da pessoa no seu todo, ou seja integrando os saberes e as experiências, formando pessoas capazes de agir em liberdade responsável, num contacto permanente com os que nos rodeiam e a quem reconhecemos o estatuto de irmãos?

Mas voltemos aos casos. Encontrei uma com «poderes», daquelas ditas «pessoas de virtude», que só sabem fazer bem aos outros porque têm um estatuto «reconhecido» por outros como pessoas «dotadas». Ao intervir na situação tive de dizer que não lhe reconhecia qualquer poder especial, diferente do de qualquer outra pessoa. Que a fragilidade de outros, repetida no tempo, pode levar a considerar tais «poderes» como reais. Mas que ela não tinha quaisquer «poderes», pois somos todos criados por Deus, diferentes, portadores de dons, todos, para nos ajudarmos uns aos outros. As «auras» e «mediunidade»... cada um tem as que quer... desde que haja quem lhos reconheça. Tive mesmo de falar do meu «poder sacerdotal», para dizer que tal poder sacramental me acrescenta a responsabilidade de o usar bem e segundo as normas da Igreja, o corpo dos crentes que sou chamado a conduzir para o verdadeiro Deus. Daí a obrigação de dizer que é um abuso o arrogar-se tais «poderes» sobre os outros. Logo de seguida, em Fátima, pude conversar com uma pessoa, de início julgada boa pessoa mas pouco culta. Quando me ofereceu os seus livros e li que ele afirmava que «ajuda as pessoas através da prática de endireita, exorcismo e aconselhamento. É espiritualista e pacista», logo aconselhei os familiares a não lerem tais livros «bonitos». De facto, qualquer pessoa pode escrever e publicar. Desde que tenha dinheiro. E hoje publica-se muito. Mas de muito fraca qualidade. O ónus é de cada um saber escolher o que nos pode ajudar a viver, a formar uma boa consciência. Sinto pena ao ver tanta gente desviada dos caminhos mais directos e mais libertadores na vivência de uma fé em Deus. E sinto pena ao ver tantos a cair nas malhas «criminosas» de tantos que se afirmam, em nome de Deus, possuidores de certos «poderes». Iguais à ignorância daqueles que lhos reconhecem.

O meu dever de denunciar só está completo com o de anunciar a Verdade que liberta. Mas, quem a quer ouvir? E se há, quem se atreve a ajudar as pessoas diante das dificuldades? Tanto mais que muitas dessas pessoas são também vítimas de certas circunstâncias infelizes da vida. E precisam de ajuda.

2 de Agosto de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #30

O Movimento Eclesiástico na nossa Arquidiocese, habitual por esta altura, foi, este ano, reduzido. Foram poucas as mudanças de párocos, quase só para colmatar as brechas por morte. Não houve sangue novo no presbitério, o que se prevê vir a acontecer também no próximo ano. Assim, a vacância de uma paróquia, normalmente por morte ou por razões de saúde ou de idade, implica reajustes com os párocos vizinhos. Assim vem acontecendo repetidamente ano após ano. Num olhar comum, trata-se de normalidade e de inevitabilidade.

Mas não poderá haver «Um olhar outro»?

Sou, desde sempre, adepto das mudanças. Elas trazem esperança, tensão sadia, obrigam-nos a pensar e a descobrir capacidades de adaptação a quem nos rodeia. Elas despertam para a novidade, para a especificidade de cada um, para talentos adormecidos, para nos «descobrirmos» a nós próprios. Elas revelam a provisoriedade de cada missão e a fluidez do tempo em que tal missão acontece. À semelhança da água que corre no mesmo rio, que nunca é a mesma, mas mesmo é o rio que permanece com o seu leito e as suas margens, também as pessoas nunca são as mesmas porque, sendo-o, elas vivem em relações constantemente mutáveis e as próprias pessoas crescem, tornam-se sempre mais adultas... Sendo os mesmos, nunca somos iguais ao ontem que já passou.

Eu próprio fiz a experiência de viver num país em que os padres, ao menos na Diocese de Paris, são nomeados por períodos de tempo que, renovados, se situam numa média de 12 anos. Embora reconheça o valor da estabilidade e me mereçam todo o respeito aqueles sacerdotes que só conheceram uma paróquia, prefiro as mudanças. Duas vantagens claras: em caso de desajuste entre pároco e paroquianos nunca se chega a extremos de inconformismo pois o povo sabe bem que aquele pároco está ali por algum tempo. A sua substituição nunca constituirá humilhação para ninguém. Outra vantagem: conhecer várias paróquias, todas elas diferentes, acaba por valorizar o pároco e as paróquias: nem um nem outro estiolam no conformismo, mas torna-se mais fácil a partilha de dons de uns com os outros, num processo previsto e gerador de equilíbrios de ambas as partes. Mais ainda: cada Paróquia organiza-se para possibilitar as condições necessárias ao exercício da missão seja qual for o pároco que o bispo lhe envie.

Vi em França uma intervenção do laicado mais intensa e responsável; a paróquia aparece mais como um todo à volta do seu pároco funcionando os diversos serviços com o seu dinamismo próprio mas bem integrados no todo da comunidade. Aquando da substituição do Pároco, todos os serviços continuavam no seu ritmo habitual.

Olhando para a nossa realidade, noto uma curiosidade pouco «eclesial» quanto ao processo das mudanças de pároco. Verifico apreensões e receios de perda. É notório o cansaço dos padres, a trabalharem tantas vezes acima das suas forças, com pouco respeito pela saúde ou idade. Exige-se ainda tudo do pároco e os leigos contam pouco, seja para serem ouvidos, seja para se comprometerem. Numa notória falta de sentido de responsabilidade, vive-se uma religiosidade dependente dos padres, não cuidada pela formação para um agir adulto na fé. Lamentamos apenas a falta de padres mas continuamos desejosos que nos satisfaçam todas as necessidades, mesmo que para tal o pároco tenha de trabalhar sempre em ritmo acelerado, contrário ao respeito pela saúde ou idade.

No meio de tudo isto, a resposta é sempre a mesma desde há décadas: morre um padre e os vizinhos «carregam-se». Não será já tempo de conceder maior responsabilidade aos leigos, particularmente aos Conselhos Pastorais comprometendo-se a criar novas formas de presença da Igreja no seu próprio meio, não tão dependentes do ministério ordenado? Teremos de continuar sempre à espera das soluções que venham apenas de cima?

26 de Julho de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #29

Perguntar-se-ão de que falam os padres quando estão juntos. E a resposta só pode ser uma: de tudo o que constitui a sua vida. Como toda a gente. E quando passeiam juntos? Divertem-se. Como toda a gente. E rezam. Como deveria ser com toda a gente crente. Pois bem.

No arciprestado de Barcelos, o maior da Diocese, somos mais de 40 os padres ao serviço desta parcela do povo de Deus, entre os párocos e outros sem encargos, devido a razões de saúde ou de idade, a que se juntam alguns religiosos. Uma vez por ano, procuram juntar-se em passeio, durante um ou dois dias. E, assim, fomos pelos Picos de Europa até Covadonga, depois de visitarmos a cidade de Leon. Isto aconteceu em Junho. Éramos 20.

Desde há alguns anos, em grupo mais restrito, começámos a fazer um segundo passeio, mais longo, normalmente de segunda a sexta. Este aconteceu na semana passada. E lá fomos, oito apenas, numa carrinha, a visitar a catedral de Santo Domingo de la Calzada, onde apreciámos o galo e a galinha na Catedral, a lembrar uma lenda idêntica à do galo de Barcelos; passámos pelas adegas de La Rioja em Elciego, apreciámos o pórtico policromado de Laguardia e seguimos na Rota do Caminho Inaciano (Arantzazu, La Antigua e Loiola). Depois, passeámos pela cidade de Bilbao e tomámos consciência dos horrores da Guerra Civil de Espanha, particularmente do Bombardeio de Guernica em 26 de Abril de 1937.

Passámos ainda por Pamplona e «cheirámos» as festas de San Fermin, fomos a Javier conhecer a vida e ousadia de fé missionária do grande apóstolo das Índias, S. Francisco Xavier, e parámos no mosteiro de Leyre, onde os monges mantêm a espiritualidade monástica de S. Bento e nos permitem apreciar o bom licor que fabricam. Descendo para a zona de Burgos, fomos às terras de S. Domingos (Lerma, Caleruega, Covarrubias e Santo Domingo de Silos), onde rezámos com os monges e honrámos S. Bento e a sua regra do Ora et Labora. Regressámos a Barcelos por Sahagún e Las Médulas, as minas de ouro que os romanos exploraram.

Estes momentos fazem falta também aos padres. Sair do contexto geográfico da missão para subir às alturas e contemplar a planície... quem não sente que tal é necessário para se elevar acima do desconforto e do cansaço, tantas vezes a gerarem monotonia e desânimo?! Há certos estados de alma que umas boas anedotas entre colegas fazem evoluir, depois de umas boas gargalhadas. Como também pensar alguns aspectos da vida pastoral, num serão depois do jantar, se reveste do tal olhar «outro» que nem sempre se atinge no contexto habitual.

Fez-nos bem, a todos, verificar que o chamado «milagre de Burgos» é bem real. Num tempo em que escasseiam as vocações - a nossa arquidiocese não ordenará nenhum sacerdote durante dois anos - saber que há um mosteiro que alberga mais de 200 mulheres (são 209), 80% com menos de 40 anos, é verdadeiramente um milagre. E aqui ao lado. Em Espanha. Não estaremos nós demasiado obcecados pelo barulho para esquecer dramas? Aumentando o drama de vidas sem ou com pouco sentido? Serão certamente «milhões em festa». Porquê e para quê? Nós vimos jovens felizes a rezar e numa vida de clausura escolhida livremente por jovens já formadas...

19 de Julho de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #28

O «olhar» de hoje é retrospectivo e facilmente será reconhecido por aqueles que me ouviram no domingo passado. Interpelado na rua por alguém que me aconselhava mais doçura na linguagem, estava eu a apensar no que me tinha sido dito e até a reconhecer a pertinência do reparo - afinal também eu sou homem de uma missão pública e o que digo ou faço não fica sem repercussões, positivas ou negativas, pelo que reconheço e até aprecio a coragem das pessoas que me chamam a atenção: elas contribuem para que, pelo menos, fique a pensar na justeza ou não do reparo - quando, horas depois, preparava a homilia e o escrito no boletim acerca da Palavra de Deus. E dou-me conta de que a palavra de Deus me certificava e dava força sobre a compreensível insatisfação comigo mesmo vivida. Porquê?

Porque ao pensar na minha missão, única porque em nome de Deus, tomo consciência de que, sendo legítimas as diversas apreciações de quem ouve, não me posso nem devo, sem mais, concluir pela justeza do reparo. De facto, a missão do sacerdote é ser voz de Deus, Profeta para anunciar e até denunciar, propondo o caminho que Deus quer propor a homens e mulheres de cada tempo. O esforço que nos é pedido é o da fidelidade a Deus, antes que aos homens. Tarefa nada fácil hoje, pois a cultura contemporânea não favorece a procura da verdade e da realização humana a partir de critérios de ordem transcendental.

Tenho para mim que não é o melhor serviço prestado à comunidade seguir um discurso facilitista e desresponsabilizante. Ao contrário, a via difícil e ousada do contrário trará, inevitavelmente, dissabores e criará reduzidas simpatias. E o que preguei no passado domingo revelou estes pensamentos: o que devo pregar? O que agrada ou o que desagrada? E fi-lo abrindo o coração fazendo a assembleia questionar-se também como eu. Afinal as leituras ali estavam como proposta ousada e a marcar as balizas:

1. O Profeta Ezequiel era enviado por Deus a um povo de «cerviz dura e coração obstinado». Mesmo prevendo não ser escutado, era necessário não calar a voz de Deus que, por amor, mandava falar e dizer uma mensagem nada simpática aos ouvidos do povo;

2. Paulo queixava-se de um «espinho» que o tortura, que motiva os autores na busca de identificação de tal espinho. Parece que o Apóstolo vivia um daqueles momentos de «sombra» em que Deus parecia ocultar-se e o deixava sozinho. Mas ele não desanimou.

3. O próprio Jesus «estava admirado com a falta de fé daquela gente (os da sua terra) e não pôde ali fazer milagres». Não foram capazes de ir além de um olhar superficial para descobrirem a missão do Messias. O próprio Jesus ficou triste.

No meio de tudo isto, não será perder tempo e tornar-se infiel, procurar discursos doces, que agradam mas não convertem? Não faltam hoje admiradores do Papa Francisco. Também o sou. Mas não será tempo de passarmos da admiração ao seguimento, ao pôr em prática a mensagem que nos deixa? Parece que seguimos de ilusão em ilusão, perdidos nas muitas ofertas fáceis, sem tocarmos o essencial.

Sim, no mundo religioso como no civil, precisamos de profetas ousados que não cedam à tentação de esconder a verdade. Temos vindo a pagar duramente tais mentiras. Feliz do povo que sabe escutar os profetas. Eles não se encontram nas hostes ditas maioritárias, porque a Sabedoria prefere geografias mais reduzidas.

12 de Julho de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #27

Alguém se me manifestou perguntando porquê todos os anos me «atiro» pelos Caminhos de Santiago. Penso que as razões são públicas e até evidentes: peregrinar é a vida do cristão em permanência e é missão do padre promovê-la. Pelos Caminhos de Santiago significa reconhecer a história e a cultura aliadas à espiritualidade.

Mas este espaço «outro» supõe considerações «outras», aquelas mais pessoais por se tratar de uma tentativa de «ver» o que não se atinge de imediato. Faço-o hoje com duas situações vividas.

No último dia de caminhada - já havia várias surpresas e experiências bonitas em mim e no grupo que me acompanhava - apercebi-me de um grupo de três jovens, com quem me cruzei por duas vezes. Na primeira vez a atitude deles levou-me a pensar; na segunda criou em mim o desejo de intervir; esperava a terceira para agir, o que, com pena e desgosto meu, não aconteceu. E porquê?

Eles caminhavam para Santiago. Certamente com o mesmo desejo que nós, o de chegar para a Missa do Peregrino. Um deles, ao meio, levava o seu telemóvel a emitir música bem alta de modo a que os colegas se divertissem.

Na primeira vez pensei para comigo: jovens sempre desejosos de barulho e mais barulho, incapazes do silêncio que a caminhada facilita, porventura corações vazios que tentam esconder vazios com mais barulho ainda. E a caminhada que favorece a escuta do silêncio...

Na segunda vez pensava eu: como desafiá-los à descoberta da linguagem do silêncio? E até arquitectei um possível discurso breve e bem humorado para me rir com eles, de modo que aceitassem a minha intromissão na sua «lógica juvenil em grupo»; porém, adiei a intervenção e a terceira vez não surgiu.

Fiquei a pensar comigo: de facto, o Caminho de Santiago é uma oportunidade fabulosa de reencontro consigo próprio, uma ocasião para fazer ou refazer projectos de vida... porém, o risco de se ficar igual, para além de umas bolhas que se curam rapidamente, é bem real. Também este intervir delicadamente, sugerindo e alertando para a «sabedoria» do viver, entra nas minhas razões para não considerar custos pessoais ou pastorais e entrar nos Caminhos de Santiago.

Chegados ao termo, procuro que o grupo não deixe de participar na Vigília de oração, que a Catedral propõe a todos os peregrinos aos sábados à noite.

Desta vez, como das outras, pude reconhecer a simplicidade da celebração, repetida todas as vezes com os mesmos cânticos e as mesmas leituras. Porém, há um momento de partilha que pode marcar toda a diferença. Quando o sacerdote que a preside convida os presentes a darem testemunho, é previsível que surjam surpresas. E houve-as desta vez. E até houve intervenções do nosso grupo.

O meu «olhar outro», no entanto, não se situa nesta apreciação que, para mim, nada trouxe de novo. O que quero destacar são os comentários do grupo, destacando a «bela» cerimónia que os surpreendeu. Alguns «repetentes» do grupo já não se admiraram. O comentário, porém, que ouvi, levou-me a pensar e comentar para mim mesmo: às vezes preparamos tanto, e esforçamo-nos por inovar, para atrair e nada conseguimos. Basta que o acontecimento simples prime pela verdade e ele já agrada.

É verdade que há um contexto especial, não habitual para os participantes. A caminhada já os tinha despertado para a beleza vista de «dentro». E confirmei: como é difícil chegar «dentro» das pessoas... É este «dentro» que leva a apreciar e descobrir beleza nas coisas simples. Mas quando o nosso «dentro» está «carregado», não há beleza exterior que possa ser notada. Como repito às vezes: como se pode querer que a missa não seja «chata e enfadonha» se, quando entramos na igreja, já vamos tão «carregados» que nem que o padre gaste duas horas em tentativas para nos aliviar o semblante o consegue fazer?!

5 de Julho de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #26

Certamente que acontece com toda a gente. Cruzam-se no mesmo dia duas ou três inquietações para as quais o pensamento procura algum ponto em comum. Muitas vezes cada uma dessas sensações/preocupações ficam mesmo isoladas. Não se «cruzam» ou, cruzando-se, evitam-se.

No domingo passado assim aconteceu comigo. Um acidente brutal em trator tinha vitimado, no sábado, Rodrigo Novais, sobrinho do nosso querido P. Zé Novais. Este dispensa que se fale dele porque todos o conhecem e o reconhecem na sua acção pastoral generosa e bem humorada. E a paróquia de Santa Maria Maior nunca lhe pagará tanta dedicação. Estar ao seu lado, e de sua família, nesta hora de provação é uma obrigação de todos.

Ocupava esta tragédia o meu espírito – e ainda não tinha tido ocasião de um abraço de solidariedade na dor ao P. Zé e sua família – quando sou surpreendido por alguém que, no fim da missa das 9.00 me aborda e, em breves momentos, me faz olhar de modo mais positivo o início do dia. Uma jovem enfermeira do nosso hospital, de outras terras, sempre ali vem, ao Senhor da Cruz, uma vez por mês, precisamente ao terminar a sua tarefa da noite. E dizia-me a sua alegria por poder terminar o seu trabalho profissional numa manhã de domingo em cada mês, saboreando estar, com tantos outros irmãos, a escutar uma Palavra outra, bem diferente das preocupações da noite passada. Era o alimento que ela não dispensava.

E o pensamento cruzava-se momentos depois quando passava na Praça de Pontevedra: música e ginástica entusiasmavam uma participação sobretudo jovem. É a moda do culto do corpo. Precisamente invadindo também o Dia do Senhor, que marcou gerações que até souberam encontrar equilíbrio entre corpo e espírito. A paganização dos ambientes sociais invade tudo e gera preocupações para o futuro dos nossos filhos, que crescem «como se Deus não existisse», numa geração que «dispensa» Deus. Como todas as modas também a do culto do corpo há-de cansar e a vida se encarregará de dizer que «nem só de pão vive o homem mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus». Entretanto, felizes aqueles que se questionam diante da proposta de Jesus de Nazaré, aquela que, logo de seguida, expunha com entusiasmo particularmente aos meninos e meninas da catequese, em festa anual, revelando-me, no testemunho claro dos pais que os acompanharam no processo, que vale a pena gastar tempo com a descoberta de Jesus e do seu evangelho. Era a altura de ouvir dos próprios pais o seu testemunho quanto à modalidade adoptada de Catequese Familiar, num permanente encontro de pais e filhos envolvidos no mesmo processo catequético. Foi bom ouvir que esta modalidade – os pais não levam os filhos à catequese, antes pais fazem catequese com os seus filhos – é a que mais se ajusta aos tempos de hoje.

Poderão perguntar-se: Onde estará o fio condutor destas vivências no espaço de poucas horas?

E eu tento responder com aquilo que foi o tema das homilias proferidas: «Quem é este Homem a quem até os mares e o vento obedecem?». A questão terminava o evangelho de S. Marcos. E exprimia a dificuldade dos discípulos de Jesus entenderem tanta novidade na acção do seu Mestre. E eu apelava a termos coragem e força para nos questionarmos ao longo da nossa vida. Sendo vida de fé, ela sabe esperar a resposta, que vai acontecendo em processo e só se torna definitiva um dia, quando o crente «vê» que valeu a pena viver envolto nas questões e que elas não diziam senão o desejo fundado de uma felicidade que não é apenas deste mundo. A vida tem, de facto, tempestades. E o crente tem a felicidade de poder «acordar» o Mestre para que Ele impere e as acalme. Felizes de nós que vivemos as questões de sentido a partir da certeza de que as mesmas encontrarão um dia resposta plena. Feliz aquele que acredita: para ele nunca uma tempestade é mais forte do que o Senhor, em Quem ele pôs a sua esperança.

28 de Junho de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #25

Surpreendendo-me, não me surpreendeu. Não me surpreendeu, surpreendendo-me. Porquê?

Se bem leram o que escrevi, eu disse que estava preparado para surpresas. Mais ainda, que as esperava. E elas aconteceram.

Desde logo pela multidão enorme de pessoas que se deixou «tocar» pela mão de Nossa Senhora e veio para a rua de vela na mão para se pôr ao lado dela. Apesar de preparado para uma multidão, ela excedeu tudo o que era previsível. Era previsível pelas reacções que ia presenciando nos últimos dias. Mas nem tanto.

Não sou bom calculista a ler multidões. Um jornal adiantou um número para Guimarães: 40 mil pessoas. Responsáveis da organização, que estiveram em todos os arciprestados da Arquidiocese repetiram que Barcelos ultrapassou qualquer outro Arciprestado. Não só pelo número como também pela organização.

Preparados para o «milagre». E o «milagre» aconteceu. Pela mão da Mãe. Ele estava a acontecer com tanta gente que saltou para a rua para a pôr bonita, única, como não se vira até ali. Não só na cidade, como também pelas estradas por onde passaria o cortejo com a Imagem Peregrina. Sim, se alguns foram motivados pela palavra dos sacerdotes, uma grande parte apareceu para a rua a convite de amigos e vizinhos. E todos se sentiam felizes a confeccionar os tapetes por onde iria passar o andor de Nossa Senhora. E as lágrimas não faltaram porque, humanos que somos, não podemos viver sem emoções fortes que «quebram» o gelo de um racionalismo ateu que tenta impor-se.

Vividas as emoções e «tocados» os corações voltamos ao «real». Será que este «real» de todos os dias, com as suas frustrações e anseios, não será verdadeiramente ilusório? Não seremos nós constantemente desafiados a dar outro sentido ao nosso quotidiano que ultrapasse o ritmo assustador em que nos metemos (ou nos meteram)?

