Padre, podes baptizar-me?

P. Firmino Cachada

«Deixai as crianças vir a mim, não as impeçais, pois dos que são como elas é o Reino de Deus.»

Lc 18.16

 

Foi numa das minhas últimas visitas pastorais às comunidades ribeirinhas da Paróquia da Missão, na Amazónia brasileira.

Preparava-me eu para fazer uma reunião com pais e padrinhos a fim de preparar a celebração do batismo que teria lugar no dia seguinte, quando uma linda criança de apenas quatro anos e meio veio ter comigo e perguntou: - Padre, tu amanhã pode baptizar-me?

- Como? – perguntei eu e ela repetiu a pergunta. Então perguntei: - tu queres mesmo ser baptizada?

Com um belo sorriso, ela respondeu: - Eu quero!

No dia seguinte, a Rhianna foi baptizada juntamente com mais duas crianças.

Na verdade, o caso dela estava em questão pelo catequistas da comunidade, pois os pais não são casados e, em princípio, quando assim é, a norma dentro da paróquia é deixar a criança chegar à idade da catequese e, quando já se tem a certeza que ela vai mesmo ter uma educação religiosa e entender o significado do baptismo, então já o sacramento do baptismo não vai ser meramente uma tradição de deitar água por cima da cabeça e tudo fica por aí. Infelizmente, é isso que acontece com frequência, não só na Amazónia, mas um pouco por este mundo fora. Se os pais não valorizam o sacramento do matrimónio, podemos perguntar-nos porque valorizam o baptismo e o matrimónio não. Se, ainda por cima, depois também não têm uma prática religiosa regular e nem se preocupam com a educação religiosa dos filhos, então há que questionar o interesse em baptizar os filhos.

É claro que não se trata de negar o baptismo a uma criança, mas sim de fazer um trabalho pastoral que ajude os pais e as próprias crianças a olhar o sacramento do baptismo não como uma mera tradição para umas belas fotos e uma bela festa, mas sim como o início de uma vida que valoriza o espiritual e também a participação na vida da comunidade eclesial, já que ninguém é cristão sozinho.

Dentro deste princípio, mesmo se os pais não têm uma prática religiosa regular, mas os filhos já são capazes de dizer pela própria boca “sim, eu quero ser baptizado”, então o baptismo já tem um outro valor e já há alguma garantia de que ele vai ter uma sequência. Foi o caso desta criança. É evidente que eu não deixei de falar também com os pais sobre o assunto, já que a reunião de pais era exatamente para isso e não só para preencher papéis.

É verdade que, no tipo de sociedade em que vivemos, se torna cada vez mais difícil interessar as famílias e as próprias crianças pela formação e mesmo pela prática religiosa. Nem sei se aqui em Portugal uma criança de quatro anos e meio colocaria de lado o seu smartphone para olhar para mim e me fazer uma pergunta, como fez a Rhiana. Neste aspecto, talvez porque lá nas comunidades do interior da Amazónia ainda não há essa invasão das redes sociais e a dependência das novas tecnologias, ainda se consegue um relacionamento social mais natural e espontâneo, mesmo da parte das crianças, como foi o caso.

Claro que isso não deixa de ser cada vez mais um grande desafio pastoral para esta nossa Igreja que, em boa parte, cristalizou a sua acção em liturgias frias e conservadoras.

Isto me faz pensar também que, se fosse hoje, talvez a repreensão que os discípulos de Jesus receberam, por estarem a impedir as crianças de se aproximarem dele, fosse de um outro género. Ou seja, talvez Jesus os repreendesse por não fazerem nada para interessar as crianças em se aproximarem dele e ouvirem a sua catequese.

Fica a reflexão e o desafio.

P. Firmino Cachada, In Ação Missionário, Outubro 2020

Publicado em 2020-10-22

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