HOMILIA DE D. JANUÁRIO TORGAL FERREIRA NA MISSA DAS FESTAS DAS CRUZES

3 de Maio de 2014

1. Nesta Festa das Cruzes e deste templo do Senhor Bom Jesus da Cruz saúdo-vos a todos, irmãos, ao serviço da Igreja e das tarefas cívicas do Mundo.

2. Do Evangelho deste 3 de Maio – dia litúrgico dos Apóstolos S. Filipe e S. Tiago – sob o halo da "Invenção da Santa Cruz" outrora celebrada neste dia – sublinho a interrogação de Jesus Cristo. "Há tanto tempo estou convosco e não me conheces, Filipe?" e a palavra de S. Paulo aos Coríntios: "Cristo morreu (…) e ressuscitou ao terceiro dia", fazendo memória do acontecimento – conforme reza a história – do aparecimento da Santa Cruz, em 20 de Dezembro de 1504, ao nosso irmão sapateiro João Pires.

Também nesta evocação festiva, o Senhor Jesus me diz pessoalmente, hoje, e a todos nós: "Há tanto tempo que estou contigo – convosco - e, em não poucas situações, continuo a ser um Estranho e um desconhecido!».

Estive sempre contigo, quando te quis livre e inteligente. Quando te chamei a ser meu filho, meu irmão, meu Templo do Espírito.

Estive contigo na tua peregrinação da fé e da cidadania, e mesmo e sobretudo quando porventura bateste com a porta e rompeste com convicções. Estive sempre contigo, meu filho: nas refregas e júbilos de tua família, nas alegrias e nas desavenças dos cuidados da vida, na tua solidão ou solidariedade, nos teus sonhos e nas tuas previsões, nas lágrimas de todas as desventuras, nas horas da doença ou da saúde, mormente contigo meu filho quando a justiça e fraternidade deixaram de ser uma exigência de carácter e de cultura harmonizadora.

Estive convosco, meus filhos, tudo promovendo para impedir a violência doméstica, a menorização da mulher, o vilipêndio terrível de crianças e adolescentes; a desproporção iníqua na desigualdade entre os que lucram todos os dias e a tragédia do crescimento da pobreza dos mais abandonados; a perpetuação de doenças ditas incuráveis, ainda hoje, sem que haja a economia suficiente, em ordem a prosseguir estudo e descoberta de soluções para tais moléstias; tudo promovi para impedir salários ínfimos e as condições injustificadas, podendo muitos concluir que a chamada lei da selva não teve a sua origem aí, mas, ao contrário, nos cálculos interesseiros da sociedade humana. Desta sociedade irrompeu o desemprego, a instabilidade social, a emigração crescente, as decepções do futuro a nível nacional e europeu.

Estive sempre convosco ao inspirar os libertadores de todas as barbáries, os visionários de todas as mudanças, a gente patriótica deste e qualquer país, a qual sempre soube definir o amor à Pátria como a submissão aos valores da Justiça e da Fraternidade, defender a pessoa dos outros como suas almas gémeas, e afirmado que não haverá desenvolvimento nem futuro se não houveer justiça. Entregar a cada um o que lhe pertence, o que é dele, é o alicerce da civilizaação, é o halo do Evangelho.

Foi a pensar em ti que o grande João Viterbo, no segundo quartel do século XIII, escreveu: "A cidade significa o lugar onde se habita sem nenhuma violência porque o chefe da cidade protege os pobres".

Nesta Festa das Cruzes, permite que eu te diga: os que se alhearam da sabedoria, das razões da inteligência e da sensibilidade, deixaram germinar os pobres, fecharam a muitos as portas da cidade, as portas dos países e do universo, seleccionaram entre aptos e inaptos os seus irmãos, destacando sempre como aptos os que correspondiam aos seus interesses e trocando o nome dos mais abandonados pelos de "mais vulneráveis ou débeis", pois apelidar de pobres os pobres, ou chamar a atenção para a vergonha da fome, equivale a anunciar a falência de uma empresa ou de um país. Desta forma, a cruz traduziu incapacidade, injustiça, medo, à semelhança das cruzes de tantos cemitérios, que anuncia o morticínio da guerra e as grandes saudades da Paz.

Foi nestes calvários que se inspirou o grande Fernando Pessoa neste poema tão triste:

Lá longe, em casa há a prece

Que volte cedo e bem!

(Malhas que o império tece)

Jaz morto e apodrece

O Menino de sua mãe.

3. Se te desconhecem, ó Senhor Bom Jesus da Cruz, em não poucos capítulos da vida, quantas vezes a Tua Pessoa, e de formas tão diversas, tem sido luz, coragem e apelo, por muito que a nossa convicção seja frágil.

- Tu nos dissestes: "Comerás o pão com o suor do teu rosto". Pois bem. Temos o rosto. Cai-nos o suor. Mas tem-nos faltado o pão.

- Tu nos chamaste à dignidade do trabalho, à de construtores duma nova ordem de justiça e da maturação de personalidade, e do civismo profissional. Mas não temos em Portugal, nesta hora, emprego para todos, sobretudo para os mais jovens, tantos e tantos deles exorcizados da Pátria que não soube estar à altura das suas responsabilidades.