Temo bem que a passagem da Imagem Peregrina pela nossa Arquidiocese não passe disso mesmo, de uma passagem. E que seja «lavada» com a mesma rapidez com que enxugamos as lágrimas emotivas ao contemplar o rosto sereno da Imagem, que nos inspira confiança.

Acredito que para muita gente, a experiência «tocou» por dentro e ficará gravada na memória para sempre. Acredito que, como aconteceu há 64 anos, muitas das nossas crianças gravarão na memória este acontecimento talvez como o mais importante das suas vidas. Pelo menos até que apareça outro igualmente importante. Mas temo que voltemos ao mesmo, como se nada tivesse acontecido.

Como Padre, como pastor do povo de Deus, como responsável, não gostaria que tal acontecesse. E peço ao Espírito Santo que me ilumine para que Barcelos não seja o mesmo de antes, mas antes se abra aos novos caminhos de evangelização para os quais a Igreja, especialmente o Papa Francisco, aponta aos cristãos do nosso tempo. 

21 de Junho de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #24

Era um pedido. Gostariam de, com outras colegas, pegar no andor de Nossa Senhora. Já profissionais, na área do Direito, percebi-lhes que o gosto vinha de dentro. Disse-lhes que não costumo intervir em área já «concessionada». Um colega meu, responsável pela Pastoral Juvenil no Arciprestado, organizará os jovens, um por cada Paróquia, para tal serviço/privilégio.

Fiquei com vontade de lhes atender o pedido. Nem sei se tal vai ser possível. E acredito mesmo que outros pedidos do género vão aparecer.

À hora em que escrevo - manhã de sexta-feira, dia 12, a poucas horas da chegada da Imagem Peregrina, acredito que muitas surpresas vão acontecer. Preparo-me para tal «toque» da Mãe. Oxalá todos nos ponhamos a jeito para tal toque de graça.

A verdade é que fiquei pensando nas razões daquele grupo: entenderam, e bem, que era uma oportunidade única, a não perder.

E a minha reflexão vai mais longe. É o tal «olhar outro»...

Vivemos hoje em tempos de secura espiritual, ditos de ausência de Deus. Mas reconhecemos todos de onde vimos, de tempos em que a vida se passava à sombra da igreja e ao som do toque dos sinos. As nossas memórias despertam da letargia sobretudo em momentos difíceis. E sobretudo nestes damo-nos conta daquilo que falta. Parece que há, na alma humana dos barcelenses, como na de qualquer ser humano, uma certa nostalgia de tempos que foram, e que foram diferentes, seja para melhor, seja para pior. A identidade de um povo forja-se com o tempo. Quem dera que o entendessem aqueles que comentam o quotidiano. Resgatar o tempo adormecido das nossas memórias impõe-se como acto libertador. E quanto disso precisamos! Todos.

O fenómeno religioso é um fenómeno humano. Não existe fora do ser humano. Ninguém dele fica excluído. E há tanta gente de olhar mesquinho que confunde o mistério da alma humana, aberta ao transcendente, com as realizações históricas, rituais ou institucionais! Rejeitadas estas - como se pudéssemos viver sem instituições ou rituais - cai-se num extremismo estúpido que acaba por gerar fundamentalismos anti-religiosos, tão nocivos quanto os fundamentalismos religiosos que que se pretende combater.

A vinda da Imagem Peregrina despertará certamente consciências adormecidas. Por isso é que assistimos a movimentações espontâneas, de uma religiosidade nem sempre cuidada ou evangelizada, mas que, reconhece-o a Igreja, se tornam um óptimo ponto de partida para atitudes de fé mais assumidas. Pessoalmente mantenho uma grande esperança e abertura às surpresas. Algumas intuídas ou já meio anunciadas. As mais importantes, porém, são as da Mãe. As do toque de Mãe na alma dos barcelenses. É por estas que eu espero.

14 de Junho de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #23

Numa vida tão intensa, ao menos como a sentimos na sociedade de hoje, perguntamo-nos, muitas vezes, onde está a nossa liberdade de escolha e a nossa capacidade de escolha. Não temos distância e tudo nos aparece como bom e imperdível, urgido como «a oportunidade da vida». Até as crianças estão sujeitas, de manhã à noite, ao ritmo que escola e pais impõem, quando querem fazer dos filhos os craques do momento, ocupando-lhes todo o seu tempo de manhã à noite.

Um dia, percebendo uma tristeza estranha, um catequista chamou-me a atenção para um miúdo que a preocupava. Não me coibi de chamar a atenção dos pais. Aquela criança era bem normal: só que já não suportava o ritmo que os pais lhe impunham. Deixem as crianças brincar...

Vem isto a propósito da Visita da Imagem Peregrina. Porque todos os acontecimentos são igualmente importantes e inadiáveis, assim pensamos, nenhum deles se torna verdadeiramente importante a ponto de deixar marcas. Ora, ouvi eu alguns testemunhos de pessoas dos seus 70/80 anos falar das imagens que conservam na memória acerca da Visita de há 64 anos. E falam com gosto da experiência que tiveram. Será que, com tantas competições, visitas de estudo, actividades extra-escolares, terão as nossas crianças verdadeiras experiências marcantes para o futuro? Sentirão elas verdadeiramente o seu ser profundo «tocado», a ponto de considerarem o acontecimento uma etapa, marco que a memória conservará?

Ouso, pois, dizer aos pais das nossas crianças: venham todos à procissão de velas e ao Adeus a Nossa Senhora. Não privemos as nossas crianças desta experiência que vai certamente ser maravilhosa também para elas. Não podendo os catequistas acompanhá-las, convém que os pais estejam com elas. Mas que nenhuma fique em casa. Em casa, por razões óbvias, ficarão os velhinhos e doentes e aqueles que os cuidam. Mas todos podem seguir o acontecimento pela Rádio. Façam-nas pegar numa vela com cuidado. Mas não as privem do acontecimento nem se desculpem dizendo que não querem ou não entendem. Não será que, às vezes, o indiferentismo religioso dos pais se disfarça em respeito pela liberdade religiosa dos filhos?

Os acontecimentos de ordem religiosa que tocam multidões «perturbam» no bom sentido sobretudo as crianças. Elas gostam de estar com os adultos, de se sentirem gente e, curiosas por natureza, despertam facilmente para o que não é habitual. Estamos a viver uma hora única. Talvez nenhum dos adultos de hoje terá igual oportunidade.

Por isso, ouso apelar também àqueles que se dizem «não praticantes» ou indiferentes ao fenómeno religioso que, apesar de tudo, às vezes abordam em círculo restrito de amigos, tentando calar o incómodo do assunto. Não tenham medo ou vergonha de pegarem numa vela na mão. Será noite... propícia para se ser verdadeiro e agir sem que nos vejam. Acreditem que Deus vê o coração e a sua verdade. Garanto-lhes que nunca perdem com ir. Mas tudo podem perder por não ir. Se assim não for, reajam a estas palavras depois do próximo sábado.

7 de Junho de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #22

A Feira Medieval aí está. No centro histórico pela segunda vez. A dar vida e movimento ao coração da cidade. Que bem deles precisa.

Diz-se, e é verdade, que o povo precisa de festa. Que esta faz parte do equilíbrio humano necessário, sobretudo quando, em contexto de crise, o que se promove aparece com ar de novidade, alimentando a esperança e sacudindo o imobilismo.

Voltar aos tempos medievos, ou a um tempo mais abrangente, recuando ou avançando, para destacar figuras e costumes, pode ter a vantagem de uma aprendizagem e de uma maneira de reviver a história. E isso pode ser bom. Tentar perceber como aqueles que nos precederam fizeram face, com meios próprios, aos desafios da vida, pode ajudar-nos a perceber - e, porque não dizê-lo? - a dar graças a Deus pelos bens que estão hoje ao nosso alcance. E esta atitude de gratidão alarga-se a todas as gerações que nos precederam para louvar e destacar os feitos que estão na origem daquilo que somos hoje. O respeito inter-gerações parece alheio à cultura contemporânea. Vivemos uma espécie de adolescência prolongada em que desvalorizamos os feitos passados para engrandecer o que se conseguiu nos tempos actuais. De modo análogo ao inevitável processo de crescimento que leva o adolescente ou jovem a olhar para a geração dos pais como antiga, ou conservadora, fechada à novidade. O bom educador deve leva o educando ao respeito e gratidão para com a geração dos pais e dos avós.

É bom perceber como se vivia antigamente. De modo algum para fazermos de hábitos e crenças ultrapssados um modo habitual de viver. Seria retroceder no tempo e desprezar o que as diversas gerações conseguiram de bom. O que seria desvantajoso e injusto. Mas ajuda-nos a valorizar o presente e as conquistas do presente ao vermos com que dificuldades viviam os antigos e o esforço e engenho que se obrigaram a ter para dar a qualidade possível à vida.

No que toca às crenças, porém, apreciemos o que se evoluiu. Não voltemos atrás... aos tarots, magias e adivinhações, leitura de mãos e outras actividades afins. Seria pernicioso destacar e fixar-se em tais crenças ou crendices quando o espírito humano evoluiu e tornou possível uma maneira de viver muito mais libertadora de medos injustificados. Até no que toca ao mundo religioso, sempre nas margens do misterioso e oculto, a evolução foi enorme. Não descendemos nós de um povo, o povo judeu, que se libertou da idolatria e do panteão de deuses para chegar ao conhecimento e adoração de um Deus único?Sabemos como os panteísmos ou paganismos se desenvolvem na actualidade, num terreno fértil pela desorientação ideológica e religiosa. De facto, quanto menos investimos na procura da interioridade ou espiritualidade do humano, mais as crendices escravizadoras, que se aproveitam dos medos, se desenvolvem.

Oxalá a Feira Medieval não seja aproveitada para nos fixarmos no obscurantismo entretanto ultrapassado. A Idade Média, também apelidada de obscurantista, permitiu os grandes eixos em que se apoiou a Modernidade. Demos graças a Deus.

31 de Maio de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #21

Esta semana levou-me até Fátima. Cem anos depois há muito fortes razões para nos interrogarmos sobre a presença de Maria na Igreja e no mundo, particularmente em Portugal, a por muitos esquecida «Terra de Santa Maria». A realidade impõe-se-nos: o catolicismo português está marcado pela devoção mariana. E isso é bom. Pode até ser muito bom. Porém, também eu me interrogo se estamos a conduzir bem esta devoção, nós, responsáveis da Igreja, para que ela leve até Jesus, Esse sim o centro da fé. As grandes multidões de Fátima, reconheçamo-lo, em si mesmas não significam que a alma católica portuguesa se deixou verdadeiramente permear pelo evangelho. Digo-o, tal como o reconhecem os nossos bispos e até foi denunciado pelo papa João Paulo, logo na sua primeira vinda como peregrino de Fátima. Sempre repito aos nossos peregrinos a pé, que ano a ano, se dirigem a Fátima: «fazeis bem, mas... antes deste gesto extraordinário estão os gestos ordinários do dia a dia que alimentam a fé e nos fazem ir ao encontro dos irmãos, pelo que há «desordem» quando vamos a pé a Fátima uma vez por ano e nos esquecemos da missa dominical, que forma a identidade cristã».

Não foram só os ecos da peregrinação dos dias 12/13. Mas mais que isso, o tempo que dedico a preparar a visita da Imagem Peregrina a Barcelos. E, isso sim, constitui o meu «olhar outro» ao chegar-me às mãos o livro, que gente mais velha me pôs nas mãos, com aquela «marca» de quem viveu o acontecimento. E ao ver os relatos da visita da imagem peregrina a Barcelos, há já quase 64 anos - nessa altura (1951) eu ainda não tinha nascido - eu sinto-me pequeno diante de um relato grandioso. A Imagem foi recebida em Palme às 22 horas de 1 de Setembro, saudada pelo Presidente da Câmara de então e caminhando de aldeia em aldeia sempre com grandes ovações do povo que a esperava na estrada. Diz a crónica que a imagem chegou a Barcelos pelas 23.00. «Ao passar junto à Casa de Saúde (S. João de Deus), Nossa Senhora entra a levar aos doentes um assomo do seu carinho». Fala-se de meio milhar de velas, de pétalas lançadas das sacadas com colchas por onde a Imagem passa... «O andor da branca Senhora vai ocupar o seu trono em frente aos Paços do Concelho». «Aquele recinto em volta da linda Igreja Matriz é, por força das circunstâncias, uma ‘Cova da Iria’. Isto quis significar o ilustre Presidente da Câmara, quando entregou à Nobre Visitante as chaves da cidade, perante renovada apoteose do povo Barcelense, depois da sua formosa alocução que se transcreve...».

Confesso que me emocionei ao ler este relato. Tal como não evito as lágrimas no Adeus a Nossa Senhora, seja em Fátima, seja pela televisão.

E, agora que o programa está quase terminado, dou-me conta de que o tempo é muito curto para permitir que um pensamento correcto sobre o lugar de Maria se misture, em perfeita simbiose, com a emoção de quem recebe uma Mãe.

Oxalá os barcelenses invistam em teologia para fundamentarem as suas crenças religiosas e «inventem» modos de receber a Mãe tão condignamente como os de há 64 anos.

24 de Maio de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #20

A vida tem sempre novidade, não fosse ela um dom de Deus. A vida de um padre, tão variada e exigente que é, por vezes peca por excesso de novidade, que não nos deixa tempo para saborear e valorizar o essencial. Pelo que deixa por resolver, mais do que pelo solucionado, o quotidiano é provocação permanente.

«Quando entro na igreja, as pernas tremem-me. Fui à médica, que me aconselhou falar com o padre. Não fui ao da freguesia...». O episódio fez-me lembrar a história da Lurdi, esposa do Manuel, já lá vão uns anos, na emigração portuguesa. Ele, sempre na primeira fila, sozinho. Apreciava-o no seu interesse notório pela missa em que participava. Um dia abordei-o para o conhecer: era ali dos lados de Guimarães, esperava o domingo com ansiedade pois era o dia de estar com amigos e de se «sentir gente», com o fato impecável e o cafezinho com o seu kir (o branco Aveleda com creme de cassis) no bar da igreja. Só que... e surge o lamento. A sua Lurdi não o acompanhava na missa. Tinha vertigens, dizia, não se sentia bem na igreja, eram os calores, as pernas tremiam...

Estranhei mas não descansei enquanto não pude ouvir a Lurdi. E, claro, a cabecinha cheia de «minhocas». Não foi difícil, pouco tempo depois, vê-la também feliz ao lado do Manuel, com as pernas bem seguras... e os «calores» mais resfriados. Tempos depois riamo-nos da situação. E, uma vez por ano, pessoalmente ou por telefone lá vêm à baila os «traumas» da Lurdi.

A Lurdi destes dias pareceu-me tranquila apesar de a ver entrar um pouco a medo, Cartório dentro, logo após a missa do Senhor da Cruz, onde me tinha escutado momentos antes. «Eu venho da missa e até fui comungar ao senhor padre...».

Atendi-a de imediato, mesmo antes do pequeno almoço. Gosto sempre de não deixar as pessoas esperar. Um quarto de hora que seja pode tirar um peso de consciência, resolver um problema, às vezes mais fictício do que real, fazer voltar uma pessoa a sorrir. E foi o que aconteceu.

As «tremuras» afinal estavam «localizadas». Não as sentiu no Senhor da Cruz. Ou não se lembrou de que costumava tremer à entrada da igreja?!

Com todo o respeito por estes processos que manifestam a complexidade do espírito humano - ela que aceitou bem o conselho da médica para vir ter com um padre - dei-lhe os conselhos possíveis, ajudei-a a olhar mais positivamente para o seu futuro e animei-a a não se deixar abater pelas situações que «apertam» e infernizam a vida.

Percebi que alguma luz brilhou. Certamente pequenina. Mas é com o brilho de pequenas luzes que se pode gerar um grande clarão. Provavelmente irá voltar. Oxalá o faça. E possa sentir quão libertadora é a Palavra de Deus, escutada dia a dia. Privilégio e graça que esta cidade tem.

Admiro e louvo a presença de tanta gente que, todos os dias, no Senhor da Cruz, aguarda que o sacerdote chegue. Ele é Palavra que ilumina. Ele é sacramento que cura.

17 de Maio de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #19

Nem todos o compreendem. Acto de ousadia, quando os muitos compromissos parecem impedir deixar de lado e partir, foi o que fiz há dias. Uma ausência de dois dias permitu-me a leitura de um livro que me «elevou» das preocupações diárias para, criando distância, poder observar o mundo que me rodeia.

Desta vez foi o terceiro livro de Tomas Halik O meu Deus é um Deus ferido.

Já aqui falei deste autor, sacerdote ordenado na clandestinidade do regime marxista da ex-Checoslováquia, que se converteu da religião oficial imposta, o ateísmo, à fé em Jesus Cristo.

Autor premiado, o que ele escreve tem a marca de uma vida sofrida, do testemunho de quem vive e reflecte, a liberdade interior de quem pensa com os pés bem assentes na terra e que compreende a profundidade da alma humana, não fosse ele também psicoterapeuta e se dedicasse ao confessionário, onde aprecia a fragilidade humana diante de um Deus que a todos estende a mão.

Tendo conhecido a perseguição considerado inimigo do regime, o autor penetra nos meandros do ateísmo imposto nas sociedades contemporâneas, apontando o regresso aos deuses escravizantes, fruto do abandono da prática religiosa.

O meu Deus é um Deus ferido, escreve ele, convidando à descoberta do verdadeiro Deus em tantas situações que compõem o quotidiano dos ocidentais. É nas dores humanas que se pode encontrar o verdadeiro Deus. E convida a uma atenção permanente a todos os que nos rodeiam, pois é nas feridas da humanidade que Deus hoje se revela.

Confesso que li este terceiro livro com a mesma paixão dos dois anteriores (Paciência com Deus e A noite do Confessor).

No sábado passado, ao acolher um grupo de caminheiros de Santiago, convidei a todos a lerem este livro. Porque todos precisamos de bússolas de orientação, para não caminharmos em vão, os que ousam hoje, por caminhos às vezes sinuosos, procurar Deus precisam de orientações seguras. Este livro é uma preciosa ajuda para nos orientar nas grandes questões que nos pomos e que é suposto cada caminheiro se pôr. Recordei-lhes até que caminhar para cansar as pernas e nos convencer de que somos capazes, ou então apenas por questões de saúde física, não é suficiente. Em tempos de uma nítida promoção dos Caminhos de Santiago, urge que aqueles que se põem a caminho o façam com motivação interior forte: a descoberta de si próprio como parte do processo da busca de Deus.

Curiosamente, surpreendeu-me D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, quando, no dia seguinte, na missa solene da Festa das Cruzes, fez igual convite à leitura deste livro. Também ele o tinha lido, bem como os anteriores do mesmo autor, e ousou propô-lo à assembleia.

O tempo precioso que conseguimos dedicar à leitura de um bom livro, que deixa marcas para sempre em quem o lê, merece melhor atenção.

10 de Maio de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #18

Estive lá. Pela primeira vez. Convidado, dispus a vida para poder estar. E estive com gosto.

Por princípio, acredito que os que estão na política procuram trabalhar com honestidade pelo bem comum. Que procuram as melhores soluções para todos. Assim, pelo menos, deverá ser.

Era a sessão solene comemorativa do 25 de Abril. Ouvi os discursos de todos. E, cidadão de pleno direito, ouso também pronunciar-me. Com a sensatez que me é exigida e a imparcialidade que me imponho.

Gostei dos discursos e do tom de oratória dos mesmos. Quanto à forma, destaco que temos bons oradores, que se prepararam bem para o que lhes era pedido.

Quanto ao conteúdo, apreciei a não-novidade, como era expectável: conforme os pontos de vista, governo e oposição estiveram à sua altura. Não ouvimos elogios ao governo central por parte da oposição nem ouvimos condenações ao governo por parte dos partidos apoiantes. Nem em relação ao governo central, nem em relação ao governo local.

Foram discursos bem «situados»: no «politicamente correcto» próprio de cada momento conjuntural. Voltados ao passado, condenando-o ou elogiando-o; voltados para o futuro, criando cenários favoráveis a uns e desfavoráveis a outros.

E o meu pensamento, entretanto, oscilava concedendo benefício da dúvida ora a uns ora a outros.

A democracia tem destas coisas. Permite passar da direita à esquerda e desta àquela, tocando nos centros mais à direita ou mais à esquerda. E saudamo-la pelo bem inquestionável que nos traz: obrigação de darmos a palavra a todos e de, livremente, fazermos as nossas opções. Permite-nos também relativizar posições, que não podem ser extremadas, até devido à provisoriedade experimentada das mesmas.

De facto, quarenta e um anos depois, há uma aprendizagem da liberdade, que nunca está completa. E espreitam-nos sempre sinais de pensamento único a querer instalar-se. E tentativas de calar as opiniões contrárias. E as reacções, felizes, a essas tentações. Numa palavra, a liberdade é um dom sempre em conquista porque, tesouro que é, todos o reivindicam para si, excluindo-o dos outros. Sendo de todos, precisa-se de um coração grande para o deixar ser de todos. Logo, a liberdade exige que se eduque o coração para ela. Educar para a responsabilidade - responder pela liberdade que me é concedida - é missão hoje descurada. O individualismo e materialismo que se promovem sem limites não ajudam a que a liberdade conquistada o seja para todos. Não falta quem afirme que vivemos numa sociedade de medos. Medo da liberdade? Medo da Responsabilidade? «Não tenhais medo», repete a Bíblia, Palavra de Deus. E a Igreja, espaço da liberdade, assumiu a missão de educar para a liberdade responsável. Quem tem medo dela e a quer calar?

5 de Maio de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #17

Não era de estranhar. Chuva em Lourdes é sempre expectável. Porém, naquela noite de sábado, algo de estranho me fez pensar.

Éramos 50 em peregrinação ao santuário mariano, etapa final de outras etapas anteriores por lugares de peregrinação e de cultura. Algo de intensamente vivido, que marcará positivamente o futuro dos que participaram. Os caminhos de Santiago (Sahagún e Santo Domingo de la Calzada, Pamplona e Roncesvalles) e os caminhos de santidade (Arantzazu, Loyola e Lurdes) ou a realidade da guerra civil de Espanha, tal como a sofreram os habitantes de Guernika, encheram com intensidade uma caminhada de quatro dias (fotos ao lado).

Voltemos à chuva. Momentos antes da procissão de velas, que diariamente ali acontece, pensava eu que os responsáveis desistiriam tal era a ausência de peregrinos corajosos, mais candidatos aos abrigos laterais do que a caminharem debaixo de chuva. Não foi o caso.

