Viva a modernice...

Pe. José Paulo Abreu

Falou a brincar, com a maior das descontrações, antevendo o Natal que se avizinhava: “este ano vou ter a casa cheia. Vou lá juntar todas as minhas sogras”.

Fiquei boquiaberto, atónito. Entre o… “está a gozar comigo?!”, ou “será mesmo a sério?!”. Como que lendo-me a alma, esclareceu: “não estou a reinar. Estou casada pela 4ª vez, mas fiquei de bem com quem está para trás”. Lembro-me que, na altura, me senti antiquado, um verdadeiro cromo (que, tudo somado, continuo a ser!), um coração minúsculo: não me via capaz de tamanho “ecumenismo”, de tão abrangente e perdulária concórdia. Mas, pelos vistos, os meus apertados critérios apenas começavam a ser desafiados.

Agora, sim, chegou a hora de, em definitivo, deixar cair qualquer dique, qualquer barreira, qualquer classificação fixista, qualquer preconceito.

Agora, não apenas poderemos juntar à mesma mesa, em “família”, várias sogras, como também a sogra que é sogra e a sogra que é sogro; o tio que é tia e o tio que (grande coincidência) é mesmo tio; o genro que é genro e o genro que é nora; a nora que é genro e a nora que é nora; o pai que é pai e o pai que é mãe; a cunhada que é cunhado e o cunhado que (triste monotonia) é mesmo cunhado; o primo que é prima e o primo que se continua a tratar no masculino.

Na escola, um filho adotado por um destes novos casais homossexuais comentou com os colegas: o meu pai-mãe nunca vem vestido de saias buscar-me aqui à escola porque não se sente à-vontade para trajar como os escoceses. Mas também esse cliché há-de mudar. Ele/ela está a tentar mudar as mentalidades. Ainda lhe haveis de ver as “fraldas”, num desses dias ventosos, os tecidos a esvoaçarem e a porem ao léu aquelas pernas musculosas e peludas (é que o meu pai-mãe não costuma fazer depilação).

Quem anda chateado com isto tudo é o Zequinha: ninguém o consegue resgatar da arqueologia, melhor, daquele anquilosado tempo em que nas casas havia homem e mulher e os filhos nasciam, não de proveta ou da ponta de uma agulha, mas do abraço amoroso que dava continuidade às canhotas que haviam ficado a amarrecar na lareira da cozinha.

Viva a brincadeira com a família. Viva a miscelânea de “papéis” masculinos e femininos. Viva a modernice. Viva o caos. Ai se Deus não nos socorre...… Ai se a Mãe do Céu não vem em nosso auxílio!...

P. Paulo Abreu

Publicado em 2020-11-15

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