
Pe. José Figueiredo do Vale Novais
09.08.1929 - 01.03.2026
Não foi ele que me gerou sacerdote. Sou um dos dois padres ainda vivos ordenados, em Julho de 1977, por D. Manuel F. Cabral, administrador apostólico da Arquidiocese de Braga, após falecimento de D. Francisco M. Silva. Era o tempo de espera vivido em Braga, que aguardava o seu «senhor» E o «Arcebispo e Senhor de Braga» foi pouco depois anunciado: D. Eurico Dias Nogueira. O título de «senhor» passou. Mas em D. Eurico ficou o conteúdo: um verdadeiro senhor, tanto quanto esta palavra exprime de dignidade no trato, de respeito pelos outros, de simplicidade para com todos, de cultor de bons e sábios relacionamnetos, de bondade espelhada num rosto feito de transparência e de verdade, de sensatez humilde e, sobretudo de inteligência perspicaz na firmeza dos princípios.
Um conversador agradável e bem humorado, que não banalizava os assuntos, e um destemido Pastor que enfrentava lobos em defesa do seu rebanho e da verdade face às manipulações mentirosas.
Era um homem que via longe e que, por tal, era especialmente respeitado ao nível dos bispos portugueses. Tomava posição e acautelava na leitura das consequências para o futuro. Com uma visão eclesial inigualável, ele resistia aos que não estavam à altura de compreender a sua insistência na abordagem da situação política vivida em Angola e Moçambique, onde fora Pastor. Da Cátedra de Braga, o eco da sua voz chegava longe e fazia estremecer as cadeiras do poder em Luanda ou Maputo.
Ele sabia-o melhor que ninguém e, por isso, pelo seu amor à Igreja universal, não se calava.
Era para ele muito clara a hierarquização de valores e atitudes: as necessidades de Roma ou da Conferência Episcopal sobrepunham-se às da sua Arquidiocese. E a sensibilidade pastoral levava-o mais longe: os portugueses da diáspora eram também seus filhos queridos.
Conciliador nato, ele sabia reconhecer a razão, que não impunha mas firmemente propunha. E quando a injustiça seguia em frente, incapaz de a travar, não desanimava em repará-la de outros modos. Mesmo sem o referir, permitia adivinhar a razão de uma atitude ou de um louvor que surpreendia.
Nas missões pastorais para que me convidou, ele confiava e estava presente. Nos conselhos, com um toque de fina repreensão, ele mostrava-se pai compreensivo para com os ímpetos próprios da juventude. E orgulhava-se dos seus padres, intra ou extra muros, da sua cultura e da sua dedicação à missão. Facilitava quando alguém se propunha continuar estudos.
Era um homem que sabia escutar e ponderar razões contrárias: «quis evitar esta carta», disse-me ele quando se viu incapaz de condescender com a minha continuidade desejada no serviço religioso militar, mas «precisamos de si para Vieira do Minho». Em Paris, empossado no dia anterior, em conversa amiga, dizia-me ele: «não se deixe agarrar pois precisamos de si em Braga». E foram sete anos com os portugueses. Em qualquer vinda à terra, fosse por escassos dias ou em período de férias, tinha sempre para mim aquela meia hora antes do almoço, continuada, depois, à mesa.
Foi deste homem bom, sábio e justo que a Igreja de Braga se despediu há dias. Deste homem de sorriso afável que os barcelenses conservarão na sua memória, bem solidificada pelas muitas vezes que aqui se deslocou, sempre com muita alegria, consideração e respeito pelos barcelenses.
Até breve, senhor Dom Eurico.
Nesse «lugar» da bondade de Deus, que proclamaste e testemunhaste, esperas por nós para o abraço eterno do amor da Trindade.
Obrigado, senhor Dom Eurico.
P. Abílio Cardoso

09.08.1929 - 01.03.2026

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