ARQUIDIOCESE DE BRAGA

Pastoral Familiar

DIOCESE DE BRAGA ABRE SERVIÇO DE ACOLHIMENTO E APOIO À FAMÍLIA

 

Integrado no Departamento da Pastoral Familiar, este Serviço surge a partir do "Documento Orientador da Pastoral Familiar" que foi apresentado ontem nos Serviços Centrais da Arquidiocese e acolhe as propostas da Exortação Apostólica "Amoris Laetitia" do Papa Francisco.

Na mesma conferência de imprensa foi apresentada, pelo Arcebispo Primaz D. Jorge Ortiga, a Carta Pastoral "Construir a Casa sobre a Rocha", que orienta no sentido de «educar para a alegria do amor na família», da preparação para o matrimónio, acompanhamento dos jovens casais e apresenta os critérios de orientação pastoral para

aplicação do capítulo VIII da Exortação Apostólica "Amoris Laetitia" do Papa Francisco.

D. Jorge Ortiga explicou que o Serviço Arquidiocesano de Acolhimento e Apoio à Família visa ajudar os fiéis divorciados que vivem em nova união a «averiguar a existência de algum fundamento que possa introduzir a causa de declaração de nulidade do matrimónio no Tribunal Eclesiástico».

«Pretendemos agilizar o acesso ao Tribunal eliminando, entre outros aspetos, a ideia de que é um processo demasiado longo e caro», precisou o prelado.

Aos casais que não podem obter a declaração de nulidade do matrimónio mas querem «viver a fé cristã» e aceder aos sacramentos da Comunhão e Reconciliação, e ser padrinhos e madrinhas, é proposto um «itinerário de responsável discernimento pessoal e pastoral».

«Não se trata de conceder uma “autorização” geral para aceder aos sacramentos, mas de um processo de discernimento pessoal, do foro interno, acompanhado por um pastor com encontros regulares. Esse sacerdote ajudará no processo de discernimento à luz do ensinamento da Igreja», explicou o Arcebispo Primaz.

Este discernimento, acrescentou D. Jorge Ortiga, «poderá também orientar-se para outras formas de maior integração na vida da Igreja: maior presença na comunidade, participação em grupos de oração ou reflexão, compromisso nos diversos serviços

eclesiais».

Jorge Oliveira, In DM 18.01.2018

 

DISCERNIMENTO PODE SER UM PROCESSO LONGO

 

O acompanhamento proposto pela Pastoral Familiar poderá resultar num «processo longo», sugerindo a Arquidiocese de Braga que o caminho de discernimento percorra todo o ano pastoral.

«Os casais têm de estar prontos, por exemplo, para aceitar que não existem respostas pré-concebidas nem metas previamente definidas.

Se assim não fosse, nada haveria a discernir», vincou D. Jorge Ortiga, ressalvando, porém, que caberá, em última instância, ao casal tomar a sua decisão.

Compete ao diretor espiritual acompanhar o processo e assegurar que ele decorra com toda a normalidade.

«O casal de “divorciados recasados” e o diretor espiritual devem aceitar que não se trata de um processo para garantir o acesso aos sacramentos, mas antes um caminho espiritual para procurar a vontade de Deus», disse o prelado.

Segundo o Arcebispo Primaz, este acompanhamento pastoral exige do sacerdote, entre outros gestos, um «acolhimento fraterno», «capacidade de escuta atenta» e empenho no estímulo do encontro pessoal do casal com Jesus Cristo.

Contudo, D. Jorge Ortiga assinalou que neste itinerário de discernimento os pastores não devem substituir-se à consciência das pessoas ou «oferecer receitas simples», mas «ajudá-las a iluminar e formar as suas consciências, para que possam tomar uma decisão sincera diante de Deu fazendo o que melhor podem.

In DM 18.01.2018

 

EQUIPA MULTIDISCIPLINAR ACOMPANHA CASAIS

 

O Serviço Arquidiocesano de Acolhimento e Apoio à Família está sediado nos Serviços Centrais da Arquidiocese e pretende «disponibilizar um acompanhamento integral e multidisciplinar dos problemas familiares à luz da antropologia cristã e da verdade sobre o matrimónio e a família», indicou Amândio Cruz que com a esposa Rosa Maria Cruz coordena a Pastoral Familiar da Arquidiocese de Braga.

