Cónego JOSÉ PAULO ABREU

De quem eu gosto mesmo, é do miúdo!

Roupa simples, rosto lavado, ar sereno, olhar calmo e resignado, postura humilde, assim aparecia o miúdo para mais um dia de aulas.

Como chegava atrasado, pagava por isso. Ia até ao pé do professor, invariavelmente junto do quadro (quem não se lembra das salas de aula antigas, nos tempos idos da então chamada Escola Primária), para pedir desculpa…; a régua já estava a postos, o aluno também já conhecia o ritual, estendia humildemente a mão, o professor passava ao de leve a régua pela mão do garoto, como que afinando o instrumento do suplício, e desferrava depois uma forte reguada na palma da mão do pequenote.

Dia seguinte, calendário mudado, ritual mantido. O miúdo de novo a chegar atrasado, truz-truz na porta, a entrada tímida na aula, passos em direção ao professor, mão para diante, régua em pontaria, e mais uma tremenda reguada.

Mais uma manhã, mais uma porta a abrir-se fora de horas, de novo os coleguitas da sala todos em silêncio, meio assustados (ou meio solidários com o companheiro?!), reguada p’ra mãozita, aluno cabisbaixo em direção à carteira para participar na aula a decorrer.

Até que um dia a realidade mudou. Girando com a sua bicicleta, o professor vê o crónico atrasado a conduzir um carrinho de deficientes.

É que antes de ir para a escola, o miúdo, afinal, tinha que ir levar o irmão mais velho à escola dele. Depois bem ele corria, mas… Essa caridade implicava atraso, reguadas, humilhação perante os colegas, castigos, eventualmente perdas de rendimento.

Mas nada disso estava, para o “miúdo dos atrasos”, à frente do amor. Estava disposto a pagar o preço do bem fazer. E nada o demovia da caridade.

Ao ver a entrega do deficiente na escola dele, percebeu o professor a razão dos atrasos do humilde e simples garoto, “meia estaleca de cabide”, coração gigante. Ora aí temos o miúdo de novo a entrar na aula, invariavelmente atrasado.

E o ritual a cumprir-se: o pequeno vai em direção ao professor para invocar perdão, o professor pega na régua e…, desta vez coloca ele a régua nas mãos do miúdo, estende ele a palma da mão para ser “reguado”… Não, o miúdo não lhe bateu… Antes, manteve o ar de sempre: humilde, sereno, meigo…

Então o professor agarrou-lhe nas mãos, beijou-lhas e acabou por abraçá-lo, demoradamente, sentidamente, humildemente. Tudo sem palavras, que essas são dispensáveis, quando os corações conseguem falar.

Tanta injustiça; t anto juízo precipitado; tanto preconceito… Tanta “reguada”; tanta dor; tanta humilhação…

Tantas vezes só pelo que parece, pelo “tenho quase a certeza” que…, pelo “está mais que visto que”…, por juízos não raro infundados e precipitados…

Normalmente sem ouvir o outro, o que ele tem para dizer… Já lá vai o tempo das “reguadas”. Mas, nesta história, de quem eu gosto mesmo é do miúdo. Bem, também gosto dos adultos quando do mal se arrependem e em vez da destruição, do vexame, da violência, dos juízos negativos e fáceis, se dispõem à conversão, à generosidade e ao abraço.

José Paulo Abreu, In DM 14.04.2020

Publicado em 2020-04-17

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