MOURA PACHECO

Do geral ao particular

DO GERAL AO PARTICULAR

Descobertas recentes de casos de pedofilia no seio da Igreja Católica e, sobretudo, a reacção papal a esse fenómeno com a grande reunião, em Roma, dos presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, despertaram, na Comunicação Social, um inusitado interesse dominado por duas linhas mestras: uma generalizada impreparação para a abordagem do tema e/ou um latente, mas nunca assumido, anti-clericalismo (comentadores houve que, a partir daqui, prognosticaram o fim da Igreja Católica!).

A convergência dessas duas linhas levou jornalistas e comentadores a confundirem o geral com o particular, a focarem como particular e específico da Igreja um fenómeno que é geral, de todos os tempos e lugares, no género humano.

A Igreja vive no mundo. Sofre e beneficia dos defeitos e virtudes da sociedade em que se insere. É constituída por mulheres e homens desse mundo e dessa sociedade – com todos os defeitos, todos os erros, todos os crimes, toda a heroicidade, toda a generosidade, toda a verdade, toda a virtude de que é passível o ser humano. Mulheres e homens cujas fraquezas ou fortalezas PESSOAIS transportam para dentro da Igreja a

que pertencem. Defeitos ou virtudes que são pessoais e intransmissíveis – não são da Igreja.

Acontece, porém, que certos defeitos ou fraquezas – como a pedofilia – pela sua monstruosidade, assumem a categoria de crimes que – se praticados dentro da Igreja e por membros da Igreja – prefiguram uma dupla gravidade, porque são uma dupla ofensa: ofensa, e ofensa grave, gravíssima, à sensibilidade e à lei civil; e ofensa, mais grave ainda, à sensibilidade e à doutrina da Igreja, que vê nas ofensas às vítimas – ofensas ao seu próprio Criador.

Mas os crimes não são da Igreja.

São de alguns (pouquíssimos) dos seus membros. Não nascem dentro da Igreja nem por causa da Igreja ou da sua doutrina. Bem pelo contrário.

São «contrabandeados» para dentro dela por mulheres e homens oriundos de um mundo onde tais crimes são gerais e universais desde o princípio dos tempos.

Foi isto mesmo – este traço exógeno da pedofilia – que o Papa Francisco sublinhou num dos parágrafos da sua mensagem final aos Bispos, mas parágrafo a que (vá-se lá saber porquê!) a Comunicação Social deu pouco relevo. Razão acrescida para o transcrever aqui: «Estamos diante de um problema universal e transversal que, infelizmente, existe em quase toda a parte. Devemos ser claros: a universalidade de tal flagelo, ao mesmo tempo que confirma a sua gravidade nas nossas sociedades, não diminui a sua monstruosidade dentro da Igreja».

É difícil dizer melhor.

A pedofilia – como muitos outros – é um crime geral, universal e intemporal.

Não é um crime particular, específico de membros da Igreja – muito embora aqui duplique a gravidade.

Foi esta confusão – do geral com o particular – que amplamente se instalou entre repórteres e comentadores a propósito da resposta do Papa ao problema da pedofilia na Igreja.

Confusão por ignorância ou intencional? – eis a questão.

Nota: por decisão do autor, este texto não obedece ao impropriamente chamado acordo ortográfico.

 

Moura Pacheco, In DM 27.02.2019

Autor: Paróquia Sta Maria Maior
Fonte: Diário do Minho
Sexta-feira, 01 de Março de 2019 - 23:54:29

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