A BURRA DE BALAÃO

Marta Vilas Boas

Foi-me apresentada há dias no decurso de uma reunião. Nos tempos que correm poucos são os que simpatizam com o malfadado animal. No entanto, confesso que achei graça a esta burra, que passeou no meu pensamento, pelo que ouso, aqui, apresentá-la.

A história bíblica é-nos relatada no Livro dos Números (22-24). Aí conhecemos o mago Balaão, a quem o rei Balac se confia, para que usando das suas habilidades e profecias possa bloquear os invasores do seu território. Balaão apesar de não querer amaldiçoar o povo, interessado nas riquezas que lhe poderia oferecer o rei, inicia a missão usando para se deslocar a “famosa burra”. De acordo com o que estava escrito, Deus não permitiria que o Seu povo fosse maltratado, envia por isso, um anjo com uma espada, que aparecerá por três vezes querendo impedi-lo de continuar o caminho. Contudo, por três vezes a burra vê o perigo, sai da estrada e vai para o campo. Balaão cheio de raiva bate-lhe, até que pela terceira vez, o animal ganha voz e pergunta-lhe o que tem feito de mal para ter aquele tratamento (lembremo-nos que além de carregar Balaão, o tem livrado da morte). Ele, ainda furioso, responde que se tivesse uma espada na mão a mataria, pois não respeitara os seus comandos. Foi nesta hora que o Senhor abriu os olhos do profeta e ele viu o Anjo, que estava na frente do caminho com a espada na mão. Balaão deu-se conta do que fizera e reconheceu o seu pecado dizendo ao Anjo que não sabia que o Senhor estava a agir, através do animal que o transportava, para fazê-lo parar. Obedeceu a Deus, não amaldiçoou o povo e além disso transformou a sua forma de viver. Conhecida a história percebemos que a sua graça está no animal escolhido para se tornar a voz de Deus, uma burra!

Nas fábulas, assim como na vida quotidiana, Deus serve-se, muitas vezes, do que aos nossos olhos parece improvável, para agir sobre a humanidade. No entanto, nem sempre conseguimos treinar os nossos sentidos, para captar de imediato as Suas intenções. Talvez por isso o Papa Francisco tenha proposto a vivência deste Sínodo. Chamados à comunhão, à participação e à missão. Estamos todos convocados para ‘fazer germinar sonhos, suscitar profecias e visões, fazer florescer a esperança, estimular confiança, faixar feridas, entrançar relações, ressuscitar uma aurora de esperança, aprender uns com os outros e criar um imaginário positivo que ilumine mentes, aqueça corações, restitua força às mãos’.

Que tal como a burra de Balaão não tenhamos medo de sair da rota, mas confiemos na ação do Espírito de Deus. Mais do que dos outros, a sinodalidade depende de cada um de nós! Então, tomemos a “nossa burra” e coloquemo-nos a caminho!

Marta Vilas Boas, in Ação Missionária, NOV. 2021

Publicado em 2021-11-28

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