À hora marcada os poucos corajosos - eu e o nosso grupo incluído - lá estávamos prontos a caminhar, certamente esperançados que a intensidade da chuva diminuísse. Também não foi o caso. Pelo contrário.

E lá fomos, ao som de cânticos de louvor a Nossa Senhora, esperançado eu que o trajecto fosse encurtado ao menos. Também não foi o caso.

A determinada altura voltei-me para trás, pensando que seriam poucos os que viriam atrás de nós. E a surpresa foi total. Eram milhares de pessoas indiferentes à chuva atrás do andor de Nossa Senhora e seguindo a oração, bela e sentida, que, de junto do altar, se orientava.

Diante desta realidade, que me surpreendia, o meu pensamento foi outro:

- se estivesse em Barcelos, o mais lógico seria desistir da procissão ou, pelo menos, encurtá-la. Seriam poucos os corajosos e muitos os comentários de «isto não tem jeito nenhum».

- o que faz com que milhares de pessoas, de diversas culturas, línguas e nações, possam dar um sinal de unidade, de um sentir igual, de uma coragem igual, sem se conhecerem e motivarem uns aos outros?

- que «força» ou «poder» tem aquela imagem da branca Senhora, que olhávamos à nossa frente e que não nos «deixa» desistir, antes nos dá força para avançar?

- como poderão entender este fenómeno muito humano e muito divino que as grandes manifestações religiosas deixam a quem tiver capacidade de «ver» por dentro?

- que frieza e cegueira a do mundo ateu que, voluntaria ou involuntariamente, se fecha a uma realidade espiritual que, sendo humana, também é deles?

Uma vez mais, digo obrigado pelo dom da fé.

26 de Abril de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #16

Não é difícil cruzarmos na vida com pessoas desanimadas. Aliás, é público que o elevado consumo de anti-depressivos é um bom sinal de uma sociedade doente, à procura de novos equilíbrios. E muitas vezes nos interrogamos se o estilo de vida que criámos e que tantas vezes nos sufoca vai perdurar ainda por muito tempo.

Os desânimos são, até certo ponto, normais e até necessários. Significam que está nas nossas mãos a condução da própria vida.

Há dias encontrei um dos catequistas particularmente desanimado. Um outro responsável de grupo na comunidade preocupou-me uns dias antes. Não escondo que, também sobre mim, surge às vezes a tentação de «atirar a toalha ao chão».

O apreço pelo trabalho feito em prol dos outros, concretamente em favor da comunidade cristã, como motivado pela força da fé no Senhor Ressuscitado merece ser cuidado. Precisamos de cuidar desta virtude de saber apreciar positivamente o que os outros fazem. Também nós precisamos de tal «conforto» capaz de nos «suportar» (se tornar suporte) e aguentar nas horas de maior desânimo para afirmarmos e fortalecermos a convicção que nos anima e a intenção com que nos situamos na missão. Assim se explica como, ao longo dos séculos, perante inevitáveis e fortes obstáculos, a Igreja continuou sempre a cumprir a sua missão, numa fidelidade só possível como acção de Deus.

De facto, quem se dedica a causas nobres e altruístas e trabalha «por amor à camisola», sente muitas vezes a incompreensão dos outros e até juízos preconceituosos e ofensivos. E isto é geral, ou seja, atinge todas as esferas da vida comunitária.

A nossa cultura gerou um modo de estar que provoca e até fere quem se doa a causas, sem esperar nada em troca: apenas por um dever de consciência e gosto de servir na causa pública. Também entre os cristãos, no seio da Igreja mãe, tal se passa.

Nesses momentos - quem o experimentou pode afirmá-lo - em que parece que o mundo se abate sobre nós, sentimo-nos muito pequenos e com vontade de «desaparecermos». São momentos de pôr em causa as razões da nossa dedicação.

Nos casos concretos em apreço- são muitos e muito diversificados os casos mas todos com uma tónica em comum: não vale a pena, eles não merecem isto - a minha reacção é a de compreender e de estar presente. Às vezes, diante de certas situações, as palavras sobram. Lembrar - e confirmar - que há um aviso prévio, aquele que vem do próprio Senhor da missão (eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos) pode ajudar. Mas nem sempre. Felizmente que a força da oração e a presença de outros que, tendo passado pelo mesmo, confortam e ajudam a avançar, faz com que muitas ameaças de desistência não passem disso mesmo: uma ameaça. Outras vezes, porém, o desânimo prolongado deve ser levado a sério. Ao menos para se pensar se não será tempo de desviar energias e talentos para outras áreas onde a pessoa se possa sentir útil à comunidade.

Caros catequistas e colaboradores, como eu vos entendo! São tantos os que exigem tudo dos outros mas nada ajudam... Não desanimemos diante do alheamento dos pais, pois a nossa força está no Senhor.

19 de Abril de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #15

Não faltam comunidades cristãs criativas no modo como se vive a Páscoa. E não pode ser de outro modo. A Páscoa é hino de vida, grito de liberdade, vitória do bem sobre o mal, anúncio de vida mais forte do que a morte. A visita pascal tornou-se ritual, sobretudo no norte do país. E não faltam até tentativas, adaptadas a cada meio, de a «ressuscitar» noutras paragens.

É verdade que, às vezes, o Compasso impede que se realizem outras manifestações. Porventura de mais profundo significado. Porém, o Compasso pascal impôs-se como modo acessível de anunciar a Páscoa como vida nova, corresponde ao anseio festivo de todos, é a maneira de o Pároco, por si ou por outrem, visitar as casas de paroquianos uma vez por ano, e torna-se ocasião para uma grande «barrela» nas casas que, ao menos ano a ano, são remexidas para se tornarem frescas e dignas de receber o «Senhor» e os amigos que se visitam nesse(s) dia(s).

Pensava neste assunto há dias, quer para preparar o Compasso, quer, depois, analisando como o vivi e como o apreciei. E, feliz, apesar do cansaço natural, dei-me conta de quão importantes se tornam estes gestos rituais na formação da personalidade crente e socialmente integrada no meio. Pensei sobretudo nas crianças e no modo entusiasta como vivem o Compasso. Algumas delas «amuariam» se lhes dissesse que não poderiam ir. O que causará no futuro delas esta tarde de Compasso, em que entram nas casas cantando e ouvindo que Cristo ressuscitou. Aleluia?!

Falo das crianças. E os adultos que ajudam e até presidem ao Compasso? Dizem-me que se trata de uma experiência marcante, extraordinária. Ouço-os com respeito e, feliz, aguardo a Páscoa do próximo ano.

E os que recebem o Compasso? Para alguns trata-se de um momento «sagrado», de grande alcance no ritual da família. Felizes aqueles que o fazem. Noutras famílias, há sinais claros de que estes rituais já são um «fardo» para alguns: fazem-no por mero formalismo e até com desgosto ao verem filhos e netos alheios e «apressados» para saírem. Os laços familiares são ténues. Infelizmente. Há outras que fazem questão de que este momento seja «calmo», com tempo, até com mesa, não só para a equipa do Compasso, como, sobretudo, para os amigos que lá continuarão após a partida do Compasso. No entanto, quantas vezes se ouve, voltadas costas após os cumprimentos finais: «Pronto, acabou a Páscoa». Ou seja, trabalhou-se muito, limpou-se a casa, chamaram-se os amigos, comeu-se e bebeu-se mas... saído «o Senhor», passou a razão de ser da festa. Será? A Liturgia, se bem cuidada, dirá que isto é pouco. Mas, entretanto, não poderemos desvalorizar este «pouco».

12 de Abril de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #14

A Semana Santa foi muito rica. Como sempre, apesar de cansativa para o sacerdote e diversos grupos de colaboradores.

Hoje falo do sacerdócio, dom que todos recebemos (sacerdócio comum), mas que a alguns foi doado com a finalidade clara de pastorear o Povo de Deus. Só na dinâmica do dom é que ele se pode entender adequadamente. De modo algum quando o consideramos uma «profissão», um trabalho com salário mais ou menos reconhecido. Não me aceito como profissional da Igreja ou do sagrado. Sou Padre ao serviço do povo de Deus e assumo-o como uma missão, que, sendo dom, me responsabiliza particularmente diante de Deus, da Igreja e do povo que me foi confiado.

Penso no modo como exerço o meu ministério e na minha fidelidade primeira a Deus e à Igreja - só assim se está de verdade ao serviço das pessoas. Quantas vezes tenho consciência clara das incompreensões inevitáveis e dos dissabores por atitudes que, em consciência, não podem ser outras.

Num dia tão solene como a quinta-feira santa, à volta do meu Arcebispo, eu renovei a minha entrega ao Senhor. E recebi dele, como todos os outros, uma carta como de um Pai que, abrindo o seu coração, nos exorta à fidelidade a este tesouro recebido pela ordenação sacerdotal. Pediu-nos que vivêssemos a missão com alegria para podermos semear alegria e convidou-nos à proximidade para com as pessoas feridas. De facto, não se diz, em feliz expressão, que somos o cura da aldeia, aquele que, sem desânimo, procura criar pontes entre desavindos e dizer uma palavra carregada de esperança e de sentido para a vida?

Disse o nosso Arcebispo: «Aponto um caminho de futuro para que a vossa alegria seja ainda maior. Falo do caminho da corresponsabilidade. Somos padres para uma comunidade e padres com a comunidade. Delegai responsabilidades. Libertai-vos de tarefas burocráticas e desnecessárias. Confiai nos leigos. Partilhai a vossa alegria com quem mais deseja a vossa presença». Estas palavras são de incentivo para o recomeçar de todos os dias, quando procuramos com quem partilhar tarefas ou nos damos conta de que às vezes até abusamos dos nossos colaboradores mais próximos. A estes, o meu pedido de desculpa por nem sempre estar à altura de compreender as suas dificuldades.

Alegrias e tristezas cruzam-se na estrada da vida. Nesta semana pude estar ao lado do caixão de dois sacerdotes que bem conheci nas tarefas pastorais. E pude olhar nos rostos serenos que contemplava, a satisfação do dever cumprido, admirando uma dedicação intensa, às vezes sofredora diante das incompreensões: pensei neles como monumentos de tenacidade e vidas que se gastaram (ambas perto dos 90 anos). E, entretanto, novo aviso: mais um sacerdote morreu... Meu Deus, e quem vai substituir estas vidas ceifadas, maduras sim, mas incansáveis na doação? Onde estão os jovens que queiram vir assumir o nosso lugar?

5 de Abril de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #13

Não sei o que é viver sem crianças. Felizmente. Depois dos sete irmãos, mais novos que eu, vieram os sobrinhos e, agora, os filhos dos sobrinhos. E é sempre uma alegria contemplar as novas gerações e vê-las crescer, enquanto me revelam que já não sou tão jovem como às vezes me julgo.

O mundo sem crianças é um mundo triste. Depressivo. Admiramo-nos dos défices de felicidade e do número de depressões? O inverno demográfico está a matar a nossa Europa. E as políticas anti-família tornam-se criminosas.

Há dias ouvia uma jovem mãe ufanar-se do crescimento dos dois filhos. E contava com alegria as suas descobertas. Lado a lado com as birras comuns a todas as crianças, ela destacava como aquele receptor vazio e cândido se ia enchendo, dia após dia, com as novas experiências que vão constituir o suporte do adulto em que se tornará. E alegrava-se com esta candura, terna e meiga, que a fazia crescer e dar graças por este ser humano pequenino que a tornava pequenina e ao mesmo tempo grande. No coração, na presença/ausência, na acção. Que linda experiência a de uma mãe que sabe contemplar o crescimento dos seus meninos! E como é bem verdade que o que se semeia na infância será o melhor húmus da vida adulta! E como é grande a responsabilidade da educação nos primeiros anos de vida! E como as crianças precisam da presença e do testemunho dos adultos, do seu exemplo de vida harmoniosa e feliz! E de ver um pai e uma mãe que se amam e os acompanham! Mesmo no meio das dificuldades da vida agitada que caracteriza os tempos de hoje!

Em contraste, pude observar, duas vezes no mesmo dia, a infância em idade avançada. Sim, porque somos duas vezes crianças. Duas situações de velhice, pelos oitenta anos, marcadas por uma evolução rápida de uma doença terrível - a de Alzeimer - que faz doer bem mais aos que os cuidam que aos próprios. Conservam-se algumas, poucas, memórias. Talvez as mais longínquas. E esquecem-se até os que convivem mais de perto. Os afectos mantêm-se. Mas com muitas mágoas ao ver em que estado de inconsciência se vão passando os últimos anos de uma vida, outrora pujante e atenta aos outros, agora desinteressada e até teimosa. Crianças duas vezes, sim, a primeira abrindo-se à vida, qual botão de flor destinada a dar fruto; a segunda, definhando em outono sombrio, só não se tornando um peso porque os afectos falam mais alto. Desafios para os quais nunca se está suficientemente preparados. Mas cada vez mais reais no quotidiano.

Cuidemos das nossas crianças. Saibamos semear nelas coisas boas que as façam crescer sem medos e com confiança no futuro. E que aos nossos velhinhos nunca falte a presença dos nossos afectos.

29 de Março de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #12

Lia-se-lhe no rosto. Preocupado mas não irado. Após ligeira conversa confirmei o diagnóstico inicial: aquele homem queria apenas de mim o conforto de uma palavra que o ajudasse a ultrapassar a «mágoa».

Interceptou-me no campo da feira: o pai tinha falecido há dias e o pároco negou-se a ir «buscá-lo a casa». Ficou triste e magoado mas não queria continuar «amargo».

Tentei explicar-lhe que ir ou não «ir a casa» não é fundamental e que dependia de cada situação concreta. Talvez o pároco queira estabelecer como regra não ir a casa do defunto e que, ponderado o assunto e até discutido em Conselho Pastoral, não poderia aceitar excepções. E convidei-o a dar graças por ter tido acesso ao que é essencial. Falei-lhe da cidade do Porto onde os párocos decidiram não se deslocarem ao cemitério mas celebrarem as exéquias apenas nas igrejas. E de um bispo que, quando cheguei a Barcelos, me interpelou: será que vais conseguir que não se «passeiem» os mortos pela cidade em direcção ao cemitério?! (Tal não se pôs em prática dado não termos estacionamento capaz junto do cemitério). Falei-lhe da situação actual da falta de padres e do que é previsível para tempos próximos: funerais sem padre, presididos por leigos ou diáconos preparados e, portanto, sem missa. Da necessidade actual de os padres reduzirem os serviços àquilo que é mesmo essencial e próprio do sacerdote. E aconselhei-o a manter a memória do falecido pai com momentos de oração em família ou assinalando as datas principais com a celebração da missa, enquanto esta lhe for possível.

A conversa foi calma e serena, podendo eu perceber que a mensagem foi acolhida. Mais ainda, que ele ficou contente por lhe «sair um peso». Não queria ficar «indisposto» com o «seu padre».

E eu dava graças a Deus por encontrar um homem que aparece «ferido» mas desejoso de «curar a ferida».

E pensei em tantos momentos que constituem a vida de um padre em que nos tornamos luz e paz que as pessoas procuram.

Dei-me conta da necessidade de dizer publicamente gestos nobres de gente simples que também enchem a nossa vida de pastores. De facto, nas vinte e quatro horas da vida de um pároco podem atingir-se os dois extremos. Como me aconteceu um dia quando, de manhã, um encontro casual me levou a um sorriso feliz de alguém que se me confessava agradado e entusiasmado com o que estava a surgir na Paróquia e, noite entrada, já em serão alargado, me bate à porta um bêbado a pedir mais um copo e a tratar-me com «santos palavrões» cada vez mais altivos e sonantes na calada da noite, porque «o padre lhe negava um copo». Todos sabem de quê. O que me leva a dizer que um padre que não «tarimbe» numa Paróquia ficará sempre um pouco «incompleto».

22 de Março de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #11

Homens sede homens! Esta célebre frase de Paulo VI em Fátima, no ano 1967, ecoou particularmente forte aos meus ouvidos por estes dias. O contexto da Semana Bíblica, em que tantas mensagens belas despertaram para a urgência de redescobrirmos a novidade do evangelho de Jesus, inserido no contexto temporal (Quaresma) levaram-me a perguntar: Que Homens e Mulheres há entre nós?

O contexto da Quaresma facilita a questão. «Converte-te a mim do coração» é o que ouvimos. O ir ao coração e dele sair para o centrar no Senhor e não nos senhores deste mundo, leva-me a questionar os senhores deste mundo. E eu não me ponho de fora dos «senhores deste mundo», pois todos o somos uns para os outros.

Nunca como hoje se precisou tanto de Homens e Mulheres de elevada estatura moral. Porque concluímos que somos apenas criancinhas mimadas, fugindo permanentemente de assumir responsabilidades e, mais ainda, às consequências dos nossos maus actos e más decisões. Não sabemos estar onde estamos e queremos estar onde não estamos. Não sabemos assumir as consequências das nossas preguiças e passamos a vida a culpar os outros.

Todos precisamos de verdadeira penitência e contrição dos pecados! Mas preferimos continuar alienados dizendo que o pecado só existe nos outros. Este olhar orgulhoso e altivo mata. E só a graça de Deus tem força para o transformar.

É com os que me rodeiam que eu afirmo a minha centralidade de vida no Senhor. Uns com os outros reconhecemos tanta hipocrisia entre nós, cristãos. Cegos pela vaidade e ânsia de poder, não conseguimos olhar para nós mas só para fora de nós. Há demasiado barulho a desviar-nos de nós próprios. E levamos a extremos a ânsia de poder e de aparecer nos púlpitos públicos pensando que neles se podem mostrar supostas virtudes. Não percebemos que o olhar dos outros, talvez malicioso como o nosso, apenas vê os nossos vícios.

Pobres de nós. Não sabemos perder. E depois metemos os pés pelas mãos. E agravamos situações que causam sofrimento aos outros e conspurcam as relações sociais, quebram amizades antigas e apenas evidenciam o nosso apego ao poder e a ilusão que a nossa vida constitui. É caso para dizer: tenham juízo, metam a cabeça num saco e recuperem o sentido do pudor. Peçam ao Senhor o «dom das lágrimas» (Papa Francisco) e o dom da vergonha.

Dos insubstituíveis, livrai-nos, Senhor! As instituições públicas merecem Homens e Mulheres verdadeiros (sem fingimento) e dignos (dos cargos que ocupam). E que, quando perdem, saibam perder e partir de cara erguida e não voltada para o passado, quais abutres à espera de se lançarem à presa.

15 de Março de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #10

A vida vai acontecendo e, quando as nuvens se adensam, ela torna-se arte ao encontrar beleza. Esta coluna destina-se a «olhar diferente», destacando as coisas belas da vida no mar de lamentos que nos cerca. Por isso hoje falo do meu pai.

Na véspera dos seus 90 anos, o papa tinha-me feito dar graças a Deus pelo «velhinho simpático» - assim o trata carinhosamente a minha sobrinha - quando denunciou que o abandono dos pais e avós é «pecado mortal». Graças pelo que ele é e pelo que me ensina, mesmo sem palavras, e também pelo trato carinhoso que irmãos e sobrinhos lhe dedicam no quotidiano.

No mesmo dia, 5 de Março, as notícias falaram da mais velhinha no mundo, uma japonesa que fez 117 anos.

O meu pai é um sábio: de homem austero, exigente consigo e empenhado no futuro dos nove filhos - dedicado ao trabalho no campo de madrugada até altas horas da noite, retirando da lavoura o sustento para os filhos - a todos quis dar estudos substituindo a penúria dos tostões com a confiança ilimitada em Deus (aqui a máxima harmonia com a minha mãe). Ele soube desprender-se dos bens, confiando tudo aos filhos quando ficou viúvo, para agora viver, sereno e tranquilo, com a magra reforma do campo, mas com uma confiança ilimitada em Deus e nos filhos.

Gosta de estar e de sair. Para festas, é claro. Para a casa dos filhos e dos netos. Sempre para aquele que primeiro aparecer a convidar ou a concretizar o convite. É um homem livre e desprendido, que se orgulha de estar e de viver. Conserva os sonhos. E a meta dos cem anos serve de motivação.

Alguns escolhos de saúde ameaçam o sonho: mas mantém a serenidade. A morte traz-lhe a certeza da vida e, por isso, nenhum desgosto mais forte o vence. Continua a confiar: ora sente que será difícil chegar ao centenário, ora reforça o sonho e louva o Senhor pela saúde que tem.

Hoje, em festa de 90 anos, a mesa vai ser mais alargada. Chegará aos 70 comensais?

E a minha acção de graças e o meu orgulho de ser filho deste homem expresso-o assim: muitas lições aprendo dele, sobretudo a de saber permanecer sereno e confiante, «gozando a vida» como dom de Deus, até quando Ele quiser. Com ele aprendo a não correr tanto. Ele também corria muito e agora sabe contemplar. Estou a aprender com ele a sabedoria de viver: no Centro de Dia fica feliz por estar com os da sua idade; em casa fica feliz como alvo das atenções dos filhos e dos netos; quando sai fica feliz a comer na casa de filhos e netos ou quando visita os irmãos (três, todos ainda vivos, entre os 87 e os 96). E eu fico feliz ao vê-lo rodeado do carinho dos meus oito irmãos, cunhados e cunhadas. Que o fazem não por obrigação mas com gosto.

Obrigado meu Deus pela graça do meu pai.

8 de Março de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


 UM OLHAR OUTRO #9

A proposta de Jesus é um apelo permanente à conversão do coração. Atitude pessoal com repercussões comunitárias. A verdade, porém, é que a tendência humana é de exigir sempre a conversão dos outros. Esperamos que as coisas mudem, mas em nós tudo fica na mesma. Esta atitude chama-se pelo nome próprio: hipocrisia, gente de duas caras, falsa, que tudo faz para parecer o que, de facto, não é. E não falta gente «de fachada». Dessas atitudes eu peço ao Senhor que me livre. E daqueles que são hipócritas peço ao Senhor para mim a graça de me saber afastar deles para não ser contaminado e, para eles, o toque da graça de Deus para que os ajude a cair na realidade.

Estes apelos são mais insistentes no tempo da Quaresma. De facto, de que nos servem as nossas penitências, os nossos «sorrisos amarelos», os nossos «ares de penitentes» se tudo fica na mesma? A Palavra de Deus está cheia destas denúncias. Há dias, o Papa Francisco, com a coragem e verdade que lhe reconhecemos, apelou, já pela segunda vez, aos mafiosos que se convertam, que deixem a máfia e os clubes do crime. Sabemos quanta coragem ele precisa e como nós, os que nos sentimos do seu lado, temos de rezar para que nunca lhe falte tal coragem.

