
Pe. João António Pinheiro Teixeira
A felicidade aumenta a produtividade
No espírito da Igreja Sinodal que
nos convida a caminharmos juntos existe espaço para a partilha aberta com
parrésia. Talvez por esse motivo se tenha avançado com maior fulgor as
preocupações legítimas dos LGBTQIA+, como noticiado no Sete
Margens, e mais tarde as questões abordadas
na Conferência Episcopal Alemã como o celibato opcional, diaconato feminino ou
escolha dos bispos. Como pai, aquilo que diz respeito ao sacramento da ordem
penso que será de reflectir profundamente, mas no que diz respeito às
orientações sexuais, estes acontecimentos deixaram-me preocupado.
O Artigo 26, n.3 da Declaração Universal dos Direitos
Humanos diz que
«aos pais pertence a prioridade do
direito de escolher o género de educação a dar aos filhos.» E essa educação não se restringe às ciências naturais ou
humanísticas, mas inclui as de natureza espiritual. Como pai cristão estou
ciente de que o nosso corpo é alma numa unidade indivisa sem confusão ou
separação. Nesse sentido, educar o corpo espiritualizado ou o espírito
corporalizado é uma parte essencial da educação que quero dar aos meus filhos.
E daí a pergunta: que educação pode dar um catequista que se identifica como
parte da comunidade LGBTQIA+ do ponto de vista da espiritualidade associada à
sexualidade? O que dirá um padre que se identifica com este grupo a dois
noivos, homem e mulher, que estão prestes a realizar o seu matrimónio? Quer
isto dizer que deveríamos criar grupos distintos para que ninguém se sinta
melindrado? A minha preocupação como pai é se nos arriscamos a semear divisão
pela pressa com que se quer tratar destes assuntos, trazendo-os a público por
aproveitamento da deixa deixada pela sinodalidade.
A sexualidade envolve a pessoa no seu todo e não deve
ser confundida com genitalidade. Por outro lado, enquanto nas escolas públicas
fala-se mais de genitalidade usando a palavra sexualidade, no âmbito da
formação espiritual, a sexualidade envolve uma visão particular do amor como
dom-de-si-mesmo e o corpo como templo do Espírito Santo. Aliás, como
preconizado pela Teologia do Corpo de S. João Paulo II, o corpo é uma via para
o conhecimento e aprofundamento da nossa relação com Deus. E essa suplanta
qualquer orientação sexual. A visão do amor que Deus nos revelou expressa-se no
amor-fileo da
amizade e no amor-ágape de quem
está disposto a dar a sua vida pelo outro. E deste ponto de vista mais
espiritual, qualquer pessoa pode formar os mais novos, mas será isso o que
acontece no concreto?
No infantário, as brincadeiras dos namoricos é uma coisa normal. Porém, aquilo que para os adultos pode ser uma brincadeira, para uma criança corresponde aos primeiros momentos em que sente as emoções belas e típicas do amor. Emoções que no início manifestam-se com pureza, mas com a descoberta do prazer que o próprio corpo sente, inadvertidamente, surgirão as questões mais profundas relacionadas com o equilíbrio delicado entre o que sente o corpo e os relacionamentos que alimentam esses sentimentos.
Recentemente li que num artigo da La Civiltà Cattolica que S. Tomás de Aquino nos seus estudos expressa como a intemperança pode levar uma pessoa a comportamentos infantis, desequilibrados e até mesmo violentos. Para corrigir esta tendência S. Tomás propõe a castidade, não por ser uma repressão da nossa sexualidade, como infantilmente muitas pessoas interpretam, mas antes a capacidade de viver relacionamentos no respeito recíproco, no dom-de-si-mesmo, e sem qualquer sentimento de posse.
É fácil incorrermos em juízos de valor desconhecendo a
génese das escolhas de cada um. Existem pessoas com orientação sexual cujo
coração palpita mais quando partilham do mesmo sexo, mas estão cientes que o
amor com que fomos criados e ao qual somos chamados a nos identificarmos é o
amor de Deus. Mas o caminho a percorrer para desabrochar o amor verdadeiro
passa pelo amor aos outros nos relacionamentos que estabelecemos. Amor que nos
envolve intimamente através do corpo. Por isso, se no mundo natural a máxima
unidade ocorre na máxima diversidade, existe uma beleza particularmente divina
no amor vivido entre uma mulher e um homem. Pelo que dificilmente entendemos
ainda esta mudança cultural originada pela definição da orientação sexual, de
modo a ser incluída na formação espiritual dos nossos filhos. E daí as minhas
preocupações como pai.
Importa-me muito pouco se um catequista gosta de pessoas
do mesmo sexo quando ensina que o amor maior que orienta qualquer amor é o amor
a Deus. Mas quando esse amor passa pelas transformações que ocorrem no nosso
corpo e influem sobre a nossa experiência de Deus, o que dirá este catequista?
Falará da sua experiência pessoal às crianças? Estando este tema ainda em
aberto, só o estudo e a oração podem ajudar-nos a compreender o que Deus nos
quer dizer com esta onda cultural. Seguramente que não será o que eu penso, ou
o que pensa aquele que se identifica com a comunidade LGBTQIA+. Só o Espírito
Santo pode iluminar-nos. “Divagar” se vai ao longe, mas sem que a pressa
comprometa o caminho.
Miguel Panão, In 7 Margens 17 Fev 2022
Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da
Universidade de Coimbra; para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos. Contacto: miguel@miguelpanao.com
Foto © Sharon Mccutcheon | Unsplash

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