A valência funciona com uma equipa multidisciplinar constituída por um jurista em Direito Canónico, um psicólogo, um professor da Universidade Católica e com ligação ao

FACES (Centro de Atendimento Psicológico da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais), um psiquiatra, uma médica de Medicina Geral e Familiar e três sacerdotes jesuítas para acompanhamento personalizado tendo em vista o discernimento.

O jurista em Direito Canónico atende às segundas e quintas-feiras, das 09h30 às 12h00 e das 14h00 às 16h00.

No âmbito deste Serviço será criado um "Centro de Escuta" personalizado com o objetivo de «ajudar as famílias a enfrentarem as diversas dificuldades que podem experimentar ao longo da vida», adiantou Amândio Cruz, explicando que este centro resulta de uma «estratégia pluridimensional e interdisciplinar» onde participam, além de profissionais especializados, instituições de âmbito arquidiocesano que já lidam com famílias. Assim, alguns casos poderão ser encaminhados para o Centro de Escuta e Acompanhamento Espiritual, Cooperadoras das Famílias, Associação S. José (mães solteiras), Centro de Emergência Social, Cáritas, Associação Famílias, Oficinas de S. José, Colégio de S. Caetano e Instituto Monsenhor Airosa, instituições que contam com a colaboração de assistentes sociais e psicólogos.

O Serviço Arquidiocesano de Acolhimento e Apoio à Família poderá vir a ser alargado a outros arciprestados e «encontrar novas linhas de atuação conforme as necessidades», revelou ainda o casal.

Amândio e Rosa Maria Cruz explicaram que o acolhimento passa, inicialmente, por entrevistas personalizadas, em que é feita uma «primeira abordagem e avaliação da realidade», sendo depois as famílias encaminhadas para as áreas de acompanhamento mais adequadas.

Numa segunda etapa surge o acompanhamento multidisciplinar (terapia familiar/casal, assessoria jurídico-pastoral, serviço de acolhimento e promoção da vida, mediação familiar e assistência espiritual), que tem o propósito de «informar e orientar situações familiares irregulares (divorciados recasados, separados e famílias monoparentais) em ordem ao processo de declaração de nulidade matrimonial ou orientação para uma reintegração na vida eclesial (acompanhar, discernir e integrar).».

Jorge Oliveira, In DM 18.01.2018

 

ARQUIDIOCESE QUER RESPONDER AOS PROBLEMAS DA FAMÍLIA

 

O Arcebispo de Braga disse ontem que os problemas na família são «muitos» e há vários casos irregulares de casais que solicitam uma integração na Igreja Católica.

«A família hoje está invadida por um conjunto de problemas. Os problemas são muitos e variados, nomeadamente a violência doméstica, o abandono, o divórcio, as crises familiares», disse o prelado.

Foi para responder a estas e a outras situações problemáticas, como a integração de divorciados recasados, que a Arquidiocese de Braga editou o "Documento Orientador da Pastoral Familiar" e a Carta Pastoral "Construir a Casa sobre a Rocha". «Hoje, na Comunicação Social e em tantos outros meios, não se educa para viver em família e é preciso sublinhar que a família é uma realidade importante e deve ser defendida», sublinhou.

A Carta Pastoral está organizada em quatro capítulos, nos quais são avançadas orientações em ordem a «educar para a alegria do amor na família», à preparação para o matrimónio e acompanhamento dos jovens casais e são apresentados os critérios de orientação pastoral para a aplicação do capítulo VIII da Exortação Apostólica "Amoris Laetitia".

Neste tempo «particularmente exigente para a vida das famílias», a Igreja assume que é «urgente» «preparar os noivos para o matrimónio, acompanhar os casais nos primeiros anos de vida conjugal e discernir para ajudar a integrar as famílias mais frágeis», pode ler-se na conclusão do documento.

Nesse sentido, e integrada na aposta de renovação da Pastoral Familiar, o Centro de Preparação para o Matrimónio está a refazer o seu processo e molde de acompanhar os casais e está previsto, «para daqui algum tempo», a apresentação de outro documento para a preparação do matrimónio.

A Pastoral Universitária também é interpelada a contribuir na preparação para um viver na família segundo a exigência da Doutrina da Igreja.