Mas as «máfias organizadas» existem por toda a parte. Tanto perigosas quanto camufladas. E que pena me dá que, às vezes, sejam tão ardilosas a ponto de se protegerem à sombra da Igreja, a quem reconhecem capacidade de conceder «estatuto».

Há dias pedia a todos os meus colaboradores, membros de confrarias e irmandades, que parassem para um retiro e para se «porem a jeito» de escutar calmamente a Palavra de Deus. Repito a todos a necessidade de catequese de adultos. E verifico como é difícil dar-se um passo para que o Espírito Santo «fure» as carcaças que somos e que nada deixam mudar. Tudo fica na mesma e com tal nos contentamos. A conversão pedida não exclui ninguém. A disciplina interior tem um objectivo: liberdade no meio de mundo de escravidões, relação pessoal com o Senhor, Aquele que vê os corações. A fim de purificarmos os corações e as instituições da vaidade e do parecer, para que a nossa sociedade possa avançar na via da verdade. Se somos crentes, sejamo-lo com verdade e na procura do ser de Deus. Se não somos crentes, ao menos desenvolvamos em nós o respeito pelas diferenças. E em tudo e em todos a sensatez de reconhecermos que o nosso presente, para ser justo, exige respeito pelo passado e ousadia fundamentada e abrangente quanto ao futuro. Não estamos sós no mundo. Os outros, diferentes, fazem parte de nós.

1 de Março de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #8

E eis-nos de novo no tempo da Quaresma. Uma oportunidade única. Com o risco de sempre: ser tempo perdido.

De facto, todos clamam contra a rapidez com que o tempo passa ou nós passamos pelo tempo. E a todos custa muito decidir-se pelas transformações na própria vida. Aquelas que há muito vêm sendo adiadas apenas por uma única razão: «não temos tempo». Assim, a Quaresma, para os cristãos, é apresentada pela Igreja, mãe que cuida, como o tempo favorável e oportuno para não mais adiarmos o que é inadiável. Sob pena de passarmos a vida «marginais» ao essencial, arrastando o «fardo».

Os apelos insistentes destinam-se a todos, mas particularmente aos cristãos, supondo-se que a vida e mensagem de Jesus têm lugar nas prioridades destes. Porque cuidar da vida e de a desenvolver bem, situando-se na história, que tem sempre um antes e um depois, é obrigação de todos. Seja quem for, o facto de partilharmos a humanidade responsabiliza a todos pelo cuidar da criação, que nos foi oferecida. Então isto de viver quaresma, de disciplina interior, de atenção aos que nos rodeiam, de partilhar o que temos para sermos todos, obriga a toda a gente.

Ontem mesmo reflectia na Palavra e no Silêncio como momentos imprescindíveis do nosso caminhar. E fiquei feliz ao ver um grupo de 60 pessoas reunido (foto acima), como o fazem todas as semanas, a reflectir a própria vida e a descobrir no hoje os apelos amorosos de Deus a cada um. Era a catequese de adultos que, na Paróquia, vai despertando para uma nova maneira de ser Igreja, em que cada um exercita a sua própria liberdade diante de Deus e dos outros, amadurece as suas crenças, fundamenta-as na Palavra de Deus e procura-lhes sentido. E dou graças a Deus por esta maravilha que acontece em Barcelos.

Este momento da Palavra, porém, não dispensa o momento do Silêncio. Pelo contrário, exige-o. Mais difícil o Silêncio, numa sociedade em que todos falam e as mensagens se entrecruzam e até se atropelam, este torna-se ainda mais necessário, para saborearmos a vida como seres humanos. E aqui tenho de reconhecer, com pena, como é difícil tirarmos tempo para o Silêncio. Até nas celebrações se teima em ocupar todos os espaços para que não haja «momentos mortos», estes tão necessários para que a Palavra ecoe no coração.

Proposto um retiro no início da Quaresma, especialmente preparado para os paroquianos, dói ver o investimento e a canseira de alguns, que a muitos não aproveita. A razão é sempre a mesma: «não tenho tempo».

«Pobre Deus» Este que se enganou nos cálculos: não nos deu tempo suficiente... Ou não continuamos a ilusão, mesmo na Quaresma, de sermos senhores quando, na verdade, somos apenas gestores de dons que nos foram doados como presente, sem os merecermos? Quando acordaremos para a realidade?

Boa e santa Quaresma para todos

22 de Fevereiro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #7

O Conselho Pastoral reuniu uma vez mais. Foi a segunda das três vezes que reúne durante o ano pastoral. Obrigatório em cada Paróquia, ele é expressão de uma Igreja que age como fermento para solidificar o anúncio e convite de Jesus para a comunhão que define o ser Igreja. Não pode haver instituição eclesial que seja governada a partir de cima, sem escutar o povo de Deus. Até poderá parecer contraditório: a Igreja é, por natureza, hierárquica porque todo o poder vem de Deus e não das bases. Mas o tal poder dos homens, originado em Deus, torna-se dom para os outros. E Jesus apresentou-o sempre como um serviço. Quando assim é exercido, e deve sê-lo sempre, a Igreja torna-se a instituição mais democrática: obedece a Deus, cuja vontade se faz conhecer nas circunstâncias concretas, e aqueles que exercem o poder são os primeiros a sentirem-se descalços e obedientes diante de Quem lhes concedeu o poder. A Igreja lembrou este estar ao serviço de todos, sobretudo frágeis e pecadores, quando, no Concílio, há mais de 50 anos, valorizou a noção de comunhão entre todos os fiéis, como Povo de Deus.

O nosso Conselho funciona e julgo que muito bem. Com uma convocatória e uma agenda previamente conhecida, as presenças andam pelos 90% e o trabalho de estudo e de procura das melhores iniciativas para a acção pastoral na cidade dura ao menos três horas, sentindo-se sempre que o tempo é escasso para todos nos ouvirmos uns aos outros.

Trata-se de uma aprendizagem, para todos os membros, de um ser Igreja responsável. Diante de nós está sempre um ideal: que é que o Espírito Santo diz ou quer dizer hoje às gentes de Barcelos? Agarrados a tradições ou «direitos adquiridos», alimentamos o espírito de «seita» e não de Igreja. Como seria Barcelos se todos os grupos, as confrarias e mesmo as paróquias vizinhas vivessem uma tensão permanente para acções comuns que dignificassem a presença da Igreja?!

Os conselheiros não estão ali a defender a sua ideia, a lutar por uma causa, a defender o seu grupo. Quando surgem tais sinais, a mim, como presidente, apetece-me dizer-lhes que ainda não entenderam o que é ser conselheiro, muito menos o que é um agir responsável.

A Paróquia é, numa reunião do Conselho Pastoral, um campo aberto, transparente e abrangente da realidade pastoral da cidade. Não se pode permitir atitudes menos dignas àqueles que entram neste campo aberto: a colaboração tem de ser honesta. Quando se abre a nossa casa aos outros, estes têm obrigação de honestidade para quem os recebe. Não se constrói quando se faz «jogo» e se joga em mais do que um campo. Tudo isto é uma aprendizagem continuada. Que o Espírito Santo conduz. Desde que nos abramos a Ele. Dou graças a Deus pelo que acontece entre nós. Apesar de ritmos diversos e até de tensões. Somos humanos mas empenhados em nos deixarmos trabalhar por Deus.

15 de Fevereiro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #6

Há momentos na nossa vida que ficam registados na memória, mesmo sem o querermos, porque se nos impõem. E quando, adiante, nos reportamos ao passado, eles são citados com naturalidade.

Como padre, falarei, no futuro, com naturalidade do que me «surpreendeu» no sábado passado: 22 pares de noivos, dos 29 que querem casar na nossa Paróquia, aceitaram o convite de passarem uma tarde com a Equipa de Pastoral Familiar.

Primando pela pontualidade e pelo à vontade, bem cedo «quebraram o gelo» dando origem a um diálogo próprio de adultos responsáveis. E os comentários foram saindo com naturalidade às questões propostas: porquê casar hoje e porquê casar na Igreja, num tempo e numa cultura de desafeição pelo mundo religioso.

Surpreendidos porque «não foi uma tarde chata» e «até passou depressa», aqueles noivos surpreenderam-me positivamente. Tenho de reconhecer que, também eu, às vezes, me deixo influenciar pelas vozes dominantes numa cultura de massas, superficial e irresponsável. Quase todos de mais de trinta anos, bem maduros na idade biológica, revelaram-se também maduros no modo como se preparam para o casamento e como sonham o «grande dia». Na questão «casar-se ou juntar-se», os que já vivem juntos - poucos no grupo, ao contrário do que se pensa - afirmam «falta-nos qualquer coisa» ou «há muito que para nós está decidido: viver juntos só após o casamento». Registei a frase: «quando, no futuro, olharmos para trás, a data das nossas memórias será a do casamento, não a do dia em que nos «juntámos».

A destacar também que «casamento que vale é o da Igreja». E não só por ser «mais bonito». Mas porque «somos católicos e assim nos ensinaram os nossos pais», mas porque «nunca esteve nos nossos planos que não fosse na Igreja».

Cada vez mais se nota que os pedidos de casamento que nos chegam vêm já mais ou menos bem elaborados: sabem o que querem e porque o querem e até como o querem. Dou graças a Deus por isso e por poder dizer que, raramente, me aparece algum caso de recusa da preparação proposta. E aceitam bem que se lhes proponha uma celebração cuidada e bem preparada, desde a ornamentação, que deve evitar exageros, até ao grupo coral que vai animar, de preferência um coro litúrgico que faça a assembleia participar em vez de um trio que vai «dar o seu show» ou grupo interessado em vedetismos e cachet.

Estamos diante de uma nova geração «cansada» dos «enlatados» e que pensa com seriedade o seu futuro? Mesmo mais exigente, verdadeira e empenhada na celebração da fé? Em equipa partilhamos com alegria estas «relevâncias» do encontro.

8 de Fevereiro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #5

Na sequência do que se passou em França, com os actos de terrorismo, muito se escreveu e se escreverá. Para mim, que lá vivi durante sete anos, não é difícil entender o que se passou. E apetece-me repetir: por onde andas, ó França, que te continuas a desviar da tua história?

Pela liberdade de expressão também eu me bato e não concebo, na nossa cultura ocidental, outra maneira de olhar o mundo que não seja com a chamada liberdade de pensar e de exprimir o pensamento sem constrangimentos. O acontecimento do Charlie Hebdo, porém, ultrapassa esta simples consideração. Vai muito mais longe: poderá clamar-se por uma liberdade absoluta, não contextualizada, «separada» de outras expressões do ser livre?

Vários autores têm aprofundado a justeza da tomada de posição do Papa, ao dizer que ninguém tem o direito de ridicularizar as expressões da fé. Também eu penso que há expressões da fé que tocam os limites do ridículo. Mas, como expressões do ser humano, nunca me sinto no direito de as ridicularizar.

Não nos diz a história que os «valores da República» tão absolutizados hoje carecem de revisão dos seus fundamentos? Não foram eles «criados» no contexto de reacção a valores religiosos, católicos mesmo, e fundados em ideologias ateias que se impuseram e se mantêm um pouco à força, sem discussão - há tabus sobre certos assuntos - que geraram o que hoje chamamos laicismo (não uma laicidade, que é sadia e conveniente)? Não é o laicismo, como imposição de costumes e maneiras de viver sem religião na praça pública, já de si um fundamentalismo?

Teimosa e cegamente, o politicamente correcto não permite pôr em causa os tais «valores da República» porque tal implicaria aceitar, tacitamente, o falhanço de uma sociedade sem Deus. E o fundamentalismo islâmico, visível e evidente na praça pública - usada para concentrações de massas para a oração islâmica - impõe-se com toda a força a uma sociedade sem Deus. Logo, como o Deus do cristianismo, a religião equilibrada capaz de criar laços sociais de harmonia nas diferenças, foi rejeitado, obriga-se, de facto, toda a sociedade a aceitar um radicalismo religioso cego e brutal. Admiramo-nos que surjam reacções cada vez mais fortes de uma parte da sociedade francesa, que clama também na praça pública: a república é laica mas a nação francesa não o é?

A França perdeu-se. Desviou-se e não sabe como voltar às suas raízes. Para mal dos franceses e de toda a Europa que lhe seguiu as peugadas. Bastaria abrir os olhos e contemplar o preço elevadíssimo que paga por este seu orgulho cego: quantas vítimas inocentes e em risco permanente e quais os custos financeiros para a segurança pública possível?

De facto, não há liberdades absolutas. Todas têm o seu preço.

1 de Fevereiro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #4

Há livros e livros, leituras e leituras. Há livros pequenos no tamanho mas grandes na mensagem que nos deixam, de modo que sempre nos fica algo registado para o futuro.

Fico com pena do tempo gasto em leituras que não recordo. Terão, mesmo assim, deixado algo em mim, apesar de não o reconhecer? Encontrar tempo para parar e ler parece exercício cada vez mais dificultado. Apesar de tudo lá chega o momento em que os «urgentes» ficam de lado e nos podemos dar ao gosto de parar a ler um bom livro.

Hoje falo de dois pequenos livros. Pequenos porque não precisam de duas horas cada. Mas grandes na impressão e no ensinamento que deixam. Um e outro disputavam-me o tempo desde há meses na minha mesa de trabalho. Chegou a sua vez.

Magia e demónios é o texto de uma Nota Pastoral dos bispos da Toscânia na Itália, publicado em 1997. Texto de estudo num curso ministrado pelo bispo de Bragança aos teólogos, que o prefaciou, foi ele traduzido por um dos alunos e publicado nas Paulinas. Um texto rico de conteúdo e muito oportuno para os padres e leigos que cuidam a sua formação. Também muito útil para aqueles que vêem demónios em tudo. Todos podemos aprender a situar as questões difíceis diante do mistério do mal. «O Mal e as suas dependências, em que se abordava o aspecto da incompatibilidade entre fé e a magia e demonologia» - lê-se logo na nota prévia do tradutor. Para ajudar a leitura, um dos bispos escreveu: «os bispos pretendem sustentar a fé de todos os fiéis na vitória que Cristo alcançou sobre o Maligno. Uma vitória que deve libertar do medo e da procura de meios mágicos para enfrentar as dificuldades da vida, que se apresentam com o aspecto de dramatismo e sofrimento intensos». O livro aborda as diversas formas de magia muito em voga no nosso tempo e que, por várias vezes, foram abominadas na Bíblia. Que pena que tantas superstições se misturem com atitudes religiosas. Por falta de formação. Um desafio para nós, os padres, chamados a elucidar e educar a fé dos cristãos.

O outro livrinho intitula-se Viver, Amar Morrer - Contigo até ao fim. Escrito por Pablo d’Ors, sacerdote capelão de um grande hospital de Madrid, ele conta a dignidade com que uma mulher, médica, se situou diante da sua morte anunciada de cancro mamário. O testemunho é eloquente e a fé daquela médica levou-a a uma postura «do outro lado», isto é do lado do doente e não do lado da médica que ela era. O seu «sim» como o de Maria, vivido e assumido até ao fim - em poucos meses - que ela compreendeu como um verdadeiro princípio. Um livro que eu próprio gostaria de receber de presente se a doença me bater à porta. Para me ajudar a ser livre e desenvolver a minha humanidade. Para morrer de pé.

25 de Janeiro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #3

Na vida de um padre há muitas surpresas. Positivas e negativas. Dada a sua condição de atenção permanente aos dramas das pessoas, que ainda sentem no padre um confidente, ele habitua-se a considerar uma «escala» de reacções e comportamentos muito ampla. E sempre é chamado a reagir deste modo: louvando a Deus pelas maravilhas que acontecem nas vidas, às vezes desgraçadas e outras vezes carregadas de graça, que presencia; ou aprendendo a «fazer silêncio» diante do mistério do humano. Age, se a prudência o aconselhar. Ou cruza os braços diante das pessoas que apenas querem e precisam de quem os ouça. De facto, diante de vidas desgraçadas, todo o cuidado é pouco para não as desgraçar ainda mais. A sabedoria de experiência feita diz-nos que nem sempre o pôr mãos à obra é a melhor decisão. Discernir nunca foi fácil. Se bem que a consideração dos riscos não pode levar a omissões graves, que tanto podem tranquilizar consciências como esconder cobardias.

Preocupa-me o modo como se celebra a morte em Barcelos. Fria, muitas vezes, e vivida superficialmente. Não deixo de lutar para que haja «calor» e sentimentos, mas sobretudo atitudes de fé, coerentes com a vida eterna que o crente diz acreditar.

Desta vez quero destacar a atitude de uma família: celebrado o funeral, aparecem os filhos, que a mãe enviou, para dizer um obrigado ao Prior pelo modo como foi celebrado o funeral. Senti-me desconfortado por sentir que muito pouco fiz. Apenas o que costumo fazer com todos: dar sentido e «calor» àquele momento com o anúncio da ressurreição que a fé cristã garante àquele que vamos a sepultar.

Houve mais, no entanto: aquela esposa, agora viúva, quis agradecer as visitas que fazia quando o marido estava retido em casa. Não fiz mais que a minha obrigação pois o pároco deve visitar os doentes.

Houve ainda um outro gesto: quiseram entregar-me um envelope significando agradecimento e consideração. Diante da minha recusa - recebo o salário mensal e nada mais pelos actos paroquiais - pediram-me que o destinasse às obras da residência paroquial. O que aconteceu.

Lembrei-me, entretanto, do que acontece na minha terra natal. Sempre que morre alguém, o primeiro contacto é com o pároco, com quem se ajusta o funeral - afinal é ele que vai presidir. E continua-se um dos bons hábitos: cada família oferece sempre uma ajuda em dinheiro para as «obras paroquiais», para a «conferência vicentina» e para o «boletim paroquial». São ofertas voluntárias, feitas com intenção de sufrágio e em comunhão com as necessidades. Não teremos nada a aprender de muitos usos e costumes de outras terras?

18 de Janeiro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #2

Não fora a primeira vez. O gesto de benzer um objecto, a pedido das pessoas, suponho-o motivado pela fé. E deve ser o próprio a pedi-lo: a bênção é uma súplica a Deus pela pessoa que vai utilizar o objecto. Quando o objecto não é abençoável - e infelizmente muitas vezes não é - aproveito a ocasião para explicar a negação da bênção e convido a abrir-se à relação com Deus, que deve ser sempre de confiança e de compromisso.

Há dias touxeram-me objectos de clara superstição - para dar sorte - para que fossem benzidos. Quem pedia estava desconfortado. E ainda bem. Pedi-lhe para que animasse a pessoa que os quer oferecer ao neto recém-nascido a vir ter comigo para a ajudar a entender porque não benzi tais objectos. A sorte que ela deseja ao neto deve traduzir-se na confiança em Deus. Só Ele nos protege.

Pude perceber que o pedido vinha de alguém alheio à prática religiosa. Logo, deduzo eu, cheia de crendices que confunde com a fé.

D. Manuel Franco Falcão, na Enciclopédia Católica disse, a propósito da superstição: «Ela traduz-se frequentemente na multiplicação de rezas, no formalismo dos ritos, na atribuição de poderes sagrados a objectos "religiosos", ou no recurso ao bruxedo e ao curandeirismo. Combate-se a superstição por uma prudente e persistente educação humana e cristã das pessoas, especialmente das que, independentemente do nível social, mais propendem para este defeito, muitas vezes atraídas pela propaganda de pessoas "de virtude" e alimentadas por uma imprensa que prodigaliza horóscopos e outras formas supersticiosas».

É vulgar a ideia de que existem «poderes ocultos» em objectos ou pessoas. A Bíblia repete, muitas vezes, que «só em Deus» devemos pôr a nossa confiança e a nossa esperança. E condena veementemente as práticas supersticiosas (Dt. 18, 9 e ss., por exemplo), muito comuns onde abunda a ignorância religiosa. Quanto mais ignorantes das coisas da verdadeira religião, mais supersticiosos. Ainda que saibamos da complexidade do ser humano, dos seus medos e hesitações diante do mistério do humano e do divino.

Um objecto religioso é aquele que ajuda a pessoa na sua relação com Deus, a desafia e a desperta para a Verdade de Deus e para o seu compromisso com os irmãos. Pela oração de bênção sobre ele, louva-se o Senhor, que criou todas as coisas, e recorda-se que tudo foi criado por Deus para serviço do homem, de quem se espera o louvor.

Porque não pedir aos nossos ourives que esclareçam as pessoas sobre objectos que não são abençoáveis? Um crucifixo, uma imagem de Nossa Senhora ou de um santo de particular devoção serão suficientes.

Que dignidade em alguém que se mostra «escaparate» da sua crendice e ignorância?

11 de Janeiro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


UM OLHAR OUTRO #1

Após Impressões do Quotidiano, surge, neste novo ano de 2015, este Um olhar outro. Pretende, como aquelas, dizer estados de alma, reflectir alto, exprimir sonhos e lamentos, sempre com o mesmo ponto de partida: padre e pároco dizem o que sou e o que faço. Dizem-me pessoa situada e comprometida. Mas dizem-me sempre e acima de tudo, como o crente que sou, confiante num mundo que Deus, em última instância, conduz, mas que põe, também nas minhas mãos, a responsabilidade de o tornar diferente. Logo no início da minha missão em Barcelos eu afirmei que, porque acredito em Deus, acredito nas gentes de Barcelos, que amo e que desejo fazer sentir a alegria de crer e de intervir. É, nestas palavras, o que pretendo dizer com a palavra outro. Não um olhar mais, entre muitos, mas um olhar de fé, que ultrapasse as primeiras e superficiais impressões da realidade.

Ao começar o ano de 2015, em três palavras, que me são muito queridas, digo os meus votos:

PALAVRA DE DEUS - Porque o mundo dá sinais evidentes do excesso de palavras humanas, fortuitas, interesseiras, escandalosas e passageiras, traiçoeiras e até maliciosas, eu sonho com os cristãos de Barcelos a valorizarem a Palavra de Deus como a Palavra diferente, que vale e que rasga caminhos de novidade. Ao darmos o salto para Deus, tudo se torna diferente. Neste redescobrir a Palavra que salva, está o convite a redescobrirmos a Igreja como comunidade ou família onde a descoberta do sentido da vida se faz de mãos dadas. Está o convite a muitos a terem a coragem de aceitar que a Igreja que condenam ou de que desdenham já não existe. Essa é aquela que deixaram algures em determinada fase da vida. A de Jesus Cristo é nova e renova-se constantemente.

