
Pe. João António Pinheiro Teixeira
A felicidade aumenta a produtividade
As leituras da Eucaristia do domingo passado tiveram
ecos diversificados sobre o seu sentido e oportunidade, justamente lidas no
contexto vivo e atual das perspetivas preocupantes da situação das mulheres no
Afeganistão. Sem entrar em polémicas, é preciso ver com atenção alguns aspetos
da leitura de São Paulo, procurando fazer justiça ao sentido do texto.
Antes de mais, é preciso olhar o
texto na sua inteireza, para se dar conta do seu sentido no próprio contexto.
Por isso, aqui fica a primeira parte do texto que foi lido, que diz respeito ao
tema em questão, tirado da Carta aos Efésios:
“Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres
submetam-se aos maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher,
como Cristo é a cabeça da Igreja, seu Corpo, do qual é o Salvador. Ora, como a
Igreja se submete a Cristo, assim também as mulheres se devem submeter em tudo
aos maridos. Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e Se
entregou por ela… Assim devem os maridos amar as suas mulheres, como os seus
corpos. Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo. Ninguém, de facto, odiou
jamais o seu corpo, antes o alimenta e lhe presta cuidados, como Cristo à
Igreja; porque nós somos membros do seu Corpo. Por isso, o homem deixará pai e
mãe, para se unir à sua mulher, e serão dois numa só carne. É grande este
mistério, digo- o em relação a Cristo e à Igreja.”
Tenha-se em conta que Paulo se
situa no contexto legal do direito familiar romano, que concedia melhores
direitos às mulheres do que a maioria das culturas da época, mas que não
deixava de pôr em relevo o papel do marido como “pater familias – pai de
família”, como titular da família no seu conjunto e garantia dos direitos e
deveres de cada um e o seu funcionamento relacional e social. Este quadro
permaneceu nas gerações sucessivas, concretamente no direito português, até há
pouco tempo. Paulo não põe em causa o direito romano, mas dá-lhe uma
interpretação nova, à luz de Cristo, “Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo”,
que Ele ama até dar por ela a vida.
O que causa “escândalo”, nos dias
de hoje, é o conceito de “submissão” proposto à mulher. Não se trata, porém, de
algo exclusivamente aplicada às mulheres, mas a todos. A leitura começa
precisamente por dizer: “Sede submissos uns aos outros no temor de
Cristo.” Em Paulo, esta submissão não significa menor
importância ou subserviência, mas o dar prioridade aos outros, como forma de
atenção e cuidado; não centrar a vida e o pensar em si próprio, mas no amor que
deve regular todo o relacionamento entre pessoas.
Paulo aplica este quadro
jurídico-social à instituição familiar, como princípio da mútua atenção e
cuidado, afirmando duas coisas. Em primeiro lugar, dê-se o devido cuidado e
prioridade (submeta-se) à relação familiar que tem como representante social o
marido, na sua relação com a esposa. Este princípio básico, que se aplica à
mulher, mas igualmente aos outros membros da família, é completado com aquilo
que o “pai de família” representa: o amor, antes de mais aplicado ao amor entre
os esposos: “Maridos,
amai as vossas esposas, como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela”.
Esta proposta, necessariamente
complementar à que é dirigida à mulher, deve ser vista com duas perspetivas que
aclaram todo o texto. Primeiramente, o “amor” e a “submissão” não se aplicam
apenas a um dos esposos, mas são a lei básica do relacionamento humano, segundo
o Evangelho: “Saberão
todos que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros.” Em
segundo lugar, a medida do amor é reportada a Cristo, que “amou
a Igreja e Se entregou por ela”.
É à luz de Cristo que se entende
a dimensão do amor, até à total entrega e ao dom da vida por aqueles que se
ama. E é também essa a norma para a correta interpretação de qualquer
autoridade, representatividade ou primazia. Não se trata de mandar submeter ou
depreciar ninguém, mas de cuidar e dar prioridade no dom e no serviço do dia a
dia. Na perspetiva de Jesus, bem presente em Paulo, a liderança é serviço e dom
de si mesmo, pois Ele veio “não para ser servido, mas para servir e dar a
vida”. O verdadeiro exemplo e medida de submissão e de serviço,
como dom e amor, é o próprio Jesus, para os esposos e para qualquer outro
membro da família e da Igreja.
Dito isto, pode-se dizer: então
porque não se muda o texto, para que não se deem interpretações incorretas? A
pergunta tem a sua razão de ser, mas é claro para a Igreja e para quem quiser
interpretar textos e tradições com origem noutras culturas e noutros tempos: os
textos não se mudam, mas educam-se os leitores a entendê-los e a atualizá-los.
Por exemplo, não se mudam os versos épicos de Camões, porque não correspondem à
mentalidade atual e até, em alguns casos, podem causar escândalo. Isso seria
cair na arbitrariedade e na ditadura das modas e na imposição da cultura única.
É por isso que se estuda Camões nas escolas, para que todos tenham acesso à
beleza dos seus versos, dentro dos condicionalismos da sua época.
A Palavra de Deus permanece viva
e atual e é importante que seja escutada sempre com a sua sonoridade original.
O próprio Jesus deu o exemplo de leitura ao relê-la e reinterpretá-la à luz da
nova realidade que era Ele próprio e a situação daqueles a quem se dirigia.
Conservar a Palavra de Deus e a Tradição é continuar a fazê-las soar em
assembleias vivas, como as pautas de música dos grandes autores, constantemente
atuais, porque continuam a alegrar corações, a criar sonhos e a gerar estéticas
novas, cada vez que se executam.
In ECCLESIA Ago 24, 2021 - 22:22

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