Islamização: a mais arcaica das utopias modernas

Fernando Pinheiro

A recente intensificação do terrorismo islâmico na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, cujo último atentado culminou com a devastação da vila de Palma, onde viviam cerca de 50 mil pessoas, inspira-me uma nova reflexão em torno de um problema político-religioso que está a causar uma grande tragédia humana num dos países mais pobres de África: 2 mil mortos e 700 mil desalojados. Acontece, porém, que este povo, agora sacrificado, vivia em paz nas terras herdadas dos seus avoengos desde há longínquas eras, e com a invasão das milícias armadas perdeu, ou está em risco de perder, todos os seus bens patrimoniais. Para os sobreviventes, e para os que ainda se encontram escondidos no mato, resta-lhes o socorro de familiares ou amigos que possam ter em Pemba, e a ajuda humanitária de organizações estatais e não-governamentais, enquanto o exército moçambicano procura reforçar a sua posição na província de Cabo Delgado, cuja fronteira terrestre confina com a Tanzânia, país onde os terroristas têm os seus campos de recrutamento e de treino.

O grupo terrorista que flagela Cabo Delgado é um braço armado de uma organização da Al-Shabaab (A Juventude), cujo principal centro de operações se situa na Somália. É deste país muçulmano que estende ramificações jihadistas para o Quénia, (Etiópia?), Tanzânia e agora Moçambique. Se a esta progressão territorial juntarmos o terrorismo da Boko Haram (A educação ocidental é um pecado), que flagela países como o Senegal, República Centro-Africana, Burkina Faso, Mali, Nigéria, Camarões, Chade, e outros, percebemos que a jihad (ou guerra santa) está ativa em praticamente toda a região subsaariana. Segundo a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (Fundação AIS), só na Nigéria, a Boko Haram já matou entre 50.000 e 70.000 cristãos e provocou mais de 2 milhões de deslocados.

A principal motivação destas organizações terroristas islâmicas é de índole religiosa, porquanto, tal como o Daesh do Iraque, pretendem instituir um califado unitário que congregue os muçulmanos debaixo da principal lei da tradição árabe, a sharia. Precisando, porém, o califado de território para a implantação de um estado religioso, da mais pura ortodoxia salafita (sunita), impõe-se a conversão ao Islão de todos os crentes das outras religiões, mormente dos cristãos, por quem demonstram um ódio irracional e assassino. E sempre que os cristãos não aceitam trocar o Evangelho pelo Alcorão, os terroristas matam a sangue-frio estes não-conversos; incendeiam-lhes as casas; raptam-lhes os filhos, sobretudo as raparigas adolescentes; sequestram pessoas para a extorsão de dinheiro; e vandalizam igrejas, escolas, seminários, segundo uma perseguição que não tem paralelo na história da humanidade, por não estar radicada em nenhuma causa justa, ou justificável.

Matar e abusar de inocentes não é uma causa justa! Impor uma religião pela força das armas não é uma causa justa! Pensar na implantação em África de um califado, que faria de todos os indivíduos, independentemente de serem muçulmanos ou não, súbditos de um chefe religioso, político e militar, não uma é uma causa justa! Tal projeto, teocrático e imperial, em pleno século XXI, não passa da expressão de uma utopia arcaica, extemporânea e irrealizável, quer à luz do processo histórico, quer à luz do progresso civilizacional da humanidade.

Com efeito, a história desmente esta utopia dos guerrilheiros islâmicos, porque, em 1.400 anos de Islão, os árabes nunca conseguiram atingir o desiderato político-religioso do califado unitário. Aliás, passados pouco mais de 300 anos, o Islão já estava dividido nos califados de Bagdad, Cairo e Córdoba. Entretanto os califados acabaram, e o mundo árabe está hoje dividido em sultanatos, emirados, reinos, repúblicas e teocracias, como é o caso do Irão.

Se este terrorismo religioso não for erradicado, mormente por ação da Arábia Saudita (sunita) e do Irão (xiita), o Islão verá a sua identidade teológica seriamente afetada, porque o profeta Maomé disse: «Combatei pela causa de Deus aqueles que vos combatem, porém não pratiqueis a agressão, porque Deus não estima os agressores (2ª Surata, 190).» Acontece que o povo africano não é agressor, mas agredido. Ora, se Deus não estima o agressor, e se para Deus a religião é o Islão (3ª Surata, 19), então os jihadistas incorrem num ato de desobediência ao seu Deus! Alguém entende esta guerra santa, como eles dizem?

Fernando Pinheiro, In DM 07.04.2021

Publicado em 2021-04-16

Notícias relacionadas

A Bíblia diz que Deus não existe – Acerca da polémica sobre a Carta de S. Paulo aos Efésios

Padre Mário Sousa, coordenador da Comissão da Tradução da Bíblia

A propósito da leitura de São Paulo sobre as mulheres

Nota de esclarecimento da Conferência Episcopal Portuguesa

Só um louco é que tem filhos

Pedro Gomes Sanches

Os Padres não são Atletas Olímpicos!

Padre Miguel Neto, Diocese do Algarve

PARA QUE SERVE A FILOSOFIA AO HOMEM – PARA SABER VIVER OU PARA SABER MORRER?

Fernando Pinheiro

SECRETARIADO NACIONAL DA PASTORAL DA CULTURA

“Nota sobre a supressão geral dos partidos políticos”: Compreender Simone Weil para além do título

desenvolvido por aznegocios.pt