VERDADE - A cultura do nosso tempo desligou-se da verdade, ou seja, do real, preferindo virtual e imaginário. Até Deus, para muitos, não passa de um imaginário, dependente de cada um. Só o regresso à verdade das pessoas e dos acontecimentos se torna salvador e cria sentido para o quotidiano. Como só a Palavra de Deus se torna motor capaz de fazer encontrar a Verdade.

LIBERDADE - Palavra demasiado repetida, sinal de uma realidade desejada porque não vivida. Todos ansiamos por liberdade e, reconhecemo-lo, somos cada vez mais dependentes. O meu desejo profundo, quando anuncio o Evangelho e proponho seguir em Igreja, é que cada ser humano se reencontre consigo próprio e descubra as vias da sua autonomia responsável. Mesmo no seio da Igreja, para mim o espaço melhor da liberdade autêntica. Como eu desejaria sentir que esta trilogia PALAVRA, VERDADE E LIBERDADE, fosse o quotidiano de todos os barcelenses!

Se permanecerdes fiéis à minha Palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a Verdade e a Verdade vos tornará Livres (Jo. 8, 31-32).

4 de Janeiro de 2015 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #15

Diz o povo, na sua secular sabedoria, que «uma surpresa nunca vem só» ou que «não há duas sem três» e «Deus escreve direito por linhas tortas».

Fizeram-se eleições para a Santa Casa da Misericórdia, após uma consulta aos irmãos, cujos resultados foram surpresa, como também agora o foram para muitos. Para mim também.

Uma vez mais, leio os jornais da terra e a «leitura» do acontecimento é de ordem política. Muito longe do que deveria distinguir um acto normal em democracia ou no governo das instituições cívicas de um outro nas instituições eclesiais. Terá sido decisiva uma questão de ordem política: sim ou não à devolução do hospital à Misericórdia.

Sei que esta minha leitura terá também interpretações ou leituras diversas. Não evito fazê-la seguindo a trajectória do comentário anterior (Boletim de 21 SET). Volto-me para o interior da Igreja, comunidade de crentes e povo de Deus e, como crente e responsável na pastoral da cidade, pergunto-me onde está a motivação da fé, alimentada na Palavra de Deus e nos sacramentos, por parte de todos aqueles que votaram e foram ou não foram eleitos? Que é que move a repetida apetência pelo poder, bem como as interferências partidárias ou de facções partidárias, quando as Normas dizem até que «não pertençam à direcção ou mesa administrativa os que desempenham cargos directivos nos partidos políticos»? Quem são os Irmãos desta Associação de Fiéis, que «estatutos» seguem, como entram para Irmãos, que «féis» são e a quem?

Sinto o incómodo de ter de responder a algumas interpelações de quem sente a Igreja desacreditada ou mesmo enxovalhada neste processo. A sabedoria de séculos da Igreja gerou uma legislação sobre as associações de fiéis que limita os mandatos, de modo a que os que ocupam cargos saibam que têm um tempo determinado para fazerem o melhor pela instituição mas que não se devem «eternizar» neles já que, sendo cargos de serviço, devem ser perseguidos apenas como transbordar de um coração de fé que, no testemunho dos valores, se põe ao serviço das instituições canónicas. A Igreja não precisou de legislar à pressa para impedir «eternizar» nos cargos, como recentemente na nossa vida democrática.

Quanto possível devemos ter o cuidado de saber sair de cara erguida evitando ser empurrados.

Não o escondo: sou daqueles que destaca as vantagens de cargos a termo certo. Qualquer instituição vai fazendo a sua história e criando a sua identidade com o contributo diversificado de muitos. E empobrece-se quando é governada sempre «pelos mesmos». Que têm sempre razões para não largar o cargo porque se julgam insubstituíveis. Esquecem que a condição de «irmão» precede e continua-se após o cargo ocupado. Que deve ser sempre temporário.

Espera-se, agora, uma diferença de comportamento. Exige-o a «diferença cristã». Se é que a aceitam. Se não, porquê e para quê se dizem «irmãos»? Os eleitos lembrem-se do que criticavam nos vencidos, sejam humildes para aceitarem a experiência de outros, ousados nos «cortes» mas respeitadores de uma identidade. Os vencidos lembrem-se que não deixam de ser Irmãos por tal facto. E se tinham bons projectos partilhem-nos. A Santa Casa exige-o.

28 de Dezembro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #14

No fim da missa. Ouvida a Palavra de Deus e reconfortada das mágoas da vida, a velhinha interrompe-me para desabafar. Lamentava-se de viver sozinha. E aproximava-se a noite do ano em que a solidão mais custa. Na noite que «nunca mais passa», ela inveja os lares calorosos com as crianças que dão aquele toque de magia e de ternura àquela noite especial em que tudo tem um sabor único.

Que palavras poderia eu encontrar para consolar aquela velhinha?!

E lembrei-me de duas noites especiais da minha vida, passadas em Paris. Numa delas, recebido um cheque de um deputado português para o Natal dos pobres da comunidade portuguesa, bem tentei reunir algumas famílias para se disporem a passar a noite em serviço aos mais pobres. Consegui as famílias para se porem ao serviço... mas os pobres!... Na outra noite - a que conservo mais marcante na minha memória - ofereci-me para estar em directo na rádio Alfa com os portugueses, que desabafavam mágoas e saudades do natal em Portugal. Marcaram-me algumas chamadas de gente que passava aquela noite em lágrimas, porque habitualmente viviam sozinhas e assim o preferiram ou não tiveram quem se dispusesse a abrir as portas da sua casa ao vizinho só. Noutras intervenções a mágoa radicava no divórcio, no abandono do lar ou na morte de algum familiar.

Fiquei contente quando, há dias, me diziam que as meninas da Casa do Menino Deus ou iam a casa de família ou já todas tinham famílias de acolhimento para aquela noite.

Permitam-me que sugira: que cada família olhe bem à sua volta para os seus vizinhos para descobrirem os que estão sós. Ofereçam-se para os acolher na noite de Natal. Não deveria ninguém passar esta noite única sozinho em casa. Reforcem o convite, diria até forcem a pessoa só a aceitar sair para a vossa casa. Lembremo-nos que «ninguém gosta de incomodar». Mas deveríamos ficar nós incomodados sabendo que alguém bem perto de nós não tem uma mesa para partilhar nem pode sentir o amor entre os irmãos.

Sabemos que, por mais fria que seja a noite, a de Natal será sempre calorosa quando há crianças: e Aquela criança que chamamos Menino Jesus é que, afinal, torna tudo diferente e torna aquela noite especial. Feliz Natal para todos.

21 de Dezembro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #13

Gosto de viajar. Não é novidade para ninguém. E porquê? Porque, por experiência, sei quanto uma viagem pode contribuir para o meu enriquecimento pessoal, que acaba por beneficiar muitos outros.

De facto, partir à procura de novos mundos, contactando com outras culturas ou estilos de vida, faz-nos sair da pequenez do nosso mundo, alargando-o a horizontes. Os nossos problemas ou preocupações relativizam-se ao percebermos outros modos de reagir em situações porventura iguais ou até mesmo adversas. Há relações humanas que se promovem e que, pela sua diversidade, nos ajudam a crescer e a ser melhores pessoas.

Lembro-me de ter lido, numa revista de viagens, a frase de um célebre autor: a natureza é um livro aberto. Quem não viaja não passou da primeira página.

Como crente, só posso estrar de acordo. O cosmos, a beleza do mundo criado é um estímulo permanente à contemplação e à admiração: que mundo belo Deus criou para mim!

Raramente viajo só para descansar. Também é necessário. Prefiro, porém, o tipo de viagem em que, em circuito, se passa de cidade em cidade, contemplando paisagens sempre novas, apreciando maneiras de ser diferentes, conhecendo a história e a cultura de um povo. Felizmente tenho encontrado guias de qualidade que nos fazem gostar de um país e da sua história.

Tratando-se de peregrinações - e hoje crescem cada vez mais os itinerários de peregrinação - o facto de um grupo sair do seu meio natural cria um modo de ser «especial» durante o período da viagem: a oração, as celebrações, o contacto com o local sagrado, o fervor que se recebe e transmite aos peregrinos desconhecidos «moldam-nos» e estimulam-nos à profundidade espiritual. E muitos vêem com os próprios olhos que rezar, ir à missa, penetrar de modo diferente no mundo religioso acontece por todo o lado. Faz-nos bem a todos ver e sentir como os outros rezam ou exprimem a sua fé.

Entre todas as peregrinações, a mais importante, mais profunda e marcante é, sem dúvida, a da Terra Santa. Estar nos lugares da vida de Jesus provoca-nos para maior autenticidade na vida cristã. Muitos repetem que, desde que estiveram na terra de Jesus, a sua vida cristã modificou-se e a sua presença na Missa faz constantemente a ligação do que ouvem com o local onde tal se passou.

Ultrapassar as condicionantes de uma decisão - os compromissos nem sempre permitem e o preço é sempre elevado - implica antecedência e cuidado nas escolhas abundantes. A relação qualidade/preço não pode ser desconsiderada.

14 de Dezembro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #12

Não é fácil dispor do tempo e da calma suficientes para saborear a leitura de um livro. Mas precisamos, todos, de ler, mais que o jornal diário ou as notícias que, via net, nos dizem em tempo real o que se passa pelo mundo. Um livro é sempre um bom amigo.

Já me vou habituando: quando saio por uns dias, acompanham-me sempre alguns livros - sempre mais do que o tempo disponível, de modo que também eles viajam à espera do seu (meu) tempo - e artigos de interesse que vou seleccionando.

Aconteceu há dias. Convidado para uma viagem de prospecção de novos itinerários, pude ler, desta vez, três livros, que vivamente recomendo:

1. Na noite mora a promessa. Cinco anos de um dizer-se, semana a semana, aos microfones da Renascença, levando um público que gosta de começar o dia Elevado, preparando-se para os embates do quotidiano, que o reduzem ao efémero e passageiro de instantes repetidos, tantas vezes sem sentido. Em jeito de oração, em diálogo com Deus, com a natureza, consigo própria e com os que lhe enchem o quotidiano, a teóloga Isabel Varanda ensina-nos a rezar a vida ou rezar com a vida. Páginas belas, de leitura fácil, a encherem as manhãs que «saboreiam» a promessa da noite. Andam à procura de uma boa prenda que continue o Natal todos os dias? Aí a têm.

2. Ressuscitarão os mortos? Quem não participou na conferência do dia 19 de Novembro, no Auditório Municipal, certamente já se arrependeu, se ouviu os comentários dos participantes. Já se aperceberam do que perderam? Não está tudo perdido. O P. Manuel Matos, conferencista, escreveu um livro, que podem adquirir no Cartório Paroquial, sobre os temas que desenvolveu na conferência. A curiosidade era muita para mim. Tendo-o ouvido na conferência, adivinhava o teor do livro. Mas tinha de o ler. E valeu a pena. De facto, adentrar-se por temas tão complexos como aqueles que se referem ao nosso futuro, na morte e para além da morte, não é tarefa fácil. E ele conseguiu-o, aliando a sabedoria bíblica às questões existenciais que a humanidade se põe ao longo dos tempos e juntando a sua experiência de crente, de investigador e de pastor. Não deixem de ler: a certeza do amor de Deus, encontrado na plenitude quando a morte acontece, reduzirá o medo e aumentará a serenidade e a alegria porque «vale a pena morrer, só para saber quem Deus é». Não deixem de o ler. Façam dele uma prenda aos vossos filhos e netos, preocupados com estas questões, que se habituaram a esquecer perante uma cultura do ter e não do ser.

3. O Cavaleiro da Dinamarca. Com 60 páginas apenas, este pequeno/grande livro de Sofia de Mello Breyner Anderson foi-me confiado por mão amiga há mais de um ano. O cavaleiro é um sonhador e um inquieto. Vencendo todas as dificuldades chega a Jerusalém E volta para contar. Por encontros e desencontros, a sua «estrela» nunca se apaga. Que belo hino à vida e ao sonho. Afinal, é bem verdade que «a natureza é um livro aberto. Quem não viaja não passa da primeira página».

7 de Dezembro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #11

Partilho as minhas convicções. Registo pensamentos e episódios da vida pastoral. É o objectivo desta coluna.

Entre as muitas dimensões da vida pastoral, valorizo o anúncio libertador da mensagem de Jesus e sou particularmente sensível à ignorância religiosa alimentada, comentada e até ridicularizada. Hoje mais que nunca, penso eu, ou encontramos uma linguagem nova para dizermos as verdades de sempre ou, simplesmente a mensagem não atinge as pessoas. Por outro lado, fico «revoltado» quando sectores da sociedade olham para os cristãos e os julgam como ignorantes e fora deste mundo.

Foi visível, na conferência sobre os Novíssimos o entusiasmo nas 330 pessoas presentes no Auditório Municipal. Confesso que fiquei feliz: pelo conteúdo e forma de exposição por parte do conferencista e pela numerosa assembleia que não cansou, mesmo que tenha havido exagero no tempo utilizado: foi extraordinário ouvir uma exposição de 70 minutos sendo tal o agrado que «não vi ninguém a dormir nem ouvi ninguém a ressonar». E quando terminou percebeu-se que ficaram com pena de não poderem continuar a ouvi-lo.

No dia seguinte, na assembleia eucarísticas das 9.00, no Senhor da Cruz, comecei a homilia por interpelar a assembleia: quem esteve na conferência? Quem quer partilhar o que sentiu? E foram várias as pessoas que, com entusiasmo, quiseram dizer a todos quão maravilhoso foi o que aconteceu. Certamente que uma parte, a maior parte da assembleia, se sentiu «penada» por ter passado alheia ao acontecimento. O evangelho que ouviram momentos antes falava da mágoa de Jesus sobre a cidade de Jerusalém: os judeus não foram capazes de estar à altura daquela hora, a da presença do Messias. E eu também «chorava» pois nos dias anteriores várias vezes exortei a que viessem escutar para forçarem a passagem de uma religião do medo a uma religião de esperança, libertadora e potenciadora do que de melhor tem a vida humana. Sim, pois já é tempo de os nossos «discursos sobre a morte» se abrirem à dimensão da esperança para podermos permear de divino o que o humano tem de menos bom. Impõe-se um olhar diferente sobre a morte inevitável, ao jeito do desafio do conferencista: estudar a Bíblia que nos dá respostas porque «vale a pena morrer só para saber quem é Deus». Com estas palavras, bem fundamentadas, provocadoras e ousadas, o P. Doutor Manuel Matos encerrou com chave de ouro a sua conferência.

30 de Novembro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #10

As novas tecnologias permitem comunicações mais rápidas e mais fáceis. Sem dúvida. Mas serão elas mais profundas e respeitadoras dos ritmos humanos?

Se não nos acautelamos, em pouco tempo reduzimos o ser humano a um robot: vão-se os sentimentos e o respeito pela especificidade do humano.

Na sua dimensão transcendente - a abertura para o divino, a «curiosidade» sobre o mistério da vida - o ser humano precisa de tempo para contemplar e de ritos e ritmos alternando palavra e silêncio. O mundo dos afectos está profundamente «afectado» na sociedade que os reclama e, ao mesmo tempo, os torna cada vez mais difíceis.

Diante de um médico, todos queremos soluções rápidas, fáceis e eficazes. Certamente um dilema para o mesmo quando a cura exige tempo e a complexidade da situação não se compadece com respostas fáceis e rápidas.

Na vida de um padre, o seu quotidiano é marcado pelas pretensões fáceis e rápidas. A mais repetida desculpa «esfarrapada» é a de «não tenho tempo». E até se tende a substituir ou ignorar o contacto personalizado necessário para se «compreender» o dom da fé.

Há dias, alguém, via internet, me interpelou comentando situações e apreciando pessoas, positiva e negativamente. Era um bom «arrazoado». Que me mereceu um comentário muito simples: respeitando as opiniões divergentes e até aceitando os reparos, percebi que a pessoa não queria esclarecimentos. Numa resposta de duas linhas, dizia-lhe que também eu o compreendia e que, pela parte que me tocava, gostaria de dispor de possibilidades para agir de maneira diferente. O comentário/resposta não se fez esperar: «escrevi tanto para quê?».

Às vezes até aparecem pessoas «generosas» com vontade, dizem, de ser esclarecidas. Mas sempre exigindo que se entre no seu ritmo, na sua hora, na sua disposição. Ou respostas tão claras e rápidas de mistérios tão complexos, quanto os seres humanos são complexos na sua riqueza antropológica. Sim, porque tudo parte da realidade do humano para se entrar na dimensão do que é Transcendente.

Temos, felizmente, respostas. Mas não rápidas nem de «enlatados» pré-preparados. Catequeses de adultos, cursos de teologia, conferências... são respostas para quem quer, de facto, evoluir no conhecimento da profundidade do seu próprio ser. Respostas profundas e rápidas não são possíveis para uma questão posta à distância.

23 de Novembro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #9

O sentimento é generalizado. Pelo menos para as gerações mais velhas, educadas na prática de valores concretos, postos em causa nas últimas décadas. Perdeu-se o pudor, a vergonha, o respeito pela palavra dada. Impôs-se uma certa anarquia, relativizando tudo e destruindo referenciais de comportamento. Surgiram e desenvolveram-se oportunismos. A corrupção instalou-se no mundo da política e dos negócios. E nem as instâncias morais foram poupadas: são niveladas por baixo, «iguais» porque perderam o espírito que as fez surgir.

No mundo da política sabemos como os jogos de interesses, pessoais e de grupo, sacrificam a história de partidos e de pessoas que os fundaram tendo como ideal as «causas» do bem comum. E a própria democracia teve de encontrar mecanismos para se defender de certos «democratas» que se eternizam com os votos «comprados» de diversas maneiras... os tais meandros escuros do poder. Esquecemos a história - não convém o exercício da memória, porque ele evitaria repetir muitos erros - que foi por processos democráticos que Hitler chegou ao poder e fez o que conhecemos.

No mundo dos negócios, eis-nos todos a sofrer de uma crise injusta, que torna os ricos mais ricos, insensíveis ao sofrimento dos outros. E tudo com toda a «legalidade». O que conta é o jogo financeiro e quem não o souber ou, por razões éticas, se negar a jogá-lo é tido como palerma e fora deste mundo. E até não falta quem se sirva da Igreja para encontrar um «poleiro» de onde possa exigir «aclamações».

Felizmente que a ética, a fé, a Igreja não deixam de confrontar tais atitudes com o anúncio do evangelho de Jesus: quem quiser ser grande faça-se pequeno e ponha-se ao serviço. Só que tal linguagem só a ouvem alguns e dos que a ouvem poucos a põem em prática. Importa, para alguns, os tais auto-proclamados católicos não-praticantes, nem sequer ouvi-la porque ao menos evitam o incómodo. Na sua sabedoria e experiência a Igreja «instituiu» os mandatos de triénios, logo a termo certo. Isto todos o sabem, mas há sempre uma «volta» a dar...Porque é que há cargos nas instituições da Igreja apetecidos e, para os atingir, se perde mesmo a vergonha, enquanto há outros, menos visíveis, que ninguém quer e é preciso mendigar quem os possa ocupar? Esquecem os que se julgam insubstituíveis que, para lá estarem, outros tiveram a humildade de os largar. Ou, humilhados, os puseram a andar.

Também nestas instituições há muita hipocrisia e apetência de poder. Que não de serviço. Infelizmente.

16 de Novembro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #8

É inevitável. Acontece em qualquer esfera da actividade humana. Todos precisamos de organização e de hierarquizar responsabilidades, independentemente do método seguido para se ocupar um ou outro lugar.

Há, assim, muito de comum entre as organizações civis e as organizações religiosas ou eclesiásticas. De facto, o ponto de partida é sempre o mesmo e comum: somos todos seres humanos.

Haverá, no acontecer eclesiástico ou cristão, algo de específico, próprio, que não exista nas organizações civis?

E a resposta, irrenunciável, só pode ser uma. Sim, porque o Espírito Santo, a Presença de Deus permeia as actividades humanas quando feitas em nome de Deus. O cristianismo vai até mais longe: Jesus declarou que tudo é dom de Deus e quem conduz a história é o amor invisível e misterioso de Deus. Logo, em tudo e sempre, há que atender a este «terceiro», que é, se O deixarmos ser, ponto de partida e ponto de chegada, bem como companheiro «assistente» em todo o processo.

Vem isto a propósito dos muitos comentários, a favor e contra, sobre o papa Francisco. Como aconteceu com todos os que o antecederam. E acontece com todas as pessoas que ocupam cargos de responsabilidade mais ou menos destacados.

Que o olhar de outros não saia das apreciações mundanas e catalogantes de mais ou menos audaz para reformas ou de mais ou menos «conservador» e «preso» ao passado, não nos admiremos. Mas, tratando-se de cristãos que dizem ser seguidores de Jesus, tal não se tolera. Ou não é verdade que, como cada um de nós, o Papa é também humano, discípulo e aprendiz como nós dos ensinamentos do Mestre, responsável diante do evangelho de Jesus a transmitir, como nós também, «obrigado» a usar da inteligência e de estratégias humanas para «servir» o povo de Deus, sujeito a nem sempre acertar nas melhores decisões, como nós também, mas a nunca desistir das suas «procuras» da Verdade que é Deus, como nós também? Afirmá-lo é comprometer-se com toda a compreensão para com os juízos díspares que nos rodeiam.

Mas de nós cristãos, espera-se mais: a assistência especial do Espírito Santo, o «poder das «chaves» que Jesus lhe confiou, gera tranquilidade na Igreja, uma tranquilidade que não deixa cruzar braços mas que encoraja a nunca desanimarmos mesmo quando o barco parece ir ao fundo: «não temais , gente de pouca fé»!

9 de Novembro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #7

A desorientação é grave. A cultura ocidental contemporânea sofre da falta de referências credíveis. Elas abundam, mas com o vírus da auto-destruição no confronto para se imporem. Perdemos o sentido do absoluto, do verdadeiro, do belo. Perdeu-se a noção de Sabedoria. Vivemos um relativismo que mata. E no meio de tudo isto, todos sofrem. E todos colaboramos no mal. Pois é mais fácil «ajustar-se» às modas conjunturais do que reagir, tomar posição e lutar. Apesar de toda uma civilização de séculos anunciar o destino eterno do ser humano como vida eterna na luz e na paz, hoje a ausência imposta de Deus deixa cada um entregue a si mesmo. Vivemos uma realidade de orfandade: esquecido Deus como um Pai, estes «irmãos dispersos e em luta uns contra os outros» acabam por destruir-se uns aos outros.