In DM 18.01.2018

 

"CONSTRUIR A CASA SOBRE A ROCHA": UM COMENTÁRIO

 

Francisco, na sua Exortação Apostólica Amoris Laetitia, a Arquidiocese de Braga publicou uma Carta Pastoral, intitulada Construir a Casa sobre a Rocha, com propostas bastante desenvolvidas, relativamente à vida concreta das famílias e à sua relação com a vida eclesial, com um longo anexo recheado de sugestões práticas pormenorizadas, para a aplicação das ideias gerais da Exortação papal, respeitantes ao “processo de acompanhamento, discernimento e integração de pessoas divorciadas em nova união civil”. Após uma primeira leitura geral, o texto provoca em mim o breve comentário que apresento, também ainda genérico, pois um trabalho sobre o pormenor do texto exigirá mais tempo e mais espaço.

1. Antes de tudo, saúda-se esta Carta Pastoral, que ajuda, por um lado, a desfazer a eventual ideia de que as sugestões da Amoris Laetitia não chegariam a ter consequências práticas na vida dos casais concretos e, por outro lado, a esclarecer alguns pontos em que o debate internacional – sobretudo jornalístico – tinha ajudado a confundir, por vezes deturpando o texto papal. Ao mesmo tempo, saúda-se a qualidade do texto, pela sua clareza, profundidade, pormenor e, nalguns pontos, até originalidade pastoral. Será, sem dúvida, um dos textos emblemáticos na sequência da tão debatida Exortação. E, se for aplicado, permitirá um trabalho consistente com as famílias cristãs, em várias circunstâncias que não só aquelas que levantam maiores dificuldades.

2. No debate em torno da Amoris Laetitia, um dos tópicos que me parece mais importante manifesta-se na acusação de que esta Exortação Apostólica contribuía para a desvalorização do Matrimónio como sacramento e, consequentemente, a família como realidade fundamental.

Alguns consideraram que se introduziu um tom facilitista, que levaria à banalização da relação esponsal e parental, com grave prejuízo para uma realidade fundamental à Humanidade e à Igreja. Não creio, é evidente, que a Exortação do Papa Francisco possa ser lida nesse sentido. Pelo contrário. A sua própria existência já revela a importância central que a Igreja atribui à família – o que já vinha sendo acentuado por Papas anteriores. E, do ponto de vista doutrinal, nada se altera em relação ao Matrimónio.

Esta Carta Pastoral reforça o tom. Reconhecendo os problemas reais que marcam o quotidiano das famílias contemporâneas – como outros marcaram outros tempos – nunca se desvia da afirmação da sua grandeza e dos recursos para a superação das dificuldades. Seguindo muito de perto a Exortação papal, que cita muitas vezes, esta Carta é uma permanente afirmação e confirmação do valor imenso da família e das respectivas relações como núcleo da vida eclesial, e de modo nenhum envereda por uma leitura facilitista dos compromissos, que são e continuarão a ser compromissos para toda a vida.

3. É claro que não podemos ignorar o contexto socio-cultural contemporâneo. Ao tornar-se mais habitual e mais fácil – por vezes até mais banal – a prática da separação dos casais, não pode contar-se com o contexto social como “travão” ou impedimento do fracasso de muitas relações, como acontecia em épocas passadas. Não cabe aqui discutir se as pessoas nessas épocas eram mais ou menos felizes que agora – como também não se pode concluir, de modo genérico, que agora sejam mais felizes do que antes. As circunstâncias são simplesmente outras, e isso ninguém pode ignorar, muito

menos a comunidade eclesial, que tem por missão viver atenta aos sinais dos tempos.

Dessas alterações resultou, inevitavelmente, que seja necessário intensificar a preparação da vida matrimonial, muito mais do que noutras épocas. Se valorizamos a família, se defendemos a perenidade do compromisso esponsal e parental e a sua importância para a realização do humano, então é preciso investir na sua preparação, pois essa modalidade de compromisso não é favorecida, em geral, pela sociedade actual. O nível de maturidade que uma relação deste género exige, o conjunto de desafios que coloca, não podem ser dados como adquiridos pelo puro crescimento e envelhecimento das pessoas – caso contrário haveria hoje menos problemas, pois as pessoas até se casam mais tarde. É claro que não é preciso ser especialista comprovado

por diplomas para constituir uma família; mas não tenhamos ilusões: exigem-se muitas competências relacionais, em que muitos de nós somos actualmente deficitários. E não

temos o suporte social que compense, de algum modo, esse défice. Muitos fracassos posteriores devem-se, antes de tudo, a uma preparação superficial ou ausente a todos os níveis, incluindo aspectos práticos, afectivos e psíquicos.

