ESTAMOS JUNTOS

Pe. Eduardo Ferreira

Frente à experiência de vulnerabilidade que estamos a viver com o Covid-19, surgem dizeres que apelam ao espírito positivo e ao sentido de esperança: vamos ficar todos bem, estamos no mesmo barco, “ou nos salvamos todos juntos ou afundamos todos juntos” (D. António Marto), voltamos a ser mortais, juntos somos mais fortes, este não é o tempo de divisões, todos somos importantes… . Mais do que afirmar certezas, estamos a formular desejos, o que por si, não é mau. Mas é supérfluo teorizarmos sobre o que  experimentamos se não metermos mãos à obra no sentido nos reconstruirmos repensando hábitos, estilos de vida e escalas de valores, como pessoas, como famílias, como comunidades, como sociedade global e, porque não, como crentes.

Juntos pela cultura da vida. A semana da vida, que celebramos em maio, lembra-nos que é inadiável estarmos juntos contra a cultura da morte de uns tantos vírus mortíferos. Cerca de 53 milhões de abortos por ano a nível mundial – 145 mil por dia; as vítimas que podiam ser evitadas nas não são, das guerras (só na Síria cerca de 400.000), do terrorismo, da fome e das doenças. Quantas crianças morrem, diariamente, de miséria… .

Juntos para dizer não às vidas precárias. As vidas precárias são vidas que por, não serem tomadas como humanas, à partida não chegam a ser contadas no cômputo das vidas ceifadas, seja por que cataclismo for. São vidas que não valem, não chegam a ter valor humano e que, por isso, podem chegar a não figurar a lista das mortes assinaladas como vítimas de que valha a pena fazer memória. Estão aqui os refugiados, as 6 mil crianças que podem vir a morrer por dia (mais de 4 mortes a cada minuto), nos países pobres devido ao impacto da pandemia, vítimas das guerras, os sem qualquer rendimento, os sem-abrigo, etc. . Segundo a UNEC (Comunidade Económica das Nações Unidas para a África) podem morrer por causa desta pandemia se não forem adotados instrumentos úteis capazes de prevenir a tragédia.

Juntos e nunca sozinhos. O perigo que antes pensávamos que só atingia os outros, agora obriga-nos a ser mais solidários e a abrir os olhos para a miséria do mundo, a pensar que estamos todos no mesmo barco. S. Cipriano, bispo de Cartago em meados do século III, depois da violenta epidemia que assolara a sua cidade, escrevia: “Esta epidemia que parece tão horrível e funesta põe à prova a justiça de cada um e experimenta o espírito dos homens, verificando se os sãos servem os enfermos, se os parentes se amam verdadeira e sinceramente, se os patrões têm piedade dos servos enfermos, se os médicos não abandonam os doentes que imploram auxílio”.

Temos de estar juntos contra a indiferença, o egoísmo, a divisão, o esquecimento, que não são propriamente as palavras que queremos ouvir neste tempo. Queremos bani-las para sempre! Esta é a nossa missão.

 

Pe. Eduardo Ferreira, In AÇÃO MISSIONÁRIA junho 2020

Publicado em 2020-06-17

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