O fim de semana que estamos a viver é marcado, na Liturgia, pela Santidade de todos e pela Comunhão de vivos com os que já morreram. Só que a Comunhão só se pode fazer entre vivos. «Dispensada» a condição adquirida pela vitória de Jesus na Cruz, que venceu a própria morte e é para todos garantia de uma vida que se prolonga para além do fechar os olhos biológico, não temos alternativa senão falar de morte. De uma morte que se nos impõe, sem apelo nem agravo. Morremos e ficamos na morte. Ponto final.

Triste condição humana, esta: a de me resignar a tudo terminar num momento de morte, seguido de uma sepultura debaixo de terra para sempre. Mais triste ainda quando vimos de um tempo em que se viveu e sentiu a alegria do Crer: a vida vence a morte. E este anúncio carrega-nos de esperança e vence o sentimento de frustração, de derrota que a morte inevitavelmente carrega consigo.

Num processo maravilhosos de «evolução», o ser humano «larga» e agarra ao mesmo tempo uma novidade permanente. Nascemos, crescemos e morremos, é verdade. Mas porquê considerar que a morte é a etapa que põe termo ao processo? De modo algum: a morte põe termo ao processo do Crer porque dá lugar ao Ver. Face a face no próprio ser de Deus que, num amor misterioso, me fez entrar no processo de vida. Por graça. Como por graça me acolhe para o Ver eterno.

Pobres de nós que nos «desfiguramos» quando passamos do Crer como Ver antecipado ao Morrer eterno!

É nisto que dá o abandono da prática da fé.

2 de Novembro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #6

É talvez o maior défice da cultura actual. O silêncio valoriza a palavra. Sem ele as palavras atropelam-se, desorganizam-se, chocam e o resultado é uma verborreia constante.

Nas sociedades modernas a palavra perdeu o valor para o visual. E nada ganhamos pois ambos se situam no domínio do efémero, do passageiro. Continuamos investindo no que é superficial e não na profundidade do ser. Este desprezo pela profundidade tem variadas manifestações. Basta pensar numa das causas atribuídas ao jihadismo que nos aflige: a falta de valores e de ideais que possam cativar as jovens gerações.

Fazer silêncio é a atitude que leva ao encontro de si próprio, à profundidade do ser. Nesse tempo de silêncio, a palavra começa a ter sentido e lugar. E se das palavras passarmos à Palavra, ao Verbo, a Cristo, então o horizonte do humano torna-se divino.

O local é importante para o silêncio. Retirar-se do ambiente de todos os dias e procurar um ambiente diferente onde as urgências do quotidiano deixam de o ser porque se decidiu, em atitude pessoal e livre, constituir novas urgências, as tais que vêm sendo adiadas face ao imediatismo que nos impomos ou outros nos impõem. Ser senhor do seu tempo, numa palavra, ousar a tentativa de se ser livre, eis o que permite um retiro. Tal como fazem tantos homens de negócios que, nos tempos de férias, programam não estâncias balneares ou passeios turísticos mas a pacatez dos mosteiros onde se deleitam a contemplar o silêncio da natureza ou a frugalidade dos monges ou as orações que elevam para um mundo espiritual - a tal diferença que procuram e de que ao longo do ano não conseguem usufruir.

A Igreja recomenda o retiro espiritual como momento de paragem, capaz de nos permitir uma maior intimidade com Deus. Deus como centro da vida humana ou o tempo para Deus fazem-nos elevar acima da superficialidade do quotidiano. E todos precisamos de «voltar às fontes», de nos recuperarmos como seres habitados pelo divino, de refazermos as nossas prioridades.

Aos sacerdotes a Igreja recomenda um retiro anual. Porque precisamos de rezar com mais calma e mais intimidade com o Senhor. Porque precisamos de fazer silêncio e olhar para o passado a fim de corrigirmos, avaliarmos e sentirmos a misericórdia de Deus.

E se cada um estabelecesse na sua vida pessoal uma decisão: retirar-se uns dias para contemplar do Alto a superfície? Há tantas maneiras de o fazer!

26 de Outubro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #5

Há cinquenta anos o Concílio Vaticano II deixou a sua marca na sociedade e na Igreja. Convidando a regressar à pureza das origens, indicou como missão permanente para a Igreja a atenção aos sinais dos tempos. Em todas as épocas e em todas as latitudes e situações.

Concretizando, estamos nós, os cristãos de Barcelos, a fazê-lo de facto?

Convenhamos e reconheçamos que existe um esforço notório nesse sentido. A última conferência Crer e pertencer em Barcelos - Novos Cenários Pastorais é, sem dúvida um dos sinais que lemos positivamente.

Se, por um lado, as 196 pessoas presentes, apesar de um dia verdadeiramente agreste de manhã à noite, manifestam um interesse claro em saber, em discutir, em apreciar por si, em cultivar-se, por outro lado, a atenção que dispensaram ao conferencista foi bem notória, sinal evidente de que temos um grupo de leigos cada vez melhor em qualidade e em quantidade.De facto, a Igreja de hoje já não se reduz aos padres e às suas maneiras de ver e de agir, mas há um laicado que toma cada vez mais consciência do seu lugar único na Igreja. O sacramento do Baptismo, que nos faz nascer para a Igreja, assume o primeiro lugar na importância, já que o da Ordem, gerando os ministérios ordenados, supõe aquele.

Os dados analisados deixaram-nos mais conscientes e esclarecidos para uma Igreja Povo de Deus, em missão, e já não confinada às igrejas e seus adros, onde se concentrava a vida comunitária. Os fenómenos do urbanismo e da cultura da contemporaneidade aí estão a pedir novas maneiras de agir em Igreja. Damos graças a Deus ao ver que os padres têm um laicado cada vez mais numeroso e mais adulto para partilhar preocupações e, num dinamismo oriundo do mesmo Espírito Santo, procuram novas maneiras de agir no tecido eclesial.

Duas notas a acrescentar: 1. nos actos culturais promovidos pelo Arciprestado na sede do poder autárquico - honra lhe seja ao abrir um espaço tão nobre e digno à cultura religiosa, sem preconceitos - há uma audiência de nível cultural mais elevado que se vai afirmando. Espera-se que alguns comentadores da nossa praça abram os olhos à realidade para deixarem de considerar injustamente os cristãos como menoridade intelectual: 2. Por outro lado, certas elites que se prezam na nossa cidade teimam em não arredar dos seus bancos de comodismo, sem se aperceberem daquilo que estão a perder. Ficam para trás. Pena que só avancem quando espreitam os «púlpitos» para colocarem a sua «gravata religiosa». Mostrem o seu valor real, se o têm, voltando aos bancos da formação, à cultura religiosa que supõem ter mas que, num qualquer hipotético exame, mereceriam reprovação clara.

19 de Outubro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #4

Na vida de um padre abundam momentos muito especiais. O contacto humano em situações tão diversas é a riqueza do ministério sacerdotal. Cada pessoa que contacta com o sacerdote revela ou desvenda um pouco do «mistério» da humanidade. Porque todas as situações são únicas, o desafio é permanente: cada pessoa merece um tratamento único, marcado pelo confronto entre a «sua» verdade e a verdade de Deus. O sacerdote medeia este confronto no respeito total das «duas verdades». E fica feliz quando percebe que ajuda este «encontro salvador» em que o mistério da fragilidade é permeado pela bondade de Deus.

Ainda que lentamente, a Igreja vai cumprindo o seu difícil papel de apresentar um Deus autêntico e verdadeiro, como Pai de todos, que a ninguém exclui. Numa sociedade cada vez mais idolátrica, falar do Deus de Jesus Cristo é hoje mais necessário do que nunca. Mesmo que conscientes das dificuldades para encontrar as melhores linguagens, o certo é que, crescendo o número dos desencantados da Igreja, cresce também o número dos que procuram um novo e mais verdadeiro modo de relação com o transcendente.

Apraz-me relevar dois acontecimentos significativos no espaço de uma semana: a catequese de adultos, retomada às quintas-feiras na nossa Paróquia e o Curso de Teologia Pastoral promovido pelo Arciprestado.

A participação foi extraordinária e surpreendente, capaz de revelar: há fome de Deus e de saber ou conhecer Deus.

Aliás, perante tantos desafios culturais, os cristãos são constantemente chamados a «mudar de paradigma». Não chega já uma prática religiosa de consumo de rituais. Impõe-se uma escolha livre e uma procura sincera de Deus. Esta faz-se em grupo, não isolados mas em comunhão uns com os outros, como companheiros de jornada.

Dou graças a Deus pelo que vou vendo e lendo como sinais positivos de uma Igreja que surge, marcada por uma nova qualidade de cristãos. Eles definem-se como «buscadores» não já de religião mas de adesão. A fé, para aquele que a procura viver com verdade, enche a vida de sentido. E permite viver a vida com beleza e sempre aberta à esperança. Os horizontes do verdadeiro crente alargam-se à medida do infinito. De facto, algo nos distingue: o crente é... afirma-se pela positiva; o não crente não é... afirma-se pela negativa.

Oxalá os crentes dêem um testemunho verdadeiro da fé que os anima, capaz de «perturbar» aqueles que, dizendo-se não crentes também são capazes de dizer: «quem me dera acreditar».

12 de Outubro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #3

Vivemos num mundo de contrastes. A nossa cultura favorece o individualismo irresponsável e descomprometido enquanto que, ao mesmo tempo, crescem as imposições superiormente votadas e decididas, ou impostas como inevitáveis, doa a quem doer.

As jovens gerações crescem ao som de direitos plenos e sem qualquer dever. Logo, os pais são tidos como criados com todas as obrigações para com os seus «meninos», os professores vivem desautorizados e com medo porque podem até ser agredidos mas não podem repreender nem, muito menos, castigar. Disciplina e sentido de responsabilidade são considerados «passado a esquecer».

Entretanto... o povo fica cada vez mais passivo, «domesticado» diante da carga de impostos e obrigações «porque tem de ser».

Olho para o interior da Igreja: vejo os «responsáveis» em fuga à responsabilidade. Por medo. Abandonou-se o sentido de disciplina, de respeito de princípios e orientações, esqueceu-se o Código e cada um assumiu-se «papa» nos seus domínios. Onde está a comunhão e o ideal a propor de uma vida de santidade e de uma Mensagem que é, por natureza, Boa Nova? Deixámo-la obsoleta e ninguém lhe quer pegar. Porque ela nos implica. E fugimos a compromissos.

Olho para a vida partidária e associativa para tirar lições: só vota ou é detentor de direitos quem tem as quotas em dia. Só tem descontos e serviços quem se inscreve e cumpre com os compromissos.

E nas nossas paróquias? Todos querem direitos mas não deveres. Passam a vida alheios à comunidade mas quando precisam aí estão eles orgulhosos do catolicismo dos pais e apresentando rótulos fora do prazo de validade.

Uma inscrição no grupo é sinal de decisão livre. E de respeito para com o grupo. Prefere-se abusar do grupo exigindo-lhe o que só ao grupo pertence. Triste sinal dos nossos tempos!

5 de Outubro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #2

Entrei na Catedral. E em vários monumentos do rico património religioso de Espanha.

Paguei o meu bilhete. E reconheci que o turismo se torna fonte de receita para os enormes encargos com o património.

E lembrei que, em Portugal, cada vez mais o acesso a templos religiosos se faz com a compra de bilhete. E se antes tal me chocava, hoje aceito-o como inevitável.

Entre nós, as igrejas do Terço, da Matriz e do Senhor da Cruz - o triângulo turístico da urbe - mantêm as portas abertas aos turistas e os encargos recaem sobre os cristãos que as frequentam.

Na Sé de Braga, com reacções esperadas, já se começou a pagar bilhete, apesar da quantia quase irrisória que se pede.

E o futuro que nos reserva a nós, barcelenses?

De facto, não gostaria de ver um dia a nossa Matriz com acesso condicionado a um bilhete que se tem de pagar. A Igreja é casa de Deus. Logo, casa de todos. Porque Deus não fecha portas a ninguém. E a todos quer abraçar.

Com as igrejas cheias, frequentadas e com vida, à semelhança do que acontece com uma família onde todos colaboram, o espaço é cuidado por todos. E pode abrir-se, com alegria, aos de fora.

Entretanto, os tempos são outros. Mais pobres, sim, de transcendência, de valores espirituais, de oração, de escuta da Palavra de Deus.

Esvaziam-se as igrejas que passam a lugares de turismo. Enchem-se os estádios, as feiras e os adros para que o barulho mate o silêncio que se procura na casa de Deus, onde aos que precisam de silêncio se lhes impõe o barulho que mata o espírito.

Não estaremos, também em Barcelos, a matar o «espírito» e a desenvolver apenas a «carne»? E que futuro tem uma sociedade que despreza as suas raízes, as almas grandes que moldaram a sua identidade hoje posta em causa?

Estado e autarquias vêem-se obrigados a criar fontes de receita para os enormes encargos com o património. Mas todos sabemos que uma casa se degrada mais quando desocupada.

Barcelenses, enchei as igrejas que os vossos pais cuidaram para vós. E sede dignos de transmitir aos vossos filhos os valores que eles vos ensinaram e que beberam nestes lugares carregados de história, de valores, de emoções, onde se forjou a alma dos nossos antepassados. Que merecem todo o nosso respeito.

28 de Setembro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


IMPRESSÕES DO QUOTIDIANO #1

O que aconteceu no domingo passado na Santa Casa causou surpresa generalizada e veio trazer à luz do dia algumas questões a que também eu não posso ficar alheio.

Tendo como ponto de partida apenas os relatos jornalísticos, constato, sem surpresa aliás, o modo como a opinião local olha para as instituições da Igreja. As duas ideias mais destacadas exprimem-se em termos de «assalto ao poder» e «facções partidárias».

É caso para ficarmos tristes. Não apenas eu. Mas todos os que se prezam de ser discípulos de Jesus. Como Pároco e Vigilante de várias instituições eclesiais assumo que falhámos na transmissão da mensagem de Jesus quando esta é bem clara: o poder é serviço. Servir e não servir-se.

E, numa primeira reacção «para dentro», surgem-me várias questões: Como é possível que os supostos irmãos ou confrades actuem nas instituições da Igreja como se fossem instituições político-partidárias? Como entraram nas confrarias? Pelo seu estatuto de «fiel da Igreja», que vive a sua fé e dela dá testemunho no mundo? Que alimenta a sua fé na Palavra e nos sacramentos? Que eclesialidade se verifica nas instituições e donde lhes vem a tal «eclesialidade»? Vivem à sombra da Igreja mas não querem a Igreja? E as «máquinas partidárias», a ser verdade o relato jornalístico, não se questionam sobre a legítima autonomia entre o temporal e o espiritual? Como ousam «assalto ao poder»? E este pretenso «assalto ao poder» é só de agora? Não estaremos diante de uma adulteração vergonhosa de um passado glorioso no serviço aos outros?

É verdade que, sobretudo a partir do Concílio, a Igreja tem manifestado uma clara e crescente confiança nos leigos, chamados a gerir instituições da mesma Igreja. Muitas delas herdeiras de uma folha de serviços invejável e que deram e dão prestígio a quem aparece como «rosto» do bem-fazer da Igreja. Será por isso que são tão apetecidas? Mesmo por aqueles que de Igreja apenas conhecem os rudimentos da catequese de infância, portanto, parados no tempo?

Porque é que encontramos «eternos» e «sempre os mesmos» em certos cargos, «convencidos» que só eles são capazes e que os outros «não prestam»? Já esqueceram que se eles entraram foi porque outros sairam? De livre vontade ou «empurrados»?

Pecámos, nós cristãos, Igreja, que cruzamos os braços e não cuidamos de preservar a matriz cristã e a comunhão eclesial. Não será altura de exigirmos coerência com os valores que a Igreja defende àqueles que se propõem a órgãos sociais das instituições da Igreja?

Esta reflexão tem destinatários concretos: eu próprio e os meus colegas padres, bem como os leigos empenhados na missão da Igreja.

21 de Setembro de 2014 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


A propósito de…  Gáudios ateus pelo Papa

«Alguns crêem-se livres quando caminham à margem de Deus, sem se dar conta que ficam existencialmente órfãos, desamparados, sem um lar para onde sempre possam voltar. Deixam de ser peregrinos para se transformarem em errantes, que giram indefinidamente ao redor de si mesmos, sem chegar a lado nenhum» (Papa Francisco, Evangelii Gaudium, 170).

1. A admiração, reconhecida pelo mundo fora, para com o estilo de Pontificado desenvolvido pelo Papa Francisco é motivo de orgulho para os católicos. Porém, corremos o risco de nos ficarmos pela contemplação exterior sem atingir o interior, isto é os grandes desafios que o mesmo provoca a todos, a começar pelo interior da própria Igreja. Admirá-lo implica não o atirarmos a um pedestal de vedetismo, muito em moda e ao gosto de certa comunicação social, habituada e interessada em criar ídolos, que ora desperta ora destrói e humilha. Admirar o Papa só se torna legítimo quando as suas denúncias e intervenções encontram eco em cada um de nós e à nossa volta.

2. Os primeiros destinatários do papa Francisco somos nós, os católicos. Nós, que devemos dar graças a Deus pela exigência de autenticidade que ele faz a todos. Não nos devemos, porém, admirar com o «gáudio» de alguns, confessadamente ateus ou agnósticos, gozando-se da «agitação» provocada no interior da Igreja. Porque sou católico, dou graças a Deus pelo Papa, que o Espírito Santo nos concedeu, e questiono-me permanentemente sobre as propostas ousadas que nos desinstalam de uma prática religiosa cómoda. Mas, irmanado numa condição humana marcada pela fragilidade, não reconheço a ninguém o direito de se pôr de fora deste dinamismo de autenticidade que ultrapassa, reconhecidamente, as fronteiras dos crentes católicos. A honestidade intelectual verifica-se no quotidiano: quando, em vez de me ficar numa admiração idolátrica, me comprometo na autenticidade que ele apregoa, que é um valor não exclusivo dos crentes. Sem o dizerem, a pretensa admiração dos não crentes postula o reconhecimento da necessidade de líderes como o Papa. Ou poderá revelar «inquietação» do mundo dos «laicos» com os efeitos colaterais, reduzindo-lhes oportunidades de vedetismo.

3. Compreendo certas manifestações de apreensão por parte de alguns católicos. Não habituados a gestos tão rasgados, radicais e exigentes – que têm sempre existido – custa-lhes «dar a volta» que há muito se impõe: a de uma prática religiosa mais autêntica, interventiva e crítica, que supõe investimento pessoal e comunitário na «conversão» aos valores perenes do Evangelho de Jesus, aculturados ao longo de dois mil anos. Conhecer para amar torna-se condição de autenticidade e é pelo testemunho e não pelo proselitismo que a Igreja se torna fiel ao seu fundador, Jesus Cristo (Papa Francisco).

4. Os ateus, ao contrário dos crentes, vivem no seu mundo fechado, reduzindo a percepção da realidade aos limites da racionalidade. O crente rasga estes limites e admite o mistério que o ultrapassa. O seu «ver» chega bem mais longe e sente a tranquilidade «intranquila» que o serena diante do mistério mas que, ao mesmo tempo, o estimula a avançar sempre mais na relação com o Outro, que ele reconhece nos outros que o rodeiam. Logo, como diz o Papa Francisco, o crente nunca está só, mas sempre comprometido com o «seu» mundo, que é o universo, a totalidade da criação.

5. A linguagem da fé tem os seus códigos próprios, diante do mistério de Deus, inefável por natureza. O próprio ser humano vive fazendo tentativas de se aproximar do «mistério» que cada um de nós é: um mistério «insondável» e «complexo», onde se situa a riqueza do ser humano. Falar da interioridade humana implica muito «silêncio» e tentativa permanente para encontrar a linguagem mais adequada. Muito mais o tentar dizer o mistério de Deus. Reduzidos à luz da razão, apenas ficaremos pelo caminho, angustiados pelas questões insolúveis, sem esperança e até revoltados diante do mistério. Precisamos da luz da fé para vermos mais, mas, diz o papa Francisco (Luz da Fé, 57) «a fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho».

6. Que pessoas confessadamente ateias não consigam ver mais que as sombras ou desvios da prática cristã, que existem certamente, não nos podemos admirar. Vêem com os olhos que têm e percepcionam a realidade a partir de si próprios, das suas experiências porventura deprimentes, agravadas em épocas de particular significado na sociedade: os tempos que precedem o Natal ou a Páscoa, as duas celebrações cristãs que mais extravasam as sacristias, trazem-nos uma especial «agressividade» contra os crentes, julgados «menores» e incultos por quem estagnou nos bancos da catequese de infância e se tornou incapaz de reconhecer tanto voluntarismo e dedicação aos outros, alimentados nas comunidades católicas, empenhadas na procura de sempre novos caminhos de vivência autêntica do Evangelho de Jesus. Estas existem, são cada vez mais e implicam um número cada vez maior de pessoas, «alegres» por participarem neste novo dinamismo de evangelização que o Papa Francisco está a imprimir à Igreja e mesmo à sociedade. 

7. Há dois mil anos que Cristo e o seu Evangelho «perturbam» muita gente. Uns convertem-se, outros não. A liberdade é dom. E a glória de Deus afirma-se na liberdade humana: Deus não Se impõe, propõe-Se. Ler os textos sagrados e compreendê-los, falar deles na linguagem adequada, a da fé que não exclui a da razão, é tarefa de que nenhum crente se pode dispensar. A Tenda de Natal tem-se afirmado como tenda de encontro de pessoas que rezam, discutem as verdades da fé e dialogam numa atitude de procura constante do Verbo da Vida. E ali se estudam os textos do Papa para os tornarmos vida. E procuramos ir mais longe do que os títulos dos jornais para nos enriquecermos da profundidade dos textos. Numa palavra, para se saber é preciso estudar. E o ser cristão hoje implica estudar as razões e raízes da fé. E isto faz-se em Barcelos. Quem o duvidar, não tenha medo. Mesmo deprimido e revoltado – afinal já Cristo nos avisou de que seria sinal de contradição e não prometeu aos discípulos vida fácil – apareça. Quem não reconhece que seguir Cristo hoje não está na moda mas também que o mundo evolui com aqueles que não se resignam às modas de cada tempo?