Saúda-se, por isso, que a Carta comece, precisamente, pelo incentivo a essa  preparação. Feita com seriedade irá, certamente, evitar muitos dos desfechos dramáticos em que hoje somos envolvidos.

4. Acontecendo o inesperado – sim, porque para uma família cristã a separação terá que ser sempre inesperada... – há então que analisar as situações. Aí entra o processo de discernimento que esta Carta desenvolve de forma intensiva. Isso pode passar, em primeiro lugar, por avaliar a existência ou não de nulidade no matrimónio (o que pode suceder em mais casos do que pensamos); não sendo o caso, há que avaliar muitas circunstâncias, quer as que levaram à ruptura, quer aquelas em que, entretanto, vivem as pessoas separadas. É aí que não é suficiente uma lei geral e cega, mesmo que ela sirva

sempre de orientação fundamental, para evitar relativismos ou uma dupla moral, como bem refere o texto.

O modo exaustivo como é apresentado o percurso de discernimento não permite, aqui, uma análise em pormenor. Limito-me a salientar alguns aspectos que me parecem importantes.

Antes de tudo, e de modo geral, trata-se de um percurso muito exigente.

Temos que admitir que um casal que o percorra, mesmo com limitações, atingirá um nível de conhecimento de si mesmo e de experiência espiritual e reflexão sobre a sua fé que a maioria dos cristãos não possui. Nesse sentido, um casal que depois deste trajecto

experimente uma reinserção na vida eclesial, não o fará de ânimo leve nem sem um grande benefício pessoal e relacional. Não se trata, pois, de fazer uma espécie de “curso livre” para obter um certificado que lhe permita aceder a dimensões da vida eclesial que estariam vedadas. É algo muito mais profundo, com benefício para toda a comunidade

eclesial, que também deverá ser envolvida no processo.

O percurso exige muita humildade e capacidade de escuta. A oração é o nervo condutor, como atitude de escuta da vontade de Deus. Mas isso não implica que se evite a mediação da Igreja, em pessoas concretas. Um dos aspectos importantes deste processo

de discernimento é precisamente o acompanhamento de pessoas indicadas pela Igreja, para que não se resvale para subjectivismos problemáticos, ainda que seja a dois. Todo o trajecto se inspira muito na dinâmica de discernimento inspirada em Santo Inácio, que tem dado muitos frutos, em circunstâncias muito variadas.

5. Por último, e como “reparo”, diria o seguinte: assim como se espera que, na sequência deste documento, se criem equipas para acompanhamento de casais no discernimento da sua situação eclesial; assim como já há equipas e movimentos dedicados à preparação para o matrimónio; assim como já vai havendo formas de acompanhamento

dos casais, sobretudo dos mais jovens – será importante criar um dinamismo, com pessoas competentes e especializadas, que ajude casais em fase de crise, para eventualmente se evitar a ruptura definitiva. A mediação familiar terá que ser uma prática corrente, precisamente para conseguir que sejam cada vez menos os casais cristãos que se separam. A separação é e será sempre um drama indesejável.

A melhor pastoral é aquela que age antes do desfecho. O resto será sempre excepcional.

João Duque, professor | presidente do Centro Regional de Braga da UCP,

In DM 18.01.2018

 

"APRENDEMOS QUE O OUTRO NÃO É UM FATO FEITO À MEDIDA DO NOSSO QUERER E DA NOSSA VONTADE, É NECESSÁRIO DAR ESPAÇO E SABER ESPERAR"

 

“A grande preparação para o matrimónio é a preparação remota que os noivos receberam em casa. Uma verdadeira educação dos filhos, que gere processos de amadurecimento da sua liberdade, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia” (A Alegria do Amor, n.º 261)

A nossa história começa nas nossas famílias de origem, onde bebemos os valores da gratuidade do amor, do perdão, do saber esperar, do respeito mútuo, da misericórdia, do compromisso, da fidelidade e da felicidade. Dos nossos pais colhemos o grande testemunho de que o sacramento do matrimónio é para sempre. O amor não pode ser a prazo ou descartável, mas exige o empenho e o esforço de cada um. Conhecemo-nos em 1985, num grupo de jovens que era acompanhado por um sacerdote que vivia a espiritualidade do Movimento dos Focolares. Neste grupo, apesar de sermos muito jovens, fizemos a descoberta individual de Deus, um Deus Amor que amava cada um como era, com as virtudes e os defeitos, com a irreverência própria da juventude, e que nos deixava a liberdade de O seguir. Começar a viver as palavras do Evangelho revolucionou as nossas vidas. Amar cada próximo nas pequenas coisas de cada dia, por exemplo, em casa colaborar mais nas tarefas ajudando os pais, ou então ser o primeiro a pedir perdão numa situação de conflito. Esta nova vivência foi construindo em cada um de nós uma nova consciência e atitude de ser cristão.

