Não ter medo das perguntas

P. Tiago Freitas

Pensei escrever sobre o Sínodo que decorre na diocese de Liverpool e que agora atingiu a fase das recomendações. Alguns jornais sintetizam a novidade desta assembleia diocesana com a opção de colocar o laicado no coração das suas necessárias reformas.

O cenário traçado pelo arcebispo Malcolm McMahon é muito claro. Nos últimos 20 anos tiverem de encerrar 47 igrejas, a prática dominical caiu abruptamente e, a este ritmo, dentro de 25 anos terá apenas 50 padres no activo. Conclui, por isso, que o actual modelo de paróquias é insustentável. Estávamos no ano de 1994 e já o então cardeal Martini perguntava, em Milão, num cenário muito próximo ao de Liverpool, “o que fazer em tempo de «vacas magras»”? Agrupar paróquias e, sobretudo, delegar responsabilidades aos leigos foi o caminho mais lógico. É claro que, do ponto de vista dos leigos, esta opção nem sempre colheu simpatia. Ninguém gosta de se sentir protagonista suplente. 

Consultei então as 19 recomendações de Liverpool e confesso que fiquei surpreendido. A proposta mais votada, por todas as idades e áreas de empenho pastoral, foi a urgência de fazer das paróquias lugares acolhedores e inclusivos, bem como formar para o Ministério do Acolhimento. Algumas indicações eram muito concretas: remover barreiras físicas, linguísticas, emocionais e culturais que impeçam os cristãos de viver integralmente a sua vocação baptismal. Sem receios foi ainda proposto, de modo bastante expressivo, que se desenvolvesse um ministério arquidiocesano para a comunidade LGBTQ.

Nas últimas semanas muito se tem escrito na sequência da resposta da Congregação para a Doutrina da Fé à possibilidade de se abençoar uniões de pessoas do mesmo sexo. As opiniões parecem extremar-se. De um lado os que consideram que a Igreja não deve recusar a bênção a quem a procura com recta intenção. Uma posição defendida, por exemplo, pelos cardeais Vincent Nichols, Marx, por vários bispos, por mais de 200 teólogos alemães e tantos outros padres e leigos. Por outro lado, os que defendem a impossibilidade de qualquer espécie de bênção.

Entre uns e outros está também o Papa Francisco. Por um lado, confirma a nota da Congregação, em total sintonia com o que foi defendido pelo Sínodo da Família em 2015. E, por outro, reforça a urgência de um caminho de acolhimento, discernimento e de integração de pessoas homossexuais. Manifestou-o tanto na Amoris Laetitia (n. 250) como no apoio à criação de legislação para a união civil de casais do mesmo sexo. 

A minha surpresa prendeu-se com o facto de ter passado ao lado de parte dos meios de comunicação social a principal revolução do Sínodo de Liverpool. A aposta nos leigos não é a novidade proposta por este Sínodo. Em bom rigor, este é um discurso que circula desde há décadas nos bastidores da Igreja e nos círculos da reflexão teológica, mas que resiste, por muitas razões – que não teológicas – em tornar-se realidade. Bastaria ler o Motu Ministeria Quaedam de Paulo VI (1972), a literatura de grandes teólogos como Yves Congar (Touts responsables dans l’Eglise?), Bernard Sesboüé (N’ayes pas peur!) ou ainda acompanhar o trabalho – polémico – do Caminho sinodal da Igreja na Alemanha. 

Fundamental é reconhecer, como linha de princípio, que a Igreja, que todos nós, perde sempre que se torna intolerante e incapaz de dialogar. Liverpool fala de quem se sente excluído por ser homossexual, divorciado recasado, por preferir celebrar segundo o Rito Extraordinário ou porque simplesmente é mulher. Mais do que uma questão dogmática parece estar em cima da mesa uma atitude pastoral, humana e evangélica. Fazer com que ninguém se sinta excluído, no respeito pela Verdade. Creio ser esta a linha também do Papa Francisco.

Esta é uma responsabilidade de todos nós, que decorre de um processo de discernimento comunitário, no profundo respeito pelo outro e pela mensagem confiada por Jesus Cristo à Igreja.

P. Tiago Freitas, In DM 06.04.2021

Publicado em 2021-04-16

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