8. Na esteira de Bento XVI, o Papa reconhecido mundialmente como homem inteligente e culto, que até se debruçou, como académico, sobre os textos e tradições ligadas ao nascimento de Jesus, Francisco inquieta, em estilo próprio, quer a Igreja, quer o mundo do nosso tempo. Apreciá-lo honestamente implica esforço intelectual e pôr-se em causa a si próprio: ao lado de cada um está sempre alguém que não devo julgar de cima para baixo, esmagando-o e humilhando-o, mas antes dar-lhe as mãos para caminhar com ele. Esta é a atitude que os cristãos perseguem. Porque não convidar para esta postura os que se dizem ateus? Talvez não se julguem capazes e prefiram estagnar na sua cadeira de juízes intocáveis… mas os cristãos, por sua vez, não podem desistir dos irmãos ateus, respondendo-lhes com tolerância e propondo-lhes inclusão. Há diferença...

9. "As críticas não são outra coisa que orgulho dissimulado. Uma alma sincera para consigo mesma nunca se rebaixará à crítica. A crítica é o cancro do coração" (Madre Teresa de Calcutá).

15 de Dezembro de 2013 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


A PROPÓSITO DE… Conferência sobre a morte

Éramos 480. O Auditório Municipal tornou-se pequeno para tantos munícipes em busca de cultura. De um pensar profundo e elevado em assuntos difíceis mas actuais, necessários e provocantes. É neles que se situa a beleza da vida, porque neles se encontra o sentido das procuras quotidianas.

À partida julgado não atrativo, o assunto morte/ressurreição não meteu medo e foi tratado com arte e com simplicidade cativante. E o povo de Barcelos surpreendeu, pelo número e pela atenção, o conferencista, P. Vasco Magalhães, que se mostrou conhecedor e compreensivo para com as dificuldades do público.

Porque tantas vezes olhamos e não vemos, ouvimos mas não escutamos, fomos despertados para a necessidade de parar e de assumir tantas afirmações que fazem parte da gramática cristã. Os textos bíblicos, vertidos em várias culturas e atravessando os séculos, mostram-nos uma humanidade sedenta de Deus e desejosa de penetrar no seu mistério. E sente-se com direito a tal. Porque não quer ficar na ignorância no que se refere aos defuntos, como já S. Paulo afirmava.

E foi assim que expressões como «o fim dos tempos», «o terceiro dia», «a morte veio pelo pecado», ou «desde que nascemos estamos sempre a morrer» adquiriram nova luz.

Menos medo diante da morte, mais responsáveis diante da vida quotidiana, certificados de que o amor de Deus não se interrompe nunca e muito menos na morte, deixámos o Auditório Municipal desejosos de novas experiências culturais que nos ajudem a valorizar o dom da fé cristã, que embeleza a nossa vida. Percebemos que se «ficarmos com o catecismo», privamo-nos dos dons mais excelentes. Mas se «partirmos com o catecismo», ele torna-se bússola a orientar-nos nas procuras de sentido, que levam ao encontro com Deus.

14 de Novembro de 2013 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


A PROPÓSITO DE… Crenças acerca da morte

Sou o que sou. Não fui sempre assim. Tenho uma história com avanços e recuos.

Sou crente e as minhas crenças fazem parte de mim. Dias depois de nascer, tornei-me cristão. Passei a ser cristão. Devo-o e agradeço-o à fé dos meus pais.

As minhas crenças foram bebidas no seio familiar. Ensinaram-me sobretudo a «embeber» a minha vida em Deus. Um Deus sem discussão porque É. Sem o saberem talvez, meus pais deram-me o melhor que me poderiam ter dado: a fé em Deus que nos ama sempre.

Cresci. Não discuti as verdades que, entretanto, se foram acrescentando à minha personalidade em formação.

Nem sequer eram «discutíveis». Porque eram, simplesmente. Eram verdades. Daquelas que são necessárias para viver e alimentar a esperança. E o horizonte para onde apontava o ambiente familiar, como o da escola, era o de nos tornarmos adultos, responsáveis e úteis à sociedade.

Com o tempo vieram as dúvidas e o pôr em causa certas crenças, até ali inquestionáveis. O que aprendi no Catecismo, com linguagem que nem entendia, tinha de ser posto em causa. E isso custou-me. Era o preço do deixar a infância para me tornar adulto.

Momentos há, identificados, em que o processo de crescimento se fez com dor. Tal como a serpente que abandona a pele velha para se rejuvenescer de uma nova. E aprendi a largar para agarrar algo melhor. E dou graças a Deus por esse «morrer» aprendido na experiência.

Acredito que este processo acontece com todos. Nada tem de extraordinário. Recordá-lo é desafiar cada um a ir à sua própria história. Para perceber que sempre que nos agarramos ao passado, perdemos oportunidades no presente.

Porque é difícil estar diante da morte, falar da morte ou «aprender» a morte é que a fuga covarde está tão em voga na nossa cultura. Temos medo do mistério. Medo da morte. Medo do que nos ultrapassa. E preferimos o comodismo do «ignorar». Mas tal não é digno para ninguém. Arriscamos viver na ignorância «como os outros que não têm esperança», como diz S. Paulo. Mas nós, cristãos, não podemos viver na ignorância. É um pecado. E diante de tantas oportunidades de abertura ao mistério do humano, «fechar-se» empobrece-nos.

Urge reflectir as grandes questões sobre a vida humana. E sobre a morte que, na perspectiva do crente, abre para novos horizontes. E devemos fazê-lo sem preconceitos. Mas de coração aberto, como quem ousa subir com esforço, desejoso de contemplar, no alto do monte, um panorama único.

10 de Novembro de 2013 

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


A PROPÓSITO DE...  Fariseus (inchados) de hoje...

Estamos, todos, rodeados de pessoas «escravas» do passado, que não arredam dele e que impedem tanta beleza de vida que poderia acontecer. Quais «velhos do Restelo», impedem Deus e a Igreja de aparecerem na sua Verdade mais profunda, a de renovar sempre o mundo e a vida que nos rodeia. O apelo à conversão, essencial no Evangelho de Jesus, é o caminho imprescindível para a fidelidade ao passado: este não pode «agarrar» mas apenas tornar-se «rampa de lançamento». A liberdade tem este preço: «deixar» o que está atrás para descobrir o que está adiante. Os que sempre puxam para trás vivem carregados de medos: de se «perderem» ou de perderem «estatuto» ou importância. São incapazes de «agarrar» o melhor da vida, aquilo que Deus lhes oferece. Porque não querem largar o «passado». Há tanta gente «escrava» do passado… que não avança nem deixa avançar. Qualquer inovação lhes mete medo e constitui uma ameaça. Sentem-se «senhores» e patrões: o padre tem de fazer o que eles querem... querem mandar e aparecer. Não servir.

Há dois mil anos, Jesus viveu em constante conflito com tal gente. Dizia-se muito zelosa e «cumpridora» da Lei. Tinham a sua «confraria» e os seus «galões»: perfilavam-se diante de Deus de tom acusador sobre os rotulados de publicanos e pecadores, a quem olhavam do seu pedestral. Viviam «inchados» e apresentavam a sua factura de «fiéis e devotos» diante de Deus. Que os rejeitou e deslegitimou.

Tais «inchados» fazem da vida um inferno à sua volta. São uns «pobres coitados»... que exigem muita paciência.

Mas, afinal, não está o cemitério cheio de gente que se julgava insubstituível?

3 de Novembro de 2013

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso 


A PROPÓSITO DE... CAMPANHA ELEITORAL

No rescaldo das eleições, impõe-se-me saudar todos os eleitos, aqueles que se propuseram aos eleitores com propostas de bem comum: que procurem, no seu agir autárquico, ter sempre em conta as pessoas e o bem comum, servindo e não servindo-se. Saúdo também os não eleitos ou aqueles cujas propostas foram secundarizadas: saber perder, em democracia, pode significar que não é a hora oportuna para esta ou aquela proposta. No governo ou na oposição, importa ter sempre em conta o bem comum e não o bem pessoal ou partidário. A Igreja, que faz questão de não ter ou apoiar algum partido concreto, exorta os cristãos a entrarem na política para que os valores do Evangelho de Jesus, que é suposto serem o suporte da vida dos cristãos, contribuam para uma sociedade mais justa e fraterna.

A propósito de campanha eleitoral, saúdo o empenho de muita gente pelas causas que julgavam justas e as melhores. Mas repudio alguns processos e excessos que desrespeitaram objectivamente o respeito pela dignidade das pessoas envolvidas. Nem tudo é lícito em campanha eleitoral e os comportamentos dizem o que cada pessoa é ou vale. Não se podem fazer afirmações sem um mínimo de provas fundadas. Os adversários políticos não são inimigos a abater. E espera-se dos candidatos um comportamento que dignifique a actividade política. Com respeito pelo pluralismo que a democracia supõe, julgo que as máquinas partidárias devem repensar as suas estratégias e encontrar slogans mais «positivos» e voltados para o futuro. Defender e Despertar supõe ataque e sono. Serão frases inteligentes? De igual modo, a irreverência jota deixada à solta sem o bom senso dos mais adultos, além de ferir pessoas e criar injustiças, constituem um autêntico tiro no pé. Foi o que pensei ao olhar para certos cartazes denunciantes... do próprio mau gosto e de erros próprios atirados para cima dos outros. Os resultados revelaram que quase 40 anos de democracia já não somos adolescentes quando votamos.

6 de Outubro de 2013

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


A PROPÓSITO DE CASAMENTOS E FUNERAIS

1. Graças a Deus, já não faltam noivos que reconhecem que o casamento só tem sentido e tem beleza quando é celebrado na Igreja. Tudo o resto - juntar-se ou assinar papéis no registo - não presta. Quando assim pensam, eles estão a confessar que não são gente «qualquer», mas que exigem ser respeitados nas suas opções livres e «sábias». Dá gosto ajudar estes noivos na preparação do seu casamento.

2. A eles eu sugiro que cuidem também dos seus convidados. Alguns não deveriam vir à Igreja, mas só ao convívio. Porquê? Porque não sabem estar. E saber estar é muito importante. Porque destoam. E destoar é feio e não é respeitar aqueles que convidam. Ou seja, há gente que não merece ser convidada para um casamento religioso.

3. Acontece também nos funerais. Há gente que se torna presente... à porta da igreja. Para conversar com os amigos e perturbar a celebração. Se não estiverem fora da igreja num falatório perturbador não se vai pensar do morto o que se pensará deles. E o morto deve ser respeitado.... Deveriam ir apenas para o cemitério: a família daria conta da sua presença no derradeiro adeus... Daria conta... uma formalidade «mentirosa» pois que tal não é o importante num funeral religioso. Neste, exprimem-se sentimentos no contexto da esperança cristã que afirma que a morte não tem a última palavra. De facto deveria haver também funerais civis: cada pessoa não crente ou não praticante tem a sua dignidade e merece ser respeitada... também nas suas convicções. Se não gostou de missa em vida, porque a «obrigamos» a estar na igreja quando a pusemos no caixão?

4. Há tempos, um casamento que se revelou faustoso, fez-me acreditar, quando me aproximo da Igreja Matriz, que, uma vez mais os noivos estariam atrasados. De facto, eram muitos - uma centena? - aqueles que, em alto falatório se concentravam junto da Matriz. Ao entrar dou-me conta que a cerimónia estava já a terminar... e também de outro grande falatório ao fundo da igreja de gente alheia ao que no altar e com os noivos se passava. E até não me calei, diante dos de dentro e diante dos de fora. Imaginará o leitor o que lhes terei dito... e pensado: na Igreja Matriz de Barcelos exige-se respeito, pelo espaço, pela história, pelo sagrado, mas acima de tudo pelos noivos em festa e pelos que quiseram participar da cerimónia. Um cuidado a mais vou ter para o futuro: noivos, que recomendações de respeito e civismo ireis ter para com os vossos convidados?... A alguns dizei-lhes que vão «brincar para a quinta»...

5. Saber estar. Saber comportar-se à altura das circunstâncias. Na Igreja e fora da Igreja. Num casamento como num funeral... simplesmente civismo. Educação e respeito uns pelos outros...

29 de Setembro de 2013

O Prior de Barcelos - P. Abílio Cardoso


PROGRAMA DE ACTIVIDADES DA PARÓQUIA DE SANTA MARIA MAIOR DE BARCELOS

2013 / 2014

APRESENTAÇÃO

Foi há nove anos que iniciei a minha missão pastoral como Prior de Barcelos. Entramos, todos, pároco e paroquianos, nesta aventura de compromisso eclesial que, para mim, significa completar uma década da minha vida sacerdotal ao serviço de um povo concreto, com a sua maneira de viver a fé no presente na continuidade de um passado glorioso.

Pelos sinais que me chegam, posso dizer que os paroquianos, ao menos os mais empenhados na missão, já não dispensam este Plano de Actividades, que se renova todos os anos por esta altura. O seu formato, a exigir bom olho para a sua leitura é verdade, permite torná-lo presença permanente à mão de um uso diário. Englobando o que de relevante se propõe ao nível da Arquidiocese e do Arciprestado, ele propõe-se estar em lugar de destaque na casa da família e «repetir-se» nas mãos de cada um daqueles que precisam, semana a semana e dia a dia, de o consultar para conferir as actividades anunciadas do grupo a que pertencem.

A Fé Celebrada, palavra de ordem na nossa Arquidiocese, vai lembrar-nos, ao longo do ano, que o Ano da Fé se continua. Fé e Palavra entrecruzam-se e exigem-se mutuamente. Pelo que, não sendo propriamente novidade, apelam à novidade permanente, pois o crente não se «habitua» à Palavra ou à Fé como dado adquirido. Antes, a Palavra supõe sempre Aquele que a profere, Deus, fonte e origem do Ser, que provoca o crente alimentando a sua Fé. Porque o Amor, Deus, não cansa nem se cansa, o crente em Jesus Cristo saboreia a novidade permanente do Espírito que renova todas as coisas.

Com o Papa Francisco, queremos assumir os desafios do Espírito Santo e dar novo rosto à Igreja, também aqui na cidade de Barcelos. Assim, no presente ano pastoral 2013/2014:

  1. Tentaremos chegar mais longe na qualidade das nossas celebrações: peço, por isso, um maior cuidado na preparação aos grupos corais, leitores e ministros da comunhão. Eles devem assumir a sua especial obrigação de cuidarem a sua formação espiritual e teológica. Espera-se que, entre as nossas crianças e jovens e também entre os adultos, possamos encontrar grupos de acólitos, de acolhimento e de ofertório. A diversidade de funções e de servidores da liturgia impõe-se para que a sua Beleza se torne caminho de encontro com Deus.
  2. A Semana Bíblica, bem como a formação semanal proposta, visam o reencontro de alguns que sentem necessidade de redescobrir o encanto da prática religiosa. Esta exprime a verdade do crente que traz para o seu quotidiano Aquele em Quem acredita. E a iniciação cristã, finalmente a entrar na mentalidade dos crentes, começa a ocupar o seu lugar na estruturação da vida do crente cristão, que sente ser na Igreja, como comunidade de fiéis, na sua paróquia, que se faz a experiência de um amor, primeiramente recebido e depois partilhado.
  3. Um retiro espiritual, destinado aos paroquianos, particularmente aos que integram os diversos grupos apostólicos, é uma proposta que se destaca, pela primeira vez, no conjunto das actividades paroquiais. No primeiro fim de semana da Quaresma, no seminário da Silva, iremos fazer «deserto», para nos esvaziarmos de nós e deixarmos que o Espírito nos inunde.

Que Santa Maria Maior, nossa padroeira, nos ajude a caminhar ao encontro do que é essencial, o seu Filho Jesus.

16 de Setembro de 2013

O Prior de Barcelos  -  P. Abílio Cardoso


A PROPÓSITO DOS CASAMENTOS


Com a devida antecedência, estamos a receber os pedidos de casamento a serem celebrados na nossa Paróquia no ano 2014. Pede-se a todos os interessados que o façam até ao fim de Setembro, dado que em Outubro o Prior dará conhecimento público dos pedidos feitos e aceites.
Numa sociedade em crise de valores como aquela em que vivemos, a atitude dos noivos cristãos de casar na Igreja significa, antes de mais, a afirmação da sua fé católica e não apenas uma decisão «porque é bonito», embora entendamos que, cada vez mais, casar na Igreja é reconhecido como o «único» que tem valor e que vale a pena. E que o casamento na Igreja já começa a afirmar-se como o modo único de se mostrar uma «diferença» e de que não se é banal «como os outros».
Mas se a escolha do casamento na Igreja não se alicerça numa fé vivida, então ele entra num «jogo de mentira» e numa «instrumentalização» da Igreja, que os agentes pastorais deverão sempre evitar.
Dá gosto receber noivos que me dizem: sempre pensamos casar na Igreja porque temos fé e não passamos sem ir à Igreja. Por isso, queremos preparar-nos bem para este momento e queremos que nos ajude». Tal ajuda pretendida implica que tudo seja preparado a tempo, por fases e em diálogo de modo a que o projeto de vida a dois seja enriquecido pelo contributo de um CPM, de um fim de semana para noivos ou de outras propostas que a Igreja vai fazendo.
O Prior espera que não surjam pedidos «apressados» e por isso pede que até ao fim de 2013 deem entrada todos os pedidos, de modo a que, no início de Fevereiro possa haver um encontro com todos os noivos, proposto pela Pastoral Familiar da Paróquia.
Quanto à data da celebração, evite-se o tempo da Quaresma, conforme a pedagogia da Igreja e prefira-se o tempo pascal e tempo comum.


HOMILIA DE D. JULIAN CEBRIÁN AOS BARCELENSES

NA CATEDRAL DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

30 DE JUNHO DE 2013

Bem-vindos a esta Casa do Senhor Santiago, que vos acolhe com afecto especial, oferecendo-vos a sua hospitalidade espiritual e agradecendo-vos a vossa presença e participação. Na celebração do Ano da Fé, chegastes aqui como peregrinos da fé, buscando com a luz de ontem a luz de hoje e com a de hoje a do amanhã, até que chegueis um dia à plenitude da luz que é Deus, seguindo a tradição apostólica significada no túmulo do Apóstolo Santiago.

Toda a nossa existência é uma peregrinação, tantas vezes cansativa, na busca de certezas, estando nós conscientes de que para buscar a fonte autêntica só a sede de Deus nos ilumina nas noites escuras da fé. Quisestes unir-vos a tantos peregrinos que vêm venerar o túmulo do apóstolo Santiago, e viver a experiência da fé dos Apóstolos, que é a fé da Igreja, peregrinando com espírito de penitência, conversão e solidariedade.

Vivemos num contexto cultural que não nos permite estabelecer com facilidade uma relação com Deus de modo a darmos um autêntico sentido à nossa existência. O homem, encerrado numa suposta autonomia, precisa de se abrir a Deus e aos outros numa atitude de confiança e de amor gratuito, consciente de que Cristo nos revela Deus, nos oferece o conhecimento autêntico do homem e nos torna participantes da verdade que nos torna livres. Tudo o que atenta contra a liberdade do homem, torna-o pequeno.

A orientação litúrgica e espiritual da Igreja proclama neste domingo o gozo e a responsabilidade da vocação cristã, que é iniciativa divina para libertar radicalmente o coração humano. Os textos litúrgicos que acabamos de escutar falam-nos da chamada de Jesus, que nos convida a segui-lo pelo caminho da renúncia. Seguir Jesus é uma exigência de todos os dias que não admite descontos. Na vida cristã existe um triplo compromisso: deixar tudo pelo Senhor, como Eliseu; caminhar segundo o espírito de Deus; e não olhar para trás, uma vez iniciado o caminho: «Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus». Tudo isto temos nós de fazer na liberdade cristã. Esta liberdade consiste em fazer sempre a vontade do Pai e seguir a Cristo, servindo o próximo: «Colocai-vos ao serviço uns dos outros por amor», diz-nos S. Paulo. A verdadeira liberdade dos filhos de Deus está sempre em poder dizer: «Aqui estou para fazer a Vossa vontade».

Precisamos de fazer uma leitura crente da realidade em que nos encontramos. Mas não se pode entender o progresso apenas na dimensão puramente económica das pessoas. Devemos ter em conta as exigências da vida intelectual, moral, espiritual e religiosa de todo o ser humano. Só assim se cuidará do desenvolvimento integral da pessoa humana. Dar testemunho da verdade é a forma mais relevante de viver a caridade e a fraternidade.

Também a nós o Senhor diz, como a Santiago e a seu irmão João: «Podereis beber o cálice que Eu vou beber?». Sabemos que a fé se propõe, não se impõe. Neste momento de grandes transformações da sociedade temos uma ocasião privilegiada para criar um humanismo novo, aberto à transcendência. Nem sempre está presente na nossa cultura esta marca humanista e muitas vezes se descuidam as questões relativas ao significado último da nossa existência. «O carácter humanístico da cultura aparece muitas vezes como algo marginal, enquanto se acentua a tendência a reduzir o horizonte do conhecimento ao que é mensurável e a descuidar toda a questão que toque o significado último da realidade». Em ordem a um humanismo autêntico, precisamos de pessoas atentas aos sinais dos tempos, e de testemunhas credíveis da fé, como vós, caros irmãos e irmãs. «As estruturas sociais, políticas e económicas revestem-se de grande importância mas não podemos esquecer os aspectos humanistas e espirituais, reconhecendo que foi sobretudo o cristianismo a força capaz de os promover, conciliar e consolidar».

Esta experiência da peregrinação na fé leva-vos ao encontro convosco mesmos de modo autêntico, a reconhecer a necessidade de salvação para si próprio e a abandonar todo o orgulho e presunção que geram confiança nas próprias forças. Com o espírito do peregrino aberto à transcendência, colocai-vos ao serviço do homem na sua verdade total.

Que Santiago e a Virgem Maria vos ajudem a animar com espírito cristão a sociedade. Que Deus nos ajude e o Apóstolo Santiago interceda por nós.


Minha é a missão de apascentar, mas não o rebanho  

As ordenações diaconais na nossa Arquidiocese acontecem no quarto domingo de Páscoa, conhecido como Dia do Bom Pastor. Logo, pelas 15.30, na cripta do Sameiro, o senhor Arcebispo fará entrar no presbitério bracarense sete novos diáconos: quatro deles destinam-se ao sacerdócio ministerial e os restantes três vão integrar o grupo dos diáconos permanentes. A missão de uns e de outros é de assistir ao bispo e aos presbíteros na celebração dos mistérios divinos e sobretudo o serviço da caridade. Rezemos e, se possível, participemos na celebração.

