
Pe. João António Pinheiro Teixeira
A felicidade aumenta a produtividade
Sócrates suicidou-se com uma porção de
cicuta, porque o sofrimento moral causado pela condenação dos Trinta Tiranos se
lhe tornara insuportável, e essa dor impossibilitava-o de continuar a viver uma
vida digna. Todavia, Montaigne, na linha de Cícero, disse que «filosofar é
aprender a morrer», lição que implica uma práxis tolerante com a dor física e
moral, e, consequentemente, com a morte natural. Esta compreensão das
vicissitudes da condição humana, ajudada pela sua vocação ético-humanista,
levou-o a não negar a existência de Deus; todavia, Voltaire, numa das suas
quedas metafísicas, afirmou o contrário dizendo: «Deus não existe»; pedindo,
muito embora, para que não contassem nada ao seu criado, com medo de que ele o
matasse durante a noite.
Conscientemente ou não, Voltaire
espalhou as primeiras sombras ateístas em pleno Século das Luzes (séc. XVIII),
semeando contradições culturais insanáveis, ao conceder à razão o poder de
negar Deus como «coisa» apreensível pelo conhecimento humano. Nietzsche (séc.
XIX), depois, aproveitou este deicídio filosófico para deixar para trás o mundo
transcendente e avançar mais um passo rumo ao niilismo finissecular, quando
confirmou a morte de Deus: «Gott ist tot.» Com Deus morto, havia
que fazer nascer o super-homem, fautor de novas ordens morais
fundadas nas emergentes «religiões» do individualismo, liberalismo e
transumanismo. Conforme afirma em Assim Falava Zaratustra, garante
que foi o diabo que lhe transmitiu essa certeza: «Recentemente ouvi-lhe dizer
estas palavras: “Deus morreu; a sua piedade pelos homens matou-o.”»
Este polémico pensador alemão – de quem
o nazismo terá tirado abusivamente o gérmen da sua ideologia
nacionalista e xenófoba, por causa de uma aceitação acrítica do anúncio do
super-homem e de uma interpretação extrapolada do capítulo Sobre a
Guerra e os Guerreiros, onde diz, entre coisas: «Não vos aconselho o
trabalho, mas a luta. Não vos aconselho a paz, mas a vitória. Que o vosso
trabalho seja luta, que a vossa paz seja vitória!» – teve por mestre Schopenhauer,
um filósofo também alemão que havia bebido a sua metafísica ateia no veio
cético não transcendente do iluminismo europeu.
Deste hic et nunc a-religioso
nasceu o existencialismo do pós-guerra, propugnado por Sartre, Camus e
Heidegger, entre outros, que estabeleceram o diktat de que «o
homem é um ser que caminha para a morte». Sem mais. Não admira, pois, que a
ciência e a técnica contemporâneas comecem a prometer ao homem a imortalidade
terrena, e não a sobrenatural, indo de encontro ao pedido de Woody Allen, que
disse que desejaria viver a vida eterna em sua casa. Com esta afirmação, ainda
que irónica, o ator e cineasta negou a transcendência enquanto dimensão do ser
e introduziu nos mídia uma narrativa egotista de pendor
depressivo, por denunciar um medo atávico da morte natural. Apesar de a morte
não ser uma experiência fácil, será mais difícil se a entendermos como algo de
estranho à condição humana. Em termos biológicos, o indivíduo não é eterno,
é-o, porém, em termos espirituais, conforme o pensamento dominante da filosofia
clássica e dos doutores da Igreja.
A propósito do atual fomento da
indústria da morte, refira-se, a título de exemplo, que uma clínica da Suíça
chamada Dignitas, está a ganhar rios de dinheiro com a eutanásia e
o suicídio assistido. Que estranho paradoxo, transformar o ato de matar num ato
digno! Pelo contrário, a dignidade está em aceitar a natureza humana como
princípio e fim de si mesma, e em aceitar a vida não somente como uma
experiência psicofísica, mas também como uma obrigação moral que deve ser
cumprida dentro de rigorosos critérios éticos e sociais. Porém, a cultura de
massa mergulha cada vez mais o homem contemporâneo num caldo hedonista, inócuo
e paradisíaco, fazendo da morte uma obsessão do intelecto, da angústia metafísica
uma sombra do espírito, e da depressão uma perigosa metamorfose degenerescente.
A Filosofia deve, pois, ensinar-nos a
viver e a morrer; mas a viver para a morte natural, e a morrer para a vida
transcendente, porque o homem não existe para desaparecer no nada. A menos que
não aceitemos o pensamento de Lucrécio (séc. I a.C.): «A morte é menos temível
do que o nada, se é que alguma coisa menos que nada é possível.»

A felicidade aumenta a produtividade

Carmen Garcia

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