‘241’: sangue e escândalo?

António Sílvio Couto

Foi noticiado que um grupo de ‘católicos’ (241) fez chegar à Conferência Episcopal Portuguesa, reunida na passada semana, em Fátima, uma pretensão sobre aquilo que, eles mesmos classificaram, de ‘investigação independente sobre os crimes de abuso sexual na Igreja’. O assunto foi bem divulgado, desde a comunicação social – ávida de sangue e de acusação contra tudo que cheire a Igreja… católica – até às instâncias de proximidade aos bispos, com a temorização em correio eletrónico a cada um… aliando o resto às pretensões de deixar marca pela negativa.

1. Daquilo que nos foi dado conhecer surgem nessa lista de indignados – talvez considerem que os números apurados não se adequam às suas pretensões combativas – aparecem ‘figuras, figurinhas e figurões’, que se dizem (mais ou menos) em comunhão católica: professores da UCP, alguns padres, um deputado (trotskista e bajulado nalguns setores quando se trata de temas contra a vida), responsáveis que foram de serviços sociais da Igreja de âmbito nacional (bem pagos e suficientemente promovidos), sindicalistas marxisto-catolicizantes (deambulando no seu esquerdismo neo-capitalista) , dirigentes de movimentos anarco-cristãos (num operariado sem expressão nem trabalho), jornaleiros do anti-religioso… à mistura (pretensos) considerados juristas ou fabricantes de ideias, procedentes da vida médica ou mesmo (apelidados) artistas…

Segundo as pretensões é manifestado que haja uma «investigação nacional rigorosa, abrangente e verdadeiramente independente, com o arco temporal de 50 anos, a cargo de uma comissão de peritos constituída exclusivamente por leigos católicos, por não crentes, por profissionais das ciências sociais e da justiça, cuja autonomia e independência sejam absolutamente inquestionáveis, ainda que possa, eventualmente, ser assessorada por algum elemento do clero». Será que amam a Igreja ou pretendem afundá-la com as suas ‘verdades’ mais ou menos preconceituosas?

2. Mesmo que de forma despretensiosa parece que esta vaga de acusações pretende ser mais dogmática do que a doutrina assim considerada, pois não reconhecem ‘autoridade’ às comissões diocesanas, entretanto constituídas, e querem instigar à denúncia quem tenha meros indícios. Não estaremos sob uma ‘nova inquisição’ populista, laicista – alguns daqueles 241 parecem ter afinidades à maçonaria e a quejandos marxistas – e anti-católica primária? Recordo aqui uma conversa particular com Catalina Pestana – antiga provedora da Casa Pia e membro de uma comissão sobre o assunto, já falecida – quando lhe dei a entender que poderia haver situações nalgum setor do clero, ela referiu que lhe dissesse nomes, ao que ripostei, não posso denunciar pessoas que merecem ao menos o benefício da dúvida e ainda sob sigilo profissional (mas não sacramental)… investiguem e averiguem… Não encontraram ninguém!

3. Pela minha parte considero algo surrealista que, estando nós em caminho sinodal, nos venham precisamente agora distrair com questões nem sempre tão graves como noutros países… Pelo que vi em doze anos de seminário – entre 1969 e 1983 – e padre desde há trinta e oito anos considero que nunca por nunca percebi essas nebulosas sombras que a tantos afligem. Talvez tenha sido negligência da minha parte ou aquilo que pintam ultrapassa a linha do razoável. Não haverá fantasmas que não passam de projeções das mentes e das psicologias de tantos dos novos inquisidores? Se têm dados porque não os apresentam? Ficariam ‘bem cotados’ na esfera dos combatentes a esta – inquestionável e malfadada – podridão da Igreja… ontem como hoje!

4. Atribui-se ao Papa Bento XVI a frase de que muitos que saíram da Igreja nem saíram, pois não tinham chegado a entrar… Não estarão neste rol alguns dos 241 manifestantes?

De facto, estes ‘241’ católicos quase me dão repulsa, sinto vergonha e onde estiverem quererei estar longe, se forem atendidos ‘tout court’ mereceremos fechar… ao menos para balanço sério, sereno e santo.


António Sílvio Couto, In DM 15.11.2021

Publicado em 2021-11-17

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