Algum tempo depois começámos a namorar. Um período muito bonito, a primeira paixão de dois jovens em que tudo corria bem, no entanto, no coração sentíamos a questão: Será que é esta a estrada certa? Será esta a vontade de Deus sobre mim, sobre

nós? Continuávamos a participar nos encontros do grupo de jovens e individualmente confidenciávamos estas dúvidas e procurávamos ajuda junto do sacerdote. Um dia, decidimos terminar o namoro. Seguiu-se um período de vinte e nove meses em que com grande liberdade pudemos perceber melhor qual seria a nossa vocação, o caminho a seguir. Com o passar do tempo fomos percebendo que o casamento era a nossa estrada e, se era assim, era lógico ser um com o outro. Recomeçámos o namoro, procurámos conhecer-nos bem, gostos, diferenças, pontos de vista acerca de assuntos importantes. Começámos assim a construir as bases da família que pretendíamos constituir. Recordamos que nesta fase do namoro começaram a vir ao de cima algumas diferenças, os defeitos, começaram as oportunidades de pedir perdão e perdoar. Aprendemos que o outro não é um fato feito à medida do nosso querer e da nossa vontade, é necessário dar espaço e saber esperar.

Este é um treino que se faz ao longo de toda a vida. Saber esperar é caminhar contra a corrente e nós quisemos fazer essa caminhada. Como nos diz o nosso Arcebispo D. Jorge Ortiga, na Carta Pastoral “Construir a Casa sobre a Rocha”: “Muitas vezes, a preparação

imediata dos noivos para o matrimónio é manifestamente incompleta ou muito condicionada pelas circunstâncias próprias de toda a preparação para o dia do casamento. Este factor vem alertar para a necessidade de um empenho sério numa pastoral do namoro, em que todos, catequistas, líderes de grupos de jovens, promotores vocacionais e demais agentes pastorais unam esforços e trabalhem juntos de forma a mais cedo começar a preparação e o discernimento dos jovens para o namoro, noivado e matrimónio”. Foi precisamente isso que fizemos. Procurámos formação específica e participámos em encontros para namorados que na altura eram realizados por casais do Movimento dos Focolares. Eram encontros muito simples e familiares mas muito ricos de vida, os casais partilhavam com aqueles jovens namorados como tinham vivido o namoro, o noivado e como estavam a viver o casamento. Percebemos desde logo a importância de não saltar etapas e que cada fase da relação a dois tem os seus encantos e as suas dores. Namorámos três anos, foram tempos de grandes conversas, sobre o futuro, sobre quantos filhos gostávamos de ter. E se não conseguíssemos ter filhos biológicos, estaríamos disponíveis para a adopção? Ora estávamos de acordo, ora em desacordo, no entanto, nos pontos ou valores essenciais tínhamos o mesmo pensamento.

Em 1991 ficámos noivos, começámos com alguma antecedência a preparar o nosso casamento, não propriamente a boda, mas a preparação de nós mesmos, e decidimos participar no Centro de Preparação para o Matrimónio (CPM) com um ano de antecedência. Ainda hoje mantemos relação e temos como referência um casal que nos

acompanhou naquela formação. Foi um período intenso, acompanhado pelas nossas famílias e pelos nossos amigos, sentíamos que a nossa caminhada não era feita sozinhos, mas estava amparada por uma comunidade, por isso convidámos para a celebração do nosso casamento todas as pessoas que de alguma forma nos tinham ajudado a chegar até ali. Tínhamos consciência que o sim do nosso matrimónio não era só nosso mas fruto

da ajuda e oração de muitos. Procuramos viver o nosso casamento sob o signo do “para sempre”. Procuramos que a nossa casa e, sobretudo, as nossas vidas estejam abertas a todos. Passaram 25 anos que foram vividos intensamente com alguns momentos de provação e sofrimento que serviram de impulso para seguir em frente. Da nossa experiência, os momentos mais difíceis são os que mais solidificam a relação. A verdade é que fomos tomando consciência que a celebração do matrimónio não é uma meta, mas um ponto de partida. Com razão, o nosso querido Papa Francisco, na Exortação Apostólica “A alegria do Amor”, adverte os noivos para não considerarem “o matrimónio como o fim do caminho, mas o assumam como uma vocação que os lança para diante, com a decisão firme e realista de atravessarem juntos todas as provações e momentos difíceis” (n.º 211).

