Quem sabe, ainda um dia serei importante

Pe. Edgar Clara

Fiquei muito contente ao saber que a ex-deputada do Partido Comunista Português, Rita Rato, foi selecionada para o Museu do Aljube, em Lisboa. Porque é que eu fiquei contente? Vão ter de ler até ao fim…

Sabem o que é o Museu do Aljube? Talvez não saibam… como a maioria do país também não saiba… na internet, diz o seguinte: «É um sítio musealizado e um museu histórico que pretende preencher uma lacuna no tecido museológico português, projetando a valorização da memória de luta contra a ditadura na construção de uma cidadania esclarecida e responsável e assumindo a luta contra o silenciamento desculpabilizante e muitas vezes cúmplice, do regime ditatorial que dirigiu o país entre 1926 e 1974».

Talvez poucas pessoas saibam que ali ficaram os presos políticos durante a Primeira República, mas também durante o período do Estado Novo. Aqueles que o Estado Novo encontrou como resistentes e que minavam o regime em vigor – dentro os quais alguns comunistas – iam para o Aljube. Mas não eram só comunistas… todos os antifascistas iam parar ao Aljube. É verdade! O Aljube albergou essa gente que veio a gerar a liberdade.

Porque é que eu fico contente por ter uma ex-deputada do Partido Comunista Português como diretora do Museu do Aljube? Porque talvez eu tenha possibilidade de vir a ser no futuro diretor de um possível Museu do Limoeiro!

Sim! Eu sei! Não existe! Mas um pouco mais acima fica o Centro de Estudos Judiciários – hoje conhecido, não pelas melhores razões!

Esse atual Centro de Estudos Judiciários – poucos sabem – já foi prisão. Ali funcionou a conhecida Cadeia do Limoeiro ou também conhecida por prisão do Limoeiro.

Porque tenho essa pretensão de um dia poder vir a ser nomeado diretor do futuro, ainda não existente, Museu do Limoeiro? Porque ali funcionou a Prisão dos Padres presos na sequência da bendita Primeira República.

Sim. Houve muitos padres presos – apesar de pouca gente saber disso! A maioria deles estava presa nessa prisão que acabei de relatar e que funciona no atualmente Centro de Estudos Judiciários.

Nunca visitei esse espaço. Nunca estive presente nesses corredores. Mas já li um livro onde um padre relata a sua prisão nos baixos – que também não sei onde ficam – da Prisão do Limoeiro.

Há, na Biblioteca da Universidade Católica Portuguesa, um livro escrito por um padre que foi perseguido pela Primeira República, por ter resistido ao sistema Republicano!

Vale a pena ler esse livro, até porque nós, em Portugal, temos poucas informações sobre o que aconteceu à Igreja e aos padres depois da Primeira República.

Foi uma cena incrível!

Iam atrás desse padre! Procuravam-no e perseguiam-no.

Fizeram-no sofrer nas masmorras escuras da Prisão do Limoeiro, tal como muitos dos meus irmãos padres depois da Primeira República.

Fico contente que seja uma mulher, comunista, a ser selecionada para diretora do Museu do Aljube, porque isso me inspira confiança de que um dia venha a ser refeita toda a história da perseguição aos padres durante a Primeira República.

Isto pode parecer ironia, mas não é!

Na realidade, penso que cada um tem de ter o espaço para contar as narrativas da sua história conforme achar melhor.

Para contar as histórias do Aljube, nada melhor do que uma ex-deputada do PCP. Daqui tenho a esperança que um dia venham a meter um Católico à frente num futuro museu do Limoeiro ou, quem sabe, num futuro museu ainda não feiro da Inquisição.

Pe. Edgar Clara, In SOL – PRINCIPAL 18.07.2020

Publicado em 2020-07-20

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