- Inspiraste-nos a criar uma comunidade europeia, equitativa e solidária. Cidade convergente de países e nações, salgada a sua criação também pelo bafejo cristão de personalidades únicas. Nesta família europeia o maior lucro é o respeito pelas pessoas e todo e qualquer trabalhador vale muito mais que uma pepita de ouro. Mas tragicamente, sistemas económicos e financeiros, tudo afiançando e tudo esquecendo do mais sério, acham que a subida da cotação da Bolsa tem muito mais valor que a fome que nos corrói. Onde as promessas da salvação dos mais desprezados? No pensamento dos grandes criadores estaria contida esta via sacra onde cada estação é pontuada por desastres sociais e pelo seu cortejo de indignidade e desvalorização?

Entregou a sociedade democrática a tantos dos seus filhos cargos e funções de desenvolvimento. Mas, ao lado da competência límpida e da honestidade sem mancha, não acontecerá ao prestígio do poder – e todos o exercem – a tentação de ficar com a madeira da "árvore da cruz" cedendo aos outros a inutilidade da folhagem?

Recordo sempre o feito heróico de Fulton Sheen, antigo bispo de Nova Iorque, há mais de 50 anos, quando ele houve por bem chamar a atenção de todos os concidadãos para esta responsabilidade cívica: o Presidente que salvará a América das dificuldades será aquele que entrará nessa grande cidade com uma cruz às costas, ou seja, a cruz da divisão entre brancos e negros, a cruz da discriminação de classes e dos défices de educação e da cultura, a cruz do silêncio dos direitos humanos, a cruz da existência da pena de morte, tortura, perversões sexuais…! Se tal é referenciado, em nome de critérios do Evangelho, como remédio de cura a um país sem as dificuldades que atingem outros de menos relevo (que, após essa era, soube encontrar caminhos de redenção cívica), não poderemos concluir, em nome da liberdade religiosa, que onde houver valores indiscutíveis e fiáveis, e libertadores das vítimas da História, não valeria a pena salvar da agonia e morte tantos irmãos com estas razões planetárias e sem pátria? Estas motivações de carácter ético universal?

Em circunstâncias únicas, a cruz é o prémio dos heróis. É a cruz a recompensa dada a quem amou a sua terra. Há cerca de 56 anos só porque um bispo do Porto pronunciou a verdade a respeito das injustiças do povo português, e sem discriminar crentes e não crentes, para todos e cada um solicitando o direito e o dever de honra, teve como galardão o exílio de dez anos, com uma parte do país de boca cerrada diante dum inocente.

A tua cruz, Senhor Jesus, é fruto da tua coerência e lealdade, do teu carácter e coragem, da tua infinita justiça e misericórdia sobretudo pelos que nunca foram amados. Sempre lutaste contra o sofrimento dos outros. Mas acolheste a perseguição e o sangue, como resultado da tua missão.

Mas a nós, a cada um de nós, só nos pedistes que agarrássemos a cruz normal de cada dia, sem invocação religiosa nem flores de consagração, ou seja, a cruz profana da busca da verdade, da luta pelo valor da vida e do amor à família, as questões duras da nossa condição profissional, a solidão, a incompreensão dos outros, a inveja ou a perseguição, os triunfos e os êxitos… as horas cinzentas, as horas de esperança.

Se muitos te desconhecem, há multidões de homens e mulheres que são bem parecidos contigo, Senhor Bom Jesus da Cruz. Conhecendo-te ou desconhecendo-te, quantos te vivem na aprendizagem do saber, no diálogo aberto entre opções e conceitos de vida perfeitamente opostos, no àvontade livre de não esconder ou silenciar os critérios humanos e cristãos, sem os reportar à fonte, longe de fundamentalismos, intolerâncias ou respeitos humanos.

Há uma cultura humana e humanizadora, brotando das visões da fé cristã, que, em lugar de nos arredar do mundo e de nos afastar das cruzes reais dos nossos dias, e até da eficácia social de novas desordens e crises, nos situa, iguais e cidadãos com os demais, como responsáveis duma nova ordem internacional. Só o respeito humano, as divisões ou os preconceitos nos desconsolam de verdade. Por isso mesmo, Tu, Senhor Nosso, Te identificaste com os esfomeados, os doentes, os presos, os que têm sede, os viandantes/peregrinos, os nus... Esta é uma galeria de heterónimos, ou seja, são o rosto de Jesus crucificado, na visibilidade da sua truculência. É como um sacramento, sinal visível de Jesus Cristo cujo cartão de identidade reza assim no tocante a actividade: serviçal ou empregado de quem não tem lugar ou ser, aquele que, até no seu aspecto exterior, parece não coincidir com a imponência do Senhor do Universo. Só que, na palavra de Paulo, para mim a glória e honra é Jesus Cristo e Cristo crucificado.

Deveríamos todos exclamar diante destes irmãos do Mundo aquele dito de um canal da nossa televisão: Esta cara não me é estranha.

Pois não é estranha. É a cara do Senhor Bom Jesus da Cruz!

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo

Publicado em 2014-05-18

Notícias relacionadas

Pe. José Figueiredo do Vale Novais

09.08.1929 - 01.03.2026

Reabilitação da Igreja Matriz

Barcelos vê aprovada candidatura ao NORTE 2030 para reabilitação da Igreja Matriz e do Paço dos Duques

ACORDO DE COLABORAÇÃO

Paróquia de Santa Maria Maior com o Município e Barcelos

Procissão do Senhor dos Passos

2025

Nossa Senhora da Franqueira

3 a 10 de agosto de 2024

FESTA DAS CRUZES 2024

30 de abril a 5 de maio

desenvolvido por aznegocios.pt