Deus deu-nos a hipótese de podermos concretizar alguns dos sonhos do nosso namoro, ter uma família grande, com quatro filhos, em que um é filho do coração.

Em jeito de conclusão, queremos afirmar que um casamento feliz é sobretudo a capacidade de amar com todas as forças, com toda a vontade, e estar disposto a dar a vida um pelo outro e acreditar na graça do sacramento, na graça de Deus. Somos felizes, por vezes no meio de lágrimas. Mas a verdadeira alegria da família nasce do Amor que dia a dia dá a vida pelos seus.

Amândio Cruz/Rosa Maria Cruz, casal responsável pela pastoral familiar,

In DM 18.01.2018

 

"O OBJECTIVO DE UM PROCESSO DE DISCERNIMENTO É PROCURAR A VONTADE DE DEUS"

 

A Arquidiocese de Braga publicou, recentemente, a Carta Pastoral “Construir a Casa sobre a Rocha” e um “Documento Orientador da Pastoral Familiar”. Baseados na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, do Papa Francisco, os documentos abordam questões relacionadas com a Pastoral Familiar e definem linhas orientadoras para a sua renovação. Dos caminhos apontados destaca-se o processo de discernimento proposto aos divorciados recasados para procurarem “a vontade de Deus, que pode ser, ou não, a de possibilitar o acesso aos sacramentos”, explica o Arcebispo Primaz, D. Jorge Ortiga.

 

Ontem, em conferência de imprensa, foram apresentados dois novos documentos sobre a Pastoral Familiar: “Construir a Casa sobre a Rocha” e o “Documento Orientador da Pastoral Familiar”. Qual a importância destes documentos para a Arquidiocese? O que se pretende com eles?

Na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, o Papa Francisco convida-nos a uma profunda renovação da Pastoral Familiar. Em síntese, estes dois documentos, agora disponíveis, traduzem em linhas orientadoras muito concretas o caminho de renovação da Pastoral Familiar na nossa Arquidiocese.

Sem pretendermos resumir ou substituir a leitura da Exortação Apostólica, nem tratar todos os assuntos nela abordados, a Carta Pastoral “Construir a Casa sobre a Rocha” procura apenas sublinhar resumidamente algumas orientações para esta renovação pastoral, nomeadamente no que respeita à preparação para o matrimónio, ao acompanhamento de casais jovens e à integração eclesial dos divorciados que vivem em nova união. Já o “Documento Orientador da Pastoral Familiar” surge como uma oportunidade para reorganizar a Pastoral Familiar, sendo que a grande novidade deste texto é o “Serviço de Acolhimento e Apoio Familiar”.

 

Como pretende concretizar este grande objectivo que é a renovação da Pastoral Familiar da arquidiocese?

O Programa Pastoral da Arquidiocese já pretende, entre outros desafios, despertar a esperança nas famílias, num acolhimento responsável e criativo da Exortação Amoris Laetitia. Por uma razão muito simples, e que se pode ler no número 31 da Exortação: “O bem da família é decisivo para o futuro do mundo e da Igreja”.

Na Carta Pastoral apresentamos quatro grandes linhas de força para levar a cabo esta renovação. A primeira, educar para a alegria do amor na família; a segunda, preparar os noivos para o matrimónio; a terceira, acompanhar os jovens casais; a quarta, definir critérios de orientação para a aplicação do capítulo VIII da Exortação Apostólica Amoris Laetitia.

Destas quatro orientações, permitam-me que sublinhe a necessidade de investirmos muita da nossa energia pastoral na preparação dos noivos para o matrimónio. De tal modo que no futuro penso que teremos de aprofundar esta questão e apresentar, sob a forma de documento, um itinerário, uma “espécie de iniciação” ao sacramento do matrimónio que lhes possibilite celebrar com as melhores disposições e iniciar com solidez a vida familiar, como nos pede o Papa Francisco. Penso que já todos chegámos à conclusão de que é manifestamente insuficiente uma preparação isolada e pontual.

