
Pe. João António Pinheiro Teixeira
A felicidade aumenta a produtividade
Pensei escrever sobre o
Sínodo que decorre na diocese de Liverpool e que agora atingiu a fase das recomendações.
Alguns jornais sintetizam a novidade desta assembleia diocesana com a opção de
colocar o laicado no coração das suas necessárias reformas.
O cenário traçado pelo arcebispo Malcolm McMahon é muito
claro. Nos últimos 20 anos tiverem de encerrar 47 igrejas, a prática dominical
caiu abruptamente e, a este ritmo, dentro de 25 anos terá apenas 50 padres no
activo. Conclui, por isso, que o actual modelo de paróquias é insustentável.
Estávamos no ano de 1994 e já o então cardeal Martini perguntava, em Milão, num
cenário muito próximo ao de Liverpool, “o que fazer em tempo de «vacas
magras»”? Agrupar paróquias e, sobretudo, delegar responsabilidades aos leigos
foi o caminho mais lógico. É claro que, do ponto de vista dos leigos, esta
opção nem sempre colheu simpatia. Ninguém gosta de se sentir protagonista
suplente.
Consultei então as 19 recomendações de Liverpool e
confesso que fiquei surpreendido. A proposta mais votada, por todas as idades e
áreas de empenho pastoral, foi a urgência de fazer das paróquias lugares
acolhedores e inclusivos, bem como formar para o Ministério do Acolhimento.
Algumas indicações eram muito concretas: remover barreiras físicas,
linguísticas, emocionais e culturais que impeçam os cristãos de viver
integralmente a sua vocação baptismal. Sem receios foi ainda proposto, de modo
bastante expressivo, que se desenvolvesse um ministério arquidiocesano para a
comunidade LGBTQ.
Nas últimas semanas muito se tem escrito na sequência da
resposta da Congregação para a Doutrina da Fé à possibilidade de se abençoar
uniões de pessoas do mesmo sexo. As opiniões parecem extremar-se. De um lado os
que consideram que a Igreja não deve recusar a bênção a quem a procura com
recta intenção. Uma posição defendida, por exemplo, pelos cardeais Vincent Nichols,
Marx, por vários bispos, por mais de 200 teólogos alemães e tantos outros
padres e leigos. Por outro lado, os que defendem a impossibilidade de qualquer
espécie de bênção.
Entre uns e outros está também o Papa Francisco. Por um
lado, confirma a nota da Congregação, em total sintonia com o que foi defendido
pelo Sínodo da Família em 2015. E, por outro, reforça a urgência de um caminho
de acolhimento, discernimento e de integração de pessoas homossexuais.
Manifestou-o tanto na Amoris
Laetitia (n. 250) como no apoio à criação de legislação para a união
civil de casais do mesmo sexo.
A minha surpresa prendeu-se com o facto de ter passado ao
lado de parte dos meios de comunicação social a principal revolução do Sínodo
de Liverpool. A aposta nos leigos não é a novidade proposta por este Sínodo. Em
bom rigor, este é um discurso que circula desde há décadas nos bastidores da
Igreja e nos círculos da reflexão teológica, mas que resiste, por muitas razões
– que não teológicas – em tornar-se realidade. Bastaria ler o Motu Ministeria Quaedam de Paulo VI (1972),
a literatura de grandes teólogos como Yves Congar (Touts
responsables dans l’Eglise?), Bernard Sesboüé (N’ayes
pas peur!) ou ainda acompanhar o trabalho – polémico – do Caminho sinodal da Igreja na Alemanha.
Fundamental é reconhecer, como linha de princípio, que a
Igreja, que todos nós, perde sempre que se torna intolerante e incapaz de
dialogar. Liverpool fala de quem se sente excluído por ser homossexual,
divorciado recasado, por preferir celebrar segundo o Rito Extraordinário ou
porque simplesmente é mulher. Mais do que uma questão dogmática parece estar em
cima da mesa uma atitude pastoral, humana e evangélica. Fazer com que ninguém
se sinta excluído, no respeito pela Verdade. Creio ser esta a linha também do
Papa Francisco.
Esta é uma responsabilidade de todos nós, que decorre de
um processo de discernimento comunitário, no profundo respeito pelo outro e
pela mensagem confiada por Jesus Cristo à Igreja.
P. Tiago Freitas, In DM 06.04.2021

A felicidade aumenta a produtividade

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