SECRETARIADO NACIONAL DA PASTORAL DA CULTURA

Daniel, a vida venceu

A Mariela vem ao meu encontro com um grito de alegria, e mostra-me o vídeo gravado com o telemóvel: «É belíssimo! É belíssimo!». E é mesmo: aquele bebé de poucas horas que se agita no seu bercinho é autenticamente uma minúscula e extraordinária criatura humana. Um verdadeiro espetáculo, uma joia preciosíssima, uma obra de arte, Daniel. Conseguimos, mais uma vez a vida venceu. E queremos celebrar. Não a nossa bravura – só queremos retribuir o tesouro que recebemos como dom – mas a força da vida. O Daniel nasceu.

Correu o risco mais horrível que um ser humano pode correr: ser arrancado da sua concha, contra a sua vontade. Não aconteceu, graças a Deus. Os factos são estes. Joana, a mãe, estava para render-se, entre a indiferença de alguns e os conselhos de outros, para que se valesse das leis vigentes.

Depois um encontro com Mariela, mulher doce e forte. Mariela faz parte do nosso grupo que se compromete no campo da vida nascente. Uma missão bela, árdua, exigente. Não poucas vezes estas pessoas são ofendidas, maltratadas, acusadas de querer fazer andar para trás o relógio da História. Outras vezes são acusadas de serem beatas, inoportunas. Outras vezes são acolhidas como anjos enviados por Deus. Um encontro feito de coração a coração, o de Mariela e a mãe de Daniel. Compreensão, diálogo, empatia, promessas de ajuda concretas.

O convite a acreditar que a alegria que toda a mãe experimenta quando aperta no peito a sua criança supera todos os sofrimentos padecidos. Foi sempre assim. Nunca vi uma mulher que, determinada a abortar, e tendo sido ajudada a mudar de ideia, se tenha arrependido da escolha. Infelizmente, tenho sempre constatado o quanto as feridas de um aborto procurado são difíceis de curar, mesmo à distância de décadas. Conheço mulheres que contam os anos de uma criança não nascida como se estivesse viva e tivesse de apagar as velas. Com uma tristeza imensa, naturalmente.

Expulsemos a tristeza. Hoje temos de festejar. O Daniel está vivo porque os nossos voluntários ousaram encontrar, encorajar, ajudar a sua mãe, e permaneceram ao seu lado


O Daniel conseguiu, e agora a sua mãe, que estava para o deixar, está felicíssima. Daniel está vivo. Vivo. Venceu a batalha mais perigosa, silenciosa e hipócrita que se combate na Terra. Chegou mão na mão com este novo ano, que acolhemos com tantas esperanças e outros tantos medos. A Joana não para de agradecer o bom Deus que a impediu de fazer o que estava para fazer, e aqueles de quem o bom Deus se serviu. A sua alegria, simples, crepitante, verdadeira, não tem nada a ver com os gritos de satisfação que na Argentina foram dados por pessoas felizes por ver legalizada a eliminação da criança no ventre materno até à 14.ª semana. Não há comparação.

Aqui há uma pessoa humana que mana vida, juventude, beleza, esperança por todos os poros, lá há desolação e morte. Hoje, entre pessoas educadas, não se fala de aborto, se não para reiterar que é um direito adquirido que não deve ser, de modo algum, colocado em discussão. E incrível a hipocrisia que acompanha este ato, que todos são concordes em definir como um drama. E precisamente porque é um drama que, além da criança, se abate sobre a mãe que não o foi e sobre toda a sociedade, que seria preciso fazer tudo para o impedir.

Pelo contrário, os fautores da tolerância, prontos a citar as famosas palavras “não estou de acordo contigo, mas farei tudo para que o possas exprimir”, tornam-se intolerantes. Mal se acena um discurso sobre os direitos da mulher grávida e da criança a nascer, logo alguém avança com o caso piedoso da menor de idade que engravidou por causa de uma violação. Esquecendo – ou fingindo esquecer – que anualmente as crianças abortadas no mundo são mais que cinquenta milhões.

Esquecendo – ou fingindo esquecer – os interesses enormes que estão por trás da fábrica dos abortos. Mas expulsemos a tristeza. Hoje temos de festejar. O Daniel está vivo porque os nossos voluntários ousaram encontrar, encorajar, ajudar a sua mãe, e permaneceram ao seu lado. Vi e voltei a ver o vídeo, e de cada vez sussurrei para mim próprio: «Estou convicto de que dia serás tu, Daniel, a abrir-me as portas do Paraíso». Bom ano a todos, da minha parte e do pequeno Daniel.

 

 Maurizio Patriciello
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: ANSA
Publicado em 15.01.2021

Publicado em 2021-01-17

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