 

A quem se destina esta Carta Pastoral?

A todos os fiéis. E quando digo todos refiro-me mesmo a todos: adolescentes, jovens, adultos, noivos, casados, diáconos, presbíteros, religiosos e religiosas, catequistas, todos os agentes pastorais. Aliás, nos números 201 e 202 da Amoris Laetitia, o Papa Francisco diz-nos que a conversão missionária é exigida a toda a Igreja. Mais, ele refere

que ela deve iniciar-se precisamente no seminário e nas paróquias, onde há falta de uma formação adequada neste âmbito.

 

A Arquidiocese tem algum plano formativo no âmbito da Pastoral Familiar?

Não. De momento não tem. No entanto, — e isso é referido na Carta Pastoral — o Departamento Arquidiocesano da Pastoral Familiar está a elaborar um programa de formação que dê seguimento ao n.º 204 da Amoris Laetitia quando exprime “a necessidade de formar agentes leigos de pastoral familiar, com a ajuda de psicopedagogos, médicos de família, médicos de comunidade, assistentes sociais, advogados de menores e família, predispondo-os para receber as contribuições da psicologia, sociologia, sexologia e até aconselhamento.

Os profissionais, particularmente aqueles que têm experiência de acompanhamento, ajudam a encarnar as propostas pastorais nas situações reais e nas preocupações concretas das famílias”. Competirá aos arciprestados, às paróquias e aos movimentos laicais a selecção de leigos que possam frequentar estas formações e tornarem-se, deste

modo, agentes locais de pastoral familiar.

 

Na Carta Pastoral existe um anexo com o título “Proposta de elementos práticos para um processo de acompanhamento, discernimento e integração de pessoas divorciadas em nova união civil”. Estamos a falar do processo que permitirá aos divorciados em nova união civil acederem aos sacramentos?

Não. Este processo é um caminho para procurar a vontade de Deus — que pode ser, ou não, a de possibilitar esse acesso aos sacramentos. O objectivo de um processo de discernimento é procurar a vontade de Deus.

 

Portanto, não há uma resposta definida à partida, seja sim ou não?

Correcto. Se houvesse uma resposta à partida, nada haveria a discernir. E, se é verdadeiro processo de discernimento, é então necessário aceitar que não se tem a resposta à partida. Mesmo que, consciente ou inconscientemente, haja da parte do casal uma decisão, o itinerário a realizar, sempre de modo mediado, levará à realização da vontade de Deus.

Devemos ter em atenção o seguinte: nem sempre o que desejamos é o que Deus quer. Nesses momentos, devemos ter a humildade necessária para acolher a vontade de Deus: o “Eu quero” de Deus.

 

Cerca de metade do documento é sobre o capítulo VIII da Amoris Laetitia… Porquê?

Porque o que se apresenta é um itinerário concreto. Repito, este documento é muito concreto. Não é um “vamos ver”. E, quer no ponto quatro da Carta Pastoral, quer no anexo, vem explicitado o que é um processo de acompanhamento e de discernimento e como este se desenvolve em cinco etapas: a oração e exercício em vista à aquisição de liberdade interior; a memória e exame de consciência acerca do casamento sacramental e das suas consequências com vista à aceitação e reconciliação interior e “cura” de todas as feridas que possam existir; a “avaliação” da relação actual: estabilidade da mesma, suas forças e fraquezas, perigos e potencialidades, bem como a consciência da presença de Deus e a vida dos dois envolvidos nesta relação e na família que porventura tenham já constituído, especialmente os filhos; a partir daqui, questionar-se sobre a vontade de Deus para eles neste momento e a melhor maneira de a pôr em prática: tomada de decisão em relação ao acesso aos sacramentos, que pode ser “sim”, “não” ou “para já não, porque reconhecemos que ainda há passos a dar”; o processo termina com a confirmação da decisão diante de Deus, pedindo a confirmação e avaliando os movimentos interiores, as moções do Espírito.

 

É neste processo de acompanhamento, discernimento e integração que entra o “Serviço Arquidiocesano de Acolhimento e Apoio Familiar”?

