
Pe. José Figueiredo do Vale Novais
09.08.1929 - 01.03.2026
Texto completo da mensagem do Papa Francisco transmitida por ele à Cidade e ao Mundo, de modo inédito, na sexta-feira, 27 de março de 2020, sob as extraordinárias circunstâncias da pandemia de Covid-19, concedendo a indulgência plenária aos católicos que cumprirem os respectivos requisitos.
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Ao entardecer…» (Mc 4, 35): assim começa o Evangelho, que ouvimos.
Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos, todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados «vamos perecer» (cf. 4, 38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos.
Rever-nos
nesta narrativa, é fácil; difícil é entender o comportamento de Jesus. Enquanto
os discípulos naturalmente se sentem alarmados e desesperados, Ele está na
popa, na parte do barco que se afunda primeiro... E que faz? Não obstante a
tempestade, dorme tranquilamente, confiado no Pai (é a única vez no Evangelho
que vemos Jesus a dormir). Acordam-No; mas, depois de acalmar o vento e as
águas, Ele volta-Se para os discípulos em tom de censura: «Por que sois tão
medrosos? Ainda não tendes fé?» (4, 40).
Procuremos
compreender. Em que consiste esta falta de fé dos discípulos, que se contrapõe
à confiança de Jesus? Não é que deixaram de crer N’Ele, pois invocam-No; mas
vejamos como O invocam: «Mestre, não Te importas que pereçamos?» (4, 38) Não Te
importas: pensam que Jesus Se tenha desinteressado deles, não cuide deles.
Entre nós, nas nossas famílias, uma das coisas que mais dói é ouvirmos dizer:
«Não te importas de mim». É uma frase que fere e desencadeia turbulência no
coração. Terá abalado também Jesus, pois não há ninguém que se importe mais de
nós do que Ele. De facto, uma vez invocado, salva os seus discípulos
desalentados.
A tempestade
desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas
seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os
nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado
aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade. A
tempestade põe a descoberto todos os propósitos de «empacotar» e esquecer o que
alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com
hábitos aparentemente «salvadores», incapazes de fazer apelo às nossas raízes e
evocar a memória dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necessária
para enfrentar as adversidades.
Com a
tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso «eu»
sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais,
aquela abençoada pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como
irmãos.
«Por que
sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Nesta tarde, Senhor, a tua Palavra
atinge e toca-nos a todos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós,
avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa
avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa.
Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e
injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta
gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre
saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te:
«Acorda, Senhor!»
«Por que
sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Senhor, lanças-nos um apelo, um apelo
à fé. Esta não é tanto acreditar que Tu existes, como sobretudo vir a Ti e
fiar-se de Ti. Nesta Quaresma, ressoa o teu apelo urgente: «Convertei-vos…».
«Convertei-Vos a Mim de todo o vosso coração» (Jl 2, 12). Chamas-nos a
aproveitar este tempo de prova como um tempo de decisão. Não é o tempo do teu
juízo, mas do nosso juízo: o tempo de decidir o que conta e o que passa, de
separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota
da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros. E podemos ver tantos companheiros de
viagem exemplares, que, no medo, reagiram oferecendo a própria vida. É a força
operante do Espírito derramada e plasmada em entregas corajosas e generosas. É
a vida do Espírito, capaz de resgatar, valorizar e mostrar como as nossas vidas
são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que
não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas
do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os
acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiros e enfermeiras,
trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores,
transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos
– mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho.
Perante o sofrimento, onde se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos
povos, descobrimos e experimentamos a oração sacerdotal de Jesus: «Que todos
sejam um só» (Jo 17, 21). Quantas pessoas dia a dia exercitam a paciência e
infundem esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade!
Quantos pais, mães, avôs e avós, professores mostram às nossas crianças, com
pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise,
readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Quantas pessoas
rezam, se imolam e intercedem pelo bem de todos! A oração e o serviço
silencioso: são as nossas armas vencedoras.
«Por que
sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» O início da fé é reconhecer-se
necessitado de salvação. Não somos autossuficientes, sozinhos afundamos:
precisamos do Senhor como os antigos navegadores das estrelas. Convidemos Jesus
a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele
os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há
naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos
acontece, mesmo as coisas más. Ele serena as nossas tempestades, porque, com
Deus, a vida nunca morre.
O Senhor
interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar
a solidariedade e a esperança, capazes de dar solidez, apoio e significado a
estas horas em que tudo parece naufragar.
O Senhor desperta, para acordar e reanimar a nossa fé pascal. Temos uma âncora:
na sua cruz, fomos salvos. Temos um leme: na sua cruz, fomos resgatados. Temos
uma esperança: na sua cruz, fomos curados e abraçados, para que nada e ninguém
nos separe do seu amor redentor. No meio deste isolamento que nos faz padecer a
limitação de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas,
ouçamos mais uma vez o anúncio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso
lado. Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a
olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a
graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3),
que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança.
Abraçar a
sua cruz significa encontrar a coragem de abraçar todas as contrariedades da
hora atual, abandonando por um momento a nossa ânsia de omnipotência e
possessão, para dar espaço à criatividade que só o Espírito é capaz de
suscitar. Significa encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam
sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e
de solidariedade. Na sua cruz, fomos salvos para acolher a esperança e deixar
que seja ela a fortalecer e sustentar todas as medidas e estradas que nos
possam ajudar a salvaguardar-nos e a salvaguardar. Abraçar o Senhor, para
abraçar a esperança. Aqui está a força da fé, que liberta do medo e dá
esperança.
«Por que
sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?» Queridos irmãos e irmãs, deste lugar
que atesta a fé rochosa de Pedro, gostaria nesta tarde de vos confiar a todos
ao Senhor, pela intercessão de Nossa Senhora, saúde do seu povo, estrela do mar
em tempestade. Desta colunata que abraça Roma e o mundo desça sobre vós, como
um abraço consolador, a bênção de Deus. Senhor, abençoa o mundo, dá saúde aos
corpos e conforto aos corações! Pedes-nos para não ter medo; a nossa fé, porém,
é fraca e sentimo-nos temerosos. Mas Tu, Senhor, não nos deixes à mercê da
tempestade. Continua a repetir-nos: «Não tenhais medo!» (Mt 14, 27). E nós,
juntamente com Pedro, «confiamos-Te todas as nossas preocupações, porque Tu
tens cuidado de nós» (cf. 1 Ped 5, 7).
Vaticano, 27 de março de 2020

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