Irmãs Clara Maria Celeste e Bela Arco-Iris

Um novo olhar sobre a religião católica

Estiveram de visita a Guimarães e quisemos perceber o que as trouxe cá. Maria Clara Celeste e Bela Arco-íris são os nomes religiosos, os de batismo são Marta Peixoto e Isabel Cunha. Tem 27 e 56 anos, respectivamente, e são naturais de Viseu e da Covilhã.

A família de Marta Peixoto sempre foi católica, mas os pais afastaram-se um pouco da igreja. Quando Marta completou 11 os progenitores iniciaram o processo de conversão. Certo dia, o pai encontrou, por acaso numa estação de serviço, um grupo da comunidade dos Pequenos Frades e Pequenas Freiras de Jesus e de Maria de Itália que visitou Portugal, e estavam a pedir um pedaço de pão. Seria de esperar que o semblante deles estivesse carregado uma vez que estavam a mendigar, mas demonstraram estar felizes. O homem questionou-se a razão pela qual eles estariam tão felizes se estavam a pedir comida e ele, que economicamente vivia confortavelmente, se sentia sempre triste... Começaram a conversar e decidiu dar-lhes guarida. "Acolhemo-los em casa essa noite e aí começou a nossa relação com essa comunidade", contou. O grupo de frades e freiras tinham vindo de Itália até Fátima à boleia e foi também dessa forma que chegaram a Viseu. "Eu não tenho grandes memórias desse momento, mas recordo que desde aí houve uma transformação na família. Dois anos depois eles voltaram a Portugal, e formamos um grupo de oração. Passamos a acolher esta comunidade em casa e vivíamos intensamente esta forma de estar na vida". Aos 17 anos começou a questionar-se sobre a vontade de Deus. "O que é que Ele quer de mim? Qual é o sentido da vida»? Até chegar à conclusão: quem sabe o Senhor me está a pedir para fazer uma experiência nesta comunidade", adiantou. Decidiu então ir para Itália e ficou. Casou com Deus e tornou-se freira. O seu percurso tem sido feito muito à base de missões. Foi movida para os Estados Unidos há dois anos e é lá que se encontra. Mas também já esteve no México e no Brasil sempre como missionária. Essas viagens são sempre à boleia e não podem viajar sozinhas. "Vem sempre um frade connosco por uma questão de prudência e protecção", revelou. Normalmente, essas missões são feitas no Verão, e durante o ano estão inseridas em dioceses e paróquias. Nos Estados Unidos têm um irmão que está ao serviço de duas paróquias e onde deu o seu contributo. "O ano passado houve um furacão e todo o serviço que prestei era para auxiliar na reconstrução, quando fui transferida para o México onde dois irmãos servem uma paróquia também dei lá uma ajuda, porque é uma zona de fronteira com os EUA e o narcotráfico revela-se um problema muito grave", avançou. A ideia é evangelizá-los e levar-lhes a palavra de Deus.

Isabel Cunha entrou na comunidade aos 47 anos. Viveu sempre no seio de uma família cristã e praticante. Mas a dada altura a família foi-se afastando, ficando ligados aos sacramentos, apenas Isabel e os pais. Porém, sentia que a sua família não era feliz. Teve oportunidade de estudar, tirou o curso de Desenvolvimento Social e quando iniciou o percurso de professora de Religião e Moral exigiram que tirasse o curso de Ciências Religiosas. Durante 15 anos levou aos mais jovens a Palavra de Deus, mas não se sentia totalmente satisfeita. "Sabia que tinha alguma ligação a Deus, mas nunca me tinha debruçado sobre o tema", frisou. Quando começou a questionar-se e decidiu ir a Fátima fazer uma oração. Pediu ajuda a Nossa Senhora para encontrar uma resposta e passado um mês conheceu o pai da irmã Clara Maria que tinha um grupo de oração. Rapidamente se converteu e se rendeu ao carisma e é hoje também casada com Deus.

Em Guimarães têm uma família de oração e, por isso, vêm cá de vez em quando. Os grupos de oração são famílias que rezam com elas um rosário meditado e cantado, que é uma oração específica da comunidade dos frades e freiras pobres e não é igual ao terço tradicional. "O nosso fundador é seciliano e foi ele quem começou esta prática. Há questões fundamentais, tais como, o anúncio do Anjo Gabriel Maria, 'como é que fazemos hoje a leitura desse anúncio? Como é que escutamos a voz de Deus? Como é que entendemos a vontade de Deus? Como é que aprendemos Maria? São umas quantas reflexões que nos fazem pensar e meditar sobre tudo isto", relataram. Estes grupos estão espalhados pelo mundo, nomeadamente, Portugal, Itália, França, Alemanha, China, Brasil, México, EUA.

As irmãs Clara Maria e Bela Arco-íris levam a religião católica aos quatro cantos do mundo, mas apresentam-na de forma diferente. "O nosso carisma é inspirado nas origens dos primeiros franciscanos e carmelitas, já isso faz a diferença, porque normalmente ou se é um ou outro. Nós fazemos a junção das duas espiritualidades, por causa da pobreza e da evangelização pelas estradas só com a roupa do corpo, porque era isto que S. Francisco fazia. Vivem da boa vontade de quem vão encontrando pelo caminho e "da providência de Deus". Não podem tocar directamente em dinheiro pelo voto de pobreza a que foram sujeitas. "Isto não significa que queiramos ser pobres, isto é apenas um meio para atingir um fim. Fizemo-nos pobres para precisarmos dos outros como nos disse um dia um superior hierárquico católico". O facto de as verem vestidas de forma tão modesta acaba por suscitar a curiosidade das pessoas que muitas vezes as leva a ir ter com elas e questioná-las sobre a forma como vivem. "Perguntam-nos sempre se já comemos e se precisamos de alguma coisa e o objectivo da nossa comunidade é a partilha. Nós partilhamos com eles a palavra de Deus e eles oferecem-nos comida e guarida", comentaram. São cerca de 40 elementos que fazem parte desta comunidade que nasceu mais ou menos há 20 anos e está aprovada a nível diocesano pelo Bispo de Noto.

"O que nós pretendemos é conduzir o espírito das almas aos sacramentos da comunhão e da confissão. Quando nos dão boleia, é comum estabelecermos uma conversa e as pessoas pedem-nos para lhes contarmos a nossa história, e no final algumas delas pedem para se confessaram e muitas já não o faziam há 40 anos, por exemplo", relataram. O intuito não é que todos se convertam em frades e freiras. É, antes de mais, que as pessoas não olhem para a religião como algo comercial, como tem acontecido nos últimos anos, muito por culpa do que se vê em Fátima, por exemplo, em que no Santuário existem caixas multibanco e até MBWay a fim dos peregrinos e visitantes deixarem a tradicional esmola. Parece que estão quase a obrigar as pessoas que visitam aquele local de fé a deixar dinheiro. Ao espalharem a forma como vivem, totalmente desprovidas de bens materiais, acreditam que sobretudo os jovens possam voltar a ter fé e a praticar a religião católica. Este é um novo olhar sobre a religião que tem mais fiéis no mundo, mas que de ano para ano tem vindo a afastá-los. "Queremos que as pessoas voltem a ter fé, esperança, que acreditem em Deus. Não somos mais do que mais uma flor no jardim da religião católica. No fundo, estamos a viver aquilo que Jesus viveu e acreditamos que isso cative as pessoas", anunciaram. Cada um pode ter a experiência de viver sem dinheiro por um período de tempo, mas infelizmente este é um mal necessário.

In: BiggerMagasine, Janeiro de 2023

Publicado em 2023-01-12

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