Sim. Não só para este processo em concreto. No fundo, é um “centro de escuta” de assistência personalizada, que tem como objectivo ajudar as famílias a enfrentar as diversas dificuldades que podem experimentar ao longo do seu ciclo vital. Tudo isto com uma estratégia pluridimensional e interdisciplinar onde participam profissionais especializados e diversas instituições de âmbito arquidiocesano que já trabalham com as famílias.

 

Já há uma equipa? Um gabinete de atendimento? Um horário?

Sim. Claro que este serviço de apoio está sujeito a melhorias. Esta equipa está integrada no Departamento da Pastoral Familiar e conta com uma jurista em Direito Canónico e Civil — atenderá nos Serviços Centrais às segundas e quintas-feiras das 09h30 às 12h00 e das 14h00 às 16h00 —, um psicólogo, professor da Universidade Católica e em ligação

com o FACES (Centro de Atendimento Psicológico da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais), um psiquiatra, uma médica de Medicina Geral e Familiar e três padres jesuítas, para acompanhamento personalizado. O gabinete de atendimento vai funcionar nos Serviços Centrais da Arquidiocese.

 

Não teme ser considerado um outsider, já que os seus irmãos no episcopado em Portugal ainda não apresentaram nenhuma proposta concreta sobre a aplicação do capítulo VIII?

Temo apenas não ser fiel ao que o Espírito Santo pede à Igreja. Confesso ser esse o meu único temor. O Santo Padre é muito claro no n.º 3 da Exortação Amoris Laetitia ao afirmar que “naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspectos da

doutrina ou algumas consequências que decorrem dela”. Por outro lado, sei que outros bispos estão a pensar propor um discernimento idêntico nas suas dioceses, dando continuidade ao que foi abordado em assembleia plenária.

 

Tem, certamente, conhecimento das críticas de que o Papa Francisco tem sido alvo a propósito da Exortação Amoris Laetitia, sobretudo em relação ao capítulo VIII. Desde que anunciou a apresentação desta Carta Pastoral e o itinerário de integração destes casais divorciados em nova união civil, algumas destas críticas também foram dirigidas a si… Merecem-lhe algum comentário?

Posso dizer, com toda a propriedade, que sou um ancião. Não compreendo a minha vida sem a Igreja. Nasci sob o pontificado do Papa Pio XII, fui ordenado presbítero no pontificado do Papa Paulo VI, ordenado bispo e nomeado arcebispo no pontificado do Papa João Paulo II, exerço o meu ministério sob o pontificado do Papa Francisco. A todos amei e servi o melhor que pude, com a graça de Deus. Nunca critiquei ou coloquei em causa nenhum deles. Acredito na acção do Espírito Santo na eleição dos Pontífices e sempre confiei no Colégio Cardinalíco. Isto para dizer que lamento imenso, e com dor, as críticas dirigidas ao Papa.

Além da Teologia, quando estudei em Roma, especializei-me em História, na Pontifícia Universidade Gregoriana, o que me permite uma leitura e interpretação dos acontecimentos na Igreja e no mundo, não só a partir de um olhar científico, mas sobretudo a partir da fé. E é com este olhar que vejo tantas surpresas, fruto da acção do Espírito Santo, com que Deus nos presenteou ao longo de dois mil anos.

A Igreja é uma realidade histórica em permanente transformação.

Dizia o Papa João XXIII — o Papa que inaugurou o Concílio Vaticano II, uma grande surpresa do Espírito — o Evangelho é sempre o mesmo, o que muda é a nossa compreensão do Evangelho, que cresce, é aprofundada, amadurece com o tempo. Todos precisamos de uma disponibilidade interior para acolher a realidade. É uma forma de confiança.

 

Estamos a terminar a nossa conversa... Gostaria de acrescentar alguma coisa, algum apelo, chamada de atenção?

Sim. Tenho um pedido a fazer aos sacerdotes. Seria bom, em todo este processo, terem um papel fundamental no encaminhamento dos casais para este serviço de apoio. E o pedido é este: disponibilidade para escutar, sem julgar, quem vai ao seu encontro. Eles sabem que hoje, mais do que nunca, teremos de caminhar com o povo de Deus, e a todos, no respeito pela sua consciência que ajudamos a formar, apontar caminhos de esperança.

Autor: Paróquia Sta Maria Maior
Fonte: interna
Sábado, 20 de Janeiro de 2018 - 11:26:02

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