Entre os primeiros, com vista ao sacerdócio, encontra-se um jovem de Macieira de Rates, o Rui Manuel Gomes Sousa. À alegria de o vermos consagrar para sempre a sua vida ao Senhor junta-se o porquê - que o deve ser de todos os barcelenses - de, num concelho com 89 paróquias, considerado o mais jovem do país, não haver, depois do Rui, mais seminaristas barcelenses no Seminário Maior de Braga.

Este porquê deve inquietar todas as paróquias e levá-las à oração.

O dia do Bom Pastor deve trazer-nos outras inquietações:

a) Quem é o Bom Pastor? Habituados a considerar o Pároco o pastor da comunidade, não podemos esquecer que o verdadeiro Bom Pastor do rebanho é Jesus. E Jesus apascenta, alimenta o rebanho conduzindo-o para o Pai.

b) A quem pertence o rebanho? Em recente formação, parei a reflectir: a mim pertence a missão de apascentar, mas não o rebanho. Porque este é pertença de Jesus, o Único que deu a vida por ele. E, recentemente, o Papa emérito, aquando da sua renúncia ao ministério petrino, destacou que a Igreja não é do papa mas de Jesus. Do papa, como do bispo ou sacerdote, é a missão de apascentar.

c) Como pastorear? Só amando como Jesus. Ele, no seu confronto com os judeus que ora O queriam aclamar Rei e Messias à semelhança dos reis mundanos, ora O acusavam de agitador e de blasfemo, deixou bem claro que a sua missão, o seu pastoreio era radicalmente novo, não coincidia com as categorias já conhecidas. Ele ama a ponto de dar a vida e, por isso, Ele afirma-se o Caminho, a Verdade e a Vida, o Único que leva até ao Pai.

À semelhança de Paulo, ousado pregador que atrai e convence pelo testemunho, quer os judeus, quer os gentios, mesmo à custa dos ciúmes dos religiosos judeus, que instigam senhoras influentes para se oporem ao evangelizadores, sejamos nós, os pastores de hoje, capazes de não nos deixarmos agarrar pelos que se supõem já evangelizados e a quem damos um alimento demasiado «mastigado», que impede, por vezes, a responsabilidade pessoal de procurar por si as vias que levam para o Pai. E passarmos para as «margens», as «periferias» onde não faltam sinceros buscadores da Verdade de Deus.

21 de Abril de 2013

O Prior - P. Abílio Cardoso


T R Í D U O    P A S C A L    2 0 1 3

C O N V I T E

O centro de toda a liturgia da Igreja está no Tríduo Pascal, que começa na quinta-feira à tarde, depois de, na manhã desse dia, se celebrar a missa da instituição do ministério sacerdotal. A celebração da missa com as promessas sacerdotais de todos os padres à volta do seu bispo explica por que razão em Barcelos não há celebrações na manhã de quinta-feira santa. À tarde, será entronizado o Santíssimo Sacramento nas diversas igrejas que, cuidadas e ornamentadas com esmero, merecerão a visita de muita gente que vem adorar Jesus na Eucaristia.

QUINTA-FEIRA SANTA - A grande celebração de quinta-feira santa é a Missa da Ceia do Senhor, com o Lava-Pés, às 19.00 na Igreja Matriz e às 21.30 em Santo António, seguida de adoração.
Às 20.30, a Família Espiritana vai celebrar a Ceia Judaica nas salas da catequese.

SEXTA-FEIRA SANTA - É dia de jejum e de abstinência. Às 10.00 haverá, na Igreja do Terço, um momento de oração/reflexão, animado pela Família Espiritana mas aberto a todos. Às 15.00, sugere-se que, onde nos encontremos, guardemos um minuto de silêncio em memória do Redentor. A celebração da Paixão, com adoração da cruz e oração universal será às 15.00 na Matriz e em Santo António. Nessa celebração o ofertório destina-se aos Lugares Santos. Haverá também Via Sacra na Igreja do Terço às 17.00 e no templo do Senhor da Cruz às 18.00. Às 19.00, na Matriz haverá uma adoração da cruz ao estilo de Taizé e às 21.00, a Família Espiritana estará Como Maria junto à Cruz, nas salas da catequese.
Às 21.30 sairá a procissão das Endoenças, promovida pela Santa Casa da Misericórdia.

SÁBADO SANTO - Às 10.00, haverá um momento de oração com Laudes na Igreja do Terço, animado pela Família Espiritana para toda a Paróquia. É o dia do grande silêncio, na espera de que Deus ressuscite dos mortos o seu Filho fiel.
A Vigília Pascal será na Matriz às 21.30 e em Santo António às 22.30. No final da Vigília da Matriz, com baptizados e Festa da Vida do 8º ano, faremos o cortejo da Ressurreição, Rua Direita acima, ao toque das campainhas, levando a água benzida e as cruzes pascais com que se irá anunciar a ressurreição pelas famílias de Barcelos no dia seguinte.

DOMINGO DE PÁSCOA - Além das celebrações habituais, o Compasso marcará o dia. Ele terminará com a concentração das diversas cruzes no templo do Senhor da Cruz, de onde sairá o cortejo das cruzes em direcção à Matriz, encerrando com a Missa vespertina da Ressurreição do Senhor e continuando-se o Dia de Pascoa durante toda a semana, com a chamada Oitava da Páscoa. A última visita do Compasso será, pelas 18.45, à Câmara Municipal.


TOMADA DE POSSE DOS ÓRGÃOS SOCIAIS DA

VENERÁVEL ORDEM TERCEIRA DE S. FRANCISCO 21/3/2013

Ocorre esta tomada de posse no dia do trânsito de S. Bento, que foi proclamado padroeiro da Europa, esta Europa que se tornou berço de civilizações e que deu novos mundos ao mundo, hoje a braços com uma grave crise que, antes de o ser de ordem económico-financeira, o é de valores.

Reconhecemos que quando o tecido social é afectado gravemente, até os políticos confessadamente ateus e agnósticos reconhecem o papel insubstituível da Igreja e das suas instituições.

A Venerável Ordem Terceira de S. Francisco é reconhecida na cidade e no concelho de Barcelos pela sua acção social marcada pelos valores cristãos, os mesmos que fizeram grande a Europa e que hoje se encontram desconsiderados.

Na base da Declaração Universal dos Direitos Humanos, como na génese da rica história da Casa do Menino Deus, está o evangelho de Jesus que a Igreja e as suas instituições têm a missão de servir, propondo-o a cada pessoa, chamada a aceitá-lo livremente.

Este é um momento importante na história da instituição. A tomada de posse dos corpos gerentes é ocasião para todos reflectirmos no grandioso passado da mesma e nas perspectivas de futuro que, em condições especiais da sociedade portuguesa, se vos apresentam.

O Papa Francisco, nos poucos dias que leva de Pontificado, já deixou bem claro que o poder é serviço. Ocupar cargos de gestão nas instituições da Igreja é aceitar servir e não servir-se. E, de facto, todos o reconhecemos, a credibilidade da Igreja e das suas instituições radica na verdade do servir e não do servir-se. Daí também que as Normas Gerais das Associações de Fiéis, ponto de partida dos Estatutos que regem a Casa do Menino Deus, apontam a limitação de mandatos como caminho de transparência.

Todos sabemos como o povo de Barcelos olha com carinho para a Casa do Menino Deus. Mas este olhar significa também desejo de que não se ponham nunca em causa os valores que fizeram grande esta Casa. A recente passagem da Direcção da Casa das Irmãs FMM para uma direcção a cargo efectivo da Venerável Ordem foi ocasião propícia para uma tomada de consciência de todos para uma obrigação de dar continuidade a um espírito reafirmado ao longo de décadas.

Na hora que a Igreja atravessa, vêem-se mais as sombras que as luzes. Assim acontece também com os homens e mulheres que servem a Igreja e as suas instituições. Não basta ser, é preciso também parecer. Rigor na gestão, transparência, funcionamento de cada órgão com a necessária autonomia dos restantes, tranquiliza os intervenientes e acautelam leituras erradas.

Não posso deixar de referir ainda dois aspectos que me parecem relevantes neste momento:

Habitualmente convido as Mesas das várias confrarias duas vezes por ano para nos juntarmos e dialogarmos. Considero de extrema importância a presença de cada um dos membros da Mesa ou Direcção da instituição. É o modo de eu, como Órgão Vigilante de tantas instituições na cidade, poder conhecer a realidade de cada uma e, ao mesmo tempo, proporcionar um diálogo construtivo entre todos. Peço-lhes que ninguém falte no futuro. Tive já ocasião de referir que, dado o reduzido número de membros ou irmãos, quer nesta quer noutras, urge renovar e ampliar a lista de irmãos. Pedi mesmo que se interajudassem de modo a, no futuro, se tornar mais fácil constituir listas diversificadas. Na nossa realidade local, não nos podemos dar ao luxo de não aproveitar a experiência de gestão de tantos cristãos que, amando a Igreja e tendo orgulho na sua situação de crente, aliam à sua condição de cristão empenhado na vivência quotidiana da fé, uma capacidade reconhecida de gestão. A uma confraria ou irmandade não pertence quem quer, mas apenas aqueles cristãos que vivem uma efectiva comunhão com a Igreja e seus pastores.

Uma palavra de louvor a terminar: o dia a dia leva-me a destacar, e faço-o porque tal tem sido notado não só por mim mas pelas catequistas da Paróquia, o cuidado no acompanhamento das internas da instituição. Continuem por este bom caminho.

P. Abílio Cardoso,

Órgão Vigilante da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco – Casa do Menino Deus



 

Famílias estáveis para o equilíbrio social

O que teria sido de cada um de nós se não tivéssemos crescido no seio de uma família, de uma família estável, que nos incutiu valores, entre eles o sentido de responsabilidade, de respeito pelos outros, particularmente os mais débeis (os mais velhos merecem sempre respeito...), da vida adulta digna, honrada e seguidora das tradições familiares...?
O pai e a mãe, com o seu «bando» de filhos, incluídos às vezes os avós e até algum tio ou tia, constituía o «lar» como espaço de paz, de harmonia e de inter-ajuda e era o lugar da partilha e do encontro de gerações. Ninguém se sentia só.
No nosso tempo o conceito de família evoluiu, diz-se. E experimentam-se ou até se impõem outras «formas de família», com a clara oposição da Igreja.
É ainda no ambiente de Natal, convidativo à contemplação do presépio, que os cristãos são chamados a contemplar a Sagrada Família de Nazaré. E da contemplação da harmonia e paz surge um desejo: que as nossas famílias transpareçam a mesma ternura que adivinhamos em José, Maria e o Menino Jesus.
A mensagem das leituras bíblicas escolhidas para esta Festa da Sagrada Família apontam para a sabedoria de Israel, transmitida no berço: o respeito sagrado de filhos aos pais e destes àqueles, como convém a quem «teme o Senhor».
E o evangelista Lucas (2, 41-52) regista, logo nos dois primeiros capítulos, e em jeito de introdução à sua obra, duas idas de Jesus ao Templo de Jerusalém: aos oitos dias para a apresentação e os ritos de purificação da mãe e aos doze anos pela festa da Páscoa, como o faziam todos os anos. E foi nesta altura, pelos doze anos, que Jesus se «perdeu» a discutir a Escritura com os doutores da Lei, dando uma resposta «enigmática» aos pais aflitos que O procuraram durante três dias (um anúncio dos três dias no túmulo): «Não sabíeis que deveria estar ocupado nas coisas do meu Pai?». Uma resposta que, mais uma vez, levou José e Maria a «guardar no coração». E que Maria cumpriu até ao fim quando, ao pé da cruz, Se manteve de pé, fiel sempre, na esperança da última palavra de Deus.
Todo o evangelho é convite e é escola de valores que só são possíveis quando a família não descura o seu papel de primeira instância educativa. A Igreja, no seu ensino, nunca hesitou em reconhecer aos pais o seu papel insubstituível na educação para os valores. Também para os valores religiosos. Pelo que, confiar os filhos à Igreja, pela catequese por exemplo, sem que os pais se impliquem, eles próprios, no anúncio e no testemunho da fé, dificilmente resultará. E a experiência diz-nos que o ensinamento doutrinal, mesmo que repetido com insistência durante um processo de dez anos, às vezes não cria jovens seduzidos por Jesus e pelos valores do evangelho. Muito pelo contrário. Todos precisamos de famílias estáveis para gerações equilibradas e felizes.  E de pais empenhados na transmissão de valores aos seus filhos.

30 de Dezembro de 2012

O Prior - P. Abílio Cardoso


Cartório Paroquial, espaço de acolhimento

Igreja Matriz de Barcelos

A inauguração deste Cartório Paroquial, colocado numa rua movimentada e central da comunidade paroquial da Matriz de Barcelos, é motivo para me congratular e agradecer a Deus e aos homens que o tornaram possível, mas simultaneamente oportunidade para reconhecer a importância destes espaços para a pastoral hodierna.

Houve um tempo em que a vida das comunidades se centralizava no edifício da igreja. A sociedade evoluiu e surgiram novas necessidades que a pastoral deve responder. Integrados nos Centros Pastorais Paroquiais ou fora do seu âmbito, os Cartórios Paroquiais podem determinar a qualidade da Pastoral. Daí que nunca podem ser considerados facultativos, estar situados em qualquer lugar e sem possuir o mínimo de dignidade. Eles são imprescindíveis e necessitam duma qualidade capaz de servir convenientemente a gente indiferenciada que o procura.

Sendo imprescindíveis, devem ter uma identidade específica em todas as paróquias. Para compreender esta identidade, podemos reflectir a partir daquilo que não devem ser, a fim de se perceber melhor o seu papel na vida da comunidade.

Neste sentido, os Cartórios Paroquiais nunca poderão limitar-se a meros espaços burocráticos, onde a prioridade são os papéis, obviamente necessários para um bom funcionamento de qualquer organização, ou o mero agendar, frio e apressado, de determinados acontecimentos requisitados pelas pessoas, que em alguns casos não têm a mínima consciência eclesial. É verdade que, na maioria das vezes, elas procuram-nos por causa de documentos, mas nós temos algo muito mais valioso para oferecer: uma pessoa, Jesus Cristo. Esse tesouro que transportamos em vasos de barro (2Cor 4,7).

Por isso, não sendo espaços de simples burocracia, devem tornar-se em locais verdadeiramente eclesiais, por onde a edificação duma "paróquia em comunhão" se realiza. Durante muito ou pouco tempo de atendimento, a prioridade deve estar colocada nas pessoas: nos seus problemas, propostas, direitos e pedidos. Não podemos esquecer que orientados por um conjunto de normas ou leis que não podemos desconsiderar. A Igreja norteia-se por princípios devidamente identificados e comuns à Igreja universal ou de determinação diocesana. Logo, o espírito de subjectivismo ou de relativismo nunca poderá ser apanágio de quem se considera cristão e, como consequência, deveria ter um sentido de pertença a este corpo místico de Cristo, respeitando para tal a universalidade das normas eclesiásticas.

Nesta comunhão, que também é normativa, o atender pessoas não se limita a impor determinados procedimentos. Um diálogo calmo e sereno consegue motivar para uma adesão feliz ao que a Igreja determina. Quando se pretende a aceitação forçada, quase sempre surgem conflitos. Só a caridade conduz à verdade e dará sentido à justiça. O Santo Padre é eloquente na sua Encíclica Caritas in Veritate e recorda que a caridade, com as suas variedades características, é único princípio motivador da vida dos crentes e das comunidades. Se ela existir, o resto virá por acréscimo. Sem ela, mesmo o trabalho melhor intencionado, é nada!

Uma das características da caridade que deve marcar o ritmo dos cartórios Paroquiais é o acolhimento. Era o que Paulo pedia precisamente aos cristãos de Roma: "acolhei-vos uns

aos outros, na medida em que também Cristo vos acolheu, para glória de Deus" (Rm 15,7). Sabemos que muitas pessoas vivem mergulhadas em problemas materiais, espirituais ou de índole psicológica. A sociedade está doente e necessita dum "ministro que cura" (Henri Nouwen, O Curador Ferido, 106). Pelos Cartórios Paroquiais passa ou pode passar tudo. Nem sempre as pessoas procuram papéis na ocasião dos sacramentos ou a resolução de problemas relacionados com a vida eclesial. Elas trazem também a sua vida e procuram alguém que as escute.

Penso que os Cartórios Paroquiais ou lugares de atendimento das pessoas, nesta perspectiva, devem revestir-se duma importância particular. Por isso, importa que os sacerdotes dediquem mais tempo ao confessionário e ao atendimento. Neste momento recordo as palavras do teólogo Gisbert Greshake, no Congresso Internacional sobre o Presbítero aqui em Braga: "o presbítero, antes de mais, deve estar no meio da comunidade, como homem espiritual, e estar aí para os humanos, orientado para o Evangelho e em relação pessoal com o Senhor" (Congresso Internacional sobre o Presbítero. À escuta da Palavra, 55). Além disso, o sacerdote juntamente com os leigos, voluntários ou funcionários, deve-se preparar humana e tecnicamente para atender e ser capaz de acolher a vida com todas as suas feridas. Acolhida aqui (no Cartório) a ferida da pessoa, ela pode encontrar a resposta fora: em pessoas para quem encaminhamos ou na comunidade que deve ter equipas preparadas e dotadas de meios.

O Cartório paroquial é o rosto da paróquia. E esta "é o seio em que os cristãos são gerados para a fé, é um espaço para crer, é o lugar onde nos tornamos cristãos" (Enzo Bianchi, A Paróquia, 25). Deste modo, o tempo que se dedica ao atendimento paroquial não é tempo perdido: é tempo de evangelização!

Que tudo seja feito com coração que sabe, exige e acolhe, levando a sério as pessoas e, juntamente com elas, pensar nas respostas. Não a partir da nossa perícia psicológica, mas na proposta do confronto pessoal com a Palavra de Deus. Pois "a fé que nasce do encontro com a Palavra divina ajuda-nos a considerar a vida humana digna de ser vivida plenamente, mesmo quando está debilitada pelo mal" (VD 106).

Dou graças a Deus e felicito a comunidade por este espaço, recordando o que ele deve significar na sua essência: o dever de atender bem as pessoas, em condições adequadas e na atitude de verdadeira comunhão, que procuram solucionar os problemas, de ordem jurídica, pessoal ou espiritual

Cartório Paroquial de Barcelos, 25 de Setembro de 2011

† Jorge Ortiga, A.P. 


  

Isabel Varanda em Barcelos

Sofrer para ser feliz é uma ideia perversa

«A ideia, que muitos atribuem ao cristianismo, de que temos de sofrer neste mundo para sermos felizes no outro, é perversa». Assim começou por dizer a Doutora Isabel Varanda quando na quinta-feira passada proferia a primeira de duas conferências quaresmais. E acrescentou: «O ser humano é um ser para a felicidade».

Com estas palavras a professora da Universidade Católica deu o tom a toda a conferência que proferiu subordinada ao tema Doença e Sofrimento, apresentando-os como fazendo parte da condição do ser humano, a exigirem o cuidado de uns pelos outros.

Perante uma assistência de duas centenas e meia de pessoas, uma parte delas habituada a participar nas catequeses semanais de adultos que a Paróquia de Santa Maria Maior promove na cidade de Barcelos, a conferencista salientou a dignidade ontológica de todos os seres humanos e apontou várias atitudes de comportamentos pessoais e colectivos a promover para com os que são atingidos pela doença.

À luz de uma sadia antropologia teológica, a visão do ser humano a partir da ideia de um Deus criador, cada ser humano é criado por graça, na graça e para a graça. Originado no dom, podemos e devemos dizer a cada pessoa: «por maior que seja a tua dor, seja qual for a tua miséria, Deus ama-te». Sim, este amor precede-te, não se quebra, antes reforça- se na tua fragilidade.

Olhando para o exemplo contado na parábola do bom samaritano, a conferencista convidou cada um a situar-se numa «ética dos máximos» e não dos «mínimos» pois que, naquela, o outro atinge um valor fundamental, tornando-se próximo.

«A fragilidade não é humilhação », frisou, comentando depois o Papa Bento XVI que afirma que «a grandeza da humanidade vê-se na forma como trata os que sofrem». Numa verdadeira hospitalidade – o evangelho de Jesus é todo ele um apelo permanente à hospitalidade, a deixar que o outro entre na nossa vida – «o frágil, o doente, que não tem resistências, tem o direito a que eu não me apodere dele». Esta «resistência à tentação de posse» é uma atitude que urge incentivar na sociedade. Não sou proprietário de ninguém, antes sou «guardião» que cuida à maneira do pastor. Nunca lobos que se apoderam dos outros como a sua presa. A inviolável dignidade ontológica de todo o ser humano não me permite remeter o outro ao estado de uma «coisa» que, nas minhas mãos, se sujeita ao que eu quero. Poderíamos traduzir o mandamento bíblico não matarás por este outro, de igual significado mas formulado positivamente, cuidarás da vida. De onde se pode inferir a vocação do ser humano como Cuidador (precisamos de uma cultura do cuidado). A este propósito, a conferencista evocou a expressão de Heidegger, que falava do ser humano como «pastor do ser» para reforçar a ideia de que nunca o ser humano se pode transformar em «lobo» para outro ser humano. Esta cultura do cuidado não exclui ninguém: nem a vítima na sua fragilidade, porventura atingida pela doença, nem o agressor que no seu agir se «apoderou» do ser e se tornou «lobo» em vez de «pastor». Porventura aqui se toca a excelência do ser cristão.

Olhando a pessoa atingida pela doença, tornar-se próximo dela no «cuidar do ser» significará, então, sofrer com (com + paixão), «atravessando» com ele o seu próprio drama e nunca, ao lado, contemplando-o na inevitabilidade do fracasso, como que «apoderando-se» no juízo que dele faz.

Se entendermos a saúde como a força para viver com a doença, estaremos na via do sentido do sofrer, ao qual não nos resignaremos, antes o combateremos, assumindo-o, enfrentando-o e não lhe passando ao lado. Foi precisamente a via que Jesus seguiu, este «atravessar» o sofrimento vencendo-o.

Um dos desafios lançados pela conferencista, a terminar, bem pode resumir os conteúdos apresentados, seguidos com a máxima atenção por toda assistência: «No dia em que os cristãos compreenderem que não nascemos para sofrer, que não temos que nos resignar ao sofrimento, saberão que consolar é estar com a solidão do outro, porventura no silêncio, mas presentes».

Isabel Varanda voltará Barcelos na quinta-feira, dia 13, para a segunda conferência em que falará de Morte e Ressurreição.

Igreja Beneditina de Nossa Senhora do Terço, Barcelos 1 de Março de 2008