A Eucaristia comparada a um passe de mágica

Fernando Pinheiro

Yuval Noah Harari é professor da cadeira de História do Mundo na Universidade Hebraica de Jerusalém, e, nessa qualidade, deu recentemente à estampa uma trilogia de ensaios, cujos títulos, Sapiens – História Breve da Humanidade, Homo Deus – História Breve do Amanhã e 21 Lições para o Século XXI, venderam milhões de exemplares em todo o mundo, Portugal incluído. Não admira, pois, que este autor seja um dos mais aclamados e influentes pensadores do nosso tempo, face ao êxito conseguido com os seus trabalhos.

Acontece, porém, que a sua extraordinária saga ensaística – não só quanto ao volume (mais de 1.300 páginas), mas também quanto à pertinência dos conhecimentos evidenciados (origens do homem, cultura e mentalidade, sistemas políticos e económicos, desafios da biogenética e da inteligência artificial, disrupções tecnológicas, etc.) –, tece vários juízos erróneos acerca da história e da identidade cristãs.

Passarei a comentar alguns desses erros, com o propósito de contribuir para uma justa fixação de factos e conceitos de difícil compreensão para espíritos pouco ou nada versados em teologia religiosa, e que tudo interpretam à luz das leis materiais da ciência ou do pensamento filosófico. Foi precisamente esta conceção materialista da religião que levou Harari a comparar os sacerdotes católicos a prestidigitadores de rituais que transformam um pedaço de pão e um pouco de vinho no corpo e no sangue de Cristo, segundo um processo em tudo semelhante ao truque de um ilusionista. Em Sapiens pode ler-se, a páginas 46: «O sacerdote exclamava: “Hoc est corpus meum!”, (“Este é o meu corpo”, em latim) e… abracadabra!, o pão transformava-se na carne de Cristo.» Nas 21 Lições para o Século XXI, a páginas 326, chega, inclusive, ao ponto de perguntar: «Haverá algo de mais real do que saborear Cristo na nossa boca?»

Com esta visão falaciosa, porque destituída de fundamento heurístico, Harari remete a religião para a esfera da experiência mágica do homem. Só que a magia é sempre espácio-temporal, finita, mutável e dependente das contingências do processo histórico, enquanto a religião cristã é uma manifestação que nada tem a ver com a transitoriedade dos sistemas materiais ou com o intenso fervilhar da especulação filosófica. Por essa razão é que o Cânone Romano diz que a Eucaristia instituída por Cristo é o testamento «da nova e eterna Aliança.» Mas a irreligiosidade de Harari não pode torná-lo ignorante ao ponto de não compreender o mistério da eucaristia cristã e de equiparar o ritual sagrado da missa ao espetáculo de um bom feiticeiro.

Cristo, na Última Ceia, serviu-se dos dons do pão e do vinho, não para enquanto Pessoa se transformar em pão e vinho – e isso seria um truque –, mas para tomar esses mesmos dons como símbolos do seu corpo místico: «Tomai e comei…» A hóstia consagrada não é um alimento para saciar a fome passageira de alguém, mas o alimento que permite a comunhão na natureza redentora e salvífica de Cristo. Comungar é estar em corpo e alma com Cristo: «Fazei isto em memória de Mim!», pediu Jesus aos discípulos, e eles receberam o poder do Espírito Santo para proclamar a Boa Nova pela face da Terra. No Ato dos Apóstolos (2, 3-4) pode ler-se: «Apareceram então uma espécie de línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo…»

O milagre da transubstanciação do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo dá-se por obra e graça do Espírito Santo através do serviço sacerdotal, cujo ato é um magistério sagrado e não um desempenho artístico ou académico, por muito convincente que seja. Daqui decorre que o poder da Trindade Santíssima se manifesta segundo leis sobrenaturais, que não podem ser interpretadas por quaisquer narrativas científicas, históricas, literárias ou filosóficas. Conforme Bento XVI ensina em Os Sacramentos – Sinais de Deus no Mundo, «a Eucaristia é mais do que um banquete, é uma festa de núpcias… O sangue de Jesus é o seu amor, no qual a vida divina e humana se transformam numa só.»

Essa força sobrenatural do Espírito Santo ficou bem firmada no milagre de S. Gregório Magno (papa entre 590 e 604). Quando uma mulher se riu e disse em voz alta que a hóstia que o papa segurava na mão não era o corpo e o sangue de Cristo, porque fora ela que a cozinhara, S. Gregório negou-lhe a comunhão e pediu a Deus para que lhe iluminasse o espírito sombrio. Então, deu-se o milagre e a partícula consagrada transformou-se na carne e no sangue de Cristo, aos olhos da ímpia e dos crentes da basílica de Santa Pudenziana (Roma). Arrependida, a mulher caiu de joelhos e ficou a chorar copiosamente, por largo tempo. Este milagre foi registado e confirmado por numerosos documentos, inclusive pela Vita Beati Gregorii Papae, da autoria do Diácono Paulo, cuja relíquia se encontra conservada no mosteiro beneditino de Andechs (Alemanha).

Se Yuval Noah Harari tivesse lido em profundidade os Evangelhos, as cartas de S. Paulo, os ensinamentos dos doutores da Igreja, os numerosos tratados teológicos sobre a Eucaristia, talvez não tivesse dito a milhões de leitores de todo o mundo que o ato sacerdotal da consagração das espécies do pão e do vinho era «um passe de magia que torna o abstrato concreto e o ficcional real.» Que lastimável!

Fernando Pinheiro, In DM 13.02.2021

Publicado em 2021-02-16

Notícias relacionadas

SECRETARIADO NACIONAL DA PASTORAL DA CULTURA

Sofrer na Igreja é penoso, sofrer por causa da Igreja é terrível

Sem darmos conta…

Carlos Aguiar Gomes

Não ter medo das perguntas

P. Tiago Freitas

Islamização: a mais arcaica das utopias modernas

Fernando Pinheiro

Maçonaria e democracia

Artur Soares

Passado sangrento não ofusca o futuro?

António Sílvio Couto (Pe)

desenvolvido por aznegocios.pt