
Pe. João António Pinheiro Teixeira
A felicidade aumenta a produtividade
A recente intensificação do terrorismo
islâmico na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, cujo último
atentado culminou com a devastação da vila de Palma, onde viviam cerca de 50
mil pessoas, inspira-me uma nova reflexão em torno de um problema
político-religioso que está a causar uma grande tragédia humana num dos países
mais pobres de África: 2 mil mortos e 700 mil desalojados. Acontece, porém, que
este povo, agora sacrificado, vivia em paz nas terras herdadas dos seus
avoengos desde há longínquas eras, e com a invasão das milícias armadas perdeu,
ou está em risco de perder, todos os seus bens patrimoniais. Para os
sobreviventes, e para os que ainda se encontram escondidos no mato, resta-lhes
o socorro de familiares ou amigos que possam ter em Pemba, e a ajuda
humanitária de organizações estatais e não-governamentais, enquanto o exército
moçambicano procura reforçar a sua posição na província de Cabo Delgado, cuja
fronteira terrestre confina com a Tanzânia, país onde os terroristas têm os
seus campos de recrutamento e de treino.
O grupo terrorista que flagela Cabo
Delgado é um braço armado de uma organização da Al-Shabaab (A Juventude), cujo
principal centro de operações se situa na Somália. É deste país muçulmano que
estende ramificações jihadistas para o Quénia, (Etiópia?), Tanzânia e agora
Moçambique. Se a esta progressão territorial juntarmos o terrorismo da Boko
Haram (A educação ocidental é um pecado), que flagela países como o Senegal,
República Centro-Africana, Burkina Faso, Mali, Nigéria, Camarões, Chade, e
outros, percebemos que a jihad (ou guerra santa) está ativa em praticamente
toda a região subsaariana. Segundo a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
(Fundação AIS), só na Nigéria, a Boko Haram já matou entre 50.000 e 70.000
cristãos e provocou mais de 2 milhões de deslocados.
A principal motivação destas
organizações terroristas islâmicas é de índole religiosa, porquanto, tal como o
Daesh do Iraque, pretendem instituir um califado unitário que congregue os
muçulmanos debaixo da principal lei da tradição árabe, a sharia.
Precisando, porém, o califado de território para a implantação de um estado
religioso, da mais pura ortodoxia salafita (sunita), impõe-se a conversão ao
Islão de todos os crentes das outras religiões, mormente dos cristãos, por quem
demonstram um ódio irracional e assassino. E sempre que os cristãos não aceitam
trocar o Evangelho pelo Alcorão, os terroristas
matam a sangue-frio estes não-conversos; incendeiam-lhes as casas; raptam-lhes
os filhos, sobretudo as raparigas adolescentes; sequestram pessoas para a
extorsão de dinheiro; e vandalizam igrejas, escolas, seminários, segundo uma
perseguição que não tem paralelo na história da humanidade, por não estar
radicada em nenhuma causa justa, ou justificável.
Matar e abusar de inocentes não é uma
causa justa! Impor uma religião pela força das armas não é uma causa justa!
Pensar na implantação em África de um califado, que faria de todos os
indivíduos, independentemente de serem muçulmanos ou não, súbditos de um chefe
religioso, político e militar, não uma é uma causa justa! Tal projeto,
teocrático e imperial, em pleno século XXI, não passa da expressão de uma
utopia arcaica, extemporânea e irrealizável, quer à luz do processo histórico,
quer à luz do progresso civilizacional da humanidade.
Com efeito, a história desmente esta
utopia dos guerrilheiros islâmicos, porque, em 1.400 anos de Islão, os árabes
nunca conseguiram atingir o desiderato político-religioso do califado unitário.
Aliás, passados pouco mais de 300 anos, o Islão já estava dividido nos
califados de Bagdad, Cairo e Córdoba. Entretanto os califados acabaram, e o
mundo árabe está hoje dividido em sultanatos, emirados, reinos, repúblicas e
teocracias, como é o caso do Irão.
Se este terrorismo religioso não for
erradicado, mormente por ação da Arábia Saudita (sunita) e do Irão (xiita), o
Islão verá a sua identidade teológica seriamente afetada, porque o profeta
Maomé disse: «Combatei pela causa de Deus aqueles que vos combatem, porém não
pratiqueis a agressão, porque Deus não estima os agressores (2ª Surata, 190).»
Acontece que o povo africano não é agressor, mas agredido. Ora, se Deus não
estima o agressor, e se para Deus a religião é o Islão (3ª Surata, 19), então
os jihadistas incorrem num ato de desobediência ao seu Deus! Alguém entende
esta guerra santa, como eles dizem?
Fernando Pinheiro, In DM 07.04.2021

A felicidade aumenta a produtividade